O econômico abre espaço para o social no novo mundo corporativo, por Marisa Eboli

The Aspen Institute

Há dez anos participei do Seminário de Liderança no Aspen Institute (Colorado, EUA), um centro de excelência de classe mundial. Foi fundado há 70 anos pelo empresário Walter Paepcke, presidente da Container Corporation of America, e pelo filósofo Mortimer Adler, redator geral da Enciclopédia Britânica e líder dos seminários sobre Grandes Livros, na Universidade de Chicago.

Este seminário visa desafiar líderes com perfis diferentes a refletir mais crítica e profundamente sobre a “boa sociedade” que gostariam de construir. O evento consiste na leitura e na discussão de seleções de obras de escritores clássicos e modernos. Desta forma, os líderes entendem melhor os desafios enfrentados pelas organizações e comunidades a que servem. Desde então, sempre recebo mensagens sobre a programação de Aspen, incluindo cursos e livros.

Recentemente, aunciaram o lançamento do livro The Six New Rules of Business, de Judy Samuelson, que é diretora executiva do Programa de Negócios e Sociedade do próprio Aspen Institute. Por mais de 25 anos trabalhou na vanguarda do pensamento sobre o propósito dos negócios. Diálogos multissetoriais e plurianuais liderados por Judy deram origem aos “Princípios de Aspen” e “Princípios Modernos para Remuneração de Executivos”.

Diante de propostas tão intrigantes, resolvi comprar seu novo livro. Compartilho com você, leitor, os pontos centrais abordados pela autora.

Logo no prefácio ela cita e endossa uma frase de Nitin Nohria, Dean da Harvard Business School. Vale a pena pensar no que diz: “Nenhum dos principais problemas que o mundo enfrenta hoje em dia, tais como sustentabilidade, saúde, pobreza e reforma do sistema financeiro, poderá ser resolvido a menos que o mundo corporativo desempenhe um papel significativo.”

Judy explica como chegou a essa conclusão. Foi durante seu tempo na Fundação Ford que começou a pensar concretamente sobre as corporações, o papel e a influência do setor privado. Em 1995, em uma reunião dos curadores da fundação, fizeram-lhe uma pergunta para a qual ela não tinha uma resposta: “Por que ninguém na Fundação Ford fala sobre negócios?”

A partir deste episódio, ela e os colegas começaram a estudar empresas que haviam seguido um caminho alinhado à missão de contribuir para o desenvolvimento econômico da fundação. Algo fez com que os líderes dessas empresas incluíssem os impactos sociais em seu modelo de negócios. Muitos deles viram oportunidades de negócios em lugares onde não se esperaria.

Na Levi Strauss, por exemplo, os valores da família fundadora apoiavam o investimento de longo prazo nas comunidades onde fabricava jeans. O Bank of America foi levado a reinvestir nas comunidades de onde vinham os depósitos. Uma campanha agressiva liderada por uma ONG forçou a Nike a eliminar de sua cadeia de suprimentos práticas exploradoras de trabalho, o que por sua vez inspirou a empresa a ir mais longe e elevar o nível de seu setor, levando com isso os concorrentes a políticas similares. A Texas Instruments encontrou vantagem competitiva em uma força de trabalho racialmente diversa e que refletia a demografia de seu estado – e de seus futuros clientes.

Em cada caso, observa Judy, a mentalidade ou o envolvimento pessoal do CEO foi fundamental para alinhar a cultura com criação de valor real para os negócios. Por código moral ou necessidade, ou ambos, eles foram capazes de ir mais longe, ou interpretar de forma diferente, o objetivo de maximização do lucro. “Era como se esses líderes estivessem jogando com um conjunto diferente de regras”, sentencia.

A partir de sua experiência e de muita pesquisa, a autora destaca como a transparência impulsionada pela internet e mesmo mudanças profundas no papel do capital levam ao estabelecimento de novas regras de criação de valor, substituindo as antigas. Judy Samuelson apresenta então seis novas regras, em substituição às anteriores:

REGRA #1: Reputação, confiança e outros fatores intangíveis geram valor comercial nos negócios

A confiança dos funcionários e dos parceiros de negócios são também fontes de valor real. É necessário quebrar as barreiras entre a saúde do negócio e a saúde do ecossistema de negócios.

Substitui a regra antiga: Os ativos tangíveis determinam o valor da empresa.

REGRA #2: As empresas atendem a muitos objetivos, além do valor para o acionista

A corporação define seu propósito, escolhe seus objetivos e eles também são revelados pela maneira pela qual a empresa opera e pelas decisões que toma.

Substitui a regra antiga: “Valor para o acionista” ou “maximização do lucro” é o princípio organizador da corporação.

REGRA #3: A responsabilidade corporativa é definida muito além dos portões da organização

A responsabilidade social corporativa é um alvo móvel: estende-se por toda a cadeia de abastecimento e ecossistema.

Substitui a regra antiga: A responsabilidade social corporativa é definida pelas comunidades anfitriãs e vizinhos próximos, devendo a empresa criar empregos, apoiar serviços locais e instituições cívicas, bem como conter a poluição da localidade.

REGRA #4: Funcionários identificam riscos tanto quanto vantagens competitivas

Os funcionários são aliados dos negócios em um mundo em mudança: eles identificam riscos futuros e veem oportunidades de negócios que podem ser incorporadas em novas normas sobre sustentabilidade e responsabilidade social, por exemplo.

Substitui a regra antiga: Mão de obra é um custo a ser minimizado. Os sindicatos e o ativismo dos funcionários aumentam os custos e impedem a gestão de fazer seu trabalho.

REGRA #5: A cultura organizacional reflete-se na gestão dos talentos

A criação de valor emerge da cultura organizacional. O CEO concentra-se em relacionamentos importantes. As vantagens competitivas são obtidas por meio de um atendimento ao cliente de nível superior, centrado no ser humano e em modelos de negócios sincronizados com um propósito.

Substitui a regra antiga: O capital é a regra e deve-se prestar contas aos acionistas, que são os “donos” da empresa

REGRA #6: Cocriar para vencer

Quando o próprio sistema está em risco, a criação de valor real requer o recrutamento de parceiros de negócios ao longo de toda a cadeia de abastecimento. Tanto ONGs quanto concorrentes podem ser aliados nestas inovações.

Substitui a regra antiga: Competir para vencer, pois a competição impulsiona a inovação e o crescimento.

Algumas reflexões

Tradicionalmente, negócios são negócios. Se sobrar tempo e dinheiro, dá-se uma olhada nos problemas sociais do entorno. É ganhar dinheiro de um lado e, se for possível, responsabilidade social de outro.

Lá das montanhas de Aspen aparecem correções de rumos para as empresas. Em vez de se pautar pelo objetivo de lucro puro, devem mesclar sua missão de servir à comunidade com seu propósito e seus objetivos econômicos. Ou seja, o econômico abre espaço para o social.

Mas o real valor desta proposta reside no fato de que é apenas aparente o sacrifício dos objetivos econômicos puros. Em outras palavras, não é mau negócio servir também à sua missão social. Pode haver uma bela sinergia entre as duas direções. Nesse sentido, é crucial o tom de mudança dado pelos CEOs, disseminando o propósito e a cultura organizacional a ser praticada pelos demais executivos e suas equipes.

Essa lente nos negócios não anula a necessidade de regulamentação governamental, de políticas e de investimento público. Na verdade, os negócios também são um poderoso influenciador das políticas públicas. Os negócios são a instituição mais influente de nossos dias, e devem enfim usar a sua voz!

* Marisa Eboli é doutora em Administração pela Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP e especialista em educação corporativa. É professora de graduação e do mestrado profissional na FIA Business School (meboli@usp.br).

Fonte: Publicado no Estadão, 26 de abril de 2021.

Por que me afastei do ecossistema de startups? Por Monique Fernandes

Muito me perguntam o motivo pelo qual me afastei do mercado de startups e o que me leva a não querer mais trabalhar no setor. Digo a vocês que foi uma série de motivos que estavam desalinhados com as minhas crenças e valores e que foram acontecendo ao longo desses oito anos atendendo startups.

Então, vou contar para vocês que motivos são esses que me levaram a querer sair desse mercado.

Eu comecei a trabalhar com startups muito antes delas se tornarem atrativas, por aqui, no Brasil. Na época, quem se interessava em criar uma startup eram os nerds desenvolvedores de software e eu caí de paraquedas nesse mundo.

Apesar de ter cursado o técnico em processamento de dados no ensino médio, a faculdade de jornalismo me levou para bem longe do mundo da tecnologia. Porém, em 2011, comecei a namorar um desenvolvedor e passei a frequentar os meetups de TI com ele, em pouco tempo, estávamos organizando o nosso.

Organizar esse evento foi uma vitrine e tanto para minha assessoria de imprensa. Afinal, a divulgação do meetup era feita pela minha empresa e o crescimento da mesma era diretamente proporcional ao crescimento do evento.

Em pouco tempo, eu tinha virado referência em assessoria de imprensa para startups. Me especializar nesse segmento não foi planejado. Simplesmente, aconteceu! Quando me dei conta, o meu portfólio inteiro era composto por startups, então, aproveitei o cenário e nadei de braçada enquanto esse oceano foi azul.

Nos oito anos a frente de uma assessoria de imprensa especializada em startups, atendi mais de 100 clientes (entre empresas, pessoas físicas, fundos de investimento, aceleradoras e eventos).

E isso me exigia cumprir algumas obrigações, como ir em praticamente a todos os eventos de startups e empreendedorismo que aconteciam no país, pois, ou estava acompanhando cliente, ou estava prospectando. Quando não estava fazendo os dois ao mesmo tempo!

Circular em muitos ambientes e lidar com muitas pessoas, me fez ter acesso a muitas informações e muitas histórias de bastidores. Pois, como eu costumo dizer: para padre, psicólogo, advogado e assessor de imprensa, você não pode mentir!

Com o tempo virei um hub de informações sobre o mercado, alguns amigos diziam que quando eles queriam saber o que estava acontecendo no meio, era só me perguntar. Eu sempre sabia quem estava contratando, ou tinha algum profissional para indicar à alguma vaga de trabalho.

O grande problema é que, nem todas as histórias eu podia sair contando por aí. Fosse por envolver diretamente algum cliente meu, ou porque a história era tão escabrosa que não poderia ser contada. E como eu não estava a fim de responder a um processo, muitas eu guardei para mim.

Ter acesso a tanta informação não fez bem para a minha saúde mental, pois, na prática, eu percebi que o mundo de startups não tinha nada de lindo e maravilhoso quanto era vendido para fora dele.

É um meio tão tóxico quanto o corporativo tradicional. A diferença é que ele é tóxico com videogame e happy hour bancado pela empresa. Talvez a geladeira de cerveja gelada esteja ali para te ajudar a diluir no álcool os excessos que acontecem no meio.

Tomar consciência de que eu ajudava alimentar esse sistema, com as matérias que conseguia para os meus clientes, me fez entrar em um grande conflito interno. Entrei em uma crise existencial, que me levou a uma exaustão e, consequentemente, ao Burn-out.

Investidor-Anjo ou Demônio?

Nove entre 10 empreendedores querem um investidor para sua startup, porém, a verdade é que tem muita gente no Brasil que se diz investidor de alto risco, mas que não quer assumir risco de verdade. Tem muito investidor-anjo que faz contrato de empréstimo, ao invés de investimento. E quando o negócio não vai para frente, o pseudo-investidor cobra o valor investido do empreendedor tal qual um agiota.

Já vi, nas minhas mãos, contrato de investimento em que o fundador só tinha 20% da empresa e outros 80% eram do investidor que aportou a vultosa quantia de 20 mil reais. Já vi contrato em que, se o negócio desse errado, nada ficaria com o empreendedor que trabalhou noite e dia para que a empresa desse certo.

Absolutamente tudo que pudesse valer alguma coisa financeiramente, como: a marca, o código, a base de dados etc., seriam do investidor que iria tentar vender e para buscar recuperar, de alguma forma, aquele o investimento feito.

Na prática, esse tipo de investidor compra uma mão de obra barata -diria que quase de graça-, para trabalhar para ele e o risco fica só do lado empreendedor que perdeu o tempo investido naquele projeto/empresa. A famosa parceria Caracu, que é aquela que o empreendedor entra com a rima, conhece?

Ecossistema de Startups: uma terra de egos

Atender diversas startups me fez descobrir que muitos empreendedores não querem a assessoria de imprensa para alavancar o serviço, ou o produto que vende, mas para alimentar o próprio ego. Tem muitos empreendedores que usam o dinheiro do investidor em benefício da própria imagem e a assessoria, que era para ser da empresa, trabalha para alavancar o nome do fundador da startup.

Tem gente que usa a assessoria de imprensa para aplacar seus traumas, como já escutei de cliente dizendo que queria ir no “Programa do Jô” para mostrar à avó que era melhor do que o primo. Sério, gente! Isso é real! Isso sem contar nos empreendedores de palco, mas esse é um papo para um outro texto.

Sem contar os inúmeros CEOs de cartão de visita e apresentação de PowerPoint, que lotam os eventos e nunca desenvolvem aquela ideia e ainda ficam com raiva de quem se preocupou em executar ao invés de só falar. Confesso que esse nem foi o perfil que mais me tirou do sério durante esses anos no ecossistema de startups.

Os que me deixam bem irritada, são aqueles que fazem de tudo para se autopromover. Inclusive ficar cercando organizadores de evento, intimando para ser convidado e aparecer no line-up do evento. Seja para mentorar, ou palestrar, o que importa é o nome estar no programa do evento para depois colocar no LinkedIn e usar como uma validação de autoridade no mercado.

Ainda tem aqueles que nunca executaram nada, vivem de ganhar concursos de startups apenas com slides e depois começam a viajar o país para dar mentoria e palestras de como empreender, sem nunca ter tirado a startup do PPT.

No ecossistema ainda tem aquele perfil que a única meta é conseguir investimento, ao invés de cliente. Acredite, é muito comum no ecossistema ter empresas que são especialistas em montar deck de investimento e fazer Pitch para investidor e, quando você pergunta sobre faturamento, não existe essa informação pelo simples fato de que não tem quem pague pelo serviço, ou produto e nem tem previsão para começar a faturar.

Se os aspirantes a fundador de startup soubessem o quanto é ruim pegar dinheiro com investidor, estariam concentrando todos os esforços em captar clientes, ao invés de focar em encontrar um Venture Capital.

O tóxico ambiente do ecossistema de startups que envolve assédio e estupro

O ambiente cool dos escritórios -que é muito usado como parâmetro de diferenciação do mercado tradicional-, por menos grana que a startup tenha, é quase regra ter uma geladeira com cerveja, guloseimas à vontade e pufes para um cochilo no meio da tarde. Esse espaço, aliado a flexibilidade de horários, é muito usado para conseguir mão de obra qualificada com salário abaixo do mercado.

Porém, somente com o dia a dia, os candidatos descobrem que é muito comum rolar assédio moral e exploração de mão de obra. Utilizando-se do argumento de que “você está trabalhando para construir algo incrível e que vai impactar a vida das pessoas,” muitos funcionários são obrigados a fazer reuniões às 23h, a ter que responder o chefe no WhatsApp de madrugada, além de trabalhar feriados e fins de semana sem direito a folgas.

Ouso dizer que, no meio de startups tem tantos profissionais com Burn-out, quanto no meio corporativo tradicional, se esse número não for maior até.

Um ponto que ganhou notoriedade há alguns anos, mas que foi rapidamente abafado, é a normalidade do assédio sexual no setor. Seja em eventos, entre investidor e empreendedora, como o habitual assédio de chefe para funcionária.

E não estou falando de cantada barata, estou falando de investidor que se utiliza da sua posição de vantagem e condiciona o sexo ao investimento na startup. Estou falando de mentor assediando abertamente participantes dentro de evento de startups, quando deveria estar orientando sobre o modelo de negócios dos participantes.

Estou falando de caso de estupro em que boa parte do mercado sabe o que, quando, onde e quem são o estuprador e a vítima, mas ninguém fez absolutamente nada sobre. Pior, fizeram de tudo para abafar o caso.

O ecossistema que diz ser inclusivo, não passa de um ambiente machista e misógino como toda a nossa sociedade. Formado, em sua maioria, por homens, héteros, brancos e com grana, eles se protegem, se defendem. Quem arca com as consequências, como sempre, é a vítima. A mulher, que foi excluída do meio por ter divulgado o ocorrido.

Pessoas passando a perna em sócio, desviando dinheiro da empresa, falsificação de documentos e casos de estelionato que são tão comuns no meio da ditas empresas comuns, também acontecem no meio de startups.

O que mais a gente vê nesse mercado, são empreendedores que não tem dinheiro para quitar a folha de pagamento do próximo mês, mas mantém uma pose e continuam ostentando para o mercado não descobrir que a empresa vai mal.

A coisa mais comum que vemos nos bastidores são empresas (sim, as empresas) que maquiam os números para as matérias. Posso afirmar que 99% das vezes em que sai uma matéria sobre investimento e que o valor é divulgado, ele foi inflado. Conselho para você, caro leitor: pode descontar em torno de 20% a 30% (no mínimo) do número para se ter uma noção do real valor do aporte.

O ecossistema de startups está longe de ser um mundo cor de rosa

O famoso ecossistema de startups não tem nada de mágico e é bem parecido com o que já conhecemos de ambiente tradicional de negócios. Eu já fui uma dessas pessoas que acreditava que estava gerando um impacto positivo no mundo. Eu realmente acreditava que meu trabalho iria contribuir para melhorar a vida de diversas pessoas.

Quando me vi, estava fazendo parte da engrenagem que contribuía para alimentar esse velho sistema e que vai contra aos valores que me foi passado pela minha família. Os quais eu carrego até hoje. Isso afetou demais a minha saúde mental e me levou ao Burn-out.

Depois de muita terapia, eu entendi que precisava me afastar desse ambiente tóxico e que dinheiro algum compraria a minha saúde mental. Esse texto não é para desencorajar ninguém a abrir uma startup.

O objetivo desse texto é trazer um pouco de realidade para quem quer entrar nesse meio. Quero que você entre sabendo que não é um ambiente colorido, cheio de unicórnios fofinhos e nuvens de algodão doce. Você não precisa fazer o mesmo que fiz, mas não fazia sentido algum continuar tentando me encaixar em um lugar que não cabia. Decidi parar de me violentar e buscar o que fazia sentido na minha vida.

Hoje, eu tenho menos dinheiro que antes, mas tenho saúde mental e felicidade. Afinal, caras são as coisas que o dinheiro não pode comprar.

*Por Monique Fernandes, jornalista apaixonada por histórias sinceras da Tagarela Comunicação.

Publicado no Baguete, 14/08/2020.

Para donos de negócios centenários, fechar é especialmente doloroso

Harrell
Loja Harrell’s, na Carolina do Norte (EUA), que funcionou por 117 anos até ser fechada por conta da crise causada pelo coronavírus.  Foto: Jeremy M. Lange/The New York Times

A loja de departamentos Harrell manteve-se vigilante em Wright Street, em Burgaw, Carolina do Norte (EUA), por 117 anos. Atendeu a todas as necessidades dos 4 mil habitantes da cidade, como calçados de bebê e cabrestos para cavalo ou chapéus de ir à igreja e eletrodomésticos no edifício de dois andares, construído com tijolos vermelhos em 1924. 

A loja esteve no cenário de vários filmes famosos do fim da década de 1990 e início da década de 2000, incluindo Eu Sei O Que Vocês Fizeram No Verão Passado e Divinos Segredos. Sobreviveu às mudanças na moda — houve época em que vendeu ceroulas —, a guerras mundiais, à Grande Depressão e à crise financeira de 2008, além das enchentes.

Mas não conseguiu sobreviver ao novo coronavírus. Vernon Harrell, dono atual da loja que pertence à família há quatro gerações, anunciou recentemente que fecharia o negócio fundado por seu bisavô. “Tem sido muito difícil”, disse Harrell, de 65 anos, que começou a trabalhar na loja quando tinha 13. “Não queria ser o responsável pelo fim da loja.”

A pandemia devastou muitos dos proprietários de pequenos negócios. Nos Estados Unidos, quase um quarto das empresas fecharam em março e abril, seja em caráter temporário ou permanente, de acordo com um estudo publicado pelo Bureau Nacional de Pesquisa econômica. Mas, para as empresas que fazem parte de suas comunidades há 100 anos ou mais, o que está em jogo não é apenas o sustento — há um legado e, em alguns casos, são gerações de laços de família.

Harrell
A loja Harrell’s já vinha lutando para se manter aberta antes do coronavírus: preferência do consumidor e concorrência de franquias.  Foto: Jeremy M. Lange/The New York Times

Desde março, a pandemia acabou com pelo menos meia dúzia de negócios centenários – ou quase. O Hotel Buckminster, de Boston, por exemplo, inaugurado em 1897, fechou as portas; o Ritz Barbecue, inaugurado em um pequeno barracão em Allentown, Pensilvânia, em 1927, serviu sua última porção de costeletas e sorvete no mês passado; a Hickory Grove Greenhouses, ao norte de Allentown, decidiu fechar depois de 103 anos; e a Michigan Maple Block Co., empresa de produtos de madeira do norte de Michigan, está desativando a fábrica e demitindo 56 trabalhadores depois de 139 anos no ramo.

“São empresas que podem ter um fim decente ou desagradável; nada dura para sempre”, disse o sociólogo Dennis Jaffe, que trabalha com empresas de família e, recentemente, publicou o livro Borrowed From Your Grandchildren: The Evolution of 100-Year Family Enterprises [Emprestada dos netos: a evolução dos empreendimentos de família centenários]. “É triste e há um luto, mas também temos um legado.”

Harrell estava lutando para manter a loja aberta mesmo antes da chegada do coronavírus. Mudanças na preferência do consumidor e a concorrência de franquias como Home Depot estavam encolhendo sua receita. Ele já tinha desistido de vender material para assoalhos e revestimento — artigos que a loja Harrell oferecia desde o início — porque não conseguia bater os rivais. 

Mas também tentava modernizar o negócio: Harrell criou um site e colocou a loja nas redes sociais, e pensou em acrescentar um bar à loja, para dar aos clientes outra razão para vir às compras. “Se não fosse a covid, eu seguiria tentando, por mais difícil que fosse”, disse Harrell. “Mas perder a renda de dois meses simplesmente acabou comigo.”

Um dos desafios enfrentados pelos negócios de família é a dificuldade em encontrar alguém disposto a assumir o comando — ainda mais em meio a um declínio econômico. Os filhos adultos de Harrell moram a seis horas de distância, em Asheville, Carolina do Norte, e não estão interessados em reimaginar o varejo para o mundo pós-covid. O desinteresse é o mesmo entre os sobrinhos dele.

“Não há mais uma nova geração apaixonada e interessada em assumir os negócios e superar uma crise”, disse Jennifer Pendergast, diretora executiva do Centro para Empreendimentos de Família da Universidade Northwestern. “A situação difícil vai durar um pouco. Há alguém disposto a enfrentar esse quadro?”.

Para os donos de negócios que tentam mapear o futuro — sejam eles da segunda ou da quinta geração —, Jennifer recomenda que encontrem alguém que possa lhe “dizer verdades”, que olhe para os números e o lado emocional de seguir adiante. Se a conta não fechar e o negócio for inviável, não há sentido em mantê-lo. Mas, se houve uma chance de prosperar, ela incentiva os proprietários a se indagarem se o trabalho ainda faz sentido para a família.

“A simples obrigação não pode ser a razão para continuar”, disse ela. “No longo prazo, não é uma situação sustentável.” Amy Hyman sente essa obrigação diariamente conforme tenta levar a Lake Steam Baths, de Denver, à conclusão do seu 94.º aniversário.

Como Harrell, ela nunca se imaginou no comando de uma empresa de tradição. Estava contente trabalhando no bar onde conheceu o marido, Hannon. A casa de banhos turcos e russos era responsabilidade da sogra, Gertie. “Ela tinha um metro e meio de altura”, disse Amy. “Uma senhorinha judia andando por aí e dizendo a todos o que fazer. É a memória mais querida que tenho desse lugar — sem jamais saber que, um dia, eu me tornaria como ela, em um certo sentido.”

Quando Gertie morreu em 2006, Hannon assumiu os negócios — com alguma participação de Amy. As mulheres nunca puderam entrar nos banhos. Mas Amy convenceu Hannon a deixar que ela testasse uma noite feminina realizada um domingo por mês para que as mulheres também pudessem desfrutar das saunas e hidromassagens.

Ela continuou trabalhando no bar e criando os filhos enquanto Hannon administrava o negócio. Mas, em 2015, quando ele morreu aos 59 anos, Amy se viu no comando porque não havia outros parentes disponíveis.

“Nunca imaginei que acabaria cuidando dos negócios sozinha”, disse Amy. “Meus filhos tinham 14 e 10 anos quando Hannon morreu, e a cada ano eu repetia, ‘Vou vender o estabelecimento e cuidar da minha vida’. Mas não posso. A comunidade é incrível.”

Ela dobrou a aposta no negócio aberto pelos pais de Hannon em 1927. Quitou a hipoteca de US$ 400 mil no prédio e no estacionamento de 1.000 metros quadrados, gastando mais de US$ 40 mil em novos aquecedores, equipamentos de sauna e máquina de vapor. Ela também aumentou o número de noites das mulheres e ampliou as opções do cardápio.

Os resultados começaram no ano passado: Amy disse ter lucrado e 2020 tinha tudo para ser seu melhor ano. Ela se preparava para investir em outra sauna e planejava uma expansão. Tinha nove funcionários e uma equipe ampliada de 36 massagistas para atender à demanda.

Mas os investimentos também erodiram suas reservas e a deixaram vulnerável quando o governador do Colorado, Jared Polis, ordenou o fechamento dos negócios no fim de março para deter a disseminação do coronavírus. A receita dela caiu a zero, e ela teve que demitir funcionários.

“Hesito constantemente e luto comigo mesma: manter o negócio ou vendê-lo?”, disse Amy. “Se tiver que vender, sei que a comunidade do Lake Steam vai me perdoar e compreender.” 

Fonte: Amy Haimerl, The New York Times, 24 de julho de 2020 | 14h04. Publicado no Estadão. Tradução de Augusto Calil

Vendas do varejo têm queda recorde de 16,8% em abril

Reabertura do comércio em São Paulo
Loja da Rua 25 de Março, no centro de São Paulo, reabre no dia 10 com fila de consumidores na calçada. Foto: Werther Santana/Estadão – 10/6/2020

Sob os efeitos das medidas de distanciamento social tomadas para conter a disseminação do coronavírus, as vendas do varejo restrito tiveram queda de 16,8% ante março, na série com ajuste sazonal, a maior da sua série histórica, iniciada em janeiro de 2001, informou nesta terça-feira, 16, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)

O resultado veio pior que a mediana das expectativas de 33 instituições consultadas pelo Projeções Broadcast, de queda de 11,5% – as estimativas iam de retração de 28% a recuo de 6,09% no volume de vendas em abril ante março, com mediana de queda de 11,5%. 

Na comparação com igual mês de 2019, o recuo também foi de 16,8%. No acumulado de 12 meses, o resultado é de alta de 0,7%.

Em março, as vendas do varejo restrito caíram 2,51% na comparação com o mês anterior e 1,2% frente a março de 2019.

O varejo ampliado, que inclui vendas de veículos e material de construção, recuou 17,5% em abril ante março. Em relação a abril do ano passado, a queda foi de 27,1%, recorde da série histórica, iniciada em janeiro de 2004.

Segundo a Fenabrave, federação que reúne as concessionárias do País, foram vendidas 55,7 mil unidades em abril, em soma que considera os veículos leves (automóveis e comerciais leves) e os pesados (caminhões e ônibus). É o menor volume para o mês desde o início da série histórica da instituição, em 2003. Na comparação com abril de 2019, a queda foi de 75,9%.

Com a piora dos condicionantes de crédito e mercado de trabalho, a analista Isabela Tavares, da Tendências Consultoria Integrada, afirma que o varejo ampliado deve ter dificuldade de se recuperar mesmo com a normalização da atividade com o relaxamento do isolamento social, principalmente devido ao setor de veículos. Para 2020, ela projeta recuo de 9,3%.

Recuperação será lenta

Isabela acredita que o varejo restrito tenha recuperação tímida em maio e junho, ganhando maior tração apenas no segundo semestre. Frente ao mesmo período do ano passado, porém, as quedas devem continuar até o fim do ano. “No fim de 2021, o nível do varejo ainda deve estar um pouco abaixo do pré-crise. Os efeitos sobre o consumo de bens duráveis são mais prolongados, mas a piora no mercado de trabalho deve prejudicar o varejo como um todo.” Para 2020, a expectativa de Isabela é de queda de 5,9% do varejo restrito.

Para o economista-chefe da Parallaxis, Rafael Leão, a recuperação do setor será longa. “Abril deve ter sido o pior momento, mas as vendas do varejo vão estabilizar em um nível muito baixo e nós devemos demorar de dois a três anos para retomar o que havia no final de 2019”, avalia o economista, que projeta queda de 10% para as vendas do setor neste ano.

Os segmentos de supermercados e farmácias devem continuar com expansão das vendas, limitando a queda do varejo restrito em meio à pandemia de coronavírus, acredita o economista-chefe da Austin Rating, Alex Agostini. “Maio deve continuar com essa mesma dinâmica, só deve mudar em junho, com a liberação do funcionamento de mais setores.” Agostini projeta queda de 4,1% do varejo restrito em 2020.

Fontes: Daniela Amorim, Cícero Cotrim e Thaís Barcellos, O Estado de S.Paulo, 16 de junho de 2020.

Com quarentena e trabalho em home office, quase metade de (dos) celulares corporativos baixaram aplicativos de jogos

Os 10 melhores jogos de 2019 para celulares | Revista Bula

A adoção do isolamento social contra a pandemia provocada pelo novo coronavírus acabou por impulsionar a disseminação do trabalho remoto. Agora, um levantamento realizado pela Navita, líder em serviços gerenciados de mobilidade, TI e telecom, entre seus clientes apurou desvios de finalidade no uso de celulares corporativos. De acordo com a empresa, em 46,54% dos aparelhos foram baixados jogos, 13,89% foram utilizados para assistir a filmes em streaming e 8,99% receberam aplicativos de produtividade.

A Navita está presente em 300 mil companhias de diversos setores espalhadas por 25 países com a sua plataforma Navita Connect, gerenciando mais de 1 milhão de dispositivos. Os celulares corporativos normalmente são utilizados por equipes de campo, como as de vendedores, e que agora permanecem em casa. Para Wally Niz, Diretor de Marketing e Vendas da Navita, os trabalhadores podem estar mais ociosos e estão deixando os aparelhos com os filhos, o que explicaria o índice de jogos baixados e também o de streaming.

Normalmente, ao contratarem a Navita, os clientes já instalam ferramentas que impedem downloads indevidos nos celulares. “Mas nem todos. Agora, em época de pandemia e quarentena, estamos sendo chamados a fazê-lo. “

No levantamento, Wally chama a atenção para o fato de os aplicativos de produtividade estarem em alta. Ficaram em terceiro lugar, tendo sido baixados em 8,99% dos aparelhos. “As pessoas estão com medo de perder o emprego (receosas pela instabilidade do mercado) e estão trabalhando mais por estarem um pouco mais ociosas em casa. E esses aplicativos podem ajudá-las a melhorar a própria performance”, diz.

Em quarto lugar, estão aplicativos de comunicação, em 7,39%. Em quinto lugar, estão aplicativos de e-learning. “São pessoas que estão querendo aprender alguma coisa durante esse tempo ocioso”, afirma Niz. Ou seja, aproveitam o período para se aperfeiçoarem, investindo em cursos – talvez até pensando na fase pós-pandemia.

Aplicativos de compras e entregas também foram baixados, justamente porque as pessoas estão em casa, com restrições de circularem. Em sétimo lugar, estão os aplicativos de redes sociais.

Fonte: Dino – Divulgador de Notícias, 8/6/2020.

Vale a pena aumentar o mix e vender outros produtos durante a crise? Por, Hugo Hoch

Durante a pandemia, as mudanças do consumidor ocorrem de maneira rápida e se adaptar ao uso da internet é essencial para acompanhá-lo. Foto: Pixabay

Absolutamente nenhuma empresa estava preparada para esse período tão severo que a população e o mercado estão passando com o novo coronavírus. Tudo ainda é muito incerto, e a insegurança está presente no cotidiano dos empresários.

Diante dessa circunstância, algumas verdades são absolutas. E uma delas é que não podemos mais continuar da mesma forma. O segredo é compreender o momento e se ajustar a ele. O mundo está passando por grandes mudanças, o hábito das pessoas e o comportamento de consumo também vai mudar.

Pensemos em uma lagarta, que entra em um casulo. É necessário que ela se transforme em uma borboleta. Tornar-se uma “lagarta melhor” não vai resolver a situação em meio à crise. Ou seja, inovação e mudanças são imprescindíveis.

Toda crise revela uma série de oportunidades de mudanças e melhorias. São inúmeros os casos de empresários que conseguiram se reinventar nesse momento.

Mas nem sempre aumentar o mix de produtos ou serviços vai significar a inovação necessária. O segredo é estar atento ao comportamento do consumidor. Se as pessoas não estão saindo de casa, então eu preciso ir até lá, entregar, cuidar da conveniência do cliente. O centro do mercado é o cliente, seus desejos e necessidades. Quanto mais eu adaptar minha empresa e meu negócio a isso, maior a chance de sucesso.

  1. Converse com seus clientes, pergunte o que eles têm comprado e onde têm comprado
  2. Ajuste a sua empresa para melhorar essa experiência do cliente, e com isso aumentar o tíquete médio
  3. Agregue produtos ou serviços que podem ser vendidos de maneira conjunta, para o mesmo público

Se engana quem pensa que adicionar novos produtos irá atrair um novo público. Na prática, isso não funciona tão bem assim. Então, para aumentar o mix de produtos ou serviços, é importante manter o foco no posicionamento da marca. Posicionamento é a forma como eu quero ser enxergado e compreendido pelo meu cliente. Caso contrário, o cliente vai mudar a percepção sobre a sua marca, e isso pode ser bastante ruim.

Fonte: Redação, O Estado de S.Paulo, 05 de maio de 2020 | 09h12. Por Hugo Hoch, consultor do Sebrae-SP.

Como adaptar sua empresa do analógico para o digital

Maquininhas ainda são usadas em delivery, além de pagamentos online. GABRIELA BILÓ/ESTADÃO

Apenas no Estado de São Paulo, 460 mil estabelecimentos estão impedidos de realizar atendimentos presenciais, o que representa 70% do comércio e faturamento médio de R$ 1 bilhão por dia, segundo a Fecomercio-SP. Já o Serasa Experian registrou queda de 16,2% na atividade do comércio em março, índice recorde da série histórica que começou nos anos 2000. Os dados mostram as consequências no setor das medidas de isolamento social adotadas para conter o avanço da contaminação pelo novo coronavírus.

Leda Welter, dona da loja de plantas Blumenfee, que começou a vender online durante a pandemiaWERTHER SANTANA/ESTADÃO

Aos mesmo tempo, as vendas online cresceram. De acordo com o Ebit Nielsen, as áreas de eletrodomésticos (+21%), informática (+22,3%), casa e decoração (+23,5%), telefonia (+12%) e eletrônicos (+20,3%) são as que mais contribuíram para o crescimento total do faturamento de vendas online na semana entre 31 de março e 6 de abril. Em todo o e-commerce, o aumento foi de 18,5% no período. Ainda segundo a instituição, o número de pedidos aumentou mesmo diante de prazos de entrega até quatro vezes maiores.

O que fazer então nesse momento? Fechar as portas e se conectar. Para os pequenos negócios, migrar do analógico para o online não é mais questão de transformação digital. É sobrevivência. Uma pesquisa do Google realizada em 2017 mostra que 40% dos pequenos negócios no Brasil não tinham nenhum tipo de presença digital.

Conversamos com especialistas para coletar dicas e ajudar você a começar um novo capítulo na sua empresa. Empreendedores que partiram para a operação online por conta da pandemia também contam um pouco de suas (breves) experiências.

COMO COMEÇAR

Prepare-se para abrir um novo negócio. Sim, por mais que sua loja física exista há décadas ou que você já tenha canais de comunicação online com seu cliente (como as redes sociais), vender na internet requer outra lógica.

“É preciso o mínimo de planejamento. Prepare uma estrutura à parte para o estoque, esteja sempre conectado para não responder ou identificar o pedido com dias de atraso e entenda como vai ser a logística da entrega”, explica Renata Carvalho, coordenadora do Ciclo MPE da Câmara Brasileira de Comércio Eletrônico. “Dominar essa nova dinâmica é fundamental para o sucesso nas vendas”, completa.

Para a consultora do Sebrae-SP Ariadne Mecate, a melhor forma para o empreendedor entender todos os processos de venda pela internet é descrevê-los. “Não é só montar um site. Enumere todos as etapas da compra e descreva quais são as suas soluções para elas”, diz. A seguir, as etapas:

Em momento de pandemia, a migração para o digital é fundamentalTIAGO QUEIROZ/ESTADÃO
  1. Ferramentas de vendaE-COMMERCE PRÓPRIO

Reflita. Qual será a plataforma escolhida? Gratuita ou paga? Você tem conhecimentos para montar a própria loja online? Se não, tem capital para investir na contratação de um profissional?

MARKETPLACES

Os marketplaces são a alternativa mais simples e rápida para ganhar tempo. Da Amazon ao Elo7, mapeamos 61 marketplaces que aceitam venda de produtos de PMEs em suas plataformas.  Clique aqui e saiba como se cadastrar, qual é a taxa cobrada pela venda em cada uma delas e ainda descubra quais realizam a gestão do frete.

“Começar por uma plataforma alugada (como um marketplace) pode ser mais em conta financeiramente”, pontua Ariadne. Renata Carvalho ressalta que começar com baixo investimento é o ideal nesse momento.

REDES SOCIAS

O Instagram, por exemplo, oferece ferramentas para criar a loja no perfil da sua marca. Outro possibilidade é utilizar o WhatsApp Business.

APLICATIVOS DE DELIVERY

Para empreendedores do setor de alimentação, é possível se cadastrar em plataformas de delivery, como iFood, Rappi e Uber Eats. Há também ferramentas de nicho, como a Vem de Bolo (para confeiteiras) e a Eats for You (para quem faz marmitas).

Pedro Santelmo, fundador da Vem de Bolo, e a confeiteira Stephanie Parizi, uma das cadastradas na plataformaFELIPE RAU/ESTADÃO

2. Meios de pagamento
A Fecomercio-SP orienta que meios de pagamento online, como PicPay, Mercado Pago e  AME, que não necessitam de maquininha de cartão, sejam utilizadas para facilitar essa etapa durante o isolamento social. Muitos empreendedores que utilizam o WhatsApp Business optam também pela transferência bancária.

Mas, se preferir optar pela maquininha, com a higienização dos equipamentos após cada uso para evitar contaminação pelo novo coronavírus, veja aqui nosso mapeamento das opções disponíveis no mercado.

3. Logística de entrega
Os Correios têm uma solução voltada para as pequenas e médias empresas, a Correio Log +, que reúne armazenamento da mercadoria, embalagem e distribuição. Com ela, é possível deixar seu estoque em um espaço físico dos Correios e eles fazem o gerenciamento de todo o processo de envio do produto.

Saiba mais sobre a solução no site dos Correios. Para dúvidas, envie e-mail para logisticaspm@correios.com.br ou ligue no telefone (11) 4313-8403. Ainda que as empresas tenham restringido seus serviços durante a quarentena, esse serviço dos Correios segue funcionando normalmente.

Confira também como funcionam os serviços das logtechs, startups do setor de logística que ajudam empreendedores e marketplaces a entregar os produtos em todo o País.

DICA DE OURO

Lembre-se da logística reversa. “Pelo Código de Defesa do Consumidor, o cliente tem até sete dias a partir do dia em que ele recebeu o produto para se arrepender da compra sem precisar dar nenhuma explicação. E o frete de devolução do produto é por conta do empreendedor”, alerta Ariadne.

A especialista ressalta ainda que é preciso pensar na forma em que esse cliente vai devolver o produto. Algumas opções: 1) o cliente devolve o produto via Correios por meio de um código de postagem gerado pelo empreendedor; 2) a retirada do produto é feita em casa, caso cliente e empresa estejam na mesma cidade; 3) a devolução do produto é feita pelo cliente na loja física (se houver).

Como evitar fraudes nas compras online

Roubar os dados de um CPF para então fraudar compras em um CNPJ. Relativamente simples, as fraudes em e-commerces representam prejuízos devastadores para pequenos empreendedores que vendem em lojas virtuais.

De acordo com Omar Jarouche, diretor de soluções da ClearSale, empresa que oferece soluções antifraude para e-commerces e mapeia dados no País, existem casos em que o pequeno negócio perde 20% da receita bruta mensal apenas em estornos oriundos de compras fraudadas.

“A principal mensagem que devemos passar para as PMEs que são absolutamente analógicas e vão entrar em meio digital é para perguntar para a plataforma de venda escolhida se ela garante a fraude. Muitos se surpreendem no fim do mês quando veem o estorno da venda. Algumas plataformas garantem a fraude, ou seja, nenhum valor é descontado do empreendedor”, diz Jarouche.

“Na pressa em garantir a receita do dia, o empreendedor pode não se atentar para isso. Mas é fundamental ele estar seguro. As pequenas empresas não têm caixa para lidar com esse prejuízo”, completa.

Jarouche explica que os produtos com maior chance de sofrerem compras fraudadas são aqueles que apresentam alta liquidez no mercado secundário, ou seja, que têm alto valor e são fáceis de serem revendidos. “O fraudador não quer ficar com o produto, mas com o dinheiro da venda dele.”

 No entanto, há nuances importantes para serem observadas. “Uma geladeira e um smartphone têm quase o mesmo valor. Mas o celular é muito mais simples de ser revendido do que a geladeira. No mercado de livros, vemos que os e-commerces são pouco atacados, exceto quando falamos de livros de medicina e direito, que são caros e fáceis de serem revendidos”, exemplifica Jarouche.

Para ter cuidados com o uso de dados de seus clientes durante transações e comunicação digitais, saiba mais sobre a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).

Relacionamento com o cliente: é possível estreitar o vínculo mesmo em meio virtual

“É imprescindível separar verba para o marketing digital.” Essa frase saiu da boca das especialistas ouvidas pelo Estadão PME em um intervalo curto de tempo. “Abrir uma loja virtual é como abrir uma loja física em uma rua sem saída”, completa Ariadne Mecate consultora do Sebrae-SP.

Ou seja, é preciso ter estratégia redobrada para gerar tráfego de visitantes na sua loja e, assim, garantir as vendas. Ainda de acordo com a especialista, a cada 100 visitas em e-commerces no Brasil, 1,5% geram vendas de fato. Para isso, trabalhe o relacionamento com o cliente. Veja as dicas:

 1. Atenção com os clientes que já conhecem a marca em meio físico: avise para sua base de clientes que agora você tem a modalidade de loja virtual.

2. Se ainda não tem, crie perfis nas redes sociais para gerar conteúdo sobre a área em que sua loja ou serviço atua: faça com que a pessoa que está pesquisando na internet sobre o tema chegue até você. Por exemplo, um internauta que busca conteúdo sobre decoração pode chegar até a sua loja virtual por meio da pesquisa na internet. Se o conteúdo da sua rede social for de qualidade, isso gera confiança para que ele efetue uma compra.

3. Organize seu site de acordo com as regras do Google. Aposte no Search Engine Optimization, conhecido como SEO (que trata da otimização dos motores de busca). Aplicar as regras do Google na construção dos seus anúncios e descrições dos produtos (seja em e-commerces próprios ou marketplaces), com palavras-chave que tenham relação com seu negócio, faz com que sua marca apareça nas buscas. A empresa fornece uma espécie de manual sobre o tema. Clique aqui e saiba mais.

4. Aposte no pós-venda: procure saber se o seu cliente está satisfeito com o produto, envie bilhetes de agradecimento junto com a mercadoria, aposte em e-mails de marketing e, nas redes sociais, não os deixe sem respostas.

Depoimentos de quem se adaptou durante a pandemia

Confira relatos de empreendedores que começaram no meio digital devido à pandemia do coronavírus

LEDA WELTER,  DONA DA LOJA DE PLANTAS BLUMENFEE

“COMECEI A RECEBER MUITAS MENSAGENS NO INSTAGRAM”

“Abri a minha loja de plantas há dois anos e sempre frisei que o meu negócio seria somente em espaço físico. Eu acho imprescindível que a pessoa venha até a minha loja, tenha o contato com a planta, escolha qual espécie com que ela se identifica e assim eu posso ensiná-la como cuidar e estreitar essa relação. Nunca pensei em outra forma de fazer isso.

Quando o isolamento social foi decretado, queria apenas fechar a loja e pronto. Mas a procura dos meus clientes (e novos também) foi muito grande. Comecei a receber muitas mensagens no perfil da loja no Instagram. Foi então que comecei a receber os pedidos por mensagem e fazer as entregas nas casas das pessoas.

Plantas na loja Blumenfee, em São PauloWERTHER SANTANA/ESTADÃO

Em um mês, minhas vendas triplicaram. Há menos de duas semanas eu tinha 425 plantas na loja e já tive que repor 75. Ganhei mil seguidores no Instagram no último mês. Acredito que, como as pessoas estão em casa, elas começaram a olhar mais para seus lares e, assim, verem que faltava uma plantinha.

É claro que o volume de trabalho aumentou. Eu chego na loja, que está com as portas fechadas, às 8h e saio de lá por volta das 22h. Fico até 2h da manhã respondendo as mensagens que chegam. Não deixo ninguém sem resposta.

Fico feliz porque percebo que estou movimentando uma rede mesmo nesse período. Compro do pequeno produtor, tenho ajuda de uma freela que separa e embala os pedidos e contratei uma pessoa para fazer as entregas, para ter o máximo de segurança (sobre a contaminação) para o cliente.”


GUSTAVO YOLLE, DONO DO CURSINHO PERSONAL VESTIBULARES 

“A TENDÊNCIA DO ENSINO À DISTÂNCIA É FICAR MELHOR”

“Fundei o cursinho em 2015 com o objetivo de direcionar o ensino para o aluno, ser bem personalizado. Cada um dos 55 alunos tem o seu próprio plano (com aulas expositivas e individualizadas) e também tem o seu coach, que é uma pessoa que vai acompanhá-lo de perto, como se fosse um mentor.

Com a pandemia, tivemos que nos adaptar. Mas eu sabia que o nosso modelo deveria continuar igual. Por isso, não mudei nada da grade, seja horário de aulas ou mesmo no formato em que elas acontecem. Os 25 professores se adaptaram ao modelo de aulas online e os alunos também. Nenhuma delas é gravada, todas são ao vivo.

Gustavo Yolle, do Personal VestibularesNILTON FUKUDA/ESTADÃO

Não gravamos para não interferir na disciplina do aluno, que não vai poder deixar para depois. Usamos ferramentas do Google Meets para realizar as aulas. E eu acompanho tudo. Por período, chegamos a ter seis transmissões ao mesmo tempo. E as aulas têm duração de 1h a 1h30.

Eu sou super a favor do ensino à distância. Temos na cabeça que o EAD é algo sem qualidade porque o mercado acha que, por ser mais barato, é algo ruim. Eu não acredito nisso. Penso que a tendência do ensino à distância é ficar melhor. Conseguimos diminuir muito as distrações dos alunos, as conversas paralelas. Espero que, de alguma forma, eu possa continuar com algum formato online, junto com o presencial, depois da pandemia.”


MILENA CARA, RESPONSÁVEL PELO MARKETING DA FAS ILUMINAÇÃO

“É UMA OPORTUNIDADE DE MOSTRAR O TRABALHO PARA OUTRAS PESSOAS”

“Aloja existe há, aproximadamente, 20 anos e é especializada no mercado de luxo de luminárias com assinaturas de artistas e outras importadas de marcas europeias. Estávamos em um processo de transição para o mundo digital. Usamos redes sociais, por exemplo, mas não tínhamos maturidade tão grande em meio online, além de o nosso cliente não chegar por esse canal.

Porém, nesse momento, nos vimos obrigados a preservar o relacionamento com o cliente mesmo que à distância. Criamos um e-commerce. Já estávamos desenvolvendo um site novo desde o ano passado e, agora, acrescentamos uma plataforma de e-commerce. Porém, nela, o cliente não finaliza a compra sozinho.

Página inicial do site da FAS Iluminação, que faz curadoria de luminárias. REPRODUÇÃO

Assim que ele escolhe o produto, é direcionado para uma consultora de vendas que vai fazer o atendimento personalizado: por telefone, mensagem, e-mail ou WhatsApp, como ele preferir. Não abrimos mão dessa nossa consultoria e do relacionamento com o cliente. Vamos preservar o atendimento customizado.

Também vamos focar na produção de conteúdo, pois o cliente está com mais tempo para ler sobre o tema e nós também estamos com mais tempo para identificar do que ele gosta. Essa parte será central em nosso trabalho digital.

Enxergamos esse momento também como uma oportunidade de mostrar o nosso trabalho para outras pessoas, para além da cidade de São Paulo. Seja para futuros clientes, seja para profissionais do meio, como arquitetos e decoradores.”

Fonte/autora: Letícia Ginak, O Estado de S.Paulo, 17 de abril de 2020 | 10h00.

EXPEDIENTE

Editor executivo multimídia Fabio Sales / Editora de infografia multimídia Regina Elisabeth Silva / Editores assistentes multimídia Adriano Araujo, Carlos Marin, Glauco Lara e William Marioto / Designer multimídia Lucas Almeida / Editora do Estadão PME Ana Paula Boni / Reportagem Letícia Ginak

Demanda por EAD ajuda a derrubar preconceitos e impulsionar negócios

Uma das medidas adotadas pelo Ministério da Educação durante o período de isolamento social por conta do novo coronavírus foi a flexibilização temporária do ensino a distância (EAD). A liberação gerou um aumento na demanda de plataformas digitais de ensino de todos os tipos, da educação básica a cursos profissionalizantes.

A mudança repentina não é fácil. Do dia para a noite, tanto as escolas quanto as empresas precisaram se adaptar à nova realidade e à alta procura. “De repente, as instituições, os alunos e os professores que eram do mundo presencial se viram obrigados a usar a tecnologia. Tiveram esse contato basicamente a força, mas viram que é possível”, diz Betina Von Staa, coordenadora do CensoEAD.BR da Associação Brasileira de Educação a Distância (Abed).

Ainda que o número de alunos de todas as modalidades de EAD tenha crescido 17% no ano de 2018, ou mais de 9 milhões de estudantes, segundo dados mais recentes da Abed, Betina explica que ainda havia uma resistência grande do setor educacional e um preconceito com a modalidade não presencial. “O preconceito contra o EAD será o primeiro ponto a cair por terra num cenário pós-pandemia, visto que as pessoas estão descobrindo que é possível que isso seja feito com qualidade.”

Segundo o último mapeamento feito pela Associação Brasileira de Startups (Abstartups) e pelo Centro de Inovação para a Educação Brasileira (Cieb), em outubro de 2019, há hoje 449 edtechs ativas no Brasil, que oferecem os mais variados serviços de educação.

Uma delas é a Geekie, que está há nove anos no mercado e, com o uso de inteligência artificial, oferece metodologias pedagógicas para desenvolver soluções inovadoras para a aprendizagem, com foco no Ensino Médio e no Ensino Fundamental 2.

Para Cláudio Sassaki, CEO da Geekie, ainda que as escolas possam estar perdidas sobre o que fazer no momento atual, é preciso que ajam o quanto antes, diante da pressão dos pais. “Tem muitas edtechs que estão tentando oferecer seu serviço, mas as escolas tendem a ir para soluções mais seguras e mais conhecidas.”

Dentre os quatro produtos que a Geekie oferece, o mais procurado durante a pandemia é o Geekie One, que permite que alunos do 6º ano do Ensino Fundamental à 3ª série do Ensino Médio possam ter suas aulas por meio de Chromebooks. A solução permite a utilização de páginas, vídeos, hashtags, gifs, relatórios de desempenho e organizador de atividades. Há o envio de relatórios de atividades de cada aluno para seus pais.

Até o início deste ano, o Geekie One contava com 100 escolas clientes. Com a pandemia, agora são 230 clientes em todo o País. Para se adequar às novas necessidades, a Geekie precisou aumentar o desenvolvimento de funcionalidades que permitem não só o conteúdo, mas a comunicação entre professor e aluno, além de reforçar a frente de dados para conseguir dar todas as informações para a escola, como tempo de estudo de cada aluno e aproveitamento. 

Acessos gratuitos durante a pandemia

Outra edtech que precisou se adequar ao aumento da demanda foi a Samba Tech, que teve um crescimento de 3 a 4 vezes em seus acessos durante o isolamento social. A empresa trabalha com dois tipos de serviços, levando educação para empresas e para instituições de ensino, e tem clientes como Kroton, Ser Educacional e Damásio. 

Com novos recursos de interatividade e vídeos sob demanda e ao vivo, a empresa procurou agir de maneira rápida. “O momento foi propenso para a nossa tecnologia, e isso acelerou para que trouxéssemos inovações para o ensino a distância”, afirma Pedro Filizzola, diretor de marketing da Samba Tech.

Uma das iniciativas da empresa também foi disponibilizar para as instituições públicas a sua plataforma de hospedagem e a distribuição de vídeos online, de forma gratuita.

Qranio, assim como a Samba Tech, também liberou o acesso de sua plataforma e de seus conteúdos gratuitamente. O acesso está disponível para escolas públicas, privadas e para professores autônomos, além de deixarem livres por um ano as trilhas de estudo – que antes da pandemia eram pagas.

A plataforma de aprendizagem da Qranio usa a gamificação para estimular os usuários a se envolverem com conteúdos educacionais, para as empresas ou para as escolas. Com um espaço especial para o corporativo, a Qranio Mobile Learning é a ferramenta de treinamento para as empresas, em que também é usada a gamificação para capacitar e engajar os colaboradores dos clientes. 

É a parte corporativa que vem sustentando a empresa durante o momento atual, já que a Qranio atua tanto como edtech quanto RH tech (recursos humanos). Por atuarem com empresas de serviços essenciais durante a quarentena, como Carrefour e Bradesco, o faturamento não foi afetado e isso permite que os conteúdos educacionais sejam gratuitos.

“É uma oportunidade para nós atuarmos e ajudarmos as escolas. Nesse momento, seria um abuso abordar as escolas para comercializar o produto da mesma maneira”, diz Samir Lasbeck, CEO da Qranio.

No caso do MoveEdu, a educação curricular é a prioridade dentre as oito marcas que compõem o grupo e que atuam em diferentes áreas de ensino, de inglês e cursos profissionalizantes até apoio escolar.

Segundo o CEO do grupo, Rogério Gabriel, a MoveEdu preferiu focar seus esforços neste primeiro momento nos próprios alunos, em vez de procurar novos clientes. Isso porque, diz ele, foi necessário fazer uma adaptação para que os alunos pudessem acessar todo o conteúdo por mobile, já que cerca de 60% deles assistem às aulas via smartphone.

Ainda que não esteja prospectando agora, Rogério enxerga o momento como um ponta pé para as edtechs num cenário pós-pandemia. “Quebra uma série de barreiras e resistências de todos nós. As coisas não voltarão à forma que eram.”

Fonte/Autora: *Anna Barbosa, O Estado de S.Paulo, 25 de abril de 2020 | 16h35.

* Estagiária sob a supervisão da editora do Estadão PME, Ana Paula Boni

Dicas ajudam a lidar com várias plataformas e redes sociais a baixo custo, mostrando que fazer marketing para vender online não é só coisa de empresa grande

MARKETING DIGITAL PARA PEQUENOS NEGÓCIOS

Guro Nygaard, norueguesa formada em letras, resolveu morar no Brasil aos 26 anos. Sem conseguir achar um emprego ideal, decidiu empreender. Montou a padaria Bakeri Nord. Localizado na Santa Cecília, região central de São Paulo, o espaço modesto vende doces típicos do país nórdico. Nativa digital, Guro já possuía contas pessoais no Facebook e no Instagram– e decidiu fazer o mesmo para sua pequena padaria. “O movimento mal foi planejado”, conta.

No Facebook, divulgou o trabalho em grupos de moradores do bairro e diz que usa o Instagram e o WhatsApp para receber encomendas. Mas admite que não consegue gerir tudo sozinha: “É melhor ter mais bolos de chocolate do que fazer postagens.”

O dilema de Guro é o mesmo de outras tantas pequenas e médias empresas no Brasil. Mais de 70% dos pequenos negócios possuem alguma estratégia de marketing digital, aponta a pesquisa “Transformação Digital nas MPE”, a última realizada pelo Sebrae, em 2018. Mas ainda faltam recursos para explorar as tantas possibilidades. Apenas 43% expõem seus produtos, 27% possuem um site e 23% fazem vendas dos seus produtos de forma online.

“O pequeno empreendedor vai ter uma dificuldade maior do que uma empresa varejista, porque tem tamanho reduzido. Geralmente é o dono e mais ninguém. Ele é a própria equipe”, avalia Rodrigo Bandeira, vice-presidente da Associação Brasileira de Comércio Eletrônico (ABComm).

Mesmo com as dificuldades, a projeção dentro do setor é positiva. Antes da pandemia causada pelo novo coronavírus, a ABComm já previa que o comércio eletrônico deve movimentar R$ 106 bilhões neste ano e de que haverá mais de 135 mil lojas virtuais no País até o fim do ano – projeções mantidas até agora.

Com a pandemia, a ABComm, em pesquisa com a Konduto, especializada em prevenção à fraude no e-commerce, notou uma queda de 19,24% nas vendas na segunda quinzena de março em relação à primeira (antes do isolamento social). Por outro lado, o ticket médio cresceu 5,44%, segundo análise de mais de 20 milhões de pedidos em 4 mil lojas virtuais.

Os dados mostram a versatilidade no espaço digital – e o isolamento social por conta da pandemia tem impulsionado ainda mais os negócios online. Presença e atividade nas redes sociais, posicionamento de busca no Googleou inserção em marketplaces podem ser formas de tornar a sua empresa – física ou virtual – presente na internet.

“Com uma loja virtual, você está aberto para atender qualquer público e qualquer cliente do mundo inteiro”, avalia Rodrigo, da ABComm. “As pessoas podem visitar sua página às 3h, 4h da manhã, por exemplo.”

COMO SE TORNAR VISÍVEL?

“A empresa não pode estar fora do espaço digital”, analisa Farah Diba Braga, professora de marketing digital do Insper, que vê um receio muito comum a ser vencido pelos pequenos e médios negócios: “Alguns obstáculos que as pequenas empresas podem enfrentar são a falta de conhecimento dessas ferramentas ou o mito de que marketing digital é para grandes empresas”.

A digitalização aumenta em média 20% o faturamento das MPEs – mostra estudo do Instituto Locomotiva em parceria com o Ibmec, realizado em fevereiro de 2018. “Uma das estratégias que recomendo para pequenas e médias empresas é a utilização de automação de inbound marketing”.

As principais ferramentas na internet usadas por empresas de pequeno e médio porte são Facebook, Instagram e Whatsapp – cada qual com sua particularidade. Somadas as três plataformas, são 306 milhões de usuários apenas no Brasil.

No Instagram, já são 25 milhões de perfis comerciais em todo o mundo, que produzem um terço do total de stories. E 80% dos usuários de Instagram no mundo seguem pelo menos uma empresa.

Foi no Instagram que a Il Casalingo viu seu próprio crescimento. “Dá para ver um refinamento das imagens ao longo do tempo”, conta a designer Joanna Naracci, de 34 anos, uma das fundadoras da loja.

Ao lado de sua amiga de infância Larissa Saraval, Joanna montou em 2012 uma empresa para comercializar aventais, uma de suas especialidades de produção. Logo, o negócio acabou por comercializar materiais de decoração para toda a casa. A empresa hoje faz suas vendas em seu próprio site, mas produz newsletters, compartilha receitas, histórias de viagens e produz imagens no Instagram.

O negócio nasceu na internet e havia programado sua primeira loja física em São Paulo para este mês de abril – planos temporariamente adiados por conta da pandemia do coronavírus. “A gente nunca esteve tão seguro de dar esse passo de abrir loja física”, conta Joanna, segundo quem as obras estão paradas há mais de um mês, mas as vendas online cresceram com a quarentena.

Após a entrada no Instagram, Joanna viu que a rede social trouxe um padrão de qualidade para a empresa. “Precisávamos tornar nossos produtos ‘instagramáveis’. A foto é a nossa chance de mostrar que não é só um pano de prato.”

DE OLHO NO ALGORITMO E EM TÉCNICAS DE SEO

Na visão de Ariadne Mecate, consultora do Sebrae, é preciso saber do que falar e como fazer o anúncio porque não é todo conteúdo que vai ser exibido na timeline do seguidor. “O algoritmo está cada vez mais seletivo”, diz. Hoje, há como definir o público a ser atingido por uma publicidade paga. Lugar onde vive, faixa etária e alguns outros critérios podem ser definidos para impulsionar uma publicação online.

É preciso adaptar-se ao algoritmo – que pode fazer o “boca a boca” pela empresa, se manipulado em seu favor. “Se o seu conteúdo ficar entre as três primeiras páginas no Google, isso gera um monte de cliques, de pessoas que estão interessadas no seu produto”, avalia Denis Strum, diretor de marketing digital da Synapcom, empresa voltada para soluções em e-commerce. Para ele, isso deve se tornar uma atitude levada como uma regra para as pequenas e médias empresas.

É fundamental saber as lacunas do caminho. Conhecer outras ferramentas do Google, como o Google Meu Negócio e o Trends também são fundamentais para empresas que buscam crescer no ambiente digital. E ter conhecimento de SEO (Search Engine Optimization, ou otimização dos motores de busca) é importante.

É preciso descobrir quais são as palavras-chaves que o seu cliente utiliza na hora de comprar um produto ou serviço. Porque o cliente não vai digitar o nome da sua marca, já que ela não é conhecidaAriadne Mecate, Sebrae

Investir em palavras-chave comuns para descrever o que uma empresa oferece pode ser importante para ajudar um negócio a se tornar visível – e, por isso, é importante pensar em conteúdos alternativos.

Um blog que produza conteúdo vinculado à área da empresa pode ser um caminho. Além de gerar conteúdo relevante para a página, materiais menos focados em vendas colaboram a criar uma linha de pensamento que ajuda a mostrar valor na loja.

Pensar em termos mais específicos pode ser outro caminho. “Em vez de apostar em palavras-chave pensadas para vender notebook, que é algo muito procurado, pode ser pensado o uso de palavras-chave voltadas para ‘como comprar um notebook em Barueri’, por exemplo”, sugere Renan Mota, fundador da Corebiz, outra empresa que fornece soluções em e-commerce.

Para redes sociais, a dica mais geral é sempre interagir com o usuário. O Facebook, em resposta à reportagem por e-mail, pontua que “o cliente que manda mensagem quer uma resposta rápida e a falta dela pode passar a sensação de abandono”.

Produtos da Bakeri Nord, que tem cerca de 2 mil seguidores no Instagram.FOTO: NILTON FUKUDA/ESTADÃO

De acordo com a plataforma, os empreendedores devem priorizar conteúdos que mostram o dia a dia do seu negócio para que os usuários possam conhecer mais sobre a empresa. Este conteúdo pode ser feito por meio de posts, stories e vídeo, para que o conteúdo possa gerar conversa – o boca a boca digital.

“Não adianta ir para a internet e utilizar esses canais como propaganda e serviços. Ir para a internet quer dizer que você abre canais para o seu cliente poder conversar”, diz Ariadne Mecate, consultora do Sebrae-SP.

Para Guro Nygaard, é importante o dono participar da gestão das redes sociais.FOTO: NILTON FUKUDA/ESTADÃO

MAS E QUANTO INVESTIR?

“Fato é que há como fazer marketing digital de graça. Mas, se você quer ganhar resultado, vai ter que investir”, aponta Farah Diba Braga, professora do Insper. “Qualquer pessoa ou empresa de qualquer porte pode ter sua página numa rede social, ou construir um blog. Veja bem, não é de graça, mas é financeiramente viável”, conclui.

Existem empresas voltadas a automatizar o marketing digital de empresas de pequeno e médio portes que cobram mensalidade de R$ 60. Não há um número mágico de quanto destinar para o marketing, mas as empresas costumam enviar entre 3% e 5% de seu faturamento para o setor.

“Tem que definir investimento que faça sentido para o serviço que ele pretende vender. Cada negócio vai demandar um tipo de estratégia”, diz Marcos Facó, diretor de Comunicação e Marketing da Fundação Getúlio Vargas (FGV).

Para quem pensa em vender mais do que anunciar, marketplaces são boas escolhas. Magazine Luiza, Mercado Livre, B2W e Netshoes estão entre as opções (confira nossa lista de 61 marketplaces onde anunciar). O custo dentro de um marketplace só se aplica quando a venda é efetivada, uma vantagem estratégica.

“Isso é muito bacana porque provavelmente o empreendedor gastaria em marketing digital em outras frentes”, indica Renan Mota, do Corebiz.

E se apenas 27% das plataformas possuem um site, a Il Casalingo mostra que investir na plataforma pode ser uma boa solução. Quando a empresa trocou para um site mais eficiente e com uma melhor proposta estética, de acordo com Joanna, fundadora da empresa, os custos aumentaram de forma significativa, mas os resultados foram dobrados.

Foto produzida para postagem da comunicadora Lena Mattar, que trabalha no universo da alimentação e profissionalizou sua conta pessoal no Instagram.FOTO: BRUNO GERALDI

CURSOS E AJUDA DE INFLUENCIADORES DIGITAIS

A Bakeri Nord, de Guro Nygaard, tem pouco mais de 2 mil seguidores no Instagram. Ela vê que o crescimento da sua empresa começa a exigir um aumento do pessoal e gostaria de ter alguém na gestão das redes sociais. Ainda assim, prefere tomar as rédeas. “Acho importante o dono participar dessa parte negócio, não deixar de lado”, afirma.

Para Ariadne Mecate, do Sebrae, “não dá para deixar função nas mãos de terceiros sem saber de nada”. Joanna Naracci, da Il Casalingo, diz ter encontrado as plataformas ideais para atrair seus clientes e manter o negócio sustentável. Ela conta que estudou e fez cursos presenciais e online – um deles, com influenciador digital.

Parcerias com influenciadores, aliás, podem ser uma boa estratégia para empresas gerarem engajamento orgânico, o famoso boca a boca digital. Por isso, empresas querem também aprender com eles.

Lena Mattar, que hoje é também influenciadora, decidiu profissionalizar seu Instagram pessoal e começou a produzir conteúdo voltado para a gastronomia. Fez newsletter, começou a compor as imagens do perfil com um fotógrafo profissional e compartilha receitas no perfil. O número de seguidores, segundo ela, duplicou. Hoje, são quase 20 mil seguidores.

Segundo Lena Mattar, virada em rede social fez duplicar número de seguidores.FOTO: MARCELO SOUBHIA

Agora, ela planeja cursos para ensinar empresas sobre como usar a rede social de uma forma mais eficaz, como ter um melhor planejamento de imagem. A ideia surgiu depois de Lena perceber a grande procura de empreendedores para saber como chegar até o cliente por meio de redes sociais e mantê-lo fiel à marca.

No dia 12 de maio, a comunicadora promoverá o curso “Redes sociais para negócios de alimentação”, com transmissão ao vivo às 16h pela plataforma Foodness. No curso, Lena vai abordar tópicos como: para que servem as redes; adequação de linguagem (visual e textual); importância da imagem nas redes sociais; e recursos disponíveis (feed, stories, enquetes, hashtags etc.).

Especialista em marketing digital, Livia Bravin também oferece cursos para empresas. Ela trocou a assessoria de imprensa pela área e começou o seu curso em dezembro do ano passado, no Rio de Janeiro. Ela também faz pequenos tutoriais em seu Instagram sobre como usar ferramentas para aperfeiçoar a produção de conteúdo para as redes sociais.

Cursos online também podem ser uma boa opção. Apenas 27% dos donos de pequenas e médias empresas fizeram cursos online, segundo pesquisa do Sebrae.

O Facebook oferece o serviço Facebook Business, que tem cursos gratuitos disponíveis para empresários entenderem melhor os fundamentos do marketing digital, além do Impulsione com o Facebook, em parceria com o Sebrae, com cursos presenciais para ensinar como se pode usar os serviços de WhatsApp, Facebook e Instagram de uma melhor forma para os negócios.

É preciso, além de conhecer, sempre se atualizar, frisam os especialistas. “O mercado digital está em constante modificação”, pondera Marcos Facó, da FGV. “Aquele que se diz expert no tema só é especialista naquele momento, porque logo tudo mudará de novo.”

Fonte/Texto: Levy Teles / Especial para o Estado, 29 de abril de 2020 | 06h00.

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Propósito vai ser ainda mais importante para as marcas pós-pandemia

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O novo normal em Wuhan, na China: funcionária de empresa aérea trabalha com proteção após reabertura do aeroporto local.  Foto: REUTERS/Aly Song

Para além das tendências previstas para os negócios em 2020, a disseminação do novo coronavírus e os efeitos provocados pelo isolamento social estão mudando o que era esperado para as empresas. Negócios de todos os portes, principalmente os pequenos e médios, tiveram que correr atrás de adequações, sejam em relação à digitalização de suas operações ou na implantação do trabalho remoto

Esses dois pontos serão o maior legado deixado pela pandemia, segundo o professor André Miceli, coordenador do MBA em Marketing e Inteligência de Negócios Digitais da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e diretor-executivo da Infobase (empresa integradora de tecnologia da informação). 

Em parceria com as duas instituições e com a Institute for Technology, Enterpreneurship and Culture (TEC), Miceli desenvolveu o relatório “Tendências de Marketing e Tecnologia 2020: Humanidade redefinida e os novos negócios” para ajudar empreendedores a se moverem diante da pandemia. 

“Entre as empresas que adotaram o home office durante a quarentena, quando elas tiverem completamente livres para voltar ao trabalho, 30% delas irão adotar pelo menos um dia de home office de seus funcionários. Essa é uma questão cultural. Assim como aconteceu com a transição dos negócios que estão adotando ferramentas de e-commerce e práticas digitais”, analisa. Para ele, o próximo passo das empresas será estruturar esses métodos. Confira a seguir a entrevista.

Negócios precisaram intensificar ou criar uma operação digital de forma emergencial na quarentena. Qual o legado que esse movimento deixa para o empreendedorismo pós-pandemia?

O principal ganho que isso vai trazer é o legado cultural. Tanto empresas grandes que passaram trabalhar em home office e enfrentavam resistência dentro da própria empresa quanto empreendedores mais conservadores, ainda que pequenos, que resistiam ao movimento de digitalização vão ter que fazer funcionar. Vão ter que trabalhar de fato para que isso funcione. As barreiras culturais vão ser quebradas. Esse comportamento de um pensamento mais digital vai permanecer. Por mais que a empresa encontre desafios, vai ser um processo de transição que vai trazer dores, mas com elas vem o crescimento. 

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O novo normal em Wuhan, na China, primeiro epicentro da Covid-19. Cidade saiu oficialmente do confinamento imposto pelas autoridades sanitárias. Foto: REUTERS/Aly Song

Quando tudo passa, fica tudo que está sendo construído agora, ficam estradas pavimentadas. Quem está estabelecendo processos paravender via Whatsapp, por exemplo, está aprendendo a vender digitalmente. Depois, para criar um site é muito mais fácil. Quem está adotando o home office vai poder manter um desenho que seja híbrido. Esse momento tem evidenciado que a tecnologia é um ativo humano. A gente tem essa discussão que ela afasta as pessoas e não tem mais dúvida de que não afasta. As pessoas podem tomar a decisão de se afastar, mas não é por causa pela tecnologia, ela vai evidenciar o nosso lado mais humano.

Segundo o relatório, a expectativa é que o trabalho remoto se torne mais comum depois. O quão comum ele deve ser? 

Esse é um movimento que já vinha acontecendo, vimos o crescimento na prática de home office nos últimos anos e a pandemia o acelerou. Isso nos faz acreditar que entre as empresas que adotaram o home office durante a quarentena, quando elas tiverem completamente livres para voltar ao trabalho, 30% delas irão adotar pelo menos um dia de home office de seus funcionários. 

Mais uma vez, essa é uma questão cultural. Assim como aconteceu com a transição dos negócios que estão adotando ferramentas de e-commerce e práticas digitais, a gente também precisou dessa obrigação do home office para que as empresas colocassem isso para funcionar de verdade. Elas vão ver problemas, mas vão ver muitos benefícios também. 

Assim que a abertura acontecer, a gente deve ter um porcentual ainda maior do que esses 30% porque, apesar de acabar o isolamento social, vamos receber diretrizes de distanciamento social. Para as empresas cumprirem isso elas vão precisar diminuir a quantidade de funcionários que fiquem na empresa ao mesmo tempo. O que vamos ver logo depois do fim do isolamento social é um rodízio. 

Na sequência, quando liberarem tudo, algumas empresas, ao verem o benefício do home office, vão optar por manter a prática. Depois desse momento em que as coisas ainda estão acontecendo de uma maneira mais rudimentar, vamos ver discussões sobre legislação de home office, empresas tendo que criar pacote de benefício em torno do home office. Vamos ver empresas tendo que estruturá-lo de forma mais consistente. 

Quais empresas são essas?

Mais do que o segmento, a função é o mais determinante para isso. De qualquer forma, o segmento de serviços facilita essa visão porque não precisa da presença física em muitos momentos. As empresas de tecnologia também, pois já têm uma visão moderna das relações de trabalho. Mas as funções é que são as grandes sacadas. O departamento financeiro, a equipe de marketing, de tecnologia da informação, por exemplo, podem ser mais facilmente colocadas em home office. Já os setores que precisam de interação física ou manipulação de elementos vai ter que voltar ao normal. 

O que mais muda nas relações de trabalho? 

Com a prática do home office e as empresas aprendendo a trabalhar remotamente o que vamos ver é a empresa buscando recursos de uma forma mais ampla. O mundo vai ser a opção. Hoje, procuramos gente que mora em determinada distância, na cidade em que estamos, pensando no deslocamento. Quando essa relação acaba, principalmente nos segmentos em que temos apagão de mão de obra, as empresas brasileiras vão se acostumar com práticas que os Estados Unidos e a Europa já fazem, que é buscar pessoas em outros países. Vamos ter isso tanto do lado das empresas quanto das pessoas, que vão poder trabalhar em várias empresas ao mesmo tempo sem estarem próximas delas fisicamente. Isso torna a relação empresa-colaborador mais fluida, menos rígida, tendo colaboradores de várias regiões.

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Para André Miceli, professor da FGV, o maior legado da pandemia será cultural, com destaque para a digitalização dos negócios e a implantação do trabalho remoto. Foto: André Crispim

O que o levantamento aponta em relação à sobrevivência dos pequenos negócios?

Todos os empreendedores, principalmente os pequenos, por não terem capacidade de empurrar solução para o mercado, precisam pensar nos problemas que eles vão resolver. O problema que eles resolvem como empresa é a chave para escalar o negócio. Por exemplo, o segmento de telemedicina – que acabou de ser aprovada – é inexplorado ainda. Tem oportunidades de explorar campos novos, pensando na necessidade das pessoas. A gente tem menos espaço para criar soluções que as empresas vão empurrar para os clientes.

Sabe quando o Steve Jobs falava que a Apple tinha que entregar para os clientes coisas que eles precisam, mas ainda não sabem que precisam? Então, empresas grandes são capazes de gerar demanda e desejo, mas neste momento, principalmente para os pequenos, olhar para o consumidor e resolver os problemas dele vai ser mais eficiente do que tentar colocar uma solução que não necessariamente está ligada a essa demanda.

É possível que as empresas façam isso sem parecerem insensíveis?

Vamos ter um tempo mais difícil, mas como todo cenário de crise temos oportunidades que se apresentam, que possam se mostrar uma situação interessante caso eles consigam identificar as dores e consigam produzi-las de forma barata. As pessoas não vão deixar de consumir e de trocar de produto ou serviço se acharem algo com custo mais barato. Em última instância, as empresas são organismos que servem ao lucro. 

Por exemplo, muita gente veio me perguntar se o movimento das empresas trocando o logotipo, como no caso do Mercado Livre que trocou as mãos por um cumprimento de cotovelos, era manipulação. Todo movimento de marketing é de manipulação, toda empresa serve ao propósito dos seus sócios, não vejo isso como um movimento atípico, é normal. O que eu acho que elas devem fazer em um momento mais sensível é tentar devolver para a sociedade parte daquilo que a sociedade dá para ela, ter ações sociais, ajudar as pessoas a terem um movimento um pouco mais confortável – com aquilo que ela faz de melhor.

Como empresas de conteúdo que liberaram acesso para as pessoas nesse momento. É o movimento que deve acontecer independentemente de ser uma época de crise ou não, as empresas têm que retornar para sociedade. Um empreendedor aproveitar a oportunidade para crescer, usando métodos honestos, sem se aproveitar de alguém que está sofrendo para isso, por que não? 

E como fica o cenário pós-pandemia? Quando a quarentena acabar, é esperado que as atividades ainda demorem a voltar a ser como eram. Como reagir nesse período? 

Tradicionalmente os momentos pós-crise são momentos que apresentam oportunidades interessantes. Tanto nas crises de 2001 e 2008, até em crises mais antigas, como a do petróleo e a de 1929, o pós tem seus momentos bons. Depois que a sensação de insegurança acaba, os investimentos recomeçam. Tem movimentos de fusões e aquisições, tem movimento de crédito retornando. Essa crise é diferente porque não nasceu como crise financeira, ela se tornou financeira por causa de saúde. Ainda existe muito dinheiro no mundo. Ele está preso porque as pessoas estão inseguras, mas ele estará liberado quando tudo acabar. 

Ao contrário das outras crises, que nascem financeiramente, uma vacina resolve o problema. Enquanto ela não for encontrada o mundo não vai voltar ao normal. Depois que ela for encontrada, a gente vai ver esse dinheiro reprimido liberado para investimento, o mundo mais aberto à utilização de tecnologia e vamos ver diferenças comportamentais mais importantes em relação ao distanciamento ou à aproximação das pessoas. 

Vai ser um pouco diferente a relação dos restaurantes, por exemplo. Vamos ver mais restaurantes de porta, sem salão, que vão cobrir uma região inteira. Estará mais focado em operações logísticas, em vez do cara investir R$ 2 milhões para ter um mega restaurante decorado, ele vai investir esse dinheiro em 10 restaurantes simples, que entregam e cubram mais regiões. O mundo dos shopping centers vai precisar se reinventar porque as aglomerações vão ter que diminuir por um tempo. Um mundo mais orientado à tecnologia e mais humano ao mesmo tempo. 

A visão é que a recuperação vai ser rápida porque temos dinheiro disponível no mundo pra isso. Não sei se a crise vai ser longa, mas a recuperação tende a ser rápida. O movimento de abertura, mesmo sem vacina, vai acontecer – claro que com cuidado, de acordo com as medidas das autoridades de saúde – mas vamos continuar convivendo com o vírus. Óbvio que as pessoas não vão voltar imediatamente para os restaurantes quando as coisas reabrirem, não vai ter festa, não vai ter show. Enquanto a vacina não aparecer, o mundo não volta ao normal. 

Há iniciativas de vouchers pré-pagos e financiamento para ajudar pequenos negócios. Parece que o relacionamento com o público se tornou ainda mais importante. Como vê esse cenário?

O relacionamento com o cliente em última instância é engajamento e ele sempre acontece em função da tríade: amor, dinheiro e glória. Ou a pessoa se envolve com a marca porque tem relação de sentimento, benefício financeiro ou ganha status com isso. As empresas que souberam desenvolver vínculos afetivos têm um um bom momento para explorar. Vão sensibilizar o público com o momento de dificuldade que estão vivendo e, ao fazer uma ação como como comprar um voucher, o público está ajudando. 

Além do amor, também estão usando o dinheiro porque os vouchers dão condições melhores, eles dão desconto ou o dobro de crédito. Para quem compra é bom porque ganha um benefício, e para quem vende é fundamental porque está antecipando uma receita que vai mantê-lo vivo. 

E glória é status. A internet faz muito isso. Os badges que as empresa colocam falando que você está apoiando determinada causa, por exemplo. O marketing ainda não tem feito isso de disponibilizar movimentos digitais para o que estão fazendo nesse momento. O primeiro é um efeito químico, desperta quimicamente uma reação de quem faz a boa ação e tem uma outra questão que é que as pessoas fazem boas ações para contar para outras que fazem boas ações, isso gera admiração. As empresas ainda não estão explorando isso digitalmente para que quem está fazendo essa boa ação possa mostrar para a sua rede de contatos. 

Em que essa pandemia mudou ou vai mudar o modo como as empresas lidam com o marketing?

Sem dúvida haverá mudanças. Primeiro, o propósito vai ser cada vez mais importante, sua posição sobre os temas que permeiam a nossa existência. As empresas vão precisar se posicionar mais claramente. Não vai ser só pelo marketing, mas pela maneira como ela se comporta no dia a dia. 

Outro ponto importante é o despertar do engajamento, esse modelo de posicionamento tem a ver com despertar um sentimento positivo pela marca. Cada vez mais eu vejo a tríade de engajamento (amor, dinheiro e glória) mais importante no marketing das empresas. Cada vez menos é uma competição por posição nas gôndolas, nos mercados, mas as empresas vão precisar habitar um pedaço da memória dos seus clientes. O cara vai digitar um endereço, nao vai estar passeando no shopping e querer entrar em uma loja com que ele se deparou.

Claro que fazer marketing em outros sites e comprar mídia digital continuam sendo ações importantes. Mas aquela marca que está exposta ali vai precisar ser reconhecida quando o cliente ver a propaganda em outro lugar. Se a gente diminuir a circulação de pessoas, o marketing que vai ter que ser feito será aquele que faz as pessoas se lembrarem da marca. 

Fonte: Marina Dayrell, O Estado de S.Paulo, 02 de maio de 2020 | 15h26.