Inteligência Competitiva: uma agenda para a produtividade na AL, por Raquel Balarin

Leilane é babá, com carteira assinada. Já teve que faltar várias vezes ao trabalho porque não tinha onde deixar o filho Pedro, de quatro anos. Moisés trabalha em uma distribuidora de frutas e legumes na Ceagesp, em São Paulo. Volta e meia tem dificuldade para chegar ao trabalho, seja por causa de um temporal que alaga as marginais, importantes vias rodoviárias de São Paulo, seja por causa de um viaduto que cede quase 1,6m sem que ninguém saiba o porquê.

O que liga as histórias de Leilane e Moisés é o efeito que suas ausências ou atrasos no trabalho têm na produtividade. O jornalista Michael Reid, da revista “The Economist”,classificou essas dificuldades de “entorno do trabalho” – uma das oito grandes questões que, segundo ele, têm contribuído para que a produtividade na América Latina patine nas últimas décadas (ver quadro).

Apesar de diferentes governos e economias diversas, a América Latina carrega o traço comum da baixa produtividade, mesmo quando os números da região são comparados aos de outros países emergentes ou a setores em que o bloco tem vantagens competitivas, como mineração. “A média do produto por trabalhador na região está abaixo de 50% em relação à média dos Estados Unidos em nove de dez setores estudados”, diz Pablo Sanguinetti, vice-presidente de Conhecimento do CAF, Banco de Desenvolvimento da América Latina.

O CAF lançou há menos de um mês um dos mais amplos estudos sobre a região, “Instituciones para la productividad“, disponível (em espanhol), aqui. Para o banco, o tema é chave para o crescimento econômico e social da América Latina nos próximos anos, já que a região enfrenta o fim do “boom” das matérias-primas – que teve participação importante nos 4,1% de crescimento da região entre 2003 e 2012 (0,9% entre 2013 e 2017) – e uma mudança demográfica relevante,com redução da força de trabalho até 2040.

Informalidade atinge 50% da PEA da América Latina

Em reunião com jornalistas latino-americanos promovida pela Fundação Gabriel García Márquez (FNPI) em Bogotá, na Colômbia, no início de novembro, Michael Reid sintetizou o que é tratado de forma profunda no relatório do CAF. E apresentou uma agenda de produtividade para a América Latina, com oito questões que devem ser atacadas: 

  1. Falta de capital humano -Empresas latino-americanas informam que têm dificuldade de contratar trabalhadores capacitados. Na região, apenas 10% dos trabalhadores recebem algum curso de capacitação ao ano, em comparação com 50% nos países desenvolvidos. A educação é outro problema. Não basta aumentar o número de alunos nas escolas. É preciso melhorar a qualidade do ensino.

2. Falta de capital físico – A região reduziu nos últimos anos seu investimento em capital fixo, para 18,7% do PIB entre 2015 e 2017. Para um crescimento de 6% ao ano, seria necessário investir em capital fixo 25% do PIB.

3. Falta de estrutura logística -A região tem um volume de investimentos em infraestrutura abaixo do necessário.”Há falta de capital, mas, sobretudo, há falta de capacidade de execução”, diz Reid. Para avançar com a construção do gasoduto do Sul, no Peru, por exemplo, foram necessárias 4.102 permissões diferentes, o que ampliou o custo do projeto e atrasou sua execução. O investimento em infraestrutura na China é de 9% do PIB; na Índia, de 6% do PIB; e, na América Latina, de 3%.

4. Falta de concorrência – Com exceções como o Brasil, a região tem mercados nacionais pequenos. Muitas empresas que operam na América Latina detêm o monopólio em seus setores ou são oligopolizadas. Regras complexas e informalidade impedem crescimento de pequenas e médias e inviabilizam o surgimento de competidores para as grandes companhias. Faltam regulações antimonopólios. No estudo do CAF, há ainda uma avaliação crítica da concentração do setor financeiro brasileiro.

5. Falta de inovação – Investimento em pesquisa e desenvolvimento na América Latina é de 0,8% do PIB.Na China, 1,8% do PIB. O Brasil está melhor que a região – com 1,2% do PIB.

6. Informalidade/ilegalidade – O dado é alarmante: cerca de 50% da População Economicamente Ativa (PEA) daregião está na informalidade. Trabalhadores informais têm produtividade menor e não recebem capacitação. Reduzir o altamente regulado mercado de trabalho é indicado como uma das saídas, mas a questão é bastante complexa porque envolve traços culturais latino-americanos.

7. Dificuldades no entorno da empresa – Falta de creches, dificuldade para se chegar ao trabalho e, em alguns casos, falta de terrenos para expansão de empresas são questões pouco estudadas, mas com impacto importante na produtividade.

8. O problema político – Partidos e políticos da região têm foco no curto prazo, enquanto a produtividade envolve problemas que não podem ser resolvidos do dia para a noite. A conscientização dos políticos de que a manutenção de avanços sociais alcançados neste século na região depende da melhora da produtividade é essencial.

O início de novos governos em boa parte da região (Brasil, Colômbia, Peru e México) pode ser uma boa oportunidade para dar início aos trabalhos.

Fonte/autora: Raquel Balarin, diretora de Conteúdo Digital, Valor Econômico, 04/12/2018 – 05:00

Leia: “Abertura Comercial para o Desenvolvimento Econômico”

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Buscando estimular o debate qualificado sobre um tema que vem ganhando espaço na mídia nas últimas semanas, a SAE/PR recentemente lançou o seu terceiro Relatório de Conjuntura intitulado “Abertura Comercial para o Desenvolvimento Econômico”.

O documento explora os caminhos, vantagens e desafios que o processo de maior liberalização da economia brasileira enseja e foca em proposições para as políticas comercial, industrial e de mercado de trabalho no Brasil.

O estudo tem sido destaque na imprensa nacional e internacional, merecendo análises positivas nos jornais americanos The New York Times e The Wall Street Journal.

Produzido ao longo dos últimos seis meses pela equipe da SAE/PR, o relatório baseia-se não apenas no que há de mais recente na literatura mundial sobre economia internacional e políticas ativas de mercado de trabalho, mas principalmente em evidências empíricas sobre esses assuntos.

Ao comparar o Brasil com países com níveis de renda e população semelhantes, percebe-se que ainda há muito o que avançar para que o País efetivamente se integre às cadeias globais de valor, gerando ganhos de produtividade e aumento do poder de compra dos brasileiros.

Para acessar o relatório completo, clique aqui.

Fonte: Secretaria Especial de Assuntos Estratégicos da Presidência da República. 

Inteligência Competitiva: Autor descreve produtividade e erros a partir de histórias reais

Por que algumas empresas conseguem produzir mais consumindo menos recursos? E qual é o segredo daquelas pessoas que fazem bem mil coisas no trabalho e ainda têm tempo para ficar com a família, oferecer trabalho voluntário e também tirar uma semana de folga nos meses de maior movimento do ano?

O novo livro do jornalista do “New York Times” Charles Duhigg, autor do best-seller “O Poder do Hábito”, procura responder a questões sobre produtividade e eficiência empresarial narrando diversos casos de sucesso nos negócios, como a construção dos algoritmos de busca do Google, além de fracassos empresariais e tragédias como a do voo 447 da Air France, que caiu em 2009 no trajeto entre o Rio e Paris.

É aí que o trabalho de repórter de Duhigg, excelente contador de histórias, difere do dos demais autores de autoajuda empresarial vin- do dos cursos de MBA (Master in Business Administration) das escolas de negócios. Os exemplos são histórias reais e recentes do jornalismo de negócios.

No livro, Duhigg atribui um papel importante na produ- tividade das empresas ao entrosamento de equipes como a dos anos iniciais do programa “Saturday Night Live”. Mais do que apostar em es- trelas reconhecidas do público, os produtores procuraram misturar estaturas diferentes de talentos para levar variedade e dar movimento ao programa.

Apesar do clima competitivo no elenco, atores e escritores se sentiam bastante à vontade para apresentar as ideias mais malucas e improváveis a fim de segurar a audiência do programa. É o que Duhigg chama de “segurança psicológica” dos membros de uma equipe, tornando as pessoas menos preocupadas com o fracasso individual e mais comprometidas com o produto coletivo final.

Ele sustenta que esse nível mínimo de segurança individual é mais importante no sucesso das equipes do que ideias consideradas ultrapassadas que pregam o consenso nas decisões, impõem desafios constantes aos altos executivos e mandam colocar juntos, no mesmo prédio, os funcionários que pertencem ao cérebro de uma empresa.

MOTIVAÇÃO

Outro destaque do livro é o papel da motivação das equipes e dos indivíduos, provavelmente o assunto mais discutido nos manuais de gerenciamento de pessoas.

Nesse capítulo, o autor foi buscar na medicina explicações para apontar a necessidade da motivação a fim de criar propósito na vida das pessoas e na missão das empresas. Descreveu como um irrequieto homem de negócios se tornou uma pessoa apática, prostrada à frente da televisão, após um pequeno acidente vascular na região do corpo estriado, no centro do cérebro.

Para Duhigg, a motivação está diretamente ligada à capacidade das pessoas de fazer as próprias escolhas e saber que estão no comando das suas vidas. Isso, afirma ele, explica por que os prestadores de serviços freelancers por períodos temporários são aparentemente mais motivados em determinados trabalhos do que os demais funcionários do quadro fixo de uma empresa.

FOCO

Por outro lado, o autor mostra como a falta de foco, a visão estreita dos acontecimentos e o pouco entrosamento nas equipes podem levar a erros grosseiros, a decisões que custam a viabilidade de empresas e também a desastres aéreos, como o do voo 447 da Air France.

No acidente, que causou a morte de 228 pessoas, as investigações apontaram que o computador de bordo deu ordens inconsistentes para a tripulação, que, sem treinamento apropriado para manejar o avião em grandes altitudes, não soube reagir. Isso fez a aeronave cair até bater no mar.

Para Duhigg, diante do desconhecido, o piloto pode ter tido uma espécie de confusão mental que chama de “túnel cognitivo”. Isso ocorre, afirma ele, em momentos em que uma pessoa sai abruptamente de um estado relativamente confortável de atenção (o piloto automático) para uma situação de pânico.

“As pessoas ficam foca das demais naquilo que está diretamente em frente aos seus olhos e se tornam preocupadas apenas com as ta- refas imediatas. É o que faz os motoristas pisarem imediatamente no breque quando veem uma luz vermelha à frente.”

O livro será lançado no Brasil pela Objetiva em maio, com o título “Mais Rápido e melhor”.

Smarter, Faster, Better – The Secrets of Being Productive in Life and Business
AUTOR Charles Duhigg
EDITORA Penguin Random House
QUANTO US$ 14,99 (e-book) na Amazon (400 págs.)
AVALIAÇÃO bom

Fonte: TONI SCIARRETTA, COLABORAÇÃO PARA A FOLHA DE S.PAULO, 26/03/2016