Inteligência Competitiva Empresas: Ford fecha fábrica de caminhões e do Fiesta no ABC

A direção mundial da Ford anunciou ontem o fechamento da fábrica de São Bernardo do Campo (SP), onde são produzidos caminhões e um único modelo de carro, o Fiesta, o 42º no ranking dos mais vendidos no país.

Mas decidiu manter a unidade de Camaçari (BA), que funciona a todo vapor, em três turnos, e desfruta de incentivos garantidos no regime automotivo do Nordeste.

Há três meses, numa das últimas decisões tomadas pelo governo de Michel Temer, esse programa de benefícios fiscais, foi prorrogado por cinco anos.

O primeiro e mais doloroso impacto da decisão de encerrar as atividades da fábrica paulista é a demissão de 2,8 mil trabalhadores diretos e mais cerca de 1,5 mil de empresas terceirizadas que trabalham naquela unidade.

Os operários foram avisados à tarde, numa assembleia comandada por José Quixabeira de Anchieta, coordenador do comitê sindical da Ford, tradicionalmente conhecido no meio sindical como um dos mais mobilizados do ABC.

O sindicato orientou os empregados a abandonar o trabalho e retornar para a fábrica na terça-feira, quando, em nova assembleia, vão discutir o que fazer.

Os discursos dos sindicalistas, ontem, não trouxeram a disposição de luta que sempre se viu na história dessa fábrica, inaugurada em 1967 .

Refletiram o sentimento de derrota da tentativa de negociar com a empresa. E avisaram que não há perspectiva de emprego em outra fábrica da montadora. “Não pensem que tem espaço em Camaçari, não tem transferência”, disse Anchieta.

Segundo cálculos do Departamento Intersindical de Estática e estudos Sócio-econômicos (Dieese), o fechamento dessa fábrica, que será concluído até o fim do ano, terá um impacto na cadeia do setor, principalmente na indústria de autopeças, capaz de provocar o corte de outros 24 mil empregos. A direção da Ford na América do Sul não se pronunciou.

Nos Estados Unidos, a matriz da empresa informou que a medida é “fundamental para que as operações na região voltem à uma lucratividade sustentável”. Com a reformulação, a Ford fará uma baixa contábil de US$ 460 milhões.

Segundo a companhia, a decisão foi tomada após meses de busca de alternativas, que foram da ideia de parcerias à possibilidade de venda. A informação sobre provável venda da operação sul-americana circulou na imprensa mundial no segundo semestre do ano passado.

A direção da companhia no Brasil desmentiu a informação, mas admitiu que os resultados financeiros na região estavam abaixo do esperado e que havia a necessidade de “um redesenho do modelo de negócios”.

A situação da Ford em São Paulo não se resolve com negociações, seja com o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, seja com o governo do Estado de São Paulo, com o qual a General Motors, vem dialogando há semanas.

Falta à Ford o que todas as suas concorrentes fizeram nos últimos quatro anos: uma completa renovação de produtos e investimentos na modernização do parque industrial. O último programa de investimentos da montadora terminou em 2015.

Faz tempo, portanto, que a operação sul-americana está na berlinda. Em janeiro, surgiu a perspectiva de sinergias na Argentina, graças à aliança mundial com a Volkswagen.

Em fábricas que são vizinhas, na região metropolitana de Buenos Aires, ambas produzem picapes com características semelhantes. Já em relação aos automóveis, o reforço que a parceria com a Volkswagen pode trazer em outros países torna-se mais distante no mercado brasileiro, onde a montadora americana disputa com pouca oferta e variedade de produtos.

A Ford é hoje a quarta colocada no mercado brasileiro graças ao bom desempenho do modelo Ka, um compacto que em 2018 foi o terceiro modelo mais vendido no país.

No mercado de caminhões, a Ford foi a quarta colocada, no ano passado. Mas sua participação, de 12,18%, ficou muito abaixo das duas primeiras colocadas, Mercedes-Benz e Volkswagen, com 29% e 24,5%, respectivamente, segundo dados de emplacamentos divulgados pela federação dos concessionários, a Fenabrave.

A Ford disfruta de boa posição na venda de caminhões leves e médios. Mas tem uma participação muito pequena no segmento de semi-pesados e não atua no de pesados, um mercado que, graças ao agronegócio, tem puxado as vendas de veículos de carga no país.

Sem investimentos no segmento, a direção mundial optou, então, por encerrar de vez a produção de caminhões no Brasil. Não é de hoje que os operários percebiam que a situação não era favorável.

Enquanto nas outras fábricas de caminhões o ritmo acelerou, com mais contratações e horas extras nos fins de semana, na Ford, as equipes continuaram trabalhando no esquema que os ajudou a não perder o emprego durante a crise: eles se revezavam trabalhando alguns dias na linha de carros e outros dias na de caminhões, num único turno.

Se ainda restava alguma dúvida em relação à decisão de fechar a emblemática fábrica de São Bernado, onde se concentram os prejuízos, no início deste ano, o último balanço da companhia ajudou a reforçar a decisão.

No quarto trimestre de 2018, a Ford registrou prejuízo de US$ 116 milhões em todo o mundo, revertendo, assim, o lucro de US$ 2,5 bilhões no mesmo período do ano anterior.

Em todo o ano, a companhia registrou lucro líquido de US$ 3,7 bilhões, uma queda de 52% ante o ganho de US$ 7 ,7 bilhões em 2017 . No ano passado a operação sulamericana registrou um prejuízo de US$ 67 8 milhões.

Em outubro, a direção mundial anunciou que preparava um grande plano de enxugamento de mão de obra em todo o mundo. Em janeiro, divulgou um plano mundial de corte de custos de US$ 14 bilhões, que previa a demissão de milhares de trabalhadores na Europa.

Como todos os demais fabricante de veículos, a Ford é pressionada pela necessidade de redesenhar o modelo de negócios mundialmente para atender à mudança no uso do automóvel e novos hábitos de transporte e investir em novas tecnologias para acompanhar a evolução dos veículos em termos de eletrificação, conectividade e direção autônoma.

As reestruturações envolvem todos os fabricantes. A General Motors já abandonou a Europa e desde janeiro tem mantido negociações com os sindicatos para reduzir benefícios trabalhistas e com o governo de São Paulo para buscar incentivos fiscais.

Uma das ponderações que executivos fazem, nos bastidores, é que as fábricas de São Paulo sofrem com a concorrência das marcas que produzem no Nordeste a custos mais baixos. Isso envolve, principalmente a fábrica da Fiat Chrysler, em Pernambuco, e a da Ford, na Bahia.

Os representantes da Ford trabalharam intensamente para que o Congresso aprovasse a prorrogação, por cinco anos, do programa de incentivos, que inicialmente terminaria no próximo ano.

Em tempos de enxugamento de custos, a nível mundial, a Ford optou por preservar a fábrica instalada onde paga menos impostos.

Fonte: Marli Olmos, Valor Econômico, 20/2/2019

Funcionários insatisfeitos e destruição da empresa

Funcionários satisfeitos tendem a influenciar positivamente os resultados da empresa, funcionários insatisfeitos fazem o contrário. É fato. Mas um estudo obtido com exclusividade pelo Valor mostra que o impacto de destruição dos infelizes é muito maior que o poder de criação de valor dos contentes.

Enquanto a satisfação dos empregados tem que ser uma preocupação constante em uma boa gestão, mais importante ainda é evitar um ambiente de trabalho “tóxico”. Isso porque a destruição de valor das empresas mais mal avaliadas pelos funcionários é mais significativa do que o ganho das mais bem avaliadas.

As conclusões são de um estudo feito por Alexandre Di Miceli, fundador da consultoria Direzione e professor da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (Fecap), a partir da análise das avaliações feitas por funcionários e ex-funcionários das maiores companhias do país publicadas na plataforma Love Mondays, especializada em recursos humanos

A amostra foi composta por pouco mais de mil empresas que fizeram parte do Valor 1000 nos últimos cinco anos, ou seja, as maiores companhias do país em termos de receita líquida.

As empresas foram divididas em quatro grupos, conforme a nota média que receberam dentro de uma escala de um a cinco. A nota engloba quatro dimensões do bem estar dos empregados: cultura, remuneração e benefícios, oportunidades de carreira e qualidade de vida.

A partir daí, foram avaliados alguns indicadores financeiros, como retorno sobre patrimônio líquido (ROE, em inglês), retorno sobre ativos (ROA) e margem de lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda, na sigla em inglês). O levantamento mostra que quanto maior a satisfação média reportada pelos empregados, melhor estatisticamente é o desempenho das empresas em todos os indicadores financeiros avaliados.

O retorno sobre o patrimônio líquido, por exemplo, é praticamente o dobro no caso das empresas mais bem avaliadas, em comparação com as que mais mal avaliadas. No primeiro grupo, o retorno é de 8,5%, enquanto no segundo é de 4,4%.

Como resultado, as companhias com as piores notas de satisfação deixaram de auferir lucro médio de R$ 47 ,2 milhões por ano por não fazer parte do grupo das mais bem avaliadas, segundo os cálculos de Di Miceli, feitos a partir do patrimônio líquido médio do grupo com a pior avaliação.

Em relação ao retorno sobre o ativo, o indicador é de 5,4% no pior grupo em satisfação de funcionários e de 7 % no melhor grupo. Já a margem Ebitda é de 15% nas empresas mais bem avaliadas – 3,3 pontos percentuais inferior à margem apresentada pelas empresas mais mal avaliadas.

O peso de uma boa avaliação e de uma má avaliação, no entanto, não é simétrico. As companhias caracterizadas pela baixa satisfação dos empregados têm mais chances de ter desempenho ruim do que aquelas que recebem as maiores avaliações têm de ter um bom desempenho. “O impacto negativo nas piores é maior que o impacto positivo nas melhores”, afirma Di Miceli. “As companhias destroem valor quando não têm um bom ambiente de trabalho.”

A pesquisa mostra ainda que aspectos relacionados à motivação intrínseca de funcionários, como cultura e oportunidades de carreira, têm uma relação mais forte com o desempenho financeiro das empresas do que fatores tradicionalmente enfatizados pelas áreas de recursos humanos, como remuneração e benefícios.

“Os resultados do estudo apoiam uma visão mais moderna sobre motivação de funcionários, baseada na importância de uma cultura saudável e do oferecimento de oportunidades de carreira e menos na questão financeira”, diz Di Miceli.

As avaliações também se traduzem em um melhor desempenho das companhias no ranking Valor 1000. Enquanto as empresas com maior satisfação geral apresentaram um crescimento médio de cerca de duas posições na lista em relação há dois anos antes, as empresas pertencentes ao grupo com pior avaliação caíram em média nove posições, considerando o mesmo período.

Entre os setores, os que concentram as companhias mais bem avaliadas são: papel e celulose, petróleo e gás, plásticos e borracha, construção e engenharia e energia elétrica. As empresas mais mal avaliadas estão concentradas em áreas de atividade como serviços ambientais, têxtil, couro e vestuário, serviços especializados, empreendimentos imobiliários e educação.

No total, foram consideradas nas pesquisas informações sobre 1031 empresas listadas no Valor 1000 no período de 2013 a 2018. Dessas companhias, foram colhidas 114 mil avaliações publicadas de forma anônima por funcionários e ex-funcionários também no período de 2013 a 2018. A maior parte dos avaliadores (7 5% da amostra) trabalha atualmente nas companhias.

Fonte: Rita Azevedo, Valor Econômico, 20/2/2019

Leia: “Abertura Comercial para o Desenvolvimento Econômico”

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Buscando estimular o debate qualificado sobre um tema que vem ganhando espaço na mídia nas últimas semanas, a SAE/PR recentemente lançou o seu terceiro Relatório de Conjuntura intitulado “Abertura Comercial para o Desenvolvimento Econômico”.

O documento explora os caminhos, vantagens e desafios que o processo de maior liberalização da economia brasileira enseja e foca em proposições para as políticas comercial, industrial e de mercado de trabalho no Brasil.

O estudo tem sido destaque na imprensa nacional e internacional, merecendo análises positivas nos jornais americanos The New York Times e The Wall Street Journal.

Produzido ao longo dos últimos seis meses pela equipe da SAE/PR, o relatório baseia-se não apenas no que há de mais recente na literatura mundial sobre economia internacional e políticas ativas de mercado de trabalho, mas principalmente em evidências empíricas sobre esses assuntos.

Ao comparar o Brasil com países com níveis de renda e população semelhantes, percebe-se que ainda há muito o que avançar para que o País efetivamente se integre às cadeias globais de valor, gerando ganhos de produtividade e aumento do poder de compra dos brasileiros.

Para acessar o relatório completo, clique aqui.

Fonte: Secretaria Especial de Assuntos Estratégicos da Presidência da República.