Empresas aumentam benefícios para a saúde mental, mas falta olhar para a gestão

Relacionamento ruim com chefe prejudica saúde mental, mostra pesquisa — Foto: Pexels
Relacionamento ruim com chefe prejudica saúde mental, mostra pesquisa — Foto: Pexels

Pesquisa feita pela startup de recursos humanos Kenoby, de software de recrutamento e seleção, indica que a saúde mental dos funcionários entrou de vez na agenda dos departamentos de RH das empresas brasileiras – mas ainda há muito a ser feito. Em 37,7% das companhias analisadas existem benefícios voltados para melhorar o bem-estar e a saúde mental dos colaboradores, enquanto 38,7% não contam com essas facilidades, mas estudam a possibilidade de investir na área, em até um ano (35%).

O estudo “Os impactos da saúde mental no trabalho do colaborador brasileiro” ouviu 488 profissionais do setor, de todo o país, em fevereiro e março – a maioria das companhias dos entrevistados tem até 500 funcionários.

“O objetivo da pesquisa foi mapear as ‘dores’ e desafios da área de RH em lidar com o assunto”, diz Felipe Sobral, diretor de marketing da Kenoby. “O levantamento mostra que as empresas estão mais atentas à questão, pois sabem que as pessoas são o principal ativo que possuem, mas temos um longo caminho a percorrer.”

Sobral explica que a pandemia acabou favorecendo esse início de mudança de postura das corporações e acende uma luz de alerta para como as chefias tratam o tema. “Sabemos que funcionários estão adoecendo mentalmente e a prova disso é o aumento na busca por psicólogos e psicanalistas via telemedicina.”

De acordo com o levantamento, para 67,3% dos entrevistados, as chefias levam em consideração a saúde mental na hora de avaliar a expectativa dos colaboradores, mas na opinião de 93% ainda falta um olhar das empresas, no geral, para a área.

Em 71,1% dos grupos ouvidos não existe um departamento ou uma pessoa dedicados ao setor, enquanto a maioria (67,4%) já teve afastamentos de funcionários por problemas emocionais.

Os principais motivos que acarretam danos psicológicos no trabalho são a falta de diálogo da liderança (19,1%), assédio moral e constrangimentos (18,9%), além da ausência de feedbacks constantes (16%) e de metas difíceis de serem batidas (12,3%).

Para 36,6%, a falta de cuidado com a força de trabalho pode impactar na produtividade individual e do time, no baixo engajamento (23,3%) e no aumento do turnover (19,6%). A fim de contornar esses problemas, 59,9% das empresas veem como uma prioridade a contratação de um especialista ou a criação de um setor para cuidar do assunto.

“As empresas estão preocupadas em não tornar o home-office um vilão, já que a exaustão das equipes pode ter reflexos negativos na produtividade”, diz Sobral.

Fonte: Jacilio Saraiva, Valor, 13/05/2021

Cientistas investigam como espiritualidade pode ajudar a saúde do corpo

Profissional da saúde e paciente fazem oração
Foto:GETTY IMAGES. No Brasil, instituições respeitadas têm se dedicado a estudar o quanto a espiritualidade do paciente auxilia na cura de doenças físicas e psíquicas

Raiva, rancor, orgulho, medo, egoísmo. Sentimentos comuns a todos os seres humanos podem estar no cerne de boa parte das doenças enfrentadas pela humanidade, segundo a própria medicina. Várias instituições no Brasil e no mundo vêm se dedicando a estudar até que ponto a saúde do indivíduo é influenciada, literalmente, pelo seu estado de espírito.

No país, a Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), o Instituto de Psiquiatria (IPq) da USP, por meio do Programa de Saúde, Espiritualidade e Religiosidade (Proser), e a Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), com o Núcleo de Pesquisas em Espiritualidade e Saúde (Nupes), têm investigado o quanto a espiritualidade (não necessariamente a religiosidade) do paciente auxilia na cura de doenças físicas e psíquicas – que podem ser agravadas a partir de sentimentos ruins e pensamentos destrutivos.

Nos Estados Unidos, grandes instituições de ensino como a Escola de Medicina de Stanford, as Universidades Duke, a da Flórida, a do Texas e Columbia mantêm centros de estudos exclusivos sobre o assunto, assim como a Universidade de Munique, na Alemanha, a de Calgary, no Canadá, e o Royal College of Psychiatrists, no Reino Unido. Para os centros de pesquisa, há um conjunto de evidências que indicam que diversas expressões da espiritualidade têm impacto significativo na saúde e no bem-estar, associadas a menores níveis de mortalidade, depressão, suicídio, uso de drogas, ou mesmo internações e medicamentos.

As instituições ressaltam que espiritualidade é diferente de religião: em tese, uma pessoa religiosa é espiritualizada; mas alguém espiritualizado não necessariamente segue uma religião – e pode até não acreditar em Deus. A espiritualidade estaria ligada à busca pessoal de um propósito de vida e de uma transcendência, envolvendo também as relações com a família, a sociedade e o ambiente.

Perdão e gratidão no controle da pressão arterial

“A espiritualidade é um estado mental e emocional que norteia atitudes, pensamentos, ações e reações nas circunstâncias da vida de relacionamento, sendo passível de observação e mensuração científica”, diz o médico Álvaro Avezum Júnior, diretor da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (Socesp), professor do centro de cardiopneumologia da USP e do programa de doutorado do Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia.

Segundo ele, a espiritualidade é expressa através de crenças, valores, tradições e práticas. “Quem tem menos disposição ao perdão está mais disponível a enfrentar enfermidades coronárias”, diz o especialista, que também é diretor do Centro Internacional de Pesquisa do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, em São Paulo. Da mesma maneira, diz, a raiva acumulada pode levar à diabetes.

Avezum é um dos principais estudiosos do país da relação entre espiritualidade e saúde. Esteve à frente da iniciativa da SBC em publicar, há dois anos, as Diretrizes Brasileiras Sobre Espiritualidade e Fatores Psicossociais, que integram o conjunto de prevenção cardiovascular. “A SBC foi a primeira sociedade de cardiologia do mundo a associar enfermidade moral a doença cardíaca, a partir de evidências científicas”, diz.

Segundo ele, com intervenções baseadas em perdão e gratidão é possível controlar, por exemplo, a pressão arterial. “Mas não um perdão condicional, que mantém o ressentimento, e sim um perdão emocional, que muda o que se sente em relação ao agressor”, afirma.

Profissional de saúde interage com paciente
Legenda da foto,Relação entre profissionais da saúde e pacientes deve ser guiada pela empatia

Agora seus estudos buscam ir além e entender a origem da doença. “Queremos mostrar que é possível prevenir a doença tratando a espiritualidade primeiro, por meio do perdão e da gratidão, além de reforçar outras atitudes positivas como solidariedade, compaixão, humildade, paciência, confiança e otimismo”, diz ele, que não se importa com eventuais céticos no meio científico. “Se alguém diz que isto não é ciência está sendo dogmático, porque escolhe o que investigar”.

Até 2019, antes da pandemia do novo coronavírus, as doenças cardíacas eram a principal causa de morte entre adultos no Brasil. Foram 116.766 óbitos em 2019 relacionados aos males do coração, informa o Ministério da Saúde. Segundo Avezum, já existem artigos e estudos sobre espiritualidade e covid-19 no mundo (eram 110 até o último dia 25 de abril, segundo registros do buscador PubMed, da National Library of Medicine, dos Estados Unidos). Mas os resultados ainda são inconclusivos, diz.

“Para combater o coronavírus, o melhor é não se expor e se valer da religiosidade e da fé para enfrentar os desafios do isolamento social”, afirma.

“Vou morrer, doutor?”

O interesse de Avezum no tema começou com o trabalho da médica americana Christina Puchalski que, desde 1996, procura inserir o componente espiritual no cuidado com os pacientes. Christina dirige o Instituto George Washington para Espiritualidade e Saúde (GWish), da Universidade George Washington. Ela defende que os médicos levantem o histórico espiritual do paciente para entendê-lo de forma integral. O objetivo é identificar as crenças e valores que realmente importam ao indivíduo, e como isso atua na forma como ele lida com a doença.

“Se o paciente acredita que a meditação o acalma, o médico deve ter essa informação em mãos e recomendar que ele mantenha a prática, ao mesmo tempo em que toma a medicação”, diz o médico Frederico Leão, coordenador do Proser do IPq. “É preciso adotar a prática espiritual que esteja em harmonia com as crenças de cada um, porque isso vai contribuir para o tratamento”.

Pesquisar o impacto dessas práticas na saúde mental dos pacientes é o foco do IPq, que também promove cursos sobre como o abordar o tema nos consultórios.

Segundo Leão, até o início dos anos 2000, os médicos tinham muito receio em falar sobre o assunto, mesmo sendo o Brasil um país onde mais de 80% da população se declara cristã. “Muitos não sabiam – e talvez ainda não saibam – como fazer essa abordagem”, diz ele. “É o caso do cirurgião que, antes da cirurgia, pede para rezar um Pai Nosso com toda a equipe e o paciente questiona: ‘Por que isso, doutor, vou morrer?'”.

Leão destaca as pesquisas do psiquiatra americano Harold Koenig, da Universidade Duke, para quem negligenciar a dimensão espiritual do paciente é como ignorar o seu aspecto social ou psicológico, ou seja, ele não é tratado de forma integral. “Koenig constatou que o pensamento positivo, a meditação e a oração não afetam só a mente, mas o organismo como um todo”, afirma Leão, para quem essas práticas se tornam ainda mais essenciais em tempos de pandemia do novo coronavírus. “Só os muito alienados não estão revendo seu padrão de vida neste momento”.

Pânico e ressentimento

Helma Gonçalves do Nascimento Martins acordou se sentindo estranha naquela sexta-feira, 8 de janeiro. Aos 48 anos, a fisioterapeuta achou que a dor e o cansaço eram resultado do treino cardiovascular feito na véspera. Mas os sintomas do novo coronavírus vieram com força. “Tive febre, dor no corpo, perda de olfato, era um sintoma novo a cada quatro horas”, diz. “Me faltava ar até para tomar um copo d’água”. Com o marido e a filha caçula em casa, ela se isolou no quarto da criança. E aí teve início o pior dos sintomas: o pânico.

Praticantes de yoga
Legenda da foto,A espiritualidade vai muito além da religião e envolve nosso estado mental e emocional

“A ansiedade bateu muito forte, era o medo da morte a todo instante, não conseguia pensar em outra coisa, achava que eu não ia aguentar”, diz ela, que foi monitorada pelo seu médico durante os 14 dias de tratamento. “Ele me dizia: ‘Estou 100% com você, a gente vai vencer este vírus’, e eu procurava acreditar. É uma doença em que você sente a morte ao seu lado e precisa estar sozinha”.

O pior da covid-19 passou nos primeiros dez dias. Mas os sintomas continuaram por mais de um mês. “Eu sentia uma fraqueza muscular imensa, tontura”, diz.

O tratamento com remédios foi encerrado e Helma começou a ser atendida pela tia do marido, uma terapeuta holística. Ela lhe aplicava massagens e passes de reiki. “Aquilo fortaleceu o meu espírito. Comecei a me sentir bem melhor e um mês depois já voltei a trabalhar o dia todo”, afirma. Evangélica, ela acredita que a espiritualidade a ajudou na recuperação. “Você quer lutar, quer sobreviver e vem uma força, que você não sabe bem de onde, e te ajuda a buscar a luz em meio ao pânico, a superar os sentimentos ruins”. Para ela, suas doenças foram agravadas pelo seu estado emocional. “Três meses antes do coronavírus, em outubro, sofri uma angina, um pré-infarto. Enfrentava uma crise conjugal e não conseguia perdoar. Depois, passei a ficar desesperada em relação ao futuro, ao trabalho, por conta da pandemia. A falta de perdão e de fé me abalaram demais”.

O psicólogo Laerson Cândido de Oliveira ressalta o valor do amor, da oração, da positividade e da fé no futuro. “Costumamos ter muita solidariedade em relação a quem está distante de nós, a quem não conhecemos, mas somos incapazes de perdoar as menores faltas cometidas por pessoas do nosso convívio”, diz ele, que dirige o Instituto Espírita Cidadão do Mundo (IECIM), em São Paulo.

Segundo ele, o ódio e o ressentimento aprisionam o indivíduo, levando-o a um estado doentio, enquanto o medo e o egoísmo paralisam impulsos positivos, no sentido de auxílio ao próximo.

Contra o negacionismo

As práticas de massagem (ayurveda) e reiki, usadas por Helma no tratamento das sequelas da covid-19, integram a Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPICs), adotada em 2006 pelo Ministério da Saúde. Hoje, a PNPICs engloba 29 recursos terapêuticos – muitos baseados em conhecimentos tradicionais como acupuntura, ioga, meditação, fitoterapia, homeopatia e quiropraxia, e outros mais recentes, como ozonioterapia e biodança. Atualmente, são oferecidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS) em 54% dos municípios do país.

A adoção da PNPICs segue orientações da Organização Mundial da Saúde (OMS) que, em 1988, incluiu a dimensão espiritual no conceito de saúde multidimensional. Para a organização, espiritualidade é “o conjunto de todas as emoções e convicções de natureza não material, com a suposição de que há mais no viver do que pode ser percebido ou plenamente compreendido, remetendo a questões como o significado e sentido da vida, não se limitando a qualquer tipo específico de crença ou prática religiosa”.

“A PNPICs pode fazer a grande diferença para a saúde da população, ao valorizar o conhecimento tradicional, as culturas regionais, amparada no aculturamento espiritualista, sobretudo a um baixo custo”, diz o neurocientista Sérgio Felipe de Oliveira. “É a possibilidade de diálogo com a população”, prossegue ele, para quem o diálogo entre ciência e espiritualidade nunca foi tão urgente.

“A ciência não pode se fechar em cima de si mesma, em um conhecimento hermético. Ela precisa ouvir e conversar com a população. Senão, quando nós precisamos da ciência, o povo não ouve. Aí surgem o negacionismo e as fake news”, diz ele, que entre 2007 e 2014 ministrou a disciplina optativa Medicina e Espiritualidade na Faculdade de Medicina na USP.

Para Sergio Felipe, é fundamental que o médico crie uma relação de empatia com o paciente. “Tanto o povo brasileiro quanto o americano são religiosos, acreditam na força da oração e na proteção de Deus. O médico precisa valorizar a dimensão espiritual do paciente para integrá-la ao tratamento”, afirma.

É neste sentido, por exemplo, que o médico deve explicar que o paciente não pode estar estressado quando for tomar o medicamento, porque a adrenalina vai atrapalhar a sua eficácia. “O estado de espírito do indivíduo interfere na farmacocinética, ou seja, na absorção e distribuição do remédio no organismo”, diz. “Se a oração e a fé do paciente podem acalmá-lo, isso será importante para que a medicação surta efeito”.

Risadas no centro cirúrgico

Na cabeça do médico, fazer a junção entre o material e o espiritual não é tão simples. “Somos treinados a observar a dimensão física do paciente e, para a maioria, é difícil aliar este conhecimento técnico com a espiritualidade”, afirma a médica pediatra Carolina Camargo Vince. “É preciso ser cuidadoso na abordagem, para que o paciente não pense que a cura dele depende de um milagre”, diz ela, que integra a equipe de oncologia pediátrica do Hospital Israelita Albert Einstein e do Instituto do Tratamento do Câncer Infantil do Hospital das Clínicas de São Paulo.

Cora vai rindo para a sala de cirurgia
arquivo pessoal.Cora vai rindo para a sala de cirurgia; espirituosa e alegre ,a menina sempre gostou de se enfeitar para ir ao hospital, onde brincava com quem estivesse perto

No dia a dia, Carolina costuma estender os cuidados à família da criança. “O diagnóstico de câncer afeta a saúde mental e emocional não só do paciente, mas das famílias, especialmente quando se trata de uma criança”, diz ela. É comum em um primeiro momento haver um sentimento de revolta por parte dos pais, que se perguntam por que isso acontece com o filho deles, ou por que não foram eles o alvo da doença, no lugar das crianças, afirma.

“O câncer te coloca frente a frente com a questão da espiritualidade, é um momento de reflexão existencial”, diz Carolina, para quem as crianças, em geral, desenvolvem sua espiritualidade de maneira plena. “Não passa pela cabeça delas desistir ou desesperar, elas vão procurar mecanismos dentro delas mesmas para se adaptar a um novo momento de vida, que envolve muitos remédios, picadas, desconfortos e às vezes longos períodos de internação”.

Paciente de Carolina, Cora Grigio foi diagnosticada com leucemia quando tinha cinco anos e meio. “Para mim, até então, essa doença era sinônimo de morte”, conta Patrícia Ferreira Silvério, mãe de Cora, que viu a filha encarar a situação com leveza.

“A Dra. Carol explicou para ela o que estava acontecendo de maneira didática e delicada”, lembra. “E durante todo o tratamento, que durou dois anos e dois meses, minha filha só chorou uma vez”. Espirituosa e alegre, Cora sempre gostou de se enfeitar para ir ao hospital, onde brincava com quem estivesse perto. “Deitada na maca, ela ia rindo com as médicas para o centro cirúrgico”, lembra Patrícia, que hoje alimenta o Instagram da filha, uma modelo de 8 anos. “Ela começou a fazer campanhas quando ainda estava carequinha, tamanha a autoestima”.

Mas para a mãe o processo nunca foi tranquilo. “Um dia, depois das primeiras sessões de quimioterapia, levei um susto quando um tufo de cabelo dela saiu na escova. Cora percebeu e começou a cantar para me alegrar”, diz Patrícia. “Não aguentei e chamei meu marido, precisava chorar um pouco”.

Para Patrícia, a doença da única filha foi capaz de lhe mostrar que ela não está no controle de tudo. “Eu sempre fui a que tomava a frente das coisas, a que resolvia tudo. Mas me deparei com algo que eu não conseguia resolver. Eu tinha que buscar paz para passar pelo sofrimento”, diz ela, uma católica que se aproximou do espiritismo na época do tratamento de Cora.

Gestante deitada num leito hospitalar sorri e é acompanha por uma outra mulher ao fundo
GETTY IMAGES.A forma como o paciente e sua família lidam com a doença pode fazer diferença no resultado final do tratamento e na recuperação

Mentes perturbadas

A pediatra intensivista Cíntia Tavares Cruz sempre quis tratar do tema espiritualidade com as famílias, mas não sabia como abordar. Ao longo do seu curso de medicina na Universidade de Campinas (Unicamp), o mais perto que ela chegou do assunto foi quando aprendeu sobre ética e humanização.

“O paciente que chega à UTI está em colapso do corpo físico. Existe alto grau de incerteza, tudo sai do falso controle. Depois de resgatá-lo, é preciso tratar de questões que o levaram até ali e vão além do físico”, diz ela, que só ouviu falar sobre espiritualidade quando se especializou em medicina paliativa. Voltada a doentes crônicos, a especialidade busca proporcionar ao paciente e sua família uma qualidade de vida integral, envolvendo físico, social, emocional e espiritual. “Neste sentido, as práticas integrativas fazem toda a diferença”.

Na opinião da fisioterapeuta Juliana Faria do Nascimento, as PNPICs contribuem para o equilíbrio energético e permitem melhorar a imunidade do indivíduo. “Por isso, o Conselho Nacional de Saúde pediu que este tipo de tratamento não fosse interrompido durante a pandemia”, diz ela, que trabalha em Adamantina (SP) e tem entre os seus pacientes diabéticos, hipertensos e portadores de doenças cardiovasculares que viram aumentar seu grau de ansiedade e estresse durante o confinamento. “Uma mente perturbada não consegue evoluir na parte física”, afirma.

Cíntia Cruz concorda. “A adoção de práticas integrativas ajuda a desbloquear a espiritualidade do paciente. Isso não vai acabar com o seu sofrimento, mas vai ajudá-lo a lidar melhor com este momento difícil, ao sair da inércia e da vitimização”, diz a pediatra, que trabalha como intensivista no Hospital Infantil Sabará, em São Paulo, e como paliativista no Hospital das Clínicas.

Foi o que aconteceu com o pequeno Kaleb, de 10 anos. Vítima de sarcoma histiocítico, um tipo raro e agressivo de câncer, que se disseminou por todo o corpo, ele passou a ter contato no hospital com a meditação para controlar a dor. “Por vezes eu estava no quarto conversando com a médica e ele pedia silêncio para meditar”, lembra a mãe de Kaleb, Fernanda Hochstedler.

“Deus não se esqueceu da gente”

Fernanda (ao centro) com toda a família, antes da doença de Kaleb (à frente)
Arquivo Pessoal. Fernanda (ao centro) com toda a família, antes da doença de Kaleb (à frente); “Deixá-lo ir, depois de tanto sofrimento, trouxe muita paz”, diz ela

Foi a segunda vez que Kaleb teve câncer. Na primeira, quando ele ainda tinha 8 anos, foi diagnosticado com leucemia. Se incomodou com a perda de cabelo, mas respondeu bem ao tratamento ao longo do primeiro ano. Um dia, porém, começou a sofrer com febres altas e persistentes. Uma investigação profunda levou ao diagnóstico de sarcoma.

“Foi muito difícil dizer a ele que surgiu um novo câncer e que ele precisava passar por um transplante de medula”, diz Fernanda. “Dissemos a ele que não sabíamos o final da história, mas que ele jamais estaria sozinho e que Deus não se esqueceu da gente”, diz ela que, com o marido e outros quatro filhos, segue a Igreja Internacional do Calvário, de origem canadense.

O transplante foi feito em novembro de 2019. As sessões intensas de quimioterapia levaram a uma reação no pulmão e ele voltou a ser internado em 3 de março do ano passado. “Quando surgiu a pandemia, fiquei o tempo todo com ele no hospital, passei quase um mês sem ver meus outros filhos”, diz Fernanda. Para suprir em parte a falta dos irmãos, a quem Kaleb sempre foi apegado, a mãe sugeriu que eles fizessem novos amigos no hospital – alguns mantidos até hoje.

“Quando você foca na vida da outra pessoa, você cria empatia e transforma a sua própria perspectiva”, diz ela. “Isso nos ajudou a lidar com as emoções e a não nos entregarmos ao desespero”.

O momento de dor profunda, porém, chegou. Kaleb precisou ser entubado em abril e, em 12 de maio de 2020, faleceu. Dois dias antes, sem perspectiva de melhoras, Fernanda e o marido questionaram se os irmãos queriam se despedir de Kaleb. Todos concordaram. O garoto permanecia sedado, mas os irmãos conversaram com ele. “O meu caçula disse: ‘Vá para casa, Kaleb. Nós vamos mais tarde'”, lembra Fernanda, que chegou a colocar o filho já morto no colo. “Deixá-lo ir, depois de tanto sofrimento, trouxe muita paz”, diz ela, para quem Deus se tornou muito mais real depois de toda a experiência. “É claro que houve dor e desespero, mas a fé nos permitiu não permanecer lá e voltarmos a viver”.

Fonte: Daniele Madureira, São Paulo para a BBC News Brasil, 9 maio 2021

Pandemia agrava saúde mental de profissionais

A pandemia agravou outra pandemia que a sociedade já enfrenta há 30 anos, mas que vinha sendo silenciada por causa da estigmatização: a da saúde mental. “A gente tem a oportunidade de agora realmente escutar”, afirma Leandro Pereira Garcia, gerente sênior de gestão de saúde populacional na Amil /UHG. O médico participou de uma Live do Valor sobre o tema no último dia 29.

Uma pesquisa recente feita pela Fundação Dom Cabral (FDC) e Talenses Group, obtida com exclusividade pelo Valor, indica que a pandemia prejudicou a saúde mental de 73,8% dos 573 profissionais entrevistados. Do total, 40% ocupam posições gerenciais e 20,5% são diretores, VPs, C-Level ou conselheiro.

Entre as mulheres (que são 45% dos entrevistados), a pandemia prejudicou mentalmente 80,92% delas. O indicador também foi alto entre os mais jovens. Na geração Z (nascidos a partir de 1991), 80,65% disseram ter sido afetados. “Uma primeira explicação é que as gerações mais novas têm pouca autonomia, recebem as atividades para fazer e há pouco espaço para colocar intencionalidade, seu próprio ponto de vista”, afirma o coordenador da pesquisa Paul Ferreira, professor de gestão estratégica e diretor do Centro de Liderança da Fundação Dom Cabral.

Isso vai contra o que boa parte dessa geração espera da carreira. “Os mais jovens aceitam o trabalho por algo além do salário, tem a questão do propósito, de ter a oportunidade de fazer ‘o que eu faço melhor’, de impactar a sociedade. Essas questões estão afetadas pela pandemia, por não haver interações sociais”, disse. As mulheres, por sua vez, têm a sobrecarga das tarefas domésticas e do cuidado com os filhos, que ainda hoje recaem sobre o sexo feminino. “Percebemos que a produtividade das mulheres cai em relação a dos homens quando se tem uma ou duas crianças em casa”, afirma Luiz Valente, CEO do Talenses Group.

“Em paralelo, notamos que mesmo com uma percepção semelhante sobre a mudança no nível de cobrança por parte dos gestores entre homens e mulheres, uma parcela maior delas se sente pressionada a trabalhar mais para mostrar sua produtividade aos respectivos gestores. Aspectos como esses podem influenciar e impactar de diversas maneiras a vida das mulheres de forma negativa.”

É um ambiente que parece piorar algo que já não estava bom. Dados da Organização Mundial de Saúde (OMS) obtidos em um levantamento do ano passado mostram que o Brasil é o país mais ansioso do mundo e o quinto mais depressivo. “Com esse cenário, é urgente discutirmos o papel das organizações sobre o tema e as ações necessárias em prol da saúde mental dos colaboradores”, afirma Carlo Pereira, diretor-executivo da Rede Brasil do Pacto Global da ONU.

Junto com a Sociedade Brasileira de Psicologia e a InPress Porter Novelli, a Rede Brasil do Pacto Global lançou recentemente o movimento #MenteEmFoco. “É um espaço gratuito para as empresas levarem as melhores práticas para outras companhias replicarem e gerar mais conhecimento nesse tema tão importante”, diz Pereira. A iniciativa já conta com a participação de Ambev, Unilever, Hospital Sírio-Libanês, UPS, Grupo Conexa, Mapfre e Afya Educacional.

Ainda são poucas as empresas que endereçam o tema da saúde mental no Brasil: 18%, segundo Pereira. Mas algo, de fato, já está sendo feito. A Bee Touch, uma startup fundada em 2012 que oferece serviços de avaliação psicológica para empresas, registrou um aumento de avaliações durante a pandemia de 38%. “Mais empresas estão utilizando a plataforma para avaliar, predizer e monitorar os riscos psicossociais entre os seus colaboradores”, afirma Ana Carolina Peuker, CEO e fundadora da Bee Touch.

Para a empreendedora, hoje há uma maior conscientização sobre o impacto da saúde mental na força produtiva e isso aumentou a demanda pelo monitoramento digital de saúde mental. “A crise pandêmica colocou uma lupa em problemas psicológicos que já existiam entre os colaboradores, mas que foram exacerbados pela crise. Hoje, atendemos clientes com diferentes graus de maturidade, desde os inativos, que não sabem quais ações tomar quanto às questões de saúde mental, até aqueles que já estão numa posição reativa, buscando agir.”

Na Astellas Farma Brasil, falar de qualidade de vida está na pauta há alguns anos e, desde 2018 a companhia focou no pilar de saúde mental com o lançamento do “Origami-se”. Laís Mastantuono, diretora de recursos humanos da farmacêutica, diz que se trata de um programa de gestão emocional que tem como objetivo desmistificar o tema saúde mental e trazer para discussão tópicos considerados tabus, como ansiedade e depressão. Além disso, apresenta aos funcionários ferramentas de autoconhecimento e gestão do estresse. “O maior benefício observável do programa foi, sem dúvida, a criação de um ambiente ainda mais aberto e leve, uma maior conexão entre nossas pessoas e um maior senso de pertencimento, gerando ainda mais engajamento”, afirma Laís.

Desmistificar o tema da saúde mental também foi o objetivo do feriado corporativo decretado pela SAP globalmente no último dia 27 de abril para seus mais de cem mil funcionários. “A proposta foi chamar atenção para a necessidade de se manter atento à saúde mental e passar uma mensagem clara sobre a necessidade de realizar um balanceamento saudável entre vida pessoal e profissional”, afirma Fernanda Saraiva, diretora de recursos humanos da SAP Brasil. “Esse equilíbrio se faz ainda mais necessário diante de um momento desafiador como o atual, e quisemos reforçar a necessidade de falar abertamente sobre o tema no ambiente corporativo, sem estigmas e pré-julgamentos.” Em pesquisa interna global, a empresa constatou que um terço de seus funcionários estava passando por níveis de estresse superiores aos níveis de satisfação no trabalho.

A multinacional tem um programa de saúde mental chamado “Mental Health Matters” desde 2019. O objetivo é justamente criar um ambiente seguro e livre de preconceitos para se falar abertamente de doenças mentais, prevenção e bem-estar na área de saúde psicológica.

Oferecer um ambiente psicologicamente seguro é fundamental para prevenir questões de saúde mental entre os funcionários. “O quão seguro psicologicamente é o ambiente de trabalho para permitir que o indivíduo diga que está sofrendo assédio moral, que seu sofrimento é devido a coisas que acontecem no ambiente de trabalho?”, questiona Lisiane Bizarro, da Sociedade Brasileira de Psicologia. Para a especialista, se há abertura e acolhimento para o diálogo, há maior chance de a queixa ser feita pelo funcionário e endereçada de maneira coletiva pela empresa. “Se houvesse resolução, talvez muitas coisas fossem evitadas. Mas se isso não é bem recebido, a pessoa vai acomodando aquele sofrimento, começa a usar medicação. É um cenário que gera uma preocupação diária do que ela vai enfrentar, e vai minando a vida da pessoa. Afeta sua tomada de decisão em várias esferas.”

Ana Carolina Peuker, da Bee Touch, diz ter observado na plataforma da startup dados “muito preocupantes” relacionados com alta prevalência de doenças mentais como ansiedade e depressão, abuso de drogas – álcool principalmente – e medicamentos de uso controlado, como ansiolíticos e antidepressivos. Transtornos do sono também foram comuns nos últimos mapeamentos realizados. “O local de trabalho pode ser protetor, oferecendo um ambiente seguro psicologicamente, para que todas as pessoas possam falar abertamente sobre quem elas realmente são e o que sentem”, afirma Lisiane.

A construção de um ambiente seguro psicologicamente passa diretamente pelo exemplo da liderança. Carlo Pereira faz um comparativo ao mencionar a queda relevante dos acidentes de trabalho nas últimas décadas. “As empresas com caráter industrial têm o minuto para falar de segurança no trabalho antes de qualquer reunião”, diz. “Quando o CEO vai abrir um evento, ele sempre fala de segurança no trabalho. Isso foi internalizado de maneira efetiva na empresa. É um assunto trabalhado o tempo todo. Precisa ter isso para a saúde mental.” Para ele, a mensagem tem que vir da alta liderança. “Tem que ter o CEO comprando essa questão de maneira definitiva, passando essa mensagem para a empresa.”

A solução para as questões de saúde mental no ambiente organizacional é complexa. “Quando se pensa em qualquer doença e estado de saúde, não se pode pensar de forma fragmentada, tem que se pensar de forma sistêmica”, diz Garcia da Amil. “As doenças têm múltiplos desencadeantes, e com a saúde mental não é diferente.”

O médico explica que as condições que levam a uma boa ou má saúde mental vão desde a vida intrauterina e a infância até o trabalho, levando em conta o propósito pelo qual se exerce a atividade, a carga de trabalho e a segurança financeira, entre tantas outras razões. Para ele, quando se fala em abarcar a saúde mental, é preciso pensar em diversos aspectos: promoção e prevenção, identificação rápida e recuperação de quadros de agravo mental e inclusão.

Para Garcia, pensar apenas em ações pontuais de bem-estar como mindfulness e ginástica não é suficiente. “O mindfulness é fantástico, mas não deve ser aplicado sozinho, como solução total”, diz. “Ações que foquem o sistema de trabalho como um todo, uma liderança acolhedora, um ambiente promotor do diálogo, de confiança tanto para o CEO como para quem está dirigindo o ônibus. Quando a gente pensa na estrutura social do trabalho como um todo os resultados tendem a ser melhores. Não é que uma coisa seja contra a outra. Mas não se pode ficar com a cereja do bolo e esquecer do bolo.”

Fonte: Adriana Fonseca — Para o Valor, de São Paulo, 03/05/2021. 

Saúde mental ganha apoio de iniciativa da ONU para garantir existência das empresas no futuro

A preocupação com o estado emocional dos funcionários acelerou para um ano o que iria levar algumas décadas para ocorrer e não deixará de ser prioridade dos líderes empresariais quando a pandemia acabar, na avaliação de um grupo relevante de empresas que decidiu aderir à iniciativa lançada nesta quinta-feira pela Rede Brasil do Pacto Global da ONU e pela agência de comunicação InPress Porter Novelli, em parceria com a Sociedade Brasileira de Psicologia (SBP).

O movimento, chamado #MenteEmFoco, convida empresas e organizações brasileiras a reconhecer a importância da saúde mental no ambiente de trabalho e a agir em benefício de seus colaboradores, e da sociedade como um todo, para combater o estigma e o preconceito social ao redor do tema. Na largada, já conta com a assinatura de AmbevUnileverHospital Sírio-LibanêsUPSGrupo ConexaMapfre Afya Educacional.

A iniciativa exige compromissos claros por parte das empresas signatárias, como: ter um profissional de referência para aconselhamento e atendimento; oferecer orientação e manejo de crises; garantir a avaliação permanente dos colaboradores; e manter gestores engajados, com treinamento para atuar em relação ao tema e orientação sobre as melhores condutas, sendo agentes de transformação e de promoção da segurança psicológica.

Além disso, devem: criar um programa “antiestigma”, promovendo debates abertos e intervenções em grupo com assuntos que busquem reduzir o estigma relacionado ao sofrimento psíquico, inserindo-o como pauta permanente na organização; e realizar ações de incentivo à saúde mental, como campanhas e iniciativas para incentivar práticas culturais, esportivas, de nutrição, bem-estar, educação, entre outras, a partir de demandas identificadas no ambiente de trabalho.

“O movimento traz a saúde mental para o centro da discussão e da tomada de decisão dos líderes. Precisamos tratar esse tema, não apenas de forma pontual e emergencial, mas como parte da gestão estratégica das empresas”, disse a CEO da InPress, Roberta Machado, durante o webinar de lançamento.

Segundo o diretor executivo da Rede Brasil do Pacto Global da ONU, Carlo Pereira, as empresas estão passando por uma transição de uma economia de acionistas para uma economia de “stakeholders”, interessados de modo geral, o que inclui funcionários e a comunidade em que estão inseridas.

Por isso, devem cuidar de maneira “definitiva e assertiva” da saúde mental dos seus colaboradores, promovendo um ambiente de trabalho saudável, o que vai além de ter um psicólogo à disposição deles – o que é importante, ele diz, mas é pouco – e de “apagar incêndio”, como é o caso da pandemia agora.

“A empresa é fonte de informação que deveria ser segura para os seus funcionários e a população em geral. Tem que promover iniciativas de comunicação para além de práticas gerais e desportivas”, diz o dirigente brasileiro da iniciativa da ONU para engajar empresas e organizações na adoção de dez princípios nas áreas de direitos humanos, trabalho, meio ambiente e anticorrupção.

A saúde mental, segundo ele, é um desdobramento do fator “S” da sigla ESG (environmental, social and corporate governance, ou “governança ambiental, social e corporativa”, em português), tão em moda ultimamente como forma de medir o impacto de um negócio na comunidade em que está inserido, e suas consequentes perenidade e lucratividade no futuro.

O presidente da Sociedade Brasileira de Psicologia (SBP), Ronaldo Pilati, concorda que o assunto da saúde mental nas empresas não se esgota com a contratação de um profissional da área. “Não adianta ter profissional especializado no atendimento individual no ambiente da organização para resolver os problemas”, diz.

“Se eu entendo de uma forma multifatorial, tenho também que entender que as ações da maneira como o trabalho é organizado, as condições de trabalho que são oferecidas, a maneira como treino e oriento líderes para se relacionar com subordinados, tudo isso tem que ter como um dos motes essa perspectiva de promoção da saúde”, conclui Pilati.

A diretora do núcleo de Saúde e Bem-Estar da InPress, Ana Domingues, lembra que o Brasil já era considerado país mais ansioso do mundo pela Organização Mundial da Saúde (OMS) antes da pandemia. A situação se tornou ainda mais preocupante agora, com recordes nos pedidos de auxílio-doença e aposentadorias por invalidez sob a alegação de transtornos mentais, em 2020, e pesquisas apontando um crescimento de 80% dos diagnósticos de ansiedade de maio a julho no país, contra 30% em outras nações, segundo ela.

“O primeiro tabu que queremos quebrar é tirar o peso da saúde mental apenas do indivíduo. Claro que existe responsabilidade de cada um, mas não podemos fechar olhos enquanto sociedade, enquanto empresa”, diz a executiva.

Outro padrão que precisa mudar é o de se falar em saúde mental apenas a partir do “seu inverso”, a doença, segundo o consultor de saúde da Rede Brasil do Pacto Global da ONU, Thiago Lavras Trapé. Segundo ele, a pandemia traz a oportunidade e a urgência de se falar de saúde mental, já que as pessoas estão mais preocupadas com o assunto, diante das milhares de mortes diárias.

Para quem ainda não entendeu que a preocupação com a saúde mental dos colaboradores não é mera questão de imagem ou de responsabilidade das empresas com a comunidade, que já seriam preocupações bastante relevantes, a diretora de desenvolvimento organizacional e cultura na Unilever Brasil, Ana Paula Franzoti, desenha: “claro que é utopia achar que estamos bem em todos aspectos da vida, mas, se o funcionário está bem, ele prospera em diferentes aspectos da vida dele, profissionalmente, pessoalmente”.

“Todo mundo vai continuar passando por situações. Então, não é para ser movimento específico desse momento, isso envolve muita cultura”, diz a head de saúde mental, diversidade e inclusão na Ambev para América do Sul, Mariana Holanda, também presente ao lançamento online.

Um obstáculo para tratar do assunto internamente nas empresas é a dificuldade de se obter dados consistentes sobre o estado emocional dos funcionários. “Ainda é difícil pegar dados, porque tem parte de estigma. A gente não consegue alcançar todas as pessoas, em todos os cargos, tem gente que não bate ponto, não entrega atestado, e essas informações são importantes para a trajetória ser consistente”, diz Mariana.

É aí que entra o papel do líder, para além do chefe. “A cultura é a base para implementar qualquer política que a gente queira para promover bem-estar do funcionário. O funcionário vai se inspirar no que o líder faz. Se ele não respeita a cultura da empresa, o funcionário também não vai respeitar. Isso coloca toda a cultura da empresa em xeque”, diz Ana Paula, da Unilever.

“A gente precisa desenvolver uma cultura de saúde mental que esteja atrelada à estratégia de negócio e muito bem amparada por essa visão de futuro. Cada vez que a organização desenvolve e pratica um modelo de gestão e coloca o público interno no centro dessa estratégia, fica mais fácil a gente mudar o ‘mindset’ e engajar o público interno para conseguir desenvolver todas as mudanças necessárias”, diz a diretora de comunicação interna da InPress, Milena Fiori.

Segundo ela, essas ações têm que acontecer de forma genuína e continuada. “Tem que ser perene, não pode ser só um movimento curto, num período de tempo”, ela conclui.

Fonte: Felipe Frisch, Valor — São Paulo, 08/04/2021.

Saúde mental de profissionais é posta em evidência com pandemia

Gabriel já se considerava um pouco ansioso antes da pandemia, mas os sintomas se agravaram com o isolamento social e o home office. Foto: Werther Santana/Estadão

Há mais de 50 dias trabalhando de casa, a servidora pública Maria Cláudia Mendes, de 33 anos, foi surpreendida com sintomas de ansiedade nunca antes vivenciados. Embora o cargo a garanta uma dose de estabilidade, o receio de um possível corte de salário associado à cobrança por produtividade e a medos comuns na pandemia do novo coronavírus a levaram a episódios de taquicardia e insônia. “Logo eu, que sou conhecida por dormir até no meio da balada”, diz.

A história de Maria Cláudia se parece com a de muitas outros profissionais que têm convivido com a ansiedade. Uma pesquisa realizada pela startup Pulses, que desenvolve ferramentas para medir o clima organizacional, apontou que 54% dos entrevistados estão tendo níveis de ansiedade médios e altos durante a quarentena. Entre eles, as mulheres são as que se sentem mais ansiosas.

“O contraponto disso tudo é que 80% se sentem superprodutivos. Esse excesso começa a gerar mais ansiedade e estresse. A grande preocupação é que, lá na frente, isso pode levar a um aumento de doenças como o burnout (esgotamento profissional)”, destaca o CEO da Pulses, Cesar Nanci. Foram ouvidos mais de 89 mil funcionários de 261 empresas nacionais (73% são startups ou pequenas, 18% são de médio porte e 9% são grandes) para a pesquisa, que está disponível gratuitamente para as organizações.

O analista financeiro Gabriel Alves em consulta com seu psicólogo, Marcos Lopes, durante sessão de terapia oferecida pela GetNinjas. Foto: Werther Santana/Estadão

Um estudo da Universidade do Estado do Rio (Uerj), publicado online pela revista The Lancet na última semana, ainda revelou que casos de ansiedade e estresse mais do que dobraram, enquanto os de depressão tiveram aumento de 90%, durante a pandemia da covid-19 no Brasil.

Primeiro, é preciso entender o que é exatamente a ansiedade. “Sentir um pouco é natural. Ela vira um transtorno quando começa a atrapalhar a vida e a capacidade cognitiva. O pensamento fica acelerado, atrapalha o sono, surgem efeitos fisiológicos como taquicardia, sudorese, falta de ar”, explica a psicóloga Luciene Bandeira.

Compreender os gatilhos que levam uma pessoa aos sintomas da ansiedade fica ainda mais fácil durante uma pandemia. “É uma mudança na rotina, inesperada e indesejada. A frustração deixa as pessoas mais sensíveis e irritadas. Junta a isso um monte de medos e incertezas: medo de pegar a covid-19, perder alguém que ama, ficar sem emprego, ter o salário reduzido. Toda incerteza gera medo e ele, muitas vezes, é o fermento da ansiedade.”

Por isso, é preciso que as empresas assumam a responsabilidade de ajuda no cuidado da saúde mental dos funcionários. Para Ruy Shiozawa, CEO da Great Place to Work Brasil, consultoria global de organizações, o novo normal – que surgirá após a pandemia do coronavírus – deixará em evidência o maior cuidado na gestão de pessoas.

“A visão tradicional de que a vida profissional é uma coisa e a pessoal é outra está caindo por terra. A saúde mental é mais delicada porque existe preconceito. A empresa não quer ouvir, e a pessoa não quer falar para que isso não deponha contra ela. É absolutamente normal que as pessoas estejam com medo e preocupadas. O que não podemos é fazer de conta que não existe. Isso também afeta a produtividade”, explica.

Empresas prestam assistência psicológica

Para ir na raiz do problema, muitas empresas têm investido no acompanhamento psicológico para os funcionários. Na GetNinjas, aplicativo de contratação de serviços, a demanda veio dos próprios colaboradores por meio de uma ferramenta que avalia o clima interno.

Com o pedido, a organização selecionou os cinco psicólogos mais bem avaliados de sua base de serviços, e os cerca de 100 funcionários têm direito a quatro sessões mensais de 50 minutos, gratuitamente, mesmo após o fim da pandemia. Em duas semanas desde o lançamento, a iniciativa teve adesão de 25% dos colaboradores.

“O Organização Mundial da Saúde (OMS) diz que o Brasil é o País mais ansioso do mundo, são 18 milhões de pessoas impactadas pela ansiedade e isso traz a depressão. O ser humano está sendo tirado da zona de conforto. Tem muita empresa só mandando cadeira, computador. Mas como as pessoas estão se sentido, como trazemos conforto emocional?”, destaca a diretora de Pessoas e Cultura da empresa, Andréia Girardini.

O analista financeiro Gabriel Alves, de 22 anos, foi um dos funcionários que aderiu ao programa. Ele diz que, antes da pandemia, já era um pouco ansioso e estressado, mas os sintomas se agravaram com o isolamento social e o home office.

“Eu tento manter uma rotina. Acordo, tomo café, banho e começo a trabalhar, mas acabo me sentindo mais ansioso, não só pelo trabalho, mas pela vida pessoal também. Eu perco o sono, deito e fico pensando no futuro, se eu estarei empregado, ou lembro de algo do trabalho que eu poderia ter terminado de fazer, acabo levantando e fazendo. Eu sempre roí unhas, mas agora se agravou bastante”, conta.

Além do acompanhamento psicológico, a psicóloga Luciene Bandeira também destaca que atividades associadas à saúde física contribuem para um impacto positivo na saúde mental.

Na Wavy Global, empresa do segmento de experiência do consumidor, a aposta foi em implementar momentos de descompressão para os cerca de 300 funcionários no Brasil, como aulas de ioga, meditação, ginástica laboral e happy hour virtual com música ao vivo.

Gabriel já se considerava um pouco ansioso antes da pandemia, mas os sintomas se agravaram com o isolamento social e o home office. Foto: Werther Santana/Estadão

“Ainda que a empresa já tivesse alguns funcionários em trabalho remoto, não estamos no home office tradicional. Percebemos que precisávamos focar nas pessoas porque iriam surgir demandas, até mesmo casos de ansiedade”, explica a diretora de gente, Marcela Martins.

Embora não sejam obrigatórias, as atividades costumam ter bastante adesão, diz Marcela. “Da ioga e da meditação mais de 50% dos funcionários participam. Nos encontros com música ao vivo – feita pelos colaboradores que têm banda, que cantam – a adesão é de quase 80%.”

Comunicação transparente e limites do home office

Um dos pontos mais importantes no momento é a comunicação com os funcionários. “Não é porque estamos trabalhando de modo remoto que a proximidade não pode existir. Você tem muitas ferramentas a disposição para dialogar, para saber das ansiedades. É na comunicação oficial da empresa que percebemos mais falhas”, afirma o CEO da Great Place to Work Brasil.

O conselho dos especialistas é claro: seja sincero com o colaborador. Não dizer nada pode levar a níveis de ansiedade maiores. “O plano da empresa precisa ser transparente. Pegando as pessoas de surpresa você cria uma cultura do medo”, explica Shiozawa.

É justamente a comunicação aberta que tem ajudado a farmacêutica Lívia Freitas, de 24 anos, a lidar com a ansiedade e a síndrome do pânico, já diagnosticados há cinco anos. Funcionária de uma empresa do segmento de pesquisas clínicas, ela conta ficar mais tranquila diante do modo com que os chefes têm se relacionado com os funcionários.

“Já recebi mensagem da minha chefe perguntando como eu estava me sentindo. Semanalmente, temos reuniões para discutir projetos e, no final, conversamos um pouco sobre como tem sido passar por tudo isso. Também já tivemos uma reunião com o administrativo e eles deixaram claro que manterão o home office, os salários e os benefícios.”

Trabalhar de casa pode ser prazeroso e produtivo, mas o despreparo de empresas com o home office faz com que os horários não sejam respeitados. “Um relato comum é que estão trabalhando mais horas, que tem sido difícil colocar limite. Isso está gerando desgaste, o que pode levar a muitos casos de burnout”, conta a psicóloga Luciene.

A pressão pela produtividade, ao lado das notícias sobre o coronavírus e o isolamento social morando sozinha, deixou a assessora judiciária Marcela Machado, de 28 anos, ansiosa. “A desvantagem do home office nessa época é que, por não termos muitos compromissos, acabamos trabalhando muito mais tempo. Já cheguei a trabalhar 12 horas seguidas, o que não significa que rendi bem. Parece que em casa sou mais devagar”, conta. Mesmo usando ansiolítico, Marcela tem sentido dificuldade para dormir.

A preocupação com o trabalho também é motivo para a ansiedade da bacharel em direito L.S. “As pessoas não respeitam o horário. Se eu não fugir do WhatsApp, sou bombardeada o dia inteiro. Já tive que colocar o celular no modo avião para não ser encontrada nos horários que eu não estaria trabalhando se ainda estivesse indo ao local físico. A cobrança por produtividade está cada vez maior.”

Para começar a lidar com episódios de ansiedade

  1. Use a respiração diafragmática: Quando sentir que está começando a ficar inquieto, com agitação, tremor, batimento cardíaco acelerado, coloque as mãos na barriga, puxe o ar pelo nariz inflando a barriga como um balão, e solte o ar lentamente pela boca. Repita de 3 a 10 vezes.
  2. Respire dentro de um saco de papel: Quando ficamos ansiosos tendemos a respirar mais rápido e de forma mais curta. Isso provoca hiperventilação que desencadeia sintomas como tontura e taquicardia. Coloque a boca e o nariz dentro do saco e respire. Assim, o gás carbônico equilibra os níveis de oxigênio no organismo.
  3. Liste as preocupações: Escreva todas as preocupações em um papel e depois classifique quais dependem de você e quais não te dizem respeito. A partir daí, dê atenção apenas àquelas sobre as quais você tem algum poder de interferência

Fonte: Marina Dayrell, O Estado de S.Paulo, 10 de maio de 2020.