5 livros para sofisticar o modo de ler e escrever

FOTO: DORA VILLELA OKSMAN/DIVULGAÇÃO

A professora de criação literária indica cinco livros para sofisticar o modo de ler e escrever

Aos poucos, o mercado brasileiro, os escritores e leitores começam a entender para que servem, afinal, os guias de escrita. Ao contrário do que o próprio nome sugere, esses livros não são um compilado de “faça isso”, “não faça aquilo” — uma fórmula mágica boa demais pra ser verdade — mas o olhar de um leitor sofisticado sobre os recursos da língua e seu uso como ferramenta artística. Essa seleção responde em parte o que faz um texto ser literário ou apenas um compilado de histórias.

Sem trama e sem final: 99 conselhos de escrita

Anton Tchékhov (Trad. Homero Freitas de Andrade, Martins Fontes, 2007)

Uma grande aula de escrita em um livro curto e objetivo. Tchékhov recebia de amigos e conhecidos originais para serem avaliados. Depois de lê-los, opinava a respeito e, ao fazer isso, discorria sobre veracidade, os burocratas da língua, as sentimentalidades excessivas, lugares-comuns e outros temas fundamentais.

Uma amostra grátis de como ele definia o papel do escritor:

“Escritor não é confeiteiro, nem maquiador, nem bufão. É pessoa empenhada, contratada pelo sentimento de seu dever de consciência. Quem entra na dança tem que dançar, e, por mais horrível que lhe pareça, deve vencer a própria repulsa, emporcalhar a própria imaginação com a lama da vida.”

Truques da escrita: Para começar e terminar teses, livros e artigos

Howard S. Becker (Trad. Denise Bottmann, Zahar, 2015)

O título não faz jus ao conteúdo. Não há truques, mas uma discussão madura sobre as armadilhas dos ensaios. Posta em segundo plano — porque o senso comum diz que o importante é a ideia e o argumento do autor — a narrativa é um pesadelo para o leitor, que é obrigado a passar pelas páginas mais chatas sobre as quais alguém já se debruçou. A frase complexa, a construção elíptica, a falta de clareza, as expressões prontas são balaústres narrativos que não fazem o autor mais culto ou mais inteligente e ainda diminuem muito o alcance do livro. Becker discute essa escrita automática e propõe o que a academia americana já entendeu: que não há propagação de conhecimento se ninguém tem vontade de ler o que foi escrito.

Apenas para ilustrar, um mau ensaísta na fórmula de Becker apresentaria o “Truques da escrita” desta forma:

“No âmbito da complexidade da escrita, a obra discorre sobre as questões diacrônicas da narrativa e problematiza os conceitos dessa manifestação ensaística nas obras contemporâneas. São proposições prementes que devem ser dialogadas com todos que contribuem com o pensamento intelectual no século 21.”

Para ler como um escritor: Um guia para quem gosta de livros e para quem quer escrevê-los

Francine Prose (Trad. Maria Luiza X. de A. Borges, Zahar, 2008)

Uma delícia de livro. Claro, inteligente, bem escrito e com bons argumentos. A autora discute a construção de frases, parágrafos, personagens,entre outros temas. O ponto alto é o capítulo sobre diálogos. Ela defende que toda a conversa envolve uma sofisticação multitarefa que deve ser transposta para o texto. Além do que está sendo dito, há as entrelinhas, a impressão que o sujeito quer passar,o que ele quer esconder, a postura corporal, a entonação da voz. Na escrita, o autor tem que resolver tudo isso usando as palavras: vale muito a leitura mesmo pra quem não tem pretensões literárias.

Sobre a escrita: A arte em memórias

Stephen King (Trad. Michel Teixeira, Suma, 2015)

Stephen King é um sujeito mal humorado. Vai direto ao ponto, não tem paciência para os críticos e, como todo autor, tem as suas implicâncias. As dele são os advérbios (“acredito que a estrada para o inferno esteja pavimentada com advérbios”) e a voz passiva (“a voz passiva empresta autoridade, talvez um quê de majestade. Livre-se desse pensamento traidor”).

Um dos grandes méritos de “Sobre a escrita” é sair das esporas dos críticos e não ter medo de interpretar a literatura como algo muito mais abrangente do que os nomes consagrados. Stephen King tem muito a dizer e diz, dando de bandeja para o leitor a sua trajetória pavimentada.

Estilística da língua portuguesa

Manuel Rodrigues Lapa (Martins Fontes, 1992)

O efeito desse livro é imediato: saímos dele mais sensíveis às nuances da língua. Além da descoberta de que somos uma caixa ambulante de clichês narrativos, há outro capítulo importante sobre os arcaísmos, ou seja, as palavras que estão mortas ou à beira da morte e ainda são usadas como atestado de boa literatura.

Vanessa Ferrari é professora do curso de pós-graduação de formação de escritores do Instituto Vera Cruz.

Fonte: NEXO, 29 de nov de 2020.

Melhores livros de 2020: Veja seleção dos colunistas do Estadão

Colunistas do Estadão

A quarentena foi um tempo de ainda mais leitura para os colunistas do Estadão. Ficção, não ficção. Sobretudo, livros que ajudam a entender o Brasil. Livros que ajudam a escrever novos livros. Nada passou batido pelo olhar dos nossos colunistas, que contam agora um pouco sobre suas leituras no período do isolamento social e sugerem livros (quase todos de 2020) para ler ainda este ano ou em 2021.

O escritor Ignácio de Loyola Brandão, imortal da Academia Brasileira de Letras, conta que leu muito de março para cá. Com os eventos literários presenciais cancelados, sobrou mais tempo para colocar a leitura em dia. “Li bastante este ano. Devorei tudo de Rosa Montero. Mas nenhum livro me impressionou tanto quanto A Organização: A Odebrecht e o Esquema de Corrupção que Chocou o Mundo, de Malu Gaspar”, diz.

Marcelo Rubens Paiva também indica livros que ajudam a entender “o confuso Brasil”. Sua primeira sugestão aos leitores é A Máquina do Ódio: Notas de Uma Repórter Sobre Fake News e Violência Digital, de Patrícia Campos Mello.

Leandro Karnal, que dedicou uma coluna recente a dicas de leitura, conta agora que entre os livros que o fizeram pensar este ano está Guerra Pela Eternidade: O Retorno do Tradicionalismo e a Ascensão da Direita Populista, de Benjamin R. Teitelbaum.

Sérgio Augusto também dedicou sua leitura no isolamento a obras “com forte ressonância em desgraças correntes”. Tempos Ásperos, de Mario Vargas Llosa, também colunista do Estadão, é um dos melhores livros de 2020 em sua opinião.

Humberto Werneck, mergulhado na pesquisa para a sua biografia de Carlos Drummond de Andrade, portanto, seguindo todo e qualquer rastro do poeta em outros livros, sugere, para o leitor que queira conhecer mais Drummond, Amor Nenhum Dispensa Uma Gota de Ácido, reunião dos escritos do autor sobre “a tremenda pedra no caminho dos modernistas que foi Machado de Assis”.

Veja os melhores livros na opinião de cinco colunistas do Estadão

Ignácio de Loyola Brandão

Li bastante este ano. Devorei tudo de Rosa Montero. Mas nenhum livro me impressionou tanto, me deixou tão fascinado, deslumbrado, irritado, com ânsia de vômito quanto A Organização, de Malu Gaspar. A corrupção, a falta de ética, de decência, de retitude, de correção, de compostura, a ausência de moral, de princípios dos empreiteiros, dos governos, políticos, ministros, lobistas. Chega um momento que nos enoja os rios subterrâneos de dinheiro correndo, comprando tudo e todos. Se não for o melhor livro do ano, se não provocar polêmica, discussão, algo de muito estranho ocorre neste Brasil. Tudo está escancarado aqui, com provas.

  • A Organização: A Odebrecht e o Esquema de Corrupção que Chocou o Mundo Autora: Malu Gaspar Editora: Companhia das Letras (2020) (640 págs.; R$ 99,90; R$ 39,90 o e-book)

Leia as colunas de Ignácio de Loyola Brandão.

Sérgio Augusto

Recomendo três títulos: um romance histórico e dois livros de não ficção, todos de cunho político, com forte ressonância em desgraças correntes ou que “conversam com o tempo presente”, como outros talvez prefiram dizer.

A Bailarina da Morte, de Lilia M. Schwarcz e Heloisa M. Starling. Como a Gripe Espanhola, o covid-19 do século passado, chegou ao Brasil, a bordo de um navio, em 1918, aqui se disseminou e em questão de meses fez 50 mil vítimas fatais numa população de menos de 30 milhões de habitantes. Escrito durante a pandemia ainda em curso, ilumina outro momento dantesco de nossa história, de nosso descalabro sanitário, quando também a negação da ciência e a crença absurda em curas milagrosas expuseram a ignorância letal das autoridades e da população e escancararam ainda mais nossas seculares desigualdades sociais.

Gripe Espanhola
Gripe espanhola. Mulheres vestindo máscaras e carregando macas formam grupo de plantão da Cruz Vermelha, em 1918. Foto: Universal History Archive
  • A Bailarina da Morte Autoras: Lilia M. Schwarcz e Heloisa M. Starling Editora: Companhia das Letras (2020) (368 págs.; R$ 59,90; R$ 29,90 o e-book)

Tempos Ásperos conta a história do primeiro golpe de Estado articulado pela Casa Branca na América Latina e seus dois protagonistas: Jacobo Árbenz Guzman, presidente honesto e nacionalista da Guatemala, e o ressentido e corrupto tenente-coronel Carlos Castillo Armas, que à frente de uma tropa de mercenários patrocinados pela CIA e a serviço dos interesses monopolistas da United Fruit, derrubou Guzman em 1954. Bom romance histórico, na linha de A Festa do Bode, em que Vargas retratou a ditadura de outro militar bananeiro, o general Rafael Trujillo, da República Dominicana. A Guatemala nunca se recuperou das sequelas daquele golpe militar. Castillo Armas inaugurou uma dinastia de ditadores fardados, que não parece ter fim.

  • Tempos Ásperos Autor: Mario Vargas Llosa Editora: Alfaguara (2020) (280 págs.; R$ 59,90; R$ 34,90 o e-book)

The Jakarta Method é um ensaio histórico de alto nível cujo subtítulo impressiona pelo tamanho e pela abrangência: “A cruzada anticomunista de Washington e o programa de extermínio em massa que mudou o mundo”. Jacarta foi o maior laboratório de atrocidades cometidas em defesa da democracia, dos valores cristãos ocidentais e dos interesses geopolíticos e econômicos dos EUA. Com muita pesquisa fresca, o americano Vincent Bevins, correspondente internacional em diversos países, inclusive no Brasil, detalha a implantação, em meados da década de 1960, de um método de combate ideológico e guerra suja que seria responsável por alguns banhos de sangue entre 1945 e as últimas décadas do século passado, na Ásia e na América Latina. O golpe militar de 1964 no Brasil foi parte daquela cruzada. Merecia ser traduzido entre nós. De preferência ainda no governo Bolsonaro.

  • The Jakarta Method Autor: Vincent Bevins Editora: Public Affair Books (2020) (320 págs.; R$ 155,73; R$ 65,18 o e-book; em inglês)

Veja aqui as colunas de Sérgio Augusto.

Marcelo Rubens Paiva

Todos esses livros ajudam a entender o confuso Brasil, com sua tragédia secular.

  • A Máquina do Ódio: Notas de Uma Repórter Sobre Fake News e Violência Digital Autora: Patrícia Campos Mello Editora: Companhia das Letras (2020) (292 págs.; R$ 39,90; R$ 27,90 o e-book)  
  • Enquanto Houver Champanhe, Há Esperança: Uma Biografia de Zózimo Barroso do Amaral Autor: Joaquim Ferreira dos Santos Editora: Intrínseca (2016) (672 págs.; R$ 69,90; R$ 14,90 o e-book)  
  • Enterre Seus Mortos Autora: Ana Paula Maia Editora: Companhia das Letras (2018) (136 págs.; R$ 34,90; R$ 23,90)
Ana Paula Maia
A romancista Ana Paula Maia, vencedora do Prêmio São Paulo de Literatura Foto: Sergio Caddah/Divulgação
  • Poesia Completa Autor: João Cabral de Mello Neto Editora: Alfaguara (2020) (896 págs.; R$ 154,90; 49,90 o e-book)  
  • A Bailarina da Morte Autoras: Lilia M. Schwarcz e Heloisa M. Starling Editora: Companhia das Letras (2020) (368 págs.; R$ 59,90; R$ 29,90 o e-book)  
  • Brasil Paraíso Restaurável Autores Jorge Caldeira, Julia Marisa Sekula e Luana Schabib  Editora: Estação Brasil (2020) (352 págs.; R$ 69,90; R$ 39,90)  
  • Samuel Weiner Autora: Karla Monteiro Editora: Companhia das Letras (2020) (576 págs.; R$ 89,90; R$ 39,90)

Confira as colunas de Marcelo Rubens Paiva.

Leandro Karnal

Indico os livros mais recentes que me fizeram pensar:

  • Guerra Pela Eternidade: O Retorno do Tradicionalismo e A Ascensão da Direita Populista Autor: Benjamin R. Teitelbaum Editora: Unicamp (2020) (288 págs.; R$ 66)  
  • Brasil em Projetos: História dos Sucessos Políticos e Planos de Melhoramento do Reino – Da Ilustração Portuguesa à Independência do Brasil Autor: Jurandir Malerba Editora: FGV (2020) (748 págs.; R$ 94; R$ 63 o e-book)  
  • A coleção de traduções interlineares de Shakespeare Tradução: Elvio Funck Editoras: Movimento/EDUNISC Vários volumes

E as biografias: 

Winston Churchill
Winston Churchill  Foto: E. Wing/International News Photo

Leia as colunas de Leandro Karnal.

Humberto Werneck

Uma de minhas boas leituras em 2020 foi Amor Nenhum Dispensa uma Gota de Ácido, reunião dos escritos de Carlos Drummond de Andrade sobre a tremenda pedra no caminho dos modernistas que foi Machado de Assis. Por que pedra no caminho? Esbordoar parnasianos era fácil, mas o que fazer com o maior de nossos escritores? Drummond sempre admirou Machado, mas no ardor dos 20 anos fez pingar sobre ele mais de “uma gota de ácido”, por considerá-lo um “entrave à obra de renovação da cultural geral”. A coletânea organizada por Hélio de Seixas Guimarães permite acompanhar, ao longo de décadas, o processo em que Drummond, a princípio com dois pés atrás, aos poucos se rendeu à paixão machadiana, por fim escancarada no poema A um bruxo, com amor.

  • Amor Nenhum Dispensa uma Gota de Ácido Autor: Carlos Drummond de Andrade Org.: Hélio de Seixas Guimarães Editora: Três Estrelas (2019) (160 págs.; R$ 44,90)

Gostei também, e muito, de reler O Observador no Escritório, diários de Drummond publicados em vida e que ganharam neste ano nova edição, para a qual, aliás, escrevi um posfácio. Reedição no capricho, pois, além de pequenos acertos, traz indispensável índice onomástico. Sua leitura nos conduz de modo natural a mais diários do poeta, ao fascinante Uma Forma de Saudade“, saído da gaveta faz uns poucos anos, e que, carregado de informações por vezes cruas, não teve ainda a atenção que por certo merece.

Carlos Drummond de Andrade
Foto do poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade em 1986 Foto: Nem de Tal/Estadão
  • O Observador no Escritório Autor: Carlos Drummond de Andrade Editora: Companhia das Letras (2020) (272 págs.; R$ 79,90; R$ 39,90 o e-book)

Leia as colunas de Humberto Werneck.

Fonte: Maria Fernanda Rodrigues, O Estado de S. Paulo, 21 de dezembro de 2020 | 17h00.

Livro, artigo de luxo? Quanto custa e quanto pode custar um livro no Brasil

Quem quer proteger e quem quer criticar o mercado de livros no Brasil está em lados opostos do campo de batalha, mas utiliza o mesmo argumento: o preço é elevado e faz do livro um artigo quase de luxo.

Se a primeira etapa da reforma tributária do governo federal enviada para o Congresso for aprovada, o setor perde a isenção de recolhimento de contribuição que tem atualmente. Assim, um novo tributo, estimado em 12%, passará a incidir sobre ele. Editores estimam que o livro fique 20% mais caro.

Para explicar o que compõe o valor do livro e qual será o impacto do possível tributo no mercado editorial, o G1 conversou com Alexandre Martins Fontes, dono da Livraria Martins Fontes, e Marcos da Veiga Pereira, presidente do Sindicato Nacional dos Editores de Livros (Snel) e da editora Sextante.

O que compõe o preço do livro no Brasil

O valor de capa do livro, aquele que o cliente efetivamente paga, é sugerido pelas editoras com base em dois pontos: um cálculo objetivo e uma percepção subjetiva. Em 2019, o preço médio do livro no Brasil foi R$ 19, segundo dados da Nielsen, do Snel e da Câmara Brasileira do Livro.

Esse preço precisa conter o pagamento do autor, os gastos para fazer o livro, os custos e os lucros de editora, distribuidor e livrarias. Na conta da editora, a divisão média é a seguinte:

  • 10% de direitos autorais: valor pago aos autores pela obra;
  • 5% de custos editoriais: revisão, projeto gráfico, ilustração, capa, tradução e copidesque (nos casos de obras internacionais);
  • 10% de custos industriais: papel, impressão e embalagem;
  • 15% de despesas administrativas: salários, marketing e divulgação, logística e eventos;
  • 5% de reserva para perdas diversas: estoque, adiantamentos de direitos autorais e contas a receber;
  • 5% de lucro para a editora;
  • 50% de margem para livrarias ou distribuidores.

Depois de prontos, os livros são vendidos para livrarias ou distribuidoras com 50% de desconto do valor de capa, em média.

Assim, as livrarias que compram diretamente das editoras têm margem de 50% do valor de capa para pagar seus custos (funcionários, aluguel), ter lucro e trabalhar com o preço, oferecendo promoções.

No caso das que dependem das distribuidoras, essa margem cai para 30 a 35%, em média. “O distribuidor compra o livro da editora e revende para a livraria. Principalmente as pequenas não têm volume de compra para justificar o pedido direto porque precisam comprar um exemplar de cada editora”, diz Martins Fontes.

Então, onde entra a percepção subjetiva nessa conta? Com base nas porcentagens que compõem o livro, é possível estipular o valor.

Pereira explica que os editores se baseiam no preço que o livro custou para ser produzido, revisado e impresso e dividem pela tiragem.

Como esse custo unitário representa, geralmente, 15% do valor de capa, eles fazem a relação percentual e chegam ao preço que o livro precisa de fato custar nas livrarias.

“Mas sempre determinamos em função da percepção de valor que temos dele. Baseado em que tipo de livro é, chegamos à conclusão que ele tem que custar R$ 50 e não R$ 66.” Essa percepção de preço não se explica, é preciso anos de mercado.

A partir daí, há um esforço para diminuir o custo. A melhor maneira é pelo aumento da tiragem: quanto mais cópias, menor o valor de cada uma delas. Mas há o risco de que a tiragem seja maior que o interesse do público.

Esse raciocínio ajuda a explicar por que o número de cópias impressas é um dos principais condicionadores de preço no país.

A quantidade está bem abaixo da registrada em outros países. “Esse número sempre varia muito, mas eu diria que a tiragem inicial média de um livro nos Estados Unidos oscila entre 10 e 15 mil exemplares”, avalia Pereira.

Livro está mais caro do que era?

O valor nominal do livro (o preço que o consumidor paga) aumentou. Se em 2006, ele custava, em média, R$14,20, em 2019 essa média está em torno de R$ 19.

Mas a inflação entre os dois períodos cresceu mais. Entre julho de 2006 e julho de 2020, a inflação acumulada foi de 107% pelo IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo). Assim, os R$ 14,20 do livro médio em 2006 equivalem a R$ 29,48 em preços atuais.

Um exemplo conhecido de quem acompanha o mercado editorial, mas ainda utilizado por Martins Fontes e Pereira é “O Código da Vinci”. A obra de Dan Brown foi lançada no Brasil por R$ 34,90. Em valores corrigidos pelo IPCA, seria o equivalente a R$ 83,67 atualmente.

“Se pegar um livro semelhante a ele hoje, vai provavelmente estar perto de R$ 60. Essa diferença foi o quanto ficou mais acessível nos últimos 15 anos”, diz Martins Fontes. Para os editores, a ideia de que o livro é um artigo de luxo reflete desconhecimento do mercado.

“A venda em grandes cadeias aumentou a presença de livros nas classes C e D no início da década. A Avon vendeu nos catálogos a preços baixos (R$ 10) em todo o país e se tornou a maior revendedora do Brasil. As Lojas Americanas vendem muito também. Dizer que livro é elitizado é um pensamento de quem só frequenta livrarias do Leblon e de Pinheiros”, diz Pereira.

Por que o livro não paga imposto?

O setor de livros – tanto o produto em si, quanto o papel utilizado para sua impressão – tem imunidade do pagamento de impostos garantida pela Constituição Federal.

Já as contribuições, tributos com destinação específica, não são abordadas na Constituição. O setor editorial recebeu isenção da cobrança do Pis/Pasep e do Cofins (contribuições sociais) em 2004, pela Lei 10.865. No caso da contribuição, o livro não é imune, mas a alíquota é zero.

Se o benefício para o livro for extinto, o preço pode aumentar em 20%. “É uma estimativa ainda porque precisamos entender se vai haver aumento de insumos e dos serviços contratados”, diz Pereira.

Como está o mercado editorial brasileiro

Mercado editorial brasileiro encolhe 58% em uma década

Mercado editorial brasileiro encolhe 58% em uma década

Após amargar quedas nos primeiros meses da pandemia, com faturamento 48% menor em abril, o mercado editorial teve um bom resultado em julho em relação ao mesmo período de 2019.

De acordo com dados de um estudo feito pela Nielsen, apresentados pelo Sindicato Nacional dos Editores de Livros (Snel), ao longo de julho, houve um aumento de 0,64% em volume e 4,44% em valor, em comparação ao mesmo mês de 2019.

Mas é preciso olhar com atenção para esses dados: o setor seguia em queda desde 2018, quando as redes de livrarias Cultura e Saraiva entraram com pedido de recuperação judicial e fecharam lojas pelo país.

Fonte: Thaís Matos, G1, 17/08/2020.

Nassim Taleb defendeu o uso precoce de máscaras e afirma que a demora na adoção da medida ‘custou muito dinheiro’

Escritor e palestrante sobre o mercado financeiro, Nassim Taleb
Escritor e palestrante sobre o mercado financeiro, Nassim Taleb – Divulgação

Nassim Nicholas Taleb é tido como um guru de investidores de mercados de risco. E ele afirma, não pela primeira vez, que a pandemia que vivemos não era um evento imprevisível para os mercados. Por isso, a atual crise não pode ser classificada como um cisne negro, disse em uma transmissão ao vivo da XP.

Cisne Negro (2007) é um dos livros do libanês e fala sobre fenômenos imprevisíveis –grosso movo, o motivo principal para planejar investimentos sempre de maneira diversificada.

O evento imprevisível que tornou Taleb uma celebridade foi o 11 de setembro. Antes do ataque terrorista, ele havia citado como exemplo de evento isolado um avião atingindo uma torre em Manhattan.

“Alguma coisa que você espera que aconteça não pode ser um cisne negro. E a gente sabia há anos sobre pandemias. Em nenhum momento da história nós tivemos um ambiente tão fértil para pandemias quanto atualmente”, afirmou.

E usou como exemplo um grande evento presencial em São Paulo –como era o evento da XP até a pandemia. Se tivesse sido realizado, com milhares de pessoas de diversas partes do mundo, então um único contaminado poderia ser responsável por espalhar a doença à medida em que esses participantes voltassem para casa, afirmou Taleb.

Em janeiro, quando o mundo começava a ver a crise de Covid-19 ainda de forma pouco clara, Taleb escreveu um texto em que defendia o uso de máscaras para prevenir contágio de doenças. O estudo estava ligado ao Ebola, disse ele na transmissão ao vivo.

O matemático e analista de risco afirma que a medida simples e barata poderia ter sido incentivada desde o início da doença pela OMS (Organização Mundial de Saúde) e pelo CDC (Centro de Controle e Prevenção de Doenças), o órgão de saúde dos Estados Unidos.

Ele afirmou que “quanto mais alto o posto, mais incompetente” e que esses órgãos “não tentaram encontrar a maneira mais barata de combater a doença”.

“A incompetência custou muito dinheiro”, afirmou.

Taleb não fez comentários sobre as medidas de isolamento social impostas por parte dos governos e nem sobre o número de mortos até o momento pela pandemia.

Mas usou referências do Antifrágil (livro de 2012) para dizer que sairão melhor dessa crise os que têm melhor capacidade de adaptação.

E citou que empresas com receitas estáveis por muito tempo —assim como fundos ou trabalhadores com carteira assinada— são os que tendem a quebrar em crises.

O motivo, segundo ele, é a baixa capacidade de adaptação.

Citando o exemplo do livro, em que comparava dois irmãos gêmeos, disse que o demitido que estava no mesmo emprego por anos terá dificuldade de encontrar um novo trabalho. O que trabalhou a vida inteira como taxista, depois migrou para o Uber e agora faz entregas pelo aplicativo (e não apenas corridas com passageiros) tende a sobreviver pela capacidade de adaptação.

Não citou, no entanto, as condições de trabalho desse profissional.

Fonte: Tássia Kastner, Folha de S.Paulo, 17.jul.2020 às 12h57.

Crise empurra mundo para lado dos que se preocupam com desigualdade, diz Thomas Piketty

Thomas Piketty, 49; formado em matemática na Escola Normal Superior de Paris, é doutor em economia na Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais; professor da Escola de Economia de Paris desde 2007 e professor da Escola de Altos Estudos desde 2000, é codiretor do World Inequality Lab/World Inequality Database e autor do best-seller “O Capital do Século 21”
Thomas Piketty, 49; formado em matemática na Escola Normal Superior de Paris, é doutor em economia na Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais; professor da Escola de Economia de Paris desde 2007 e professor da Escola de Altos Estudos desde 2000, é codiretor do World Inequality Lab/World Inequality Database e autor do best-seller “O Capital do Século 21” – Eduardo Knapp – 27.set.2017/Folhapress

O economista francês Thomas Piketty, 49, está de volta com um novo livro, “Capital e Ideologia”, lançado no Brasil pela Intrínseca.

Em visita no ano passado ao seu World Inequality Lab, na Escola de Economia de Paris, vi que um exemplar da obra que o projetou para o mundo, “O Capital do Século 21”, servia de peso para estabilizar a base de um painel promocional do livro, para que ele não tombasse.

Se a função se repetir, “Capital e Ideologia” será ainda melhor.

Outro já best-seller épico, o novo livro do francês supera as mil páginas, três centenas a mais que o anterior, de 2014.

Agora, Piketty aprofunda suas exaustivas pesquisas para explicitar, entre muitas coisas, o que autor define como “ideologia dominante” —um conjunto de regras legais adotado internacionalmente que mantém a desigualdade de renda elevada em todo o mundo.

Algumas vezes em tom sombrio, o livro apresenta um diagnóstico amplo para um problema muito complexo, e de difícil solução. Mas, no curso dos acontecimentos atuais, Piketty começa a enxergar rachaduras que colocam em xeque esse mecanismo.

Em “O Capital no Século 21”, o sr. trouxe evidências de como os eventos extremos do século passado destruíram a riqueza e lançaram as bases para uma tributação mais progressiva, que levou à redução da desigualdade. A partir da década de 1980, houve uma reversão. Agora, a concentração de renda cresce há 40 anos. Em “Capital e Ideologia”, há um exame de como a política falhou em acompanhar as mudanças econômicas e em responder ao problema. O sr. sugere que, se não transformarmos o sistema para torná-lo mais igualitário e sustentável entre os países e dentro deles, o populismo xenofóbico poderá destruir o que chama de “globalização hipercapitalista e digital”. A que distância estamos disso e como consertar? 
Sim, mas talvez eu esteja um pouco mais otimista do que isso agora. A despeito do aumento da desigualdade nas décadas recentes, se compararmos a situação de hoje com a de cem anos atrás, ou com o século 19, a desigualdade é bem menor do que antes.

Uma das exceções é o Brasil, onde a desigualdade ainda é muito grande, maior até do que na Europa do século 19 ou do começo do século 20.

Mas, na maioria dos países, ela caiu. Há uma evolução de longo prazo que vai na direção correta, e creio que podemos continuar nessa direção.

Tanto a crise financeira de 2008 quanto a atual pandemia em 2020 poderiam nos ajudar a compreender que precisamos de um sistema econômico mais equilibrado, justo e sustentável do que o que temos tido nas últimas décadas.

Embora uma das lições do meu livro seja que as crises não são necessariamente suficientes para levar as coisas para o lado certo, creio que estejamos em um momento de bifurcação.

Não tenho como prever o futuro, mas o que sabemos através da história é que existem soluções econômicas diferentes para confrontar problemas.

No contexto atual, talvez seja o caso de pensarmos em soluções mais globais para questões como a desigualdade.

Há alguns sinais de que a crise atual possa levar nessa direção, como na Europa, onde os membros poderão vir a decidir de forma conjunta o que fazer com o endividamento dos países e as linhas de um plano de recuperação.

Essa é uma grande novidade, pois até agora a Europa foi apenas na direção de uma área de livre-comércio e de circulação de capitais. Mas de pouco espaço para um sistema de tributação comum. Isso é algo importante que pode sair desta crise e que precisamos acompanhar de perto.

Mesmo enxergando a crise do coronavírus como chance de mudança, o que vemos neste momento, ao contrário, é que as respostas dos governos à epidemia talvez sejam um vetor de aumento da desigualdade. Países pobres e endividados vão sofrer mais, trabalhadores precários vão perder renda, e os grandes pacotes financeiros têm ajudado mais a sustentar os mercados e as grandes empresas.
Você tem toda a razão. O primeiro impacto do coronavírus será o de um aumento da desigualdade entre os países e dentro deles também. Os países ricos provavelmente ficarão até mais obcecados com eles mesmos, sem se preocupar realmente com o que está acontecendo com outras regiões.

E muitos dos países mais pobres não têm sistemas de proteção ou renda básica e serão afetados de uma maneira mais sinistra.

Mesmo em países como a França, existem trabalhadores temporários ou em contratos flexíveis que não têm acesso a nenhum tipo de benefício. É o mesmo tipo de coisa que acontece em países como o Brasil.

Mas a grande pergunta é se esse cenário será ou não um incentivo para que os governos acelerem a criação de algum tipo de rede de proteção.

A grande dificuldade é que o sistema econômico internacional possui uma ideologia dominante que ainda torna muito difícil a países como o Brasil ou a Índia, por exemplo, adotarem sistemas de taxação mais progressiva, que os torne menos desiguais e que possam financiar políticas sociais.

Individualmente, o maior entrave aos países na adoção de políticas de taxação mais progressiva parece ser o fato de o mundo viver hoje uma superfinanceirização econômica e de livre trânsito de capitais. O dinheiro pode simplesmente ir embora de onde é mais tributado. Não é difícil atacar o que o sr. chama de “ideologia dominante” e a desigualdade sem uma ação conjunta dos países na mesma direção?
Os países poderiam fazer mais, e países como o Brasil deveriam pensar em uma reforma tributária progressiva sem esperar pelo resto do mundo.

Mas, claramente, com o fluxo internacional de capitais que temos no mundo hoje, sem uma taxação comum entre os países, e com a atual uma opacidade completa, fica muito difícil para os países pobres aumentarem individualmente os impostos sobre os ricos —e eles acabam recaindo sobre os mais pobres e as classes médias.

Por isso os países ricos têm muita responsabilidade. Por isso qualquer coisa que venha a acontecer nos Estados Unidos e na Europa na saída desta crise será muito importante para os outros países do mundo.

Esse sistema de livre trânsito de capitais precisa ser mudado, pois construímos isso sem um outro, de taxação e regulação comum.

Construímos um direto sagrado que os indivíduos detêm de poderem se desenvolver usando toda a infraestrutura e o sistema educacional de seus países para depois, no clique de um botão, mandar seu dinheiro para outro lugar sem que nenhuma entidade administrativa possa fazer algo a respeito.

Mas não há nada de natural nisso. Isso faz parte de um sistema legal muito sofisticado e internacional, que precisa ser modificado.

Mas alguns países podem individualmente tentar mudar esses parâmetros, exigindo algum tipo de taxação comum ou mais abertura de informação sobre as origens desses capitais.

Nos Estados Unidos, o presidente Barack Obama conseguiu exigir algumas informações dos bancos suíços sobre cidadãos americanos com a ameaça de retirar a licença bancária dessas instituições.

Também nos Estados Unidos, os pré-candidatos Bernie Sanders e Elizabeth Warren propuseram criar um imposto sobre riqueza. Esse é o tipo de debate que vai voltar muitas vezes ainda, particularmente os Estados Unidos.

Mas também no Reino Unido e em países como a Alemanha, onde há muita pressão pela adoção de uma taxação maior sobre a riqueza.

O interessante dessas propostas nos Estados Unidos é que elas vieram acompanhadas de uma “taxa de saída”. Se alguém quiser tirar o dinheiro do país, teria de pagar um imposto de 40%. E isso é algo muito diferente da livre circulação de capital.

Olhando padrões eleitorais recentes, o sr. afirma no livro que os partidos de centro-esquerda se tornaram partidos da elite instruída. O sr. usa um termo relacionado a castas, “esquerda brâmane”, e diz que ela desfruta hoje de muitos dos benefícios da tradicional “direita comerciante”. Isso teria ampliado a resistência a uma tributação mais progressiva. Se a centro-esquerda intelectual está nessa, de onde, então, poderia surgir a pressão política para avançar na direção de uma sociedade mais igualitária?
Acho que as coisas estão mudando agora. Se olharmos para o que aconteceu nas primárias nos Estados Unidos, Warren e Sanders obtiveram um apoio muito grande do eleitorado abaixo dos 50 anos, embora isso não tenha sido suficiente para levá-los adiante.

Mas, a médio prazo, as pessoas como menos de 50 anos hoje vão se tornar mais importantes mais à frente. Muitos vão ficar mais conservadores quando envelhecerem, mas muitos, não. E lembre-se de que a proposta de taxar a riqueza de forma mais progressiva teve apoio muito forte, mesmo entre os republicanos.

É a primeira vez na história dos EUA que isso começou a ser discutido de uma maneira majoritária. Creio inclusive que Joe Biden terá de tomar emprestado algumas dessas ideias na sua campanha se quiser enfrentar o desafio que tem pela frente.

Há uma evolução muito grande nessa direção, e vejo isso acontecendo na Alemanha também, com o partido social-democrata.

Isso vem ocorrendo justamente porque essa aliança entre o que chamo de “esquerda brâmane” e “direita comerciante” está empurrando o sistema em direção a uma contradição.

Pois é evidente que as classes médias e os mais pobres não estão satisfeitos com as condições a que a globalização tem levado o mundo e com o funcionamento do sistema econômico.

Como disse, estamos em um um ponto de bifurcação. Creio que muitos eleitores estão reconhecendo que a situação ficou muito ruim tendo à frente líderes malucos como [Donald] Trump e [Jair] Bolsonaro em tempos difíceis.

Creio que a crise está empurrando o mundo mais para o lado dos que estão preocupados com o lado social e com a distribuição de renda.

Estou seguindo muito de perto o que vem acontecendo na Europa. Se esse nosso sistema opaco e de decisões somente por unanimidade não entregar o que as pessoas esperam, e ficar apenas nos pacotes trilionários, com muito dinheiro sendo jogado no mercado, creio que teremos uma reviravolta entre os eleitores.

No fim das contas, todas as grandes decisões financeiras e econômicas no fundo pertencem a todos aos cidadãos, e não apenas a pequenos grupos de burocratas.

E o esforço que tenho feito no livro e com a World Economic Database [plataforma de livre consulta sobre distribuição de renda] é o de democratizar esse tipo de informação histórica e econômica. No fim das contas, é a mobilização social que pode ajudar a reduzir a desigualdade.

Como economista preocupado com essa questão, como vê as perspectivas de um país extremamente desigual, populoso e pobre como o Brasil? Estamos no meio de uma pandemia, altamente endividados e governados por um presidente belicoso como Jair Bolsonaro. 
Espero que as pessoas que votaram em Bolsonaro e contra o PT consigam agora mudar a sua visão de mundo.

Não sou muito otimista quanto a isso, mas algumas vezes na história vimos inclusive governos de direita mudando radicalmente de posicionamento e plataforma diante de pressões sociais.

Se olharmos para o que o PT fez no Brasil, houve boas políticas para melhorar a situação dos 50% mais pobres, sobretudo com a política de aumentos reais para o salário mínimo e o Bolsa Família.

Mas ficaram faltando as reformas estruturais, como uma modificação no sistema tributário no sentido de uma taxação mais progressiva.

No fim, isso acabou contribuindo para a decepção da sociedade com o PT.

Muitas vezes é preciso pensar também em reformas dentro do próprio sistema político.

No Brasil, mesmo sendo eleito com 60% dos votos, o presidente pode não conseguir conquistar maioria no Congresso. E isso não é uma mudança simples de ser feita.

Na França, tínhamos um sistema político até 1945 em que o Senado não era escolhido pelo voto popular, e era muito conservador, com poder de veto em quase todas as mudanças sociais ou fiscais.

Em 1945, os socialistas se tornaram fortes o suficiente para mudar o sistema eleitoral, e muitas reformas se seguiram na seguridade social e no sistema de taxação progressiva.

Nos EUA, foi preciso mudar a Constituição para que fosse criado um Imposto de Renda federal, em 1913, levando o país nas décadas seguintes a ter o sistema de taxação mais progressivo da história.

Portanto, muito frequentemente alterações constitucionais como essas são críticas para levar adiante as grandes mudanças econômicas e sociais.

Fonte: Folha de S.Paulo, Fernando Canzian, 16.jul.2020 às 23h15.

Em editoras de SP, 84% tiveram salário cortado com a pandemia e a crise

Clientes olham e consultam livros em loja na avenida Paulista em São Paulo
Clientes olham e consultam livros em loja na avenida Paulista em São Paulo – Alf Ribeiro/Folhapress

Com a pandemia e a crise no mercado, as editoras já têm recorrido à medida provisória 936/2020 para reduzir os salários dos funcionários. De acordo com dados do Sindicato dos Trabalhadores de Empresas Editoras de Livros, o Seel, 84% dos funcionários contratados em regime CLT no estado de São Paulo já tiveram seus salários cortados.

Ao todo, 51 editoras paulistas já adotaram a medida, entre grandes, médias e pequenas. Dezessete dessas optaram por acordos de suspensão do trabalho. Entre as demais, a metade optou por reduzir rendimentos dos empregados em 25% –as grandes estão neste grupo.

Um quarto do total optou pelos 70% de corte. O Seel-SP não revelou o nome de nenhuma das empresas. Em nota enviada à coluna, contudo, o sindicato lembrou que funcionários da produção editorial têm trabalhado de casa –mas o mesmo não acontece com empregados na área de distribuição e logística, e eles “contam que as empresas ofereçam equipamento de proteção individual para a Covid-19”.

Já o sindicato no Rio de Janeiro não revelou números tão detalhados, mas informou que, entre as grandes casas no estado, Record, Grupo Guanabara e Ediouro já promoveram cortes nos rendimentos de seus funcionários.

De acordo com o Seel-RJ, a terceira escalonou os cortes nas faixas de 25%, 50% e 70% –no último grupo, ficaram os funcionários da gráfica. A editora de dicionários Lexikon e a Scipione, que tem sede em São Paulo, fizeram o mesmo.

Fonte: Painel das Letras. Coluna editada por Maurício Meireles, repórter da Ilustrada. Folha de S.Paulo, 6.jun.2020 às 2h08.

Maratonar livros vira nova febre da quarentena

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“Harry Potter”, de J. K. Rowling, lançada pela Rocco para celebrar os 20 anos da publicação dos livros no Brasil.

O mais forte concorrente dos livros em geral é a indústria do entretenimento. Editoras disputam o escasso tempo do leitor com séries e filmes milionários, bem como com youtubers e influenciadores de toda sorte.

Mas, durante a quarentena provocada pelo novo coronavírus, um fenômeno de consumo semelhante ao que acontece nas plataformas de streaming parece se reproduzir na leitura —a maratona.

E não é algo necessariamente em busca de novidade. Pelo que sugerem as listas de mais vendidos, em tempos de incerteza o leitor busca o conforto do que já conhece e sabe que trará diversão garantida.

Não é à toa que os boxes de livros começaram a frequentar em grande quantidade as listas. A principal caixa é a da série “Harry Potter”, de J. K. Rowling, lançada pela Rocco para celebrar os 20 anos da publicação dos livros no Brasil.

Lançada no fim de abril, em edições de luxo com capas de Brian Selznick, a caixa não é barata —custa quase R$ 500, mas mesmo assim está em primeiro lugar na lista de mais vendidos desta semana —na semana passada, era o primeiro.https://s.dynad.net/stack/928W5r5IndTfocT3VdUV-AB8UVlc0JbnGWyFZsei5gU.html

“O que está funcionando agora no mercado é o ecommerce, porque é basicamente o que temos, com as três grandes lojas, Amazon, Submarino e Magazine Luíza. E box sempre foi um produto que vendeu bem na internet”, diz Bruno Zolotar, diretor comercial da editora carioca.

Ele conta que, pelo retorno que a casa tem tido nas redes sociais, há pessoas comprando para maratonar a série. E a editora também tem visto um crescimento na venda da caixa de “Jogos Vorazes”, de Suzanne Collins —neste caso, são compras estimuladas pela publicação de um novo livro da saga, que acaba de sair nos Estados Unidos e ganha tradução no país mês que vem.

O estudante de direito Jonathas Teles, 23, é um dos que resolveram maratonar a série de Rowling como escapismo.

A tendência não se restringe à Rocco. Em terceiro lugar, nas listas desta semana apareceu o box da série em quadrinhos “Bone”, de Jeff Smith, da Todavia. Na semana passada, a caixa esteve em promoção agressiva, o que ajuda a explicar a alta —mas, nesta semana, está com preço cheio.

“Além de comprar todos os livros mais barato do que se fossem comprados individualmente, tem o fato de a série nunca ter sido publicada na íntegra no Brasil. Os fãs de quadrinhos falavam há muito tempo, tinha uma ansiedade”, diz André Conti, editor da casa.

Já a Intrínseca aparece com na lista infantojuvenil em segundo lugar, com a caixa da série “Percy Jackson e os Olimpianos”, de Rick Riordan.

“As vendas dessa série cresceram 135% nas últimas cinco semanas, na comparação com o mesmo período do ano passado. Desde o início da pandemia, a gente vê um resgate dos sucessos da editora, que são os livros do coração”, diz Heloiza Daou, diretora de marketing da casa.

Há pessoas que promovem leituras coletivas de suas obras prediletas. Um dos best-sellers da editora, a saga “Crepúsculo”, por exemplo, é alvo de uma iniciativa do tipo —tocada pela influencer literária Djennifer Dias com seus seguidores no Instagram.

Outro exemplo marcante foi o lançamento do box da série “Trono de Vidro”, pela Record, nesta semana, com exclusividade na Amazon —um quinto da tiragem de 5.000 exemplares, que vinha com brindes, foi vendido em seis horas, de acordo com a editora.

É uma caixa de R$ 349, com oito livros —as vendas chamam ainda mais atenção considerando que é uma série que começou em 2013.

“Era um box que os leitores pediam muito e a gente não tinha feito ainda. Atrasamos um pouco o lançamento por causa da pandemia”, diz Rafaella Machado, editora-executiva do grupo. “Neste país em que tanto se critica a cultura, é ela que está mantendo as pessoas sãs em casa.”

A ideia original era ter feito o dobro da tiragem, mas, em meio à crise, a Record achou melhor fazer uma impressão mais conservadora.

“Acho que a compra por impulso não acabou, mas as pessoas estão mais conservadoras. Preferem comprar o que já conhecem”, diz Machado, acrescentando que, pelos números que tem visto, as vendas não são só de leitores antigos de tais livros, mas de pessoas que chegam a eles também pela primeira vez.

Fonte: Maurício Meireles, Folha de S.Paulo, 22.mai.2020 às 16h25.

Mercado de livros se prepara para pior crise da história com novo coronavírus

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O clima azedou. Com o pânico gerado pela pandemia do novo coronavírus e o fechamento das livrarias —bem de como quase todo o varejo—, o mercado editorial ainda busca soluções para atravessar uma crise que é vista como sem precedentes em sua história. Enquanto não se chega a uma solução, se é que haverá alguma, o ambiente é de desentendimento.

Embora o comércio online já seja responsável por cerca de 45% do faturamento, segundo números da Nielsen Bookscan, as livrarias físicas ainda são o cerne do negócio. E as duas maiores delas já estão em apuros. Depois de primeiro pedir a renegociação, a Saraiva anunciou a suspensão dos pagamentos por tempo indeterminado. Nesta semana, a Cultura fez o mesmo em comunicado a seus fornecedores.

As duas já haviam sido responsáveis, nos últimos anos, por uma profunda crise no setor livreiro —atrasando pagamentos em uma bola de neve, que culminou na entrada em recuperação judicial das duas empresas, no ano passado.

Desta vez, é claro, elas não estão sozinhas. Por isso, todas as livrarias mais importantes já pediram renegociação de prazos com editores, gerando um nó na cadeia difícil de desatar. Com o fechamento das lojas, o natural é que o faturamento de cada livraria caia a zero imediatamente, no caso das que não tenham operações relevantes de ecommerce.

Ainda é cedo para ter números exatos, mas é preciso trabalhar com projeções —e o mercado prevê uma retração imediata que fica entre 60% e 70% do faturamento. Isso se o varejo reabrir daqui a dois meses. Mesmo que isso aconteça, em algumas editoras a queda pode chegar a 50% no fim do ano.

Essa crise encontra um mercado menos exposto a uma eventual falência da Cultura. Depois da novela que resultou na recuperação judicial, a empresa vinha enfrentando dificuldades em retomar sua credibilidade com editores —eles vinham restringindo o crédito à rede e vendendo livros em quantidades menores e com prazos de pagamento mais curtos. Novos atrasos já haviam ocorrido no ano passado com editores pequenos e médios.

Já no caso da Saraiva, o cenário é mais sombrio, sobretudo com grandes editores, porque casas menores não costumam vender lá. A rede havia conseguido convencer os credores de sua recuperação, e eles voltaram a fornecer à livraria —obviamente, uma pandemia global não estava nos planos. O receio, como se comenta à boca pequena, é que o coronavírus seja a pá de cal nas duas redes.

Ao mesmo tempo, a Amazon, que já conseguira surfar na crise anterior e crescer de forma sólida, é a única que continua pagando —e agora pode conquistar uma fatia maior do mercado de livros.

O cerne da desavença é simples de entender: Fora no caso das livrarias em que há percepção de risco, o setor livreiro ainda trabalha de forma significativa com a consignação. Ou seja, as livrarias deveriam acertar agora em março, por exemplo, o pagamento de livros vendidos em janeiro. O dinheiro recebido antes do fechamento do varejo, portanto, elas têm no caixa.

“Essa suspensão do pagamento imediato, sendo que as livrarias já pagam com 60 dias de prazo, nos pareceu absurdo e unilateral. Deixou todo mundo numa situação bastante desconfortável. Parece de certa forma oportunista, aproveitando a crise para salvar só a sua pele”, diz Pedro Almeida, da Faro Editorial, sugerindo que elas paguem pelas vendas até o fechamento do varejo.

O cenário resultou, nesta semana, em uma dura carta de mais de cem editoras independentes falando em “quebra de confiança” das relações comerciais, exigindo o pagamento e ameaçando cobrar os valores na Justiça. É raro, num setor de relações aparentemente cordiais, agentes do mercado tornarem públicos seus conflitos, o que dá ideia da dimensão do impasse.

“Vindo de dois anos tão terríveis, ninguém estava preparado para, de uma hora para outra, o faturamento cair a zero”, diz Elisa Ventura, dona da Blooks, uma das primeiras a fechar. “A forma como as editoras estão se posicionando não me parece a melhor forma de conversarmos. Ninguém está querendo dar calote em ninguém. O pouco dinheiro que eu tinha usei para colocar meus funcionários de férias e não demitir, pelo menos nesse primeiro momento.”

Alexandre Martins Fontes atua nas duas frentes, com a editora e a livraria que levam seu sobrenome. Como livreiro, ele pegou as editoras cujas vendas são responsáveis por 70% do seu faturamento —as grandes, portanto— e já está renegociando prazos. Com as responsáveis por 30% das receitas, as menores que divulgaram a carta, ele planeja continuar pagando como combinado.

“O lado do livreiro é o seguinte —o que tenho a pagar são acertos de consignação. Livros que, de fato, eu já vendi e teria não só condições mas obrigação de pagar, como faço há 60 anos. Mas a situação é que, se pagarmos rigorosamente tudo, ficamos sem fluxo de caixa. O que estamos fazendo é uma socialização do prejuízo”, diz ele.

“Mas seria ridículo pensar que quem vai pagar a conta são os editores. Não são. Por isso estamos separando o joio do trigo, vendo qual editor tem mais capital e podemos atrasar o pagamento e quem é pequeno e pode fechar se fizermos isso.”

Em sua editora, a WMF Martins Fontes, já começou a sentar à mesa com todas as livrarias para renegociar. E reconhece que o impacto com a Saraiva é maior, porque já não vinha fornecendo para a Cultura.

As editoras já apertaram o cinto, diminuindo ou adiando por tempo indeterminado seus lançamentos —caso de Sextante, Record, Companhia das Letras e outras—, mas sabem que a situação não pode durar muito. As vendas online não devem compensar o impacto, sobretudo porque, em um cenário de incerteza quanto ao futuro, haverá retração do consumo na economia como um todo.

O consultor financeiro André Castro, que atende casas médias e pequenas, já está refazendo o orçamento de seus clientes e teme um cenário de quebradeira no mercado —primeiro, entre as livrarias e, depois, entre editoras.

“Estou trabalhando com uma previsão de 60% de queda, porque precisamos trabalhar com uma previsão, mas ainda não dá para saber com certeza. É preciso cortar gastos”, diz.

“Muito editor, é claro, fica irritado com os livreiros —se eles já fizeram as vendas, poderiam pagar, eles dizem. Mas não é assim que funciona. São empresas com caixa apertado, que antecipam seus recebíveis. Quando a roda para, elas não conseguem pagar a conta de hoje. Qualquer pessoa que trabalha dessa forma quebra na hora.”

Mas é claro que editoras também começarão a quebrar se não receberem, num cenário de cobertor curto. Todas elas, obviamente, têm contas e funcionários a pagar. As livrarias serão fundamentais numa eventual retomada das vendas, mas o dilema na equação é como fazer todos sobreviverem.

Quem sofre também é a multidão de colaboradores —revisores, tradutores, designers— que, como no resto do mercado cultural, são freelancers. Se os lançamentos são interrompidos, todos ficam sem trabalho.

Além das mudanças nos planos de lançamentos, já se buscam soluções. A Companhia das Letras, por exemplo, ofereceu às livrarias que usem a logística da editora para fazerem vendas online —tanto as que já tinham operações na internet quanto as que não. Quase 60 livrarias já aderiram ao projeto, como Blooks, Leonardo da Vinci e Martins Fontes, entre outras. A casa também pagará o frete.

“Não é possível que o governo brasileiro não se mova. Agora temos anúncios promissores do BNDES, de linhas de crédito mais simpáticas, mas não combinaram com os russos. Depende dos agentes financeiros, os bancos privados, que estão com o freio de mão puxado”, diz Rui Campos, dono da Travessa, acrescentando que a prioridade agora é manter os empregos.

O conselho do Plano Municipal do Livro, Leitura, Literatura e Bibliotecas de São Paulo divulgou um documento com uma série de propostas que vão desde a isenção de IPTU para editoras e livrarias até a compra de livros pela prefeitura, passando pela criação de uma linha de crédito com condições de pagamento generosas.

Já a Câmara Brasileira do Livro sugeriu medidas ao Ministério da Economia e ao BNDES. Entre elas está o pedido de que se adie o pagamento do imposto de renda, contribuição social e INSS, além da abertura de linhas de crédito —no caso do BNDES, que já tem linhas de financiamento, eles pedem que, entre os itens nos quais o dinheiro pode ser usado, seja incluído o pagamento dos funcionários e o capital de giro.

Costa, o consultor financeiro, contudo, acha que apenas mais crédito não vai resolver o problema. “Não adianta o governo vir com empréstimo. Para não provocar desemprego em massa na cadeia, é preciso fazer a roda girar. E o único jeito que vejo é fazer uma compra grande, de preferência das livrarias.”

Fonte: Maurício Meireles, Folha de S.Paulo, Atualizado: 27.mar.2020 às 15h47.

Livrarias Saraiva e Cultura acumulam perdas mesmo após recuperação judicial

As livrarias Saraiva e Cultura continuam acumulando prejuízos, a despeito das duras medidas que adotaram para tentar sobreviver à crise que atinge o mercado editorial brasileiro nos últimos anos.

As duas empresas, que estão em processo de recuperação judicial, já fecharam 54 lojas —38% do total— desde 2017 e demitiram 2.451 funcionários —47,8%. Mesmo assim, continuam a operar no vermelho.

Prestes a perder o posto de maior rede de livrarias físicas do país para a Livraria Leitura, de Minas Gerais, a centenária Saraiva teve um prejuízo líquido de R$ 155,4 milhões de janeiro a novembro de 2019. 

A empresa, que chegou a ter 112 lojas em 2017, hoje trabalha com 73 e responde a 30 ações de despejo na Justiça. No final de 2018, sem conseguir pagar dívidas de R$ 675 milhões, recorreu à recuperação judicial para ter fôlego e tentar evitar a decretação da falência.

Recuperação judicial é um mecanismo pelo qual a Justiça suspende as ações de execução por 180 dias, prazo no qual a empresa deve apresentar um plano de pagamento aos credores, que precisa ser aprovado por eles em assembleia.

Livraria Saraiva

No caso da Saraiva, os fornecedores exigiram e obtiveram o afastamento do CEO, Jorge Saraiva Neto, bisneto do fundador, que começou o negócio como um sebo no centro de São Paulo.

O novo conselho de administração escolheu para ocupar o cargo o executivo Luis Mario Bilenky, que já foi presidente da Blockbuster e diretor de marketing do McDonald’s para a América Latina.

“O cenário é de atenção, mas com perspectiva de melhora”, afirma o advogado Ronaldo Vasconcelos, administrador nomeado pela Justiça para acompanhar o processo de recuperação da Saraiva. “Com a profissionalização da gestão, deverá voltar a dar lucro ao longo deste ano.”

Ainda que deficitário, o último balanço da rede mostra que o prejuízo de novembro de 2019, de R$ 13,25 milhões, foi 54,5% menor na comparação com o mesmo mês do ano anterior, de R$ 29,14 milhões.

No início de janeiro, Vasconcelos apresentou um parecer apoiando o plano da Saraiva de vender galpões e um terreno que tem em Guarulhos, avaliados em R$ 24,5 milhões.

“Sem capital de giro, a empresa não terá como honrar seus compromissos e manter o abastecimento regular de suas lojas e do site”, disse.

Da mesma forma que a Saraiva, a Cultura enfrenta dificuldades e está em recuperação desde 2018 por não conseguir pagar dívidas de R$ 285,4 milhões. No ano passado, apesar das medidas de ajuste, acumulou até novembro um prejuízo líquido de R$ 37,7 milhões.

Para manter suas atividades, a rede pretende vender, em leilão no dia 30 de janeiro, a Estante Virtual, plataforma online de venda de livros usados, que tem cerca de 4 milhões de clientes.

O site foi comprado pelo grupo em 2017, no auge do processo de expansão da empresa criada 70 anos antes na sala de estar de sua fundadora, Eva Herz. À época, ela se chamava Biblioteca Circulante e era um modesto empreendimento de aluguel de livros.

Com o sucesso, o negócio virou uma livraria em 1950. Dezenove anos depois, quando passou a ser gerido por Pedro Herz, filho de Eva, migrou para o Conjunto Nacional, na avenida Paulista, sua principal loja. 
Em 2017, além do Estante Virtual, a Cultura incorporou também a subsidiária brasileira da francesa Fnac.

Na ocasião, a notícia do negócio surpreendeu o mercado devido à situação financeira já delicada da livraria em meio à crise econômica do país.

Em documento enviado à Justiça, a administradora Alvarez & Marsal, nomeada para acompanhar o processo de recuperação da empresa, apontou a estagnação da economia brasileira, a partir de 2014, como uma das principais razões para o sufoco da livraria. “A redução do PIB em quase 10% impactou negativamente o consumo de livros”, afirma o texto.  

Outro fator, segundo o documento, seria a nova geração de consumidores, “que não tem o hábito de ler livros, preferindo assistir a séries de TV e interagir nas redes sociais”.

Segundo estudos da Câmara Brasileira do Livro, com base em informações prestadas pelas editoras, houve uma queda de 26,7% na quantidade de exemplares vendidos no país entre 2013 e 2018.

Foram 479,9 milhões de obras comercializadas no primeiro ano desse período, considerando o mercado normal e o de compras governamentais, contra 352 milhões no ano em que as duas livrarias entraram em recuperação, em 2018. Ou seja, 127,9 milhões a menos.

Outra pesquisa, o Painel do Varejo de Livros no Brasil, produzida pela Nielsen e pelo Sindicato Nacional dos Editores de Livros com dados de varejistas, entre eles livrarias, supermercados e a Amazon, mostra que o mercado encolheu mais uma vez no ano passado

Mesmo que tenha registrado crescimento em dezembro, quando o faturamento do setor atingiu R$ 188 milhões —valor 6,61% superior em relação ao mesmo mês de 2018—, o acumulado do ano foi de cerca de R$ 1,7 bilhão —R$ 115 milhões a menos. O volume de vendas também foi menor em 2019, com decréscimo de 6,35% se comparado a 2018.

Procuradas, as duas redes de livrarias não quiseram se manifestar sobre os prejuízos acumulados até o momento.

À Justiça, a Saraiva afirma que o “objetivo é superar gradativamente as dificuldades” e que a crise é momentânea.

Em documento anexado ao processo, a Cultura diz que seu futuro é promissor. “As décadas futuras provavelmente reservarão ao grupo crescimento tão ou mais expressivo do que aquele já experimentado ao longo de sua história.”

Fontes: Rogério Gentile e Bruno Molinero, Folha de S.Paulo, 24/2/2020

Inteligência Competitiva Empresas: livraria Lello completa 113 anos com recorde de venda de livros

Mesmo sendo um dos principais pontos turísticos do Porto, e frequentemente aparecendo nas listas internacionais de “livrarias mais bonitas do mundo”, a centenária Lello esteve muito próxima da falência. A virada aconteceu em 2015, quando os donos decidiram cobrar pela entrada, mas oferecendo o valor do ingresso como um vale-desconto na compra de livros.

O esforço deu resultados rápidos. De lá para cá, a venda de livros aumentou quase 584%, colocando a livraria como uma das campeãs de negócios em Portugal. E mais: a verba extra permitiu a restauração das instalações, que já andavam deterioradas pelo tempo, e o investimento em novos horizontes literários.

Por isso, a Lello fez uma grande festa para comemorar seu aniversário de 113 anos, no último dia 13.

Na ocasião, a livraria aproveitou para anunciar uma oferta pública para comprar exemplares da primeira edição de três obras, com destaque para “Os Lusíadas”, de Luís de Camões, maior clássico da literatura lusitana. Pelo livro, publicado em 1537, a Lello está disposta a pagar 250 mil euros (cerca de R$ 1,1 milhão).

Harry Potter

A livraria também está disposta a comprar por 70 mil euros (aproximadamente R$ 300 mil) a primeira edição, em inglês, de “Harry Potter e a Pedra Filosofal”, de J. K. Rowling.

Ator vestido de Harry Potter anima a longa fila para entrar na livraria | Foto: Pedro Sardinha/Divulgação/Lello
Ator vestido de Harry Potter anima a longa fila para entrar na livraria | Foto: Pedro Sardinha/Divulgação/Lello

A oferta tem uma explicação simbólica: a Lello e sua escadaria vermelha fazem parte do universo do bruxo de Hogwarts. A autora, apesar de britânica, viveu durante alguns anos no Porto e se inspirou na livraria para compor a atmosfera da biblioteca da escola de magia.

Os fãs da saga de Harry Potter costumam lotar a livraria. Não é raro ver alguém fantasiado ou mesmo ostentando símbolos ligados à saga internacional.

Planos

Segundo a direção da Lello, cerca de 40% dos visitantes da livraria acabam comprando livros, o que, em 2017, garantiu uma média de 1.300 obras vendidas por dia. Antes da cobrança de entrada –atualmente em 5 euros (R$ 21,3)– a média era de 190 livros por dia.

Os números de 2018 ainda não foram fechados, mas os dados preliminares já indicam expansão.

“Somos provavelmente a única livraria do mundo que cobra entrada, mas não nos afastamos da nossa vocação livreira. Pelo contrário, somos grandes divulgadores da literatura”, diz Amélia Martinho, presidente da empresa, que defende que os vouchers com o preço da entrada ajudam a transformar os visitantes em leitores.

Amélia Pinto, presidente da Lello | Foto: José Caldeira/Divulgação/Lello
Amélia Pinto, presidente da Lello | Foto: José Caldeira/Divulgação/Lello

A administradora da Lello destaca o papel da livraria na divulgação da cultura portuguesa. “Temos obras portuguesa traduzidas em várias línguas. Somos o maior exportador de cultura e de literatura nacional”, completa.

Como a maior parcelo do público é composta por turistas, a Lello investe também em livros escritos em outras línguas, sobretudo em inglês, espanhol, francês e alemão.

As traduções de autores portugueses para esses idiomas fazem sucesso. Embora nesse quesito o poeta Fernando Pessoa lidere com folga, o aumento da demanda pela obra de vários escritores deu novo fôlego à edição de traduções, resgatando livros que há muito tempo não eram editados.

Fonte: Giuliana Miranda, Folha de S.Paulo, 20.jan.2019 às 7h00