‘Brasil já não é democracia’, diz o sociólogo Manuel Castells

Manuel Castells diz que “a pandemia demonstrou que nós, os humanos, não somos solidários nem em nosso país nem no mundo” — Foto: Brenno Carvalho/Agência O Globo

No ano em que vivemos a vida por meio das telas, o atual ministro das Universidades da Espanha, o sociólogo Manuel Castells, confirmou mais uma vez a tendência antecipada por ele nos idos de 1996. Foi quando escreveu sua obra fundamental, “A Sociedade em Rede”, na qual descrevia a televida que vivemos hoje: previa como a revolução causada pelas novas tecnologias impactaria a nossa maneira de nos comunicar, de produzir, acessar a cultura e a informação.

Ele continuou pesquisando as transformações de um mundo imerso na globalização e produzindo novas formas de exclusão. Mostrou como a falta de representatividade dos políticos e partidos levou à crise da democracia e ao protesto dos jovens ao redor da Terra. “Os movimentos sociais são a defesa contra os retrocessos”, diz nesta entrevista o também autor de “Redes de Indignação e Esperança: Movimentos Sociais na Era da Internet”.

A pandemia confirmou uma outra pesquisa empírica que Castells fizera na América Latina, com o também sociólogo Francisco Calderón. Ao constatarem que a violência e a desigualdade aumentaram muito nas cidades do continente, criaram o índice de desenvolvimento desumano, em que medem como a criminalidade e o medo do outro tornaram o cotidiano apavorante. “A pandemia mostrou que nós, humanos, não somos solidários nem em nosso país nem no mundo.”

Castells – que não gosta de holofotes, já escreveu 26 livros e foi coautor de outros 22 -, ao lançar com Calderón “A Nova América Latina” (Zahar, 352 págs., R$ 69,90) no Brasil concordou em dar esta entrevista, por escrito e sem comentar a Espanha ou seu trabalho como ministro. Condições aceitas, levou um tempinho para mandar as respostas.

Não usou meias palavras ao analisar o Brasil. Antes da eleição de Jair Bolsonaro, em 2018, lançara um apelo aos intelectuais do mundo para que tentassem impedir sua vitória nas urnas, por considerá-lo um perigo para o mundo. E agora? “O Brasil já não é uma democracia”, afirma. Mas está esperançoso: “Há vida depois de Bolsonaro”.

Valor: O senhor lançou uma “Carta aberta aos intelectuais do mundo” dizendo que Bolsonaro era um perigo. Três anos depois, que avaliação faz da performance dele como presidente?

Manuel Castells: Creio que há uma constatação empírica de que Bolsonaro destruiu o prestígio que o Brasil tinha no mundo. E destruiu mais ainda o Brasil. Nem os militares confiam nele. O mundo espera com impaciência que termine o governo desse demagogo irresponsável, negacionista da pandemia, assim como esperávamos o fim da administração Trump. Depois que Biden chegou ao poder, estão sendo vacinadas 2 milhões de pessoas por dia. No Brasil, seguem morrendo por culpa de Bolsonaro.

Valor: O senhor já teorizou há tempos sobre a crise da representatividade política e da democracia liberal, o que só piorou com a consolidação da extrema-direita no mundo. Acha que no Brasil caminhamos para uma ruptura da democracia no estilo clássico, com militares e polícia militar apoiando a intervenção nas instituições?

Castells: O Brasil de Bolsonaro já não é uma democracia. A esperança é que os juízes e o povo acabem com esse episódio vergonhoso da história de um grande país. O temor é que alguns militares nostálgicos do golpe queiram seguir torturando. Mas sei que há uma maioria de militares que ainda apoiam a democracia e não Bolsonaro.

Valor: Ao dizer que não existe mais democracia no Brasil, em que exatamente está pensando?

Castells: O Brasil elegeu um presidente que não crê na democracia e glorifica a ditadura militar. Frequentemente os tribunais militares deram sentenças politicamente motivadas e sem provas. Em muitas cidades, a polícia está relacionada com os grupos criminosos sem que ninguém os controle. E se convertem em assassinos de pobres e de políticos que os representam. A corrupção em grande escala, exemplificada pela Odebrecht, condicionou a política brasileira. Parte do Congresso é uma coleção de caciques regionais e grupos de pressão privados, com deputados que, às vezes, puxam a arma durante os debates. E os meios de comunicação são submetidos à pressão contínua de poderes falsos. Tudo isso não é democracia, porque a democracia é mais do que votar a cada quatro anos em eleições condicionadas pelo dinheiro e poderes ocultos.

Valor: Em “A Nova América Latina”, o senhor e Fernando Calderón criaram o índice de desenvolvimento desumano, medindo a violência e o medo do outro no continente. Com a pandemia, isso aumentou ou uma certa solidariedade amenizou a desumanidade?

Castells: Meus temores de falta de solidariedade se confirmam. A pandemia demonstrou que nós, os humanos, não somos solidários nem em nosso país nem no mundo. Talvez a espécie humana não mereça sobreviver. Mas resisto a crer nisso, continuo lutando para que haja vida e humanidade solidária após a pandemia. O Brasil é um caso particularmente grave pela inépcia criminosa de um governo negacionista.

Valor: Como vê as possibilidades políticas de Lula com o fim da sua inelegibilidade?

Castells: Tem tantas possibilidades como os demais políticos e ainda tem a legitimidade que lhe foi dada por uma grande parte dos brasileiros a cada vez que se apresentou nas eleições. Agora se revelou a conspiração contra ele.

Valor: A volta de um Estado forte nos EUA, com o programa do presidente Joe Biden, indica a decadência do neoliberalismo? O FMI concordou que era hora de se endividar para socorrer os vulneráveis na pandemia. O senhor acha que esse é o caminho? Como vê a economia brasileira?

Castells: Biden representa uma esperança para os EUA e o mundo. Sua eleição, com o maior número de votos da história americana, demonstra que se pode derrotar democraticamente o populismo extremista de Trump e Bolsonaro. Seu programa econômico é um clássico do neokeynesianismo: distribuição de renda – US$ 1,4 mil por família – e investimento público maciço em infraestrutura, educação, pesquisa e tecnologias verdes, que permitirá reativar a economia dos Estados Unidos e contribuir, junto com a China, para um novo crescimento da economia mundial.

Isto beneficiará o Brasil. Mas ainda mais importante é a mensagem para os brasileiros de que há vida depois de Bolsonaro. É só ver como a derrota de Trump mostrou que é possível derrotar o vírus nos Estados Unidos. Enquanto Bolsonaro mandar, seguirão morrendo milhares de brasileiros.

Valor: Biden presidente é o começo do fim do populismo de extrema-direita no mundo?

Castells: Biden está restaurando a estabilidade no país líder do mundo e acabando com a ameaça de Trump, embora não com o perigo do trumpismo. Deu prioridade a acabar com a pandemia e, no 4 de julho, depois de vacinar 2 milhões de pessoas por dia, proclamará a independência do país sobre o vírus.

Valor: O ano passado foi o período em que os movimentos sociais contra o racismo e a favor do feminismo tiveram forte presença e mexeram com a política no Brasil e nos EUA. Mas foi também o ano em que a pandemia escancarou a desigualdade e a violência contra a mulher. Que análise o senhor faz? Como evitar a destruição das políticas públicas de defesa das mulheres, dos negros e do meio ambiente?

Castells: Os movimentos sociais são a defesa contra todo retrocesso. O movimento Black Lives Matter foi fundamental na derrota de Trump. O movimento Me Too mudou a cultura das elites machistas começando por Hollywood. Os machistas têm medo, por isso são tão violentos agora. Temos que seguir lutando. O movimento feminista é hegemônico em muitas sociedades, entre elas a Espanha, com um governo que tem quatro “vice-presidentas” que controlam todas as políticas-chave da sociedade. E novas políticas de igualdade de gênero e de liberdade sexual.

Valor: A vida vivida nas telas por força da pandemia aprofundou o que o senhor já previa em suas análises na sociedade da informação. Como o teletrabalho está mudando as cidades e a economia? Nas “timelines”, o cidadão concorre com as mídias por audiência, engajamento, opinião e todos são escravos dos algoritmos. Como o jornalismo pode manter sua relevância?

Castells: Entramos plenamente na sociedade em rede, cuja emergência analisei há muito tempo. Agora não é projeção, é realidade. A pandemia acentuou a digitalização. As rede sociais, como estudei, liberam e escravizam ao mesmo tempo, são instrumentos de liberdade e plataformas de ódio, dependem de como as utilizamos. Quanto ao jornalismo, será definitivamente digital, a imprensa no papel será um luxo para as elites que têm tempo. Nós, que não temos tempo, vamos diretamente ao digital. Mas há uma única possibilidade de o jornalismo profissional resistir às redes incontroláveis: a credibilidade. Só os meios que respeitam e difundem a verdade dos fatos podem sobreviver às “fake news”.

Valor: Antes só falávamos em globalização, mas a guerra das vacinas trouxe de volta os nacionalismos nos países ricos, e nem a União Europeia escapou disso. É o fim do multilateralismo e da cooperação internacional?

Castells: Sim e não. Há um risco de fracionamento representado pelo Brexit e por governos de extrema-direita na Europa do Leste. Mas Biden aposta no multilateralismo, e a União Europeia está firmemente decidida pela cooperação mundial. Inclusive a China está interessada na cooperação. Há esperança. Sobretudo com o fim de Trump, e, esperemos, o de Bolsonaro no Brasil, um pesadelo que estamos deixando para trás.

Fonte: Helena Celestino — Para o Valor, do Rio, 01/05/2021.