Profissionais dão guinada na carreira para trabalhar com tecnologia

Antes da internet, era impossível pensar na importância de um analista de mídias sociais ou de um redator especializado na experiência do usuário durante a navegação de um site. Hoje, essas e outras frentes digitais vêm absorvendo uma mão de obra que não é graduada especificamente na área, mas que se adaptou para ocupar postos de trabalho criados pela internet.

A guinada na carreira – ou “pivotagem”, como é chamada no jargão corporativo – pode até ser considerada uma estratégia de sobrevivência, já que, para especialistas, quem não se adaptar vai acabar sendo preterido no mercado de trabalho.

Por isso, vai ser cada vez mais comum encontrar gente como Egnalda Côrtes, que largou a carreira em vendas para assessorar criadores de conteúdo negros. Ou como Daniel Laurentino, que mal pegou o diploma em Design e foi programar aplicativos. Ou também Camila Gaidarji, que durante o antigo emprego percebeu um nicho de mercado se abrindo e foi estudar por conta própria sobre UX (user experience) para participar da novidade. Tem também Jéssica Souza, que descobriu a área de tecnologia durante a faculdade de Engenharia Elétrica e Eletrônica e hoje atua como cientista de dados.

Para entender a dinâmica da criação de carreiras no mundo digital, é necessário voltar à década de 1980. Foi durante a “década perdida” que aumentou a demanda por profissionais da área de computação, explica Tania Casado, professora titular da Universidade de São Paulo (USP) e diretora do Escritório de Carreiras (ECar). A principal tarefa deles, conta, era automatizar funções para auxiliar empresas a reduzir o quadro de funcionários.

As tecnologias foram ficando sofisticadas e fizeram muitas carreiras desaparecerem nos últimos 30 anos. Por outro lado, inúmeras frentes de trabalho em diferentes áreas foram criadas graças às inovações. 

“Não é só o profissional que desenvolve o aplicativo que tem emprego, o que faz uso também tem”, fala Tania. A pandemia pode ter acelerado a necessidade de estar nas redes sociais e oferecer serviços online, um movimento que parece não ter volta.

Segundo o ranking dos dez profissionais mais procurados pelas empresas, feito pelo LinkedIn entre junho e julho, nove estão diretamente ligados à área de tecnologia. No começo do ano, a rede social profissional também havia divulgado uma lista com as 15 profissões emergentes no Brasil, das quais nove estavam diretamente relacionadas à tecnologia da informação (TI)

Uma das principais áreas beneficiadas por essa tendência é a de desenvolvimento de novas tecnologias. Além da criação de softwares, a expansão do mercado exige profissionais que lidem com cibersegurança, infraestrutura e análise de dados.

Entre 2007 e 2019, a quantidade de empregos em TI no País saltou de 241 mil para 472 mil. Os dados são de um estudo feito pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) com a Associação das Empresas Brasileiras de Tecnologia da Informação do Paraná (Assespro-PR). 

Adriano Krzyuy, presidente do Assespro-PR, afirma que a TI segue crescendo porque é um vetor de desenvolvimento para os demais setores. “Você aplica a TI na medicina com a telemedicina, no varejo com o delivery, na diretrização na indústria com a Indústria 4.0”, cita.

Nessa transformação digital, o conceito de interdisciplinaridade fica mais forte. A Ciência de Dados, exemplifica Krzyuy, demanda um conhecimento em estatística profundo. “Engenheiros, por exemplo, têm um domínio fortíssimo em matemática, física e estatística. Eles teriam uma pré-disposição para migrar”.

Geração redes sociais

No ano passado, os brasileiros gastaram uma média de 3h40 por dia no smartphone, segundo uma pesquisa da consultoria App Annie. O mesmo estudo revela que o tempo gasto em aplicativos de compras cresceu 30% entre 2018 e 2019 no País. Com tanta gente online, criar uma carreira na internet ou usá-la para vender mais pode ser uma solução acertada.

Tania, da USP, ressalta que o consumidor não quer mais perder tempo no trânsito para ter acesso a algum serviço. Por isso, oferecer soluções online pode abrir novas oportunidades de negócio. Para construir uma boa rede de trabalho e se apropriar do espaço oportunizado pela mídias sociais, ela diz que o profissional precisa ter agilidade, ser capaz de executar várias tarefas simultaneamente e se articular bem. “Na internet, você está mais aberto a novas conexões que exigem respostas rápidas.” 

Além disso, a habilidade de interpretar as emoções e as mensagens na internet fica ainda mais importante, segundo o diretor de marketing Vinícius Taddone, pois, por mais que os chatbots tenham vindo para otimizar os serviços, ninguém gosta de ser atendido por um robô. 

“É preciso ter a habilidade de fazer a leitura dos comentários nas redes sociais. Quando uma pessoa comenta com um emoji de palminha, será que ela está batendo palmas porque gostou ou está sendo sarcástica?” E essa interpretação os robôs ainda não fazem. 

Fontes: Érika Motoda e Mariana Hallal, O Estado de S.Paulo, 30 de outubro de 2020.

O Google está construindo a sua própria cidade — e com moradias acessíveis

Escritório do Google em Irvine, na Califórnia
Google: empresa detém 92,05% do mercado de mecanismos de buscas (Mike Blake/Reuters)

Parece que dominar os mecanismos de pesquisa da internet não é o suficiente para a gigante americana Google. A empresa agora está de olho em outra coisa: construir uma cidade. Isso mesmo. A ideia é criar uma cidade-campus perto do escritório da companhia no Vale do Silício com direito a parques, lojas, escritórios e até mesmo uma piscina pública e uma área para que os moradores possam praticar esportes.

Neste mês o Google fez uma proposta para o Middlefield Park, uma área de 40 acre perto ao escritório principal da big tech. Segundo o site oficial do local, a gigante também quer adicionar cerca de 1.850 unidades residenciais e 20% delas serão para habitações acessíveis, quando famílias têm renda média ou baixa. 

A iniciativa do Google pode parecer um pouco ousada, visto que a volta aos escritórios ainda é uma coisa incerta na maior parte do mundo por conta da pandemia do novo coronavírus. Recentemente, a companhia afirmou que seus colaboradores não precisam voltar para os espaços físicos até julho de 2021.

Outras gigantes também querem expandir, apesar da covid-19. No mês passado a Amazon anunciou que planeja expandir o seu escritório ao redor dos Estados Unidos, com um investimento de 1,4 bilhão e com a adição de 3.500 novos empregos.

O Google tem 92,05% do mercado de mecanismos de buscas, na frente do Bing, que tem 2,83%, do Yahoo, com 1,65% e do Baidu, com 0,98% — uma liderança que não deve ser ameaçada tão cedo.

Os planos da gigante ainda estão bem no começo. Mas já pensou adicionar “Google” como seu endereço? O Google Maps, no mínimo, vai ficar um pouco confuso.

Fonte: EXAME, Tamires Vitorio. Publicado em: 12/09/2020 às 09h22. Alterado em: 12/09/2020 às 12h42.

Instagram e Facebook Messenger passam a compartilhar mensagens

Alguns usuários de Android e iPhone (iOS) já podem atualizar o Instagram para ter a integração no chat com o Facebook Messenger
Alguns usuários de Android e iPhone (iOS) já podem atualizar
o Instagram para ter a integração no chat com o Facebook Messenger

Facebook está trabalhando em uma interação entre o Instagram o Messenger, aplicativo de mensagem da empresa. Segundo o site americano The Verge, algumas contas começaram a perceber uma notificação que apresentava a integração dos serviços, e a atualização em que o ícone de mensagens diretas na rede social de fotos agora é o mesmo do Facebook Messenger.

Sem anúncio oficial da empresa, ainda não é possível saber se o recurso é um teste ou um lançamento global mas, segundo editores do The Verge, a novidade foi observada em diversos países tanto em dispositivos Android como iOS.

A tela de notificação, que convida o usuário a atualizar o app para integrar os recursos, afirma que agora há “uma nova maneira de mandar mensagem no Instagram”, mostrando os icones dos dois serviços. Na descrição, a tela informa que o novo chat permite a reação de mensagens com emojis, novas cores e a possibilidade de falar com amigos que estão adicionados no Facebook direto pelo Instagram, função que pode ainda não estar disponível. 

A maior interação entre os dois apps já era algo esperado pelos usuários da plataforma. Em 2019, Mark Zuckerberg afirmou que planejava unir alguns de seus serviços, principalmente chats, para fazer melhor uso da criptografia de ponta-a-ponta. A união entre os apps também tem como objetivo competir diretamente com serviços da Apple, como o iMessage. 

Fonte: Redação Link – O Estado de S. Paulo, 17/08/2020 | 12h49

Que crise? Para as empresas do setor tecnológico, a pandemia só aumentou a demanda por serviços digitais

A ideia surgiu ainda em 2003, quando dois engenheiros de software da Amazon tiveram uma sacada genial. Eles propuseram que o gigante do varejo online usasse sua vasta infraestrutura tecnológica para hospedar os serviços digitais de outras companhias. Fazia sentido, uma vez que a capacidade de processamento dos data centers da Amazon ficava ociosa durante boa parte do tempo. Passados mais de 15 anos, a divisão de computação em nuvem da empresa, conhecida como Amazon Web Services (AWS), tornou-se um negócio de 35 bilhões de dólares e uma operação que se mostrou vital durante a pandemia do novo coronavírus — não só para a Amazon mas também para empresas de diversos segmentos.

Se o leitor participou de uma reunião por video­conferência, assistiu a uma série da Netflix, usou um programa de edição de textos online, fez um pedido a um restaurante por meio de um aplicativo ou realizou algum pagamento usando uma plataforma digital, é bem provável que tenha utilizado uma das redes públicas da Amazon ou de um dos outros gigantes provedores de computação em nuvem, como Microsoft, Google, IBM, Dell, Oracle, HPE e Cisco.

Nenhuma empresa deve sair ilesa da crise. No entanto, as companhias de tecnologia tendem a ser beneficiadas pela digitalização impulsionada (para não dizer forçada) pela pandemia. Em todo o mundo, milhares de companhias das mais variadas áreas tiveram de migrar, às pressas, suas operações para o ambiente digital, o que provocou uma corrida aos serviços das provedoras de nuvem. No primeiro trimestre deste ano, as três companhias líderes do setor (Amazon, Microsoft e Google) tiveram juntas um incremento de 6,1 bilhões de dólares no faturamento de suas unidades de computação em nuvem, um aumento de 32% em relação ao ano passado.

Ao todo, elas faturaram 25,2 bilhões de dólares nos primeiros três meses do ano. Só na Microsoft, a demanda pela plataforma de computação em nuvem Azure saltou 59%. No Google, o faturamento da área subiu 52%. “A covid-19 mudou a percepção que muitas empresas tinham sobre a computação em nuvem”, afirma Thomas Kurian, presidente global da unidade de nuvem do Google (leia entrevista abaixo). Por esse motivo, o setor de computação em nuvem tende a ser um dos mais resilientes na crise.

Enquanto os gastos com tecnologia da informação devem cair 8% no mundo em 2020, o mercado de nuvem deverá crescer 19%, de acordo com a consultoria Gart­ner. Olhando para a frente, a digitalização dos negócios é um caminho sem volta. Nos próximos quatro anos, a expectativa é que o mercado de computação em nuvem dobre de tamanho, chegando a 550 bilhões de dólares. “Quando sairmos da pandemia, as empresas terão de investir em tecnologia. O digital é o caminho para superar a crise”, diz John-David Lovelock, vice-presidente de pesquisa da Gartner.

Mais do que nunca, os serviços online foram fundamentais para que as empresas pudessem manter suas operações. “O mundo só não parou por causa­ dos serviços de nuvem. Eles também são os heróis desta pandemia”, diz Pietro Delai, gerente de pesquisa da consultoria IDC para a América Latina. A expectativa de maior demanda reflete-se no preço das ações das companhias de tecnologia.

Depois de uma queda brusca nos meses de fevereiro e março, o valor dos papéis de empresas como Microsoft e Amazon já haviam se recuperado em junho e as companhias voltaram a bater recordes de valor de mercado. Juntas, as duas valem mais de 2,8 trilhões de dólares, três vezes o valor de todas as 330 companhias brasileiras listadas na B3 (760 bilhões de dólares). “A gente está apenas no início de uma jornada, dado que hoje só 5% do investimento global de TI é gasto em nuvem. Há uma oportunidade grande para crescer”, diz Cleber Morais, presidente da AWS no Brasil.

Um dos símbolos da transformação digital na pandemia é a plataforma de videoconferência Zoom, cujas ações valorizaram 270% em 2020. A empresa projeta que o faturamento quase triplicará neste ano fiscal, chegando a 1,8 bilhão de dólares. O Zoom já vale 72,4 bilhões de dólares, mais do que a montadora Ford ou a companhia aérea American Airlines. E o número de participantes diários em reuniões passou de 10 milhões em dezembro para mais de 300 milhões em abril.

No fim de fevereiro, a empresa já tinha conquistado mais novos usuá­rios do que em todo o ano de 2019. Em um cenário de home office prolongado, o objetivo do Zoom e dos concorrentes Microsoft Teams, Google Meet e outros não é só surfar a onda na pandemia, mas aproveitar a mudança de comportamento de longo prazo acelerada por ela.

Numa empresa como a IBM, outra importante fornecedora de computação em nuvem, a crise fez com que as equipes tivessem de correr para auxiliar os clientes a migrar para a nuvem. O primeiro desafio foi configurar todos os sistemas para que os funcionários pudessem trabalhar remotamente. Depois, o objetivo foi ajudar os clientes a criar aplicações já adaptadas ao novo cenário digital. “Em uma grande varejista, vimos um aumento do comércio eletrônico de 40%, 45%”, afirma Ana Paula Assis, presidente da IBM para a América Latina. “Clientes com resistência à tecnologia não ­tiveram alternativa senão buscar essa solução.”

Foi com um serviço de nuvem, fornecido pela AWS, que a empresa de meios de pagamentos Cielo foi capaz de expandir um novo serviço criado no ano passado, chamado Super Link. A ferramenta permite aos lojistas enviar um link a um cliente (pelo WhatsApp, por exemplo) para que ele faça o pagamento remotamente. Antes da pandemia, 3.000 estabelecimentos estavam cadastrados para utilizar o recurso.

Em poucos meses, esse número saltou para 800.000 em todo o país e a quantidade de transações subiu 650%. “A vantagem da nuvem é o tempo para desenvolver uma solução desse tipo. E nos dá uma flexibilidade de ligar e desligar a infraestrutura de forma muito simples”, diz Danilo Zimmermann, vice-presidente de projetos e tecnologia da Cielo.

A digitalização favoreceu também as companhias brasileiras do setor de tecnologia. Uma delas é a empresa de serviços de internet Locaweb. A empresa de 22 anos abriu o capital em fevereiro. E o coronavírus não atrapalhou os planos. Os meses da pandemia foram os melhores da história. Em abril, o número de novas lojas online que usam o serviço saltou 252%.

“Somos um ecossistema em que as PMEs encontram tudo o que estão precisando agora para se digitalizar”, diz Fernando Cirne, presidente da Locaweb. Uma das estrelas do portfólio é o app para restaurantes Delivery Direto, comprado em 2018, cujo o número de clientes quadruplicou. Com a demanda em alta, a empresa fez 152 contratações — e há mais de 70 vagas em aberto. A ação, que começou sendo vendida na casa dos 20 reais, acumula alta de mais de 100%.

Se a crise assusta alguns e empolga outros, há quem encare a pandemia de forma mais natural. “Nós crescemos em todas as crises. Em 2008 e 2009, dobramos de tamanho sem rea­lizar nenhuma aquisição”, afirma Marco Stefanini, fundador da Stefanini, uma das maiores empresas de tecnologia do Brasil, com um faturamento estimado em 3,3 bilhões de reais em 2019. Para este ano, a previsão é que haja um crescimento de 15% a 20%. O grande trunfo da companhia foi um contrato de cinco anos firmado com um cliente americano, de nome não revelado, no valor de 100 milhões de dólares.

A empresa apostou em um plano de aceleração dos negócios e alcançou em três meses algumas das metas previstas para os próximos três anos. A companhia atende clientes dos mais diversos segmentos. A queda no volume de negócios da indústria automotiva e das redes de academias foi compensada pela alta no setor financeiro e por um forte crescimento do varejo impulsionado pelo comércio eletrônico.

Com o capital aberto na B3 desde 2013, a companhia de software para o varejo Linx viu o valor de suas ações cair e se recuperar no primeiro trimestre. A alta recente se deu pelo impulso ao comércio eletrônico. Um dos pontos-chave para a virada foi a aquisição de duas empresas para auxiliar na digitalização do varejo. Em janeiro, a empresa adquiriu a fintech PinPag por 135 milhões de reais.­ No mês seguinte, pagou 17,6 milhões pela Neemo, uma plataforma de delivery de restaurantes.

“O timing não poderia ter sido melhor”, diz Alberto Menache, presidente da companhia. Segundo ele, as vendas em maio pela plataforma cresceram 350% em relação a janeiro, adicionando 540 restaurantes ao serviço. A plataforma de e-commerce, que atende desde varejistas tradicionais, como Walmart e Lojas Pernambucanas, até redes de padarias, lojas de conveniência e drogarias, teve um crescimento de 154% entre janeiro e maio.

Não serão só as empresas de capital aberto que sairão vencedoras da crise. Companhias bem posicionadas para atuar no mercado digital estão registrando crescimento significativo. Uma delas é a VTEX, que possui uma plataforma que unifica os canais de venda do varejo. Fundada em 1999, a empresa tem cerca de 3.000 clientes em 41 países, com escritórios em 16 cidades do mundo. No final de 2019, recebeu um aporte de 580 milhões de reais liderado pelo fundo japonês SoftBank.

Em maio e junho de 2020, as vendas online pela plataforma subiram mais de 100% em relação ao ano passado no Brasil. “A demanda aumentou nos mais diversos níveis. Desde aquela loja que abriu no digital durante a pandemia até a outra que achava que estava preparada e não deu conta do número de pedidos”, diz Rafael Forte, presidente da VTEX no Brasil. A equipe de vendas, composta de 30 pessoas em março, dobrou de tamanho.

Um cliente da VTEX que teve de repensar sua estratégia digital foi a varejista de moda C&A. Com o fechamento das mais de 280 lojas físicas, a empresa precisou adotar uma solução para que seus vendedores con­ti­­­­nuas­­­­­sem trabalhando. “Desenvolvemos em um dia uma solução de social selling”, diz Forte, da VTEX. Por meio do WhatsApp, o fun­cionário conversa com o cliente, apresenta os produtos, monta um carrinho de compras vir­tual e envia um link para fechar a venda. No total, 500 funcionários da rede trabalham com o WhatsApp.

Empresas que atuam no segmento de educação online foram acionadas como nunca durante a pandemia. A startup mineira Samba Tech, fundada por Gustavo Caetano em 2008, é uma delas. Especializada em comunicação corporativa com a utilização de vídeos online, a companhia recebeu dezenas de pedidos de grupos de educação em busca de ajuda para montar um modelo seguro de ensino remoto.

“Nos primeiros 100 dias de home office, a gente teve mais de 1,7 milhão de alunos novos na plataforma”, diz Caetano. Além dos clientes, a empresa ofereceu seus serviços à rede pública de ensino de Minas Gerais. No total, de janeiro a abril, 19 milhões de pessoas acessaram vídeos dentro da plataforma. De fevereiro a abril, o consumo de vídeos na plataforma via dispositivos móveis subiu 308%; e por computadores, 506%.

Para sustentar o aumento do volume, a empresa contratou mais de 40 pessoas. A Samba Tech também lançou um produto de videoconferência, que estava sendo testado desde 2019, em parceria com a Cisco, para atender a grupos de educação e empresas. Na pandemia, foram conquistados 40 novos clientes. A companhia atualmente tem mais de 400 clientes, entre eles os grupos Cogna, Ser Educacional e Damásio. “A demanda por ensino à distância era crescente, mas agora aumenta mais rapidamente — e a gente continua apostando nisso”, afirma Caetano.

Em todos os setores, a pandemia tem mostrado que a necessidade de adaptar-se ao digital não é mais uma questão de escolha, e sim de sobrevivência. O uso de ferramentas digitais, que já era uma realidade antes da covid-19, só deve acelerar. Um levantamento recente rea­lizado pelo banco suíço UBS estima que na próxima década o volume de dados que trafegam pela internet crescerá dez vezes, chegando a 456 zettabytes, um volume suficiente para ocupar 840 iPhones de 64 gigabytes para cada habitante do planeta.

E, até lá, o número de pessoas com acesso à internet alcançará 6,6 bilhões — 2 bilhões além do nível atual. “A gente tem a oportunidade de olhar as características e as condições dessa nova realidade de outra perspectiva. O digital vai ser o novo normal para a grande maioria das empresas”, afirma Fernando Lemos, diretor de tecnologia da Microsoft no Brasil. É uma virada que veio para ficar.

Fontes: Exame, CAROLINA INGIZZA, CAROLINA RIVEIRA, FILIPE SERRANO E RODRIGO LOUREIROPublicado em: 02/07/2020.

Só a digitalização pode salvar a economia da covid-19, por Frederico Trajano*

3 setores que devem promover o próximo boom do e-commerce ...
(Flavio Santana/Biofoto)

Não há escolha impossível a ser feita numa sociedade digital: pessoas e PIB são preservados. A pandemia de covid-19 deixou o mundo de joelhos. Milhões de contaminados. Quase 400 mil mortos. E uma economia que cambaleia enquanto a solução definitiva – a vacina – não aparece. No Brasil, já há estimativas de queda do PIB de 8% em 2020. Milhares de empresas e empregos desaparecerão. Das cinzas, surgirá um país ainda mais empobrecido e desigual.

Mas não precisa ser assim. E não estou falando em escolher entre a saúde das pessoas e a da economia. Esse é um dilema inexistente quando a melhor solução disponível é adotada: tecnologia, a “fórmula mágica” para resolver uma equação que, para muitos, é insolúvel. O Brasil precisa se transformar – rapidamente – num país digital. É isso que vai salvar a economia do colapso e, ao mesmo tempo, preservar vidas.

Temos os pilares para criar uma sociedade que conecte governo, cidadãos, empresas e consumidores. Há cerca de 230 milhões de smartphones em uso no Brasil e cerca de 80% das casas têm internet. O brasileiro é um dos recordistas mundiais em navegação nas redes sociais. Milhões com internet nas mãos: essa é a base da digitalização. E ela está pronta.

O desafio é fazer com que o brasileiro transacione digitalmente – vendendo e comprando, oferecendo e consumindo. É um caminho trilhado por vários países. A Estônia é hoje a referência, com sua excepcional plataforma de e-gov. Apenas três serviços públicos exigem a presença física: casamento, divórcio e transferência de imóveis. Sim. A Estônia é um país pequeno. Tem 1,3 milhão de habitantes, o que facilita as coisas. Mas o que dizer da China, com seus mais de 1,4 bilhão de habitantes? Graças ao investimento brutal em digitalização, a gigantesca economia chinesa já começa a mostrar sinais de recuperação.

No Brasil, precisaremos de senso de urgência para garantir uma recuperação econômica em V e evitar uma dolorosa volta em U. O Brasil S.A. é analógico – por desconhecimento ou medo de mudar. A transformação, porém, é vital.

Restaurantes não precisam desaparecer porque suas mesas estão vazias. Pedidos digitais e serviços de entrega estão salvando vários deles. Quem disse que todas as aulas precisam ser presenciais? Temos, agora, 50 milhões de crianças e adolescentes aprendendo em suas casas. Com a telemedicina, médicos continuam a atender muitos de seus pacientes. 

Existem 5 milhões de empresas varejistas no Brasil – a maioria delas, muito pequenas. Dessas, 50 mil usam a internet para fazer negócios. É quase nada. Mas a pandemia está empurrando os analógicos para a transformação digital. A boa notícia é que empreendedores, sem recursos ou conhecimento para investir em tecnologia, não estão sozinhos. O País já possui ecossistemas de negócios, nos quais eles são muito bem-vindos.

Estou à frente de uma companhia cujo propósito é contribuir para digitalizar o Brasil por meio da inclusão de empreendedores no nosso ecossistema digital. Ao fechar as portas e sufocar milhares de pequenas empresas, a pandemia tornou essa bandeira ainda mais importante. Em março, quando a crise mostrou sua dimensão real, lançamos um programa que permite que microempreendedores coloquem seus estoques nos nossos canais digitais e vendam para nossos milhões de clientes. Em apenas 60 dias, 20 mil deles voltaram a respirar. 

A tecnologia que transforma e fortalece empresas, pode fazer o mesmo com o País. Não estamos fadados a escolher entre duas catástrofes: a sanitária e a econômica. Ao colocar o Brasil no século 21 com a digitalização estaremos livres de fazer uma opção desnecessária.

Fonte: *Frederico Trajano, CEO da holding Magazine Luiza. Publicado em O Estado de S.Paulo, 10 de junho de 2020.

Totvs ajuda a converter hotel em hospital

A Totvs acaba de lançar uma funcionalidade extra no seu software de gestão para hotéis, visando atender as empresas da área que estão acomodando infectados pelo coronavírus pelo Brasil.

Com a nova funcionalidade, gratuita pelos próximos quatro meses, os hotéis passam a ter no cadastro do hóspede uma integração com o prontuário eletrônico, que inclui dados do paciente, prescrição de medicamentos, receituário de medicamentos, enfermagem, solicitações de exames e outras orientações.

A Totvs detém essa tecnologia nas suas soluções voltadas para a área médica. A ideia é que os hotéis fiquem preparados para utilizar sua infraestrutura como local de quarentena e tratamento de casos mais brandos da doença.

“Um dos propósitos dessa integração é possibilitarmos que os hotéis atuem como uma extensão dos leitos de hospitais, ajudando evitar a superlotação no sistema de saúde e permitindo que os hospitais e clínicas mantenham em suas instalações próprias apenas aqueles pacientes com quadros mais graves”, afirma Rogério Pires, diretor do segmento de Saúde da Totvs.

Uma movimentação nesse sentido já está acontecendo pelo país, numa situação ganha-ganha, uma vez que a ocupação dos hotéis no momento é mínima: a rede de Accor, por exemplo, está com 270 dos seus 330 hotéis no país fechados.

Nesta semana, a prefeitura de Florianópolis começou a credenciar hotéis que queiram disponibilizar quartos para pacientes com Covid-19. 

No Rio de Janeiro, um projeto de lei que autoriza o governo a requisitar hotéis, motéis, pousadas e demais estabelecimentos privados de hospedagem para o cumprimento de quarentenas, isolamentos e procedimentos médicos não invasivos. 

Na Bahia, um hotel desativado em Lauro de Freitas, na região metropolitana de Salvador, vai receber pacientes de longa permanência e alguns que ocupam leitos da rede de saúde estadual.

Fonte: Maurício Renner, Baguete, 15/05/2020 – 12:45.

Quem é quem no mercado Salesforce

O ecossistema de empresas parceiras da Salesforce no Brasil ainda está muito concentrado na mão de grandes players internacionais, mas com um número importante de empresas brasileiras disputando o mercado.

É o cenário que aparece de um estudo sobre os parceiros no país da gigante americana de CRM feito pela multinacional de consultoria ISG e divulgado pela TGT Consult.

O levantamento tem um valor extra porque a Salesforce, no Brasil desde 2013, abre pouca ou nenhuma informação sobre sua política de canal ou a sua presença de vendas indiretas no país.

A análise da ISG funciona na moda do Quadrante Mágico do concorrente Gartner, apontando o posicionamento dos players em um mercado em quatro quadrantes diferentes, de acordo com um eixo que mede “atratividade do portfólio” e outro avalia “força como competidor”.

No caso desta pesquisa, a consultoria dividiu o mercado ainda em quatro grupos: Implementation & Integration Services; Implementation Services for Core Clouds; Implementation Services for Marketing Cloud e Managed Application Services Source.

Uma forma de ver os dados é que as empresas Accenture, Cognizant e Deloitte estão no topo do ranking, ocupando o posto de líderes nas quatro categorias, entre os 27 provedores listados.

Outras consultorias internacionais de grande porte como Infosys e PwC aparecem bem, apontadas como líderes em três dos quatro segmentos. A Appirio, uma empresa da Wipro e a Bluewolf, da IBM, também despontam bem, assim como a TCS.

Provedores como esses, no entanto, disputam a parte de cima da pirâmide, lutando por grandes clientes ou rollouts de multinacionais da companhia no país. Não são o tipo de empresas que vão levar o CRM da Salesforce para as massas, em um mercado que no Brasil ainda é bastante fragmentado.

“Apesar de o Salesforce ser um sistema bastante adotado por grandes empresas, ele passou a ganhar uma importante fatia do mercado intermediário, já que oferece soluções atraentes para pequenas e médias empresas pela facilidade da implementação”, afirma Maurício Ohtani,  autor da pesquisa e sócio da TGT Consult.

Quem deve levar o Salesforce para o meio da pirâmide, assim como já acontece com o ecossistema de outras gigantes de software como a SAP, são parceiros brasileiros de um porte menor, e não empresas como a Accenture.

É aí que o relatório ISG Provider Lens Salesforce Ecosystem Partners se torna interessante, ao apontar oito companhias com esse perfil.

Nesse grupo, quem se saiu melhor foi a mineira CBCloud, apontada como uma “market challenger” em três dos quatro levantamentos. A paulista Wings IT também se saiu bem, figurando em três levantamentos como “contender”.

Outras duas paulistas, a EveryMind e a Nescara, foram apontadas em dois rankings e Harpia Cloud, Kolekto e Werise em um cada uma.

A Salesforce parece estar num momento aquecido no Brasil. Apesar da multinacional não abrir informação nenhuma, é possível ver muita movimentação nos arredores da marca.

Em um levantamento recente do Linkedin sobre profissões em alta no país, uma das posições listadas foi a de desenvolvedores Salesforce, no décimo terceiro lugar.

O relatório foi feito com base em dados de usuários do LinkedIn com perfil público que tenham ocupado uma ou mais posições em tempo integral no Brasil nos últimos cinco anos. 

A partir de uma análise dessas informações, identifica-se o grupo de profissões que mais se movimentaram no período e aplica-se, a cada uma delas, uma fórmula que inclui o número de contratações e a taxa de crescimento anual entre 2015 e 2019 para mapear as que tiveram maior expansão.

A ISG diz que a Salesforce tem 70 parceiros no país, um aumento pequeno frente a 2015, quando o então vice-presidente da gigante americana de CRM para América Latina e Caribe, Maurício Prado, disse ao Baguete que o número era de 50.

Mas o cenário pode estar mudando rápido. Nos últimos tempos, uma série de companhias divulgaram movimentações nos últimos tempos para montar práticas de Salesforce. 

A consultoria alemã GFT anunciou em janeiro que contrataria 50 profissionais para uma nova divisão Salesforce, liderada por Marco Antônio Silva e Silva, ex-Plusoft.

A baiana Solutis contratou Ellen Cipulo, ex-gerente para a área de Salesforce da EY, para liderar a sua área de CRM, com a meta de formar um time de 25 pessoas.

Quem sabe o próximo levantamento da ISG sobre o tema não mostra um quadro muito diferente.

Fonte: Maurício Renner, Baguete, 08/05/2020, 13:20.

Tecnologia predomina nas contratações em um mês de quarentena

Guilherme Sant’Anna, da XP Inc., que pretende chegar ao final do ano com um incremento de 25% no quadro de colaboradores. Foto: Werther Santana/Estadão

Após um mês de isolamento devido à pandemia do novo coronavírus, muitas empresas mantêm vagas congeladas ou mesmo demitem, mas há setores que demonstram reação. De acordo com pesquisa cedida com exclusividade para o Estadão pela Revelo, startup de recursos humanos que oferece plataforma digital de recrutamento e seleção com 14 mil empresas e cerca de 1 milhão de candidatos, os segmentos de business intelligence e tecnologia da informação registraram um aumento de 25% nas contratações em um mês de quarentena decretado no Estado de São Paulo.

Ainda que empresas de tecnologia estejam demitindo, outras tantas corporações se viram obrigadas a migrar para o mundo digital. Entre as funções mais procuradas segundo a Revelo estão analista de dados, analista de performance, engenharia de dados, ciência de dados, administração de sistema e segurança da informação. Os setores de e-commerce e software também permanecem em alta.

A plataforma identificou ainda um crescimento de 20% a 30% nas faixas salariais ofertadas, em decorrência do perfil das carreiras e funções com maior demanda. “O foco principal está em vagas para profissionais de nível mais sênior, que as empresas sabem que serão necessários daqui para a frente”, diz Lachlan de Crespigny, cofundador da Revelo.

Outra percepção é sobre a transição de regime CLT para pessoa jurídica (PJ). Além das incertezas sobre o futuro, que têm levado muitas empresas a ter cautela na hora de assumir vínculo empregatício, os próprios profissionais começaram a ver vantagens no formato.

“Agora 30% dos candidatos sinalizam a disponibilidade para contratação como PJ, não só pela flexibilidade que isso oferece, mas pelo impacto líquido, que é menor”, analisa o executivo. Antes da quarentena, somente 7% marcavam esta opção.

Por outro lado, muitos que procuravam trocar de empresa preferiram interromper o processo e ficar onde estavam para não correr riscos. “Há áreas crescendo e preenchendo a demanda profissional, mas outras totalmente paradas, o que gera bastante insegurança neste momento”, explica Crespigny.

De acordo com o site de vagas e recrutamento Glassdoor, o mercado está começando a reagir, mesmo que de forma sutil. Após duas quedas seguidas na oferta de vagas nas últimas semanas de março (respectivamente -5% e -5,7%), abril iniciou com crescimento de 0,3%. Como facilitador, o site lançou um centro de busca específico para a pandemia, onde destaca os setores que estão contratando ativamente.

A lista inclui empresas como Itaú, Wildlife Studios, Amazon, Rede DOr São Luiz, Hospital Israelita Albert Einstein, Mercado Livre e Zé Delivery. No recorte por carreiras, o Glassdoor aponta demanda mais elevada por cargos ligados à área da saúde, como médicos, enfermeiros, farmacêuticos e técnicos de laboratório, setores de logística e comércio, atendimento ao cliente e telemarketing, além de uma maior procura por entregadores e motoboys.

Entre os negócios que estão a todo vapor em meio à crise, a XP Inc., que reúne empresas de investimento, pretende chegar ao final do ano com um incremento de 25% no quadro de colaboradores, que conta atualmente com 2,5 mil pessoas.

“São quase 200 vagas abertas agora, incluindo área administrativa, mercado financeiro e tecnologia”, afirma Guilherme Sant’Anna, sócio responsável por gente e gestão. O processo de seleção é 100% digital e os novos contratados passam por uma imersão remota com lives e videoconferências em que a empresa, os benefícios, as ferramentas e a equipe são apresentados.

“Aprendemos a conviver com uma flexibilidade que nenhuma empresa do mundo tinha antes em termos de ambiente de trabalho e conexões à distância”, reflete o empresário. “Com isso, acredito que tanto empresas quanto funcionários entenderam que é possível trabalhar à distância com uma frequência maior do que se imaginava, de forma organizada e, por vezes, com um rendimento maior do que o esperado.”

Profissionais de direito e educação também são requisitados

Outras áreas que se mantêm ativas, segundo a empresa de recrutamento Robert Half, são finanças e contabilidade, banking e seguros. A advocacia também se mostra em movimentação, com oferta de posições no contencioso cível, área responsável por cuidar de litígios comerciais, em insolvência – advogados que auxiliam empresas a renegociar dívidas – e no setor trabalhista, consultoria a que muitos negócios estão recorrendo para entender novas regras e ter mais segurança durante a crise.

Apesar de não haver aumento significativo na contratação de professores, a educação também passou a movimentar o mercado. “A produção de conteúdos EAD envolve tecnologia e outros profissionais que estão por trás da infraestrutura dos cursos”, diz Maria Eduarda Silveira, division manager da Robert Half. “Mesmo universidades mais tradicionais, como Insper ou Fundação Getúlio Vargas, estão com aulas virtuais e precisam garantir segurança da informação, por exemplo”.

O setor de serviços como um todo demonstra certa estabilidade. Segundo uma pesquisa realizada com 259 empresas pela holding de recrutamento Talenses Group, a área manteve 58% das contratações ativas em subsegmentos como educação, agropecuária, telecomunicações, saúde e serviços financeiros, entre outros. O levantamento aborda ainda a expectativa quanto à retomada do crescimento.

“O resultado aponta exatamente o momento de incerteza que estamos vivendo”, afirma o CEO Luiz Valente. Ele analisa que os números estão relativamente divididos entre os que acreditam que voltarão a investir e contratar profissionais no segundo semestre ou até antes (58%) e os que não têm planos ou projetam apenas para 2021 (42%).

“A tendência parece ser um retorno gradual e baixo dos investimentos e contratações ao longo do segundo trimestre, com um possível aumento relevante a partir do terceiro trimestre”, calcula o CEO, que acredita que a rotina do mercado de trabalho comece a se estabilizar após o período mais crítico da curva de crescimento nos casos de contaminação pelo coronavírus, mas ainda cercada de muitos cuidados e restrições.

Fonte: Bianca Zanatta, 03 de maio de 2020 | 06h02. Especial para o Estado.

Engatinhando no Brasil, superapps se empenham em conquistar brasileiros

“O brasileiro gosta de usar o celular para acessar os serviços, mas a maioria tem aparelhos com tecnologia limitada; por isso, a economia de memória é um grande atrativo” — Ligia Cano, do Google (Foto: Divulgação)
“O brasileiro gosta de usar o celular para acessar os serviços, mas a maioria tem aparelhos com tecnologia limitada; por isso, a economia de memória é um grande atrativo” — Ligia Cano, do Google (Foto: Divulgação)

Em datas especiais como casamento e feriados, os chineses costumam presentear amigos, funcionários e parentes com dinheiro em envelopes vermelhos, os “hong bao”. Com a revolução nos meios de pagamento que reduziu drasticamente o uso de papel moeda no país nos últimos anos, o tradicional envelope passou a ser entregue de uma forma menos graciosa, mas bem mais prática: no Ano Novo Lunar chinês de 2019, mais de 800 milhões de pessoas utilizaram este serviço por meio do aplicativo de celular WeChat, da Tencent.

Este é apenas um dos (literalmente) milhares de serviços oferecidos por este superapp, que é ativado em diversos momentos do cotidiano de um habitante da China. Ele permite, por exemplo, reservar hotéis, fazer compras online, agendar consultas médicas, solicitar vistos, pagar impostos, chamar táxis e outras facilidades do dia a dia –tudo isso com o dinheiro que sai da carteira virtual do aplicativo.

Com cerca de 1 bilhão de usuários ativos mensalmente, o WeChat nasceu em 2011 como aplicativo de mensagens, ganhou popularidade como mídia social e se firmou como um superapp. Ele divide o mercado chinês com o AliPay, do grupo Alibaba, superapp que construiu o próprio ecossistema a partir da sua plataforma móvel de pagamentos, e também ostenta 1 bilhão de usuários ativos mensais, que acionam o mesmo aplicativo em diversos momentos de sua rotina diária.

A abundância de serviços oferecida pelos superapps chineses é resultado da estratégia de plataforma aberta, que permite a terceiros desenvolver os chamados miniapps, que seriam os “subapps” dos superapps. WeChat, que saiu na frente, já tem mais de 1 milhão de miniapps, seguido pelo Alipay, com 120 mil miniapps.

Esse tipo de ecossistema está maduro somente na China, mas há players de vários setores empenhando-se em consolidar-se como o app “faz-tudo” dos brasileiros. “Estamos em um estágio inicial na corrida dos superapps; há concorrentes de diversos setores, mas cada um deles ainda está limitado a sua atividade inicial”, analisa Ricardo Heidel, da área de Estratégia de Negócios da consultoria Accenture. “Eles podem ter frequência de uso, mas ainda não se firmaram com um grande hub, um portal”.

Engajada em se firmar como uma central de serviços na primeira tela do celular no Brasil (e na América Latina), a colombiana Rappi se posiciona como o “delivery de tudo” e se autointitula um superapp. Além de apresentar opções de entrega de comida, itens de supermercado, farmácia e outros produtos, a plataforma apresenta serviços de diversos tipos como aluguel de patinete, entrega de dinheiro em espécie e cabelereiro em domicílio.

Um diferencial da Rappi é o botão “Qualquer coisa”, em que o prestador de serviço vai atrás de um produto não listado no app. “Conseguimos ser o seu assistente pessoal favorito para resolver problemas ao longo do dia”, diz Fernando Vilela, diretor de Crescimento e Marketing da Rappi no Brasil. O crescimento do número de usuários é de 30% ao mês, segundo o executivo. Como meio de pagamento, a Rappi oferece uma carteira digital, o Rappi Pay (via QR Code) e um cartão de crédito e débito em parceria com a Visa, lançado em junho, com 100 mil pessoas na espera.

A alta frequência do usuário no app permite ter muitos dados dos clientes que podem ser usados com inteligência, diz Vilela. “A ciência dos dados dá insights, tanto para o varejista como para o entregador”, diz ele. “Sempre apresentamos oportunidades para o varejista melhorar a sua oferta, baseado no que sabemos do comportamento do seu consumidor.” O apicativo mostra para um estabelecimento que vende hambúrguer como ele deixa de vender quando não tem refrigerante, exemplifica Vilela. No caso dos entregadores, eles têm acesso a um mapa com as áreas de maior demanda, explica.

Não à toa, a inspiração da Rappi é o app chinês Meituan, da Meituan Dianping, eleita pela Fast Company a empresa mais inovadora do mundo em 2019. O superapp, que permite reservar mesas em restaurantes, comprar ingressos de cinema e procurar hotéis, se destaca por analisar os hábitos de consumo dos usuários para entregar os serviços e oferecer promoções.

“O superapp permite ver as relações de consumo digital, oferece uma visão mais completa da sua identidade como consumidor, pois acompanha a sua jornada”, diz Heidel, da Accenture. “No Brasil, ainda não conseguimos transpor essa fronteira, pois os apps estão limitados à área de consumo que se propuseram inicialmente.”

CENÁRIO PROPÍCIO

Uma pesquisa do Google divulgada em agosto revela que 80% dos brasileiros não sabem o que são superapps; mas que, ao serem apresentados ao conceito, 45,8% afirmaram estar dispostos a baixá-los no celular.

A redução do espaço ocupado na memória do smartphone foi apontada como principal benefício dos superapps (30,1%), no levantamento do Google. “O brasileiro gosta de usar o celular para acessar os serviços, mas a maioria tem aparelhos com tecnologia limitada; por isso, a economia de memória é um grande atrativo”, diz Ligia Cano, líder de apps para clientes de alto crescimento do Google Brasil.

O Google Maps é apontado por especialistas como um forte candidato a superapp, mas, apesar da vocação, Ligia nega que este seja um objetivo do Google. Na visão da executiva, os apps de serviços financeiros, m-commerce e delivery têm potencial para se tornarem superapps, por conta do maior número de usuários e frequência. “Ao contratar um serviço ou comprar um produto, você terá que pagar de qualquer forma” argumenta. “Quem já tem o meio de pagamento, sai em vantagem; além disso, a frequência de uso dos bancos e serviços financeiros costuma ser alta”, diz.

Os bancos tradicionais estão ainda em fase de estudos e desenvolvimento e preferem, por enquanto, discrição quando consultados sobre o tema. Já os chamados bancos digitais deram a largada na corrida dos superapps no Brasil.

next, por exemplo, tinha como premissa ter um superapp desde a construção de sua plataforma digital, afirma o diretor Jeferson Ricardo Garcia Honorato. Além de oferecer 40 serviços financeiros providos pelo Bradesco, Grupo Bradesco Seguros & Previdência e Ágora, o superapp do next tem a Plataforma de Mimos, que oferece descontos de 350 parceiros de segmentos diversos como transporte, alimentação e entretenimento, com algumas opções de cashback (devolução de dinheiro).

“A aplicação de algoritmos e geolocalização nos permite ser mais assertivos [eficazes] nessas ofertas”, disse Honorato. Com dois anos de existência, o next conquistou 2 milhões de clientes, que fazem 2,3 milhões de transações por dia. “Temos a ambição de estar na primeira tela de todos os clientes.”

cashback, que devolve uma quantia do dinheiro pago em um produto, também é chamariz do superapp do Banco Inter, que traz uma área de shopping com 68 lojas. “Vamos repassar para o consumidor 50% da comissão que recebermos do varejista”, explica Rodrigo Gouveia, diretor de marketplace do Banco Inter. Com esse atrativo, a expectativa é explorar o potencial das compras via celular: segundo levantamento da consultoria PWC feito em 2019, 50% dos brasileiros afirmaram fazer compras pelo celular pelo menos uma vez ao mês.  

Dos 4 milhões de clientes do Banco Inter, 450 mil já transacionaram pelo superapp, segundo Gouveia. Além da área de compras e dos serviços financeiros, há oferta de recarga de celular, vale-presente, pagamento de estacionamento rotativo (“zona azul”), entre outras opções. “Desenvolvemos recursos baseado na análise do perfil do nosso cliente, que quer economia de tempo e no bolso; em breve, teremos o recurso de delivery, pagamento de estacionamento e de combustível via app”, diz.

E, enquanto os bancos constroem seus marketplaces, os varejistas preparam seus serviços financeiros. Em dezembro, o Magazine Luiza anunciou que, no primeiro trimestre de 2020, irá lançar a sua conta digital gratuita, Magalu Pay. Em parceria com o BB, permitirá fazer transferências pelo Banco do Brasil, depósitos e saques nas lojas da rede, transferência de valores entre usuários por QR Code e pagamentos de contas e boletos.

Magalu deve ficar de olho na Amazon, a gigante do e-commerce norte-americana que mostra as suas garras no mercado brasileiro e faz suas movimentações para se posicionar como superapp.

Na Índia, por exemplo, a gigante do e-commerce aliou-se à plataforma Cleartrip para oferecer o serviço de reserva de voos diretamente no seu app de pagamentos Amazon Pay. Também fez parceria com a plataforma de ingressos para shows e eventos MyBookShow, para aumentar os recursos do seu app. Sua concorrente no mercado indiano, a Flipkart, tem a plataforma aberta para desenvolvedores externos, que preparam miniapps como no modelo chinês.

Assim com o Magazine Luiza e a Amazon, o Mercado Livre, plataforma de e-commerce e serviços financeiros, foi considerado uma das empresas com potencial para ter sucesso como um superapp no mercado brasileiro, em pesquisa do Itaú BBA divulgada em 2019 (veja quadro).

Apesar desse reconhecimento, a empresa prefere dispensar o rótulo de superapp. Rodrigo Furiato, diretor da Carteira Digital do Mercado Pago, explica que o pequeno empreendedor faz um “ciclo”: usa a plataforma Mercado Livre para vender, o serviço de logística do Mercado Envios, recebe o dinheiro das suas vendas na conta do Mercado Pago e, a partir dela, faz a compra de mercadorias ou pode ainda tomar crédito para ampliar os negócios.

“Nossa proposta é alavancar a nossa conta digital como centro desse ecossistema, que passa pelo acesso ao crédito, até a melhor experiência possível em compras e pagamentos no mundo online e físico”, descreve.

O app Mercado Pago oferece serviços como pagamentos de impostos, saque com Código QR, recarga de Bilhete Único (transporte público), recargas pré e pós-pagas de serviços de telefonia e TV, além de crédito direto na conta digital. Recentemente, a empresa lançou a Central de Descontos, um marketplace de ofertas que reúne todos os estabelecimentos que aceitam pagamento via Código QR do Mercado Pago.

COMPETIÇÃO ENTRE PLAYERS

No Brasil, diferentemente da China, a tendência é de pulverização de superapps, segundo os especialistas. Os players no Brasil terão o desafio de conquistar os clientes diante de muitos concorrentes, na visão de Norberto Sanches, gerente de produtos da Cielo. A disputa de mercado, porém, é válida.

“Os superapps entregam vantagens, como a digitalização de pagamentos, a oportunidade de conhecer melhor seu cliente para ofertar de produtos, melhorar a assertividade [eficácia] na concessão de crédito, além de reduzir custos”, diz.

Para Sanches, o Cielo Pay pode ser considerado um superapp, mas nos padrões brasileiros. Lançado em agosto, essa e-wallet com conta digital e serviços atende principalmente estabelecimentos comerciais e empreendedores. Permite realizar transferências e cargas de valores por meio de boletos, pagar contas, fazer compras por QR Code em qualquer máquina Cielo e acessar promoções.

A empresa considera incrementar o seu super app com serviços financeiros, de seguros, marketplace e oferecer serviços de profissionais liberais. “Há um grande espaço para o crescimento dos superapps no Brasil, numa corrida que parte das carteiras digitais, que só começaram a ganhar força em 2019”, diz Sanches.

Na análise de Heidel, da Accenture, a estreia do Sistema de Pagamentos Instantâneo do Banco Central (SPI, ou, como o apelidou o governo, PIX), prevista para 2020, pode ser um ponto disruptivo na evolução dos superapps no mercado brasileiro. “A documentação do SPI prevê a interoperabilidade, que é essencial para o ganho de escala; o usuário poderá transferir dinheiro da sua conta do Mercado Livre para a da Americanas”, exemplifica. Neste cenário, vencerá a empresa que fidelizar sua base de clientes. “Sabemos que temos mercado para os superapps, mas ainda não sabemos para onde vai o cliente; aí está o desafio: conquistar a preferência do consumidor”, diz.

Vocação de app faz-tudo

Um estudo do Itaú BBA divulgado em agosto de 2019 identificou quais são as empresas e áreas que mais têm chance de criar um superapp no Brasil:

Facebook, WhatsApp (mensagens)

Mercado Pago, Ame (carteiras digitais)

Uber, 99, Grow (mobilidade)

iFood, Rappi (entregas)

Mercado Livre, Amazon, Magazine Luiza (e-commerce)

Banco Inter (setor financeiro)

Qual é a diferença de um app comum, as suítes de app e os superapps

APP COMUM

Aplicativo dedicado a uma única função

Exemplos: Twitter, Skype, Spotify

SUÍTE DE APPS

Coleção de apps com funções relacionadas, geralmente integrados e da mesma empresa

Exemplos: Word, Excel, GSuite, Adobe Creative Suite, Microsoft 365

SUPERAPP

Um aplicativo com múltiplas funções, geralmente facilitado por um sistema de pagamento da mesma empresa

Exemplos: Rappi, superapp do Banco Inter

SUPERAPP COM MINIPROGRAMAS

Um aplicativo que permite a terceiros desenvolver “subaplicativos” leves que possam rodar dentro do superapp

Exemplos: WeChat, Alipay, Meituan

Fonte: Katia Arima, noomis, 22/4

Tecnologia: meio ou fim? Por, Gustavo Fosse

Objetivo da tecnologia é facilitar a vida das pessoas, resolvendo problemas que antes pareciam impossíveis; estamos fazendo isso de forma correta? - iStock
Objetivo da tecnologia é facilitar a vida das pessoas, resolvendo problemas que antes pareciam impossíveis; estamos fazendo isso de forma correta?

Muito fala-se da importância de a sociedade evoluir para um novo patamar de mais prosperidade, paz e bem-estar social para todos. Nesse mundo dinâmico e cheio de desafios, a tecnologia emerge como um meio eficiente para atingirmos esse novo paradigma.

O objetivo da tecnologia é facilitar a vida das pessoas, resolvendo problemas que antes pareciam impossíveis -pelo menos na teoria, esse seria o objetivo. Mas será que é por esse caminho que estamos seguindo?

Isaac Asimov, um dos grandes da ficção científica, previa que um dia iríamos nos perder. Chegaríamos a um ponto em que, de tanto pensar no nosso bem, seríamos tão dependentes da tecnologia que ela mesma se voltaria contra nós para nos salvar de nós mesmos (!) Será que isso pode acontecer?

DESEJO, NECESSIDADE E VONTADE

Em marketing existe uma longa discussão sobre a definição da necessidade. Ela existe realmente ou pode ser criada a partir do desejo que nos é imposto pelo próprio marketing, muitas vezes inconscientemente? Por exemplo, o seu celular pode ser o melhor que existe, você compra porque ele, aparentemente, supre as suas necessidades. Mas, quando é lançado um modelo novo, você percebe que o aparelho que você tem não é tão eficaz assim. Novas funcionalidades, antes não tão importantes, agora são vistas como totalmente necessárias. A questão é: suas necessidades realmente mudaram ou os novos avanços da tecnologia criaram novas necessidades?

Se podemos nos perder na nossa crescente e insaciável “necessidade”, por outro lado, talvez não enxerguemos o que precisamos, pois, desconhecendo o que poderíamos ter, acabamos por nos contentar com o que há. Ford dizia que se perguntássemos aos consumidores o que eles precisavam, eles pediriam cavalos mais rápidos. Então, do que realmente precisamos? 

Não há uma resposta única e correta. Ainda que estendamos essa discussão, envolvendo psicologia, filosofia, religião e todas as áreas do saber, não chegaremos a um consenso. Mas não é exatamente isso que quero discutir hoje.

TUDO MUDA O TEMPO TODO NO MUNDO

Na verdade, entender que não sabemos ao certo como as coisas funcionam é o ponto que realmente importa aqui. Porque são as mudanças e as incertezas que tornam essencial a evolução e a existência de inovação. As instituições vão mudar e o novo vai chegar.

E é por isso que não podemos planejar nossas ações baseados apenas na verdade que criamos, porque verdades mudam constantemente no nosso mundo dinâmico. Isso não significa que devemos desacreditar de tudo, até porque nossas verdades vão, sim, funcionar muito bem por algum tempo, como funcionaram para Ford. Ele ofereceu carros pretos porque era isso que os consumidores precisavam e com isso ele revolucionou os meios de transportes, porque naquele momento essa verdade era o suficiente, mas as coisas mudaram. 

Nós sentimos na pele como as coisas podem mudar de forma inesperada diante da pandemia pela que estamos passando. Todos tiveram que se adaptar drasticamente e, nesse momento, a tecnologia tem sido um grande apoio para que os negócios não parem. E mais ainda: a tecnologia pode nos ajudar a impedir o avanço do coronavírus e salvar vidas. A tecnologia não é nosso problema, ela é essencial. A forma como ela impacta a nossa vida, a importância e o uso que damos a ela, porém, podem ser um problema.

A questão é: você sabe mesmo do que você precisa? Na sua relação com a tecnologia, você é um agente passivo ou ativo? 

Se nos concentrarmos no que é essencial para nós agora, sem levar em conta o futuro, os desafios e as mudanças, podemos nos perder no caminho, no longo prazo. Podemos até estar acostumados a seguir por um certo caminho nas encruzilhadas, mas só porque isso sempre funcionou não significa que vai funcionar agora. 

“Ninguém pode entrar duas vezes no mesmo rio, pois quando nele se entra novamente, não se encontram as mesmas águas, e o próprio ser já se modificou”, disse o filósofo Heráclito de Éfeso.

Assim, mesmo que a situação pareça a mesma, o caminho pode estar mascarado por obstáculos desconhecidos, e a mesma decisão pode levar a um resultado totalmente diferente. E é nesse ponto que a tecnologia pode desvirtuar sua missão.

A tecnologia sai do nosso controle, quando ela deixa de ser um meio para atingir um objetivo, algo que podemos controlar, para se tornar o nosso objetivo final.

Um exemplo de quanto a tecnologia pode realmente mudar nossos desejos e nossas necessidades, tornando-nos apenas espectadores da nossa própria vida, pode ser visto no episódio “Queda Livre”, da série “Black Mirror”.

Ele apresenta um mundo cheio de verdades criadas a partir de como cada pessoa quer ser vista. A protagonista Lacie vê seu mundo perfeito, forjado nas redes sociais, desmoronar por um simples deslize. Mas será que aquele mundo que a tecnologia proporcionou era mesmo o que ela precisava? Ou será que ela se perdeu no caminho entre necessidades e desejos, entre o que ela achava que precisava e o que ela não precisava?

Vemos que a tecnologia permeia o mundo de Lacie de diversas formas para facilitar o seu dia a dia. Mas até que ponto a tecnologia está realmente melhorando a vida dela? Até que ponto aquele mundo era realmente necessário para ela antes de tudo?

É fato que as empresas precisam evoluir, pois vivemos em um mundo cada vez mais digital. Nós temos negócios formados em plataformas digitais, com uma interconexão de coisas, pessoas e empresas, situação antes impossível de ocorrer. E é claro que cada empresa tem seu lugar nessa realidade, e atender os desejos do consumidor é, sim, essencial. Para isso, as empresas precisam se transformar para acompanhar as mudanças. Mas o quanto elas precisam mudar? E baseado em quê? 

Um fator importante a levar em conta na hora de realizar essa transformação é pensar na sustentabilidade de todo o ecossistema do qual a empresa faz parte.

E quando falo que a empresa precisa pensar no bem do mundo e das pessoas, é porque somente pensando no melhor para toda a sociedade é que a empresa vai seguir forte e perene. Se o mundo não existir amanhã, se o mundo se perder no caminho, somos nós e nossas empresas que vão deixar de existir.

Levando tudo isto em consideração, o caminho que você precisa seguir, todo o ecossistema e riscos, baseado no que você faz e acredita hoje, por quanto tempo suas verdades vão funcionar? O quanto você pode se adaptar? Em qual realidade sua empresa vai se encaixar no futuro?

Pensar nisso vai ajudar você a avaliar até que ponto a tecnologia precisa estar incluída no seu negócio e em quais tecnologias você precisa concentrar seu esforço.

Por exemplo, se o seu negócio se transformar em uma plataforma 100% digital, quais serão suas perdas e riscos? Talvez, neste momento, essa seja a necessidade dos seus clientes. Mas pense no mundo perfeito de Lacie, totalmente dependente da tecnologia. A partir disso, o que pode fazer seu negócio desmoronar? Qual pode ser o seu backup se as coisas mudarem de repente? 

O nosso maior erro nem sempre é depender totalmente da tecnologia, mas deixar que ela seja nossa única solução para tudo. Às vezes, na empolgação do momento, restringimo-nos ao que queremos ver e entramos no que em psicologia chama-se de viés de confirmação. Com isso, perdemos o controle e cruzamos a linha tênue que separa a tecnologia controlável da tecnologia controladora.

Para que as empresas continuem a crescer e a se manter neste mundo tão complexo, cheio de dúvidas e incertezas, precisamos ter outras opções, novas visões. Devemos construir e desconstruir nossas verdades o todo tempo, atender e até estimular novos desejos nos nossos clientes, porque é assim que o mundo vai girar, porque é assim que nossa relevância e significado para os clientes vão ser mantidos. 

Temos de fazer isso de maneira responsável e sustentável, a partir de uma visão sistêmica, considerando as consequências no curto e no longo prazo. Dessa forma, estaremos caminhando para uma realidade mais segura e menos sujeita a erros fatais, tirando proveito do melhor da tecnologia sem perder o controle do nosso negócio, da nossa vida e do nosso mundo.

Fonte: Gustavo Fosse, diretor de Tecnologia do Banco do Brasil. Publicado em 28/4/2020, noomis CIAB FEBRABAN.