Inteligência Competitiva e a imagem da cabra

Cabras | Foto Grátis
Foto: Freepik Company

“Geralmente buscamos respostas nas planilhas de cálculo, mas fogem de nós os aspectos “brandos”, ou qualitativos, porque eles não se refletem ali. É preciso ter criatividade para tomar dados dispersos e encontrar-lhes um sentido.

A informação sobre os concorrentes não vem em pacotes prontos para serem processados, nem em um memorando escrito com perfeição. Aparece como uma imagem, aquela que se obtém ao observar a multidão que se congrega em determinado stand de uma exposição do setor de atividade ou ao perceber a pausa de um orador que revela sua dificuldade para responder a uma pergunta.

O observador é uma espécie de artista: ele deve captar os indícios importantes e, com eles, desenvolver inteligência. Às vezes demora um minuto para entendê-los; em outras ocasiões é preciso dedicar semanas inteiras na coleta de dados.

Faz pouco tempo, por exemplo, o presidente executivo de uma empresa têxtil norte-americana estava preocupado porque tinha ouvido um boato de que um concorrente asiático fabricaria produtos de menor custo em uma nova planta na Indonésia; aliás, vários meios de comunicação publicaram notícias sobre a iminente inauguração da fábrica.

Falei com diversos especialistas do setor e nenhum deles ratificou a informação, até que um analista de minha firma de consultoria visitou o local onde supostamente tinham começado a construir a fábrica e enviou-nos uma foto de uma cabra pastando.

O concorrente nem sequer havia erguido os pilares do novo edifício. A imagem da cabra nos abriu novas perguntas: por que o concorrente não tinha contratado a construção da fábrica? Haveria um problema de fundos?

A partir daí, realizamos outras pesquisas que modificaram a decisão do presidente executivo: ele ficou inclinado a investir no aumento da produção e em campanhas publicitárias.

Foi a imagem da cabra – e não um número nem um artigo jornalístico ou um blog da internet – que lhe permitiu tomar essa decisão.”

Leonard Fuld, HSM Management 61 março-abril 2007, “O quebra-cabeça da concorrência na era da internet”.

O que o marketing pode aprender com o novo jogo da Amazon?

Crucible, jogo de tiro multiplayer da Amazon,
será lançado no dia 20 de maio (Crédito: divulgação)

Na próxima quarta-feira, 20, a Amazon se tornará o jogador mais recente a entrar na arena competitiva de tiros online com o Crucible, videogame que demorou seis anos para ser lançado e chega para competir diretamente com o Fortnite, da EpicGames.

Segundo especialistas, os profissionais de marketing devem prestar atenção nos videogames, à medida que evoluíram de nicho para a próxima rede social da Geração Z. “O jogo da Amazon é muito importante”, afirmou Jamie Gutfreund, consultor estratégico da Anzu.io, marketplace de compra de anúncios em jogos. “Há um cansaço do Fortnite que vem acontecendo há um tempo e há uma fome pelo próximo”, reforçou.

Como o Fortnite, o Crucible é um jogo de tiro multiplayer gratuito. Os jogadores selecionam heróis com habilidades únicas e trabalham juntos para enfrentar objetivos, incluindo matar monstros ou lutar contra outros jogadores na tentativa de ser o último competidor em pé.

A Amazon está promovendo seu jogo por meio de sua plataforma de streaming, Twitch, com streamers populares como KillyKAPOWsk ou EvilToaster para mostrar um teaser do jogo aos fãs antes do lançamento. Isso pode ser suficiente para significar sucesso para a Amazon. Jogos como o Apex Legends, destronaram o fenômeno dos videogames Fortnite, estritamente de streamers populares que jogam no Twitch. Desde então, o Apex Legends conquistou fortes seguidores, adquirindo mais de 70 milhões de jogadores um ano após seu lançamento.

O Crucible não tem anúncios, mas Gutfreund vê potencial, já que os profissionais de marketing encontraram um grande sucesso com o Fortnite. Marcas como Wendy’s, por exemplo, levou para casa o Grand Prix Social e Influencer no Festival Internacional de Criatividade de Cannes, no ano passado, com a campanha Keeping Fortnite Fresh. Músicos como Marshmello e Travis Scott, enquanto isso, viram sua popularidade disparar em shows virtuais; a National Football League (NFL) fechou um acordo que permitia aos jogadores equipar seus avatares com qualquer camiseta das 32 equipes da liga; e Nike e Adidas venderam sapatos virtuais e agasalhos com tema Fortnite.

“A Amazon tem a capacidade divina de ver o que todo mundo está jogando no Twitch e saber o que todo mundo está comprando”, comentou Gutfreund. “Eles verão todos os dados de uma maneira que ninguém mais pode”, completou ela.

“O Crucible representa um ambiente 3D de criatividade, além de todos os dados e medições para inicializar”, reforçou.

Como outras plataformas de streaming, o Twitch viu um aumento na audiência durante a pandemia da Covid-19, com mais de três bilhões de horas assistidas durante o primeiro trimestre deste ano — o recorde da empresa, de acordo com dados compilados pelo Streamlabs, fornecedor de software para serviços de streaming.

“Todo mundo está falando sobre o marco de 200 milhões de usuários da Zoom em abril”, disse Jon Penn, CEO da NRG, consultoria de marca especializada na interseção de entretenimento e tecnologia. “Enquanto isso, há muito a ser dito sobre os 350 milhões de usuários do Fortnite e os 3,2 bilhões de horas de reprodução somente em abril”.

Muitos concordam que o Twitch servirá como um veículo de condução dos jogadores para o Crucible. Usar a plataforma de streaming para promover seu jogo é uma jogada inteligente, pois permite que a Amazon esteja no espaço de jogos e, ao mesmo tempo, forneça uma plataforma para se conectar com seu público, analisou Chris Erb, fundador e CEO da Tripleclix, agência estratégica de jogos, que ajuda marcas como Taco Bell e Kellogg’s na indústria de videogames.

“A Amazon está modelando de perto sua abordagem mais como um filme concorrente do Oscar versus um sucesso de bilheteria de verão”, disse Erb sobre o marketing da Amazon. “Eles estão focados no crescimento orgânico do usuário e na conscientização e aceitação semelhantes à execução de uma estratégia de relações públicas em comparação à compra de um anúncio no Super Bowl”.

Ainda assim, ser Amazon e possuir Twitch não significa necessariamente sucesso, afirmou Erb. “O Twitch não lhes dá vantagem sobre outros editores de jogos”, reforçou Erb. “É a qualidade dos jogos e as experiências que importam. O Twitch é uma plataforma incrível para se conectar com os jogadores, mas, no final do dia, os jogos vencem”.

Fonte: George P. Slefo, do AdAge, publicado no Meio & Mensagem, 15 de maio de 2020. *Tradução: Amanda Schnaider. **Crédito da imagem no topo: Reprodução.

Propósito vai ser ainda mais importante para as marcas pós-pandemia

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O novo normal em Wuhan, na China: funcionária de empresa aérea trabalha com proteção após reabertura do aeroporto local.  Foto: REUTERS/Aly Song

Para além das tendências previstas para os negócios em 2020, a disseminação do novo coronavírus e os efeitos provocados pelo isolamento social estão mudando o que era esperado para as empresas. Negócios de todos os portes, principalmente os pequenos e médios, tiveram que correr atrás de adequações, sejam em relação à digitalização de suas operações ou na implantação do trabalho remoto

Esses dois pontos serão o maior legado deixado pela pandemia, segundo o professor André Miceli, coordenador do MBA em Marketing e Inteligência de Negócios Digitais da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e diretor-executivo da Infobase (empresa integradora de tecnologia da informação). 

Em parceria com as duas instituições e com a Institute for Technology, Enterpreneurship and Culture (TEC), Miceli desenvolveu o relatório “Tendências de Marketing e Tecnologia 2020: Humanidade redefinida e os novos negócios” para ajudar empreendedores a se moverem diante da pandemia. 

“Entre as empresas que adotaram o home office durante a quarentena, quando elas tiverem completamente livres para voltar ao trabalho, 30% delas irão adotar pelo menos um dia de home office de seus funcionários. Essa é uma questão cultural. Assim como aconteceu com a transição dos negócios que estão adotando ferramentas de e-commerce e práticas digitais”, analisa. Para ele, o próximo passo das empresas será estruturar esses métodos. Confira a seguir a entrevista.

Negócios precisaram intensificar ou criar uma operação digital de forma emergencial na quarentena. Qual o legado que esse movimento deixa para o empreendedorismo pós-pandemia?

O principal ganho que isso vai trazer é o legado cultural. Tanto empresas grandes que passaram trabalhar em home office e enfrentavam resistência dentro da própria empresa quanto empreendedores mais conservadores, ainda que pequenos, que resistiam ao movimento de digitalização vão ter que fazer funcionar. Vão ter que trabalhar de fato para que isso funcione. As barreiras culturais vão ser quebradas. Esse comportamento de um pensamento mais digital vai permanecer. Por mais que a empresa encontre desafios, vai ser um processo de transição que vai trazer dores, mas com elas vem o crescimento. 

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O novo normal em Wuhan, na China, primeiro epicentro da Covid-19. Cidade saiu oficialmente do confinamento imposto pelas autoridades sanitárias. Foto: REUTERS/Aly Song

Quando tudo passa, fica tudo que está sendo construído agora, ficam estradas pavimentadas. Quem está estabelecendo processos paravender via Whatsapp, por exemplo, está aprendendo a vender digitalmente. Depois, para criar um site é muito mais fácil. Quem está adotando o home office vai poder manter um desenho que seja híbrido. Esse momento tem evidenciado que a tecnologia é um ativo humano. A gente tem essa discussão que ela afasta as pessoas e não tem mais dúvida de que não afasta. As pessoas podem tomar a decisão de se afastar, mas não é por causa pela tecnologia, ela vai evidenciar o nosso lado mais humano.

Segundo o relatório, a expectativa é que o trabalho remoto se torne mais comum depois. O quão comum ele deve ser? 

Esse é um movimento que já vinha acontecendo, vimos o crescimento na prática de home office nos últimos anos e a pandemia o acelerou. Isso nos faz acreditar que entre as empresas que adotaram o home office durante a quarentena, quando elas tiverem completamente livres para voltar ao trabalho, 30% delas irão adotar pelo menos um dia de home office de seus funcionários. 

Mais uma vez, essa é uma questão cultural. Assim como aconteceu com a transição dos negócios que estão adotando ferramentas de e-commerce e práticas digitais, a gente também precisou dessa obrigação do home office para que as empresas colocassem isso para funcionar de verdade. Elas vão ver problemas, mas vão ver muitos benefícios também. 

Assim que a abertura acontecer, a gente deve ter um porcentual ainda maior do que esses 30% porque, apesar de acabar o isolamento social, vamos receber diretrizes de distanciamento social. Para as empresas cumprirem isso elas vão precisar diminuir a quantidade de funcionários que fiquem na empresa ao mesmo tempo. O que vamos ver logo depois do fim do isolamento social é um rodízio. 

Na sequência, quando liberarem tudo, algumas empresas, ao verem o benefício do home office, vão optar por manter a prática. Depois desse momento em que as coisas ainda estão acontecendo de uma maneira mais rudimentar, vamos ver discussões sobre legislação de home office, empresas tendo que criar pacote de benefício em torno do home office. Vamos ver empresas tendo que estruturá-lo de forma mais consistente. 

Quais empresas são essas?

Mais do que o segmento, a função é o mais determinante para isso. De qualquer forma, o segmento de serviços facilita essa visão porque não precisa da presença física em muitos momentos. As empresas de tecnologia também, pois já têm uma visão moderna das relações de trabalho. Mas as funções é que são as grandes sacadas. O departamento financeiro, a equipe de marketing, de tecnologia da informação, por exemplo, podem ser mais facilmente colocadas em home office. Já os setores que precisam de interação física ou manipulação de elementos vai ter que voltar ao normal. 

O que mais muda nas relações de trabalho? 

Com a prática do home office e as empresas aprendendo a trabalhar remotamente o que vamos ver é a empresa buscando recursos de uma forma mais ampla. O mundo vai ser a opção. Hoje, procuramos gente que mora em determinada distância, na cidade em que estamos, pensando no deslocamento. Quando essa relação acaba, principalmente nos segmentos em que temos apagão de mão de obra, as empresas brasileiras vão se acostumar com práticas que os Estados Unidos e a Europa já fazem, que é buscar pessoas em outros países. Vamos ter isso tanto do lado das empresas quanto das pessoas, que vão poder trabalhar em várias empresas ao mesmo tempo sem estarem próximas delas fisicamente. Isso torna a relação empresa-colaborador mais fluida, menos rígida, tendo colaboradores de várias regiões.

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Para André Miceli, professor da FGV, o maior legado da pandemia será cultural, com destaque para a digitalização dos negócios e a implantação do trabalho remoto. Foto: André Crispim

O que o levantamento aponta em relação à sobrevivência dos pequenos negócios?

Todos os empreendedores, principalmente os pequenos, por não terem capacidade de empurrar solução para o mercado, precisam pensar nos problemas que eles vão resolver. O problema que eles resolvem como empresa é a chave para escalar o negócio. Por exemplo, o segmento de telemedicina – que acabou de ser aprovada – é inexplorado ainda. Tem oportunidades de explorar campos novos, pensando na necessidade das pessoas. A gente tem menos espaço para criar soluções que as empresas vão empurrar para os clientes.

Sabe quando o Steve Jobs falava que a Apple tinha que entregar para os clientes coisas que eles precisam, mas ainda não sabem que precisam? Então, empresas grandes são capazes de gerar demanda e desejo, mas neste momento, principalmente para os pequenos, olhar para o consumidor e resolver os problemas dele vai ser mais eficiente do que tentar colocar uma solução que não necessariamente está ligada a essa demanda.

É possível que as empresas façam isso sem parecerem insensíveis?

Vamos ter um tempo mais difícil, mas como todo cenário de crise temos oportunidades que se apresentam, que possam se mostrar uma situação interessante caso eles consigam identificar as dores e consigam produzi-las de forma barata. As pessoas não vão deixar de consumir e de trocar de produto ou serviço se acharem algo com custo mais barato. Em última instância, as empresas são organismos que servem ao lucro. 

Por exemplo, muita gente veio me perguntar se o movimento das empresas trocando o logotipo, como no caso do Mercado Livre que trocou as mãos por um cumprimento de cotovelos, era manipulação. Todo movimento de marketing é de manipulação, toda empresa serve ao propósito dos seus sócios, não vejo isso como um movimento atípico, é normal. O que eu acho que elas devem fazer em um momento mais sensível é tentar devolver para a sociedade parte daquilo que a sociedade dá para ela, ter ações sociais, ajudar as pessoas a terem um movimento um pouco mais confortável – com aquilo que ela faz de melhor.

Como empresas de conteúdo que liberaram acesso para as pessoas nesse momento. É o movimento que deve acontecer independentemente de ser uma época de crise ou não, as empresas têm que retornar para sociedade. Um empreendedor aproveitar a oportunidade para crescer, usando métodos honestos, sem se aproveitar de alguém que está sofrendo para isso, por que não? 

E como fica o cenário pós-pandemia? Quando a quarentena acabar, é esperado que as atividades ainda demorem a voltar a ser como eram. Como reagir nesse período? 

Tradicionalmente os momentos pós-crise são momentos que apresentam oportunidades interessantes. Tanto nas crises de 2001 e 2008, até em crises mais antigas, como a do petróleo e a de 1929, o pós tem seus momentos bons. Depois que a sensação de insegurança acaba, os investimentos recomeçam. Tem movimentos de fusões e aquisições, tem movimento de crédito retornando. Essa crise é diferente porque não nasceu como crise financeira, ela se tornou financeira por causa de saúde. Ainda existe muito dinheiro no mundo. Ele está preso porque as pessoas estão inseguras, mas ele estará liberado quando tudo acabar. 

Ao contrário das outras crises, que nascem financeiramente, uma vacina resolve o problema. Enquanto ela não for encontrada o mundo não vai voltar ao normal. Depois que ela for encontrada, a gente vai ver esse dinheiro reprimido liberado para investimento, o mundo mais aberto à utilização de tecnologia e vamos ver diferenças comportamentais mais importantes em relação ao distanciamento ou à aproximação das pessoas. 

Vai ser um pouco diferente a relação dos restaurantes, por exemplo. Vamos ver mais restaurantes de porta, sem salão, que vão cobrir uma região inteira. Estará mais focado em operações logísticas, em vez do cara investir R$ 2 milhões para ter um mega restaurante decorado, ele vai investir esse dinheiro em 10 restaurantes simples, que entregam e cubram mais regiões. O mundo dos shopping centers vai precisar se reinventar porque as aglomerações vão ter que diminuir por um tempo. Um mundo mais orientado à tecnologia e mais humano ao mesmo tempo. 

A visão é que a recuperação vai ser rápida porque temos dinheiro disponível no mundo pra isso. Não sei se a crise vai ser longa, mas a recuperação tende a ser rápida. O movimento de abertura, mesmo sem vacina, vai acontecer – claro que com cuidado, de acordo com as medidas das autoridades de saúde – mas vamos continuar convivendo com o vírus. Óbvio que as pessoas não vão voltar imediatamente para os restaurantes quando as coisas reabrirem, não vai ter festa, não vai ter show. Enquanto a vacina não aparecer, o mundo não volta ao normal. 

Há iniciativas de vouchers pré-pagos e financiamento para ajudar pequenos negócios. Parece que o relacionamento com o público se tornou ainda mais importante. Como vê esse cenário?

O relacionamento com o cliente em última instância é engajamento e ele sempre acontece em função da tríade: amor, dinheiro e glória. Ou a pessoa se envolve com a marca porque tem relação de sentimento, benefício financeiro ou ganha status com isso. As empresas que souberam desenvolver vínculos afetivos têm um um bom momento para explorar. Vão sensibilizar o público com o momento de dificuldade que estão vivendo e, ao fazer uma ação como como comprar um voucher, o público está ajudando. 

Além do amor, também estão usando o dinheiro porque os vouchers dão condições melhores, eles dão desconto ou o dobro de crédito. Para quem compra é bom porque ganha um benefício, e para quem vende é fundamental porque está antecipando uma receita que vai mantê-lo vivo. 

E glória é status. A internet faz muito isso. Os badges que as empresa colocam falando que você está apoiando determinada causa, por exemplo. O marketing ainda não tem feito isso de disponibilizar movimentos digitais para o que estão fazendo nesse momento. O primeiro é um efeito químico, desperta quimicamente uma reação de quem faz a boa ação e tem uma outra questão que é que as pessoas fazem boas ações para contar para outras que fazem boas ações, isso gera admiração. As empresas ainda não estão explorando isso digitalmente para que quem está fazendo essa boa ação possa mostrar para a sua rede de contatos. 

Em que essa pandemia mudou ou vai mudar o modo como as empresas lidam com o marketing?

Sem dúvida haverá mudanças. Primeiro, o propósito vai ser cada vez mais importante, sua posição sobre os temas que permeiam a nossa existência. As empresas vão precisar se posicionar mais claramente. Não vai ser só pelo marketing, mas pela maneira como ela se comporta no dia a dia. 

Outro ponto importante é o despertar do engajamento, esse modelo de posicionamento tem a ver com despertar um sentimento positivo pela marca. Cada vez mais eu vejo a tríade de engajamento (amor, dinheiro e glória) mais importante no marketing das empresas. Cada vez menos é uma competição por posição nas gôndolas, nos mercados, mas as empresas vão precisar habitar um pedaço da memória dos seus clientes. O cara vai digitar um endereço, nao vai estar passeando no shopping e querer entrar em uma loja com que ele se deparou.

Claro que fazer marketing em outros sites e comprar mídia digital continuam sendo ações importantes. Mas aquela marca que está exposta ali vai precisar ser reconhecida quando o cliente ver a propaganda em outro lugar. Se a gente diminuir a circulação de pessoas, o marketing que vai ter que ser feito será aquele que faz as pessoas se lembrarem da marca. 

Fonte: Marina Dayrell, O Estado de S.Paulo, 02 de maio de 2020 | 15h26.

GM e Renault vão estender fechamento de fábricas no Brasil

Carros na fábrica da GM em São José dos Campos (SP), em março – Roosevelt Cassio/Reuters

A General Motors planeja manter suas fábricas no Brasil paradas por pelo menos mais 60 dias a partir da segunda-feira, afirmou a companhia nesta quinta-feira (9), em meio à votação do último grupo de trabalhadores sobre sua proposta de enfrentamento da crise gerada pela epidemia de coronavírus.

Decisão parecida foi anunciada pela Renault, com relação ao seu complexo no Paraná.

As fábricas da GM no Brasil estão fechadas desde 30 de março, quando a companhia deu férias coletivas para os funcionários em meio às medidas de quarentena adotadas por Estados e municípios.

O prazo de paralisação deixa a GM atrás de cronogramas definidos para retomada de trabalhos em fábricas de montadoras europeias, que estão afirmando que pretendem voltar a produzir até o final deste mês.

Nos Estados Unidos, montadoras incluindo Fiat Chrysler e Toyota esperam retomar a produção no começo de maio.

A montadora norte-americana afirmou que a maioria de seus funcionários no Brasil aceitaram o plano de fechamento das fábricas e redução de salário em até 25%. A base sindical que ainda não decidiu, São José dos Campos (SP), deve terminar a votação na noite desta quinta-feira.

Se a crise do coronavírus não permitir a retomada das fábricas dentro de 60 dias, a GM poderá prorrogar a paralisação para 90 dias, segundo documento visto pela Reuters.

RENAULT

A Renault anunciou nesta quinta-feira prorrogação na parada de seu complexo fabril no Paraná até 3 de maio, ante prazo anterior em que tinha dado férias coletivas aos funcionários até 14 de abril.

“O sindicado da categoria informou que foi reprovada a possibilidade de colocar em ampla votação pelos colaboradores as medidas de flexibilidade previstas na MP 936, que instituiu o Programa Emergencial de Manutenção do Emprego e da Renda, mesmo a empresa tendo proposto condições superiores às estabelecidas na medida provisória”, afirmou a montadora em comunicado à imprensa.

As quatro fábricas do complexo fabril da Renault em São José dos Pinhais (PR), que emprega cerca de 7.500 funcionários, estão paradas desde 25 de março.

Fonte: Folha de S.Paulo, 9/4/2020.

Disney+ ultrapassa os 50 milhões de assinantes

Disney+ chegou a 50 milhões de assinantes 
Disney+ chegou a 50 milhões de assinantes 

Walt Disney Company anunciou nesta quarta-feira, 8, que seu serviço de streaming, o Disney+, ultrapassou os 50 milhões de assinantes. O número representa mais de 23 milhões a mais do que no final do ano passado, segundo levantamento divulgado em fevereiro.

O aumento de assinaturas está ligado com a chegada do serviço de streaming em diversos países. Atualmente, o Disney+ já estreou na Reino Unido, Índia, Alemanha, Itália, Espanha, Áustria, Suíça e França. Ele é esperado para novembro no Brasil. 

“Estamos realmente gratos que o Disney+ esteja ressonando com milhões em todo o mundo e acreditamos que isso é um bom presságio para a nossa expansão contínua na Europa Ocidental, no Japão e em toda a América Latina até o final deste ano”, disse Kevin Mayer, chefe de vendas diretas da Disney, em um comunicado de imprensa.  

Segundo Christine McCarthy, diretora financeira da Disney, a empresa espera ainda que mais assinantes internacionais façam parte da base do serviço de streaming a partir de agora, mas reconhece o apelo de lançamentos de séries da Marvel e da Lucasfilm, produtora de filmes como Star Wars, para também atrair o público americano. 

Fonte: Redação Link – O Estado de S. Paulo, 10/4/2020.

Brasil bate pico de tráfego de internet, mas infraestrutura de rede está preparada

Segundo especialistas, infraestrutura da rede está preparada, mas podem ocorrer instabilidades em diferentes bairros

Segundo especialistas, infraestrutura da rede está preparada, mas podem ocorrer instabilidades em diferentes bairros

O aumento no número de pessoas que estão sem sair de casa para trabalhar e se divertir, devido ao avanço do novo coronavírus no País, está provocando alta no tráfego de internet nacional. Nas noites dos últimos dias 18 e 19 de março, o País bateu recorde em volume de dados, com 10 terabits sendo enviados por segundo (Tb/s), segundo dados do Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br). Enquanto as operadoras ponderam que a capacidade das redes não é infinita e já pedem “uso responsável” aos usuários, especialistas e entidades do setor afirmam que o crescimento até aqui é residual e a infraestrutura está preparada para aguentar a alta na demanda.

Segundo Milton Kaoru Kashiwakura, diretor de projetos especiais e desenvolvimento do NIC.br, entidade que supervisiona a governança da internet no País, o uso de dados aumentou entre 5% e 10% ao longo do dia desde a semana passada. “O pico de 10 Tb/s aconteceu num momento em que, por conta do covid-19, mais pessoas passaram a acessar a internet para fins como trabalho remoto, estudo à distância e busca por entretenimento”, afirma. “Mas não deve ser visto de forma isolada, porque o crescimento tem sido uniforme nas últimas semanas.”

Já de acordo com Julio Sirota, gerente de infraestrutura do IX.br, entidade do NIC.br responsável por criar infraestrutura para trocas de dados entre as redes das operadoras e de grandes empresas, o tráfego dos últimos dias se assemelha a de um fim de semana, com bastante demanda por streaming de vídeo.

Sob controle

Sirota avalia que é pouco provável que o volume de tráfego exploda nos próximos dias. “As pessoas não vão passar a consumir duas ou três vezes mais tráfego. Já recebemos pedidos dos provedores de conteúdo para aumentar a capacidade, mas essas empresas sempre se antecipam a possíveis aumento de demanda.”

A antecipação da demanda é algo que as operadoras também fazem, afirma Giuseppe Marrara, diretor de relações governamentais da fabricante de equipamentos para telecomunicação americana Cisco. “Com ou sem coronavírus, o tráfego de rede cresce de 20% a 30% por ano, então as operadoras trabalham com capacidade que se antecipa à demanda de seis a doze meses”, afirma.

A visão é compartilhada pelas empresas que constroem e mantêm as redes em funcionamento. “Notamos um aumento no tráfego de dados, mas até aqui é um volume residual. Não vemos risco imediato para os próximos dias”, diz diretor de Relações Institucionais da Associação Brasileira de Empresas de Soluções de Telecomunicações e Informática (Abeprest), Helio Bampi – a entidade atua na instalação e manutenção de redes de fibra óptica e antenas de 3G e 4G no País.

O que pode acontecer, segundo Marrara, é que pontualmente pode haver problemas, especialmente em bairros residenciais. “A demanda que existe em centros preparados para alto volume de tráfego, como a região da Avenida Paulista, vai se diluir em outros pontos da cidade que podem não ter a mesma infraestrutura”, diz. Na visão do executivo da Cisco, as operadoras têm habilidade para fazer a gestão da rede. “É possível identificar pontos que estão consumindo muita banda além do normal e baixar sua capacidade para garantir que todos possam usar a rede.”

De acordo com a Associação NEO, que reúne prestadoras de pequeno porte, os associados já perceberam aumento no tráfego de suas redes nos últimos dias – no interior do Rio de Janeiro, um deles já registra alta de 25% em relação ao dias pré-pandemia. As empresas também observaram uma migração do tráfego de internet das redes móveis para a internet fixa.

“Até agora, as operadoras têm absorvido bem essa demanda”, disse o diretor-geral da Associação NEO, Alex Jucius. Ele afirma que a associação está em contato direto com a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) e o Ministério de Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC) para adotar medidas de garantia da qualidade de rede e serviço.

Na tarde desta sexta-feira, 19, o Sinditelebrasil, que reúne as principais operadoras do País, divulgou comunicado pedindo aos usuários “uso responsável” das redes, evitando sobrecargas. “Os recursos de rede não são infinitos”, disse a entidade, em comunicado enviado à imprensa. O grupo, formado por Algar Telecom, Claro, Nextel, Sercomtel, Oi, TIM Vivo, também vai se reunir em um comitê de crise para alinhar prioridades e medidas, incluindo a conectividade de hospitais, unidades de saúde e estações de telecom, que controlam e distribuem o tráfego e as antenas.

O posicionamento de “uso responsável” segue recomendação da Associação Interamericana de Empresas de Telecomunicações (Asiet), a qual pertencem Vivo e Claro, pedindo a usuários para priorizar home office e estudos em horário comercial, deixando atividades de lazer para a noite. Usar redes fixas em detrimento das móveis, preferir ferramentas colaborativas sem vídeo e fechar páginas que não estejam em uso também são algumas das orientações.

Definição padrão

Para manter a qualidade do serviço, recomendações mais duras já foram adotadas na Europa. Na Espanha, em quarentena desde 15 de março, a Telefónica pediu para a seus clientes que priorizem o uso da internet para quem trabalha ou estuda em casa durante o dia e chegou até a sugerir o uso do telefone fixo. A União Europeia também pediu a empresas de vídeos – como Netflix, YouTube e Amazon Prime – para que reduzissem a qualidade de suas transmissões, a fim de não sobrecarregar as redes.

A medida foi acatada pelas companhias. A Netflix, por exemplo, vai reduzir a transmissão de dados em até 25%, conforme perceber a demanda das redes. Procurada pelo Estado, a empresa enviou posicionamento dizendo que não descarta adotar a prática pelo mundo. “Trabalhamos com governos de todo o mundo e aplicaremos as mudanças conforme for necessário em outros lugares”, diz a nota. Já o YouTube diz que as medidas por enquanto só valem para a UE – pelos próximos 30 dias, os europeus não terão vídeos em alta definição ou 4K, assistindo as imagens na chamada definição padrão (480p).

Na visão de Marrara, da Cisco, o streaming não preocupa. “As empresas já fazem essas medidas de redução de qualidade normalmente, conforme percebem instabilidades na rede”, diz. “O mais difícil será lidar com o upstreaming, isto é, com as pessoas transmitindo conteúdo para a rede.”

Fontes: Anne Warth, de Brasília, Circe Bonatelli e Bruno Romani – O Estado de S. Paulo. COLABOROU BRUNO CAPELAS. 

As 3 dicas financeiras para enfrentar a crise, por Carol Sandler

Foto: Luiza Ferraz/Divulgação

Planejamento alterado, campanhas adiadas, confinamento em casa e mais trabalho. A pandemia do novo coronavírus obrigou a maioria dos brasileiros a mudar drasticamente sua rotina e fez a fundadora do Finanças Femininas, Carol Sandler, ter dias ainda mais agitados.

A economista e influenciadora digital conta que passou a fazer um volume maior de reuniões (por videoconferência) e a ajudar mais pessoas com sua expertise em finanças devido ao momento incertezas econômicas que vive o País.

Terceira convidada do E-Investidor na série As 3 dicas financeiras para enfrentar a crise, Carol elenca os pontos que considera essenciais para os brasileiros atualmente.

1- Faça um diagnóstico dos seus gastos

Quando estamos com alguma dor, vamos ao médico e ele nos pede uma série de exames. Com as nossas finanças, é a mesma situação. Para conseguirmos ver como montar um plano para atravessar este período de crise, precisamos antes fazer um diagnóstico financeiro.

É fundamental ter dinheiro guardado em reserva.

Para isso, pegue os extratos dos últimos três meses e separe eles em três categorias: essenciais, supérfluos e financeiros (parcelas de dívidas ou dinheiro que conseguiu guardar). Quem não está no vermelho pode usar 50% da renda líquida para essenciais, 30% para supérfluos e 20% para reserva. Mas se você está no vermelho, use 50% para gastos essenciais, 20% para supérfluos e 30% para parcelas de dívidas. Ao comparar o seu cenário atual com este ideal, você pode visualizar onde vem gastando mais e entender como precisa cortar.

2- Renegocie as dívidas

Quem tem um financiamento imobiliário ou de automóvel pode pedir o adiamento das parcelas por 60 dias. Além disso, os maiores bancos poderão prorrogar dívidas de bons pagadores pelo mesmo prazo.

3- Priorize investimentos com liquidez

Neste momento, é fundamental ter dinheiro guardado em reserva. Todas as economias devem ser aplicadas em investimentos de alta liquidez. Fundos DI com taxa zero podem ser muito úteis agora. Se houver uma emergência ou algum imprevisto, você poderá usar esses recursos.

Fonte: e-Investidor, Estadão, LUCAS BALDEZ, lucas.baldez@estadao.com, 27/03/2020, 18:03.

Bancos elevam juros e restringem negociação com a crise do coronavírus

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A Febraban, entidade que representa os bancos, anunciou, no dia 16 de março, que as cinco maiores instituições financeiras do país estavam abertas para discutir a prorrogação, por 60 dias, dos vencimentos de dívidas de empresas.

Nem uma quinzena se passou, e o que se ouve nas empresas que buscam negociar com os bancos é exatamente o oposto —não importa o setor, o porte do negócio ou o cargo do interlocutor.

A nota da Febraban destacava que a prioridade dos bancos era apoiar especialmente micro e pequenas empresas, proteger o emprego e a renda, numa eventual crise provocada pela epidemia de coronavírus no Brasil.

O texto até destacava que os bancos associados estavam “sensíveis ao momento de preocupação dos brasileiros com a doença provocada pelo novo coronavírus e vêm discutindo propostas para amenizar os efeitos negativos dessa pandemia no emprego e na renda”.

Representantes de entidades do setor privado, altos executivos de grandes empresas, proprietários de médios e pequenos negócios contaram à Folha, muitos na condição de não terem o nome revelado, que os maiores bancos elevaram os juros em todas as operações.

Capital de giro, antecipação de recebíveis e até de empréstimo de longo prazo, que já estavam em negociação havia tempos e prestes a serem liberados, tiveram as taxas de juros elevadas de uma semana para outra. Há casos em que as taxas dobraram e até triplicaram.

Setores mais atingidos tiveram o crédito cancelado.

Roriz Coelho, vice-presidente da Fiesp, federação das industrias de São Paulo, resume um pouco a situação. Para exemplificar, conta que uma grande empresa triplo A (jargão que define um negócio como seguro, com baixíssimo risco de calote) tinha acesso a juro de 6% ao ano.

Agora, explica ele, essa empresa paga juros de 12% e ainda tem que apresentar uma série de garantias adicionais.

Roriz questiona em particular o fato de os bancos não estarem oferecendo recursos liberados pelo BC (Banco Central) justamente para dar alívio às empresas.

O BC vem liberando os chamados depósitos compulsórios (parcela de depósitos que, por determinação do BC, são retidas pelos bancos para reduzir o dinheiro em circulação). Foram liberados mais de R$ 200 bilhões desde fevereiro.

“Eu acho que esse dinheiro, de uma forma ou de outra, tem que chegar às empresas, ou vai empoçar nos bancos, que estão fazendo mais exigências. Precisa haver garantia de que esse dinheiro irá para ajudar na folha de pagamento, no capital de giro —o dinheiro precisa ser carimbado”, diz.

Entre executivos de grandes empresas, a percepção é que que os bancos esperam uma posição do BC ou do Tesouro Nacional sobre quem vai assumir o risco de crédito.

Também há queixas sobre a inércia do Ministério da Fazenda em relação à questão. O ideal, dizem, é que o governo já tivesse um pacote de apoio financeiro, com taxas subsidiadas, via bancos públicos.

Os mais afetados até agora são os donos de restaurantes e bares, que relatam dificuldades para prorrogar parcelas de financiamentos.

Em São Paulo, o setor é um dos mais atingidos pela suspensão dos serviços não essenciais decretada pelo governo de São Paulo. Muitos fecharam as portas, outros optaram pelo delivery, mas alegam que a operação não cobre os custos do negócio.

A situação levou entidades e movimentos ligados à gastronomia a enviar uma carta a instituições bancárias nesta quinta-feira (26). O documento, segundo Paulo Solmucci, diretor da Abrasel (Associação Nacional de Restaurantes), também foi entregue ao governador João Doria.

“O que está acontecendo com as empresas quando vão renegociar é que os bancos estão aumentando significativamente as taxas de juros. A carta foi elaborada nessa situação”, afirma Solmucci.

Há cinco dias, quando o empresário Edrey Momo, sócio da Tasca da Esquina e da Padaria da Esquina, em São Paulo, foi tentar renegociar parcelas de empréstimos com os bancos Safra e Santander, recebeu a notícia de que poderia contar com uma prorrogação de três meses —mas sem a garantia de que as taxas de juros seriam as mesmas.

“Tenho 30 anos de negócio e demorei para construir uma boa avaliação e ter boas taxas. Agora a gente vê isso desmoronar em um momento de crise”, diz.

Outro empresário que relata problemas com banco é Bruno Bocchese, proprietário dos bares Fel, Cama de Gato e Mandíbula, no centro de São Paulo, e cliente no Itaú.

“Depois do anúncio da Febraban fui procurar minha gerente, e o que ela informou é que eles não poderiam postergar, mas sim fazer um refinanciamento, com mais juros em cima do valor do empréstimo”, diz.

Hugo Delgado, dono da Taquería La Sabrosa, perto da avenida Paulista, em São Paulo, afirmou que conseguiu com seu banco, Bradesco, o respiro de três meses para começar a pagar o empréstimo, mas a surpresa “foi perceber que as parcelas estavam 5% mais caras do que as anteriores. Isso depois de uma dura conversa, porque os valores eram maiores”, diz.

“Sabemos que precisamos ter um sistema bancário saudável. Mas agora todos estão apertando o cinto, e o que queremos entender é se o banco está disposto de abrir mão de parte de sua lucratividade para absorver o impacto da crise com a gente, que somos parceiros”, diz.

Outras associações relatam os mesmos problemas: juros caros, prazos menores e exigência de mais garantias para conseguir crédito.

Segundo o assessor econômico da Fecomercio (Federação do Comércio de Bens e Serviços) Guilherme Dietze, o problema reflete não uma falta de liquidez do sistema financeiro —muitos bancos alegam que há falta de dinheiro para encarecer ou limitar a operação—, mas sim a fluidez com a qual esses recursos chegam à ponta tomadora de crédito.

“Os recursos estão empoçados nos bancos porque eles sabem o risco de desemprego e da possível incapacidade das empresas em honrar seus compromissos. O risco de inadimplência faz com que haja restrições maiores no sistema bancário”, afirmou.
Segundo o presidente da Abit (Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção), Fernando Pimentel, além da dificuldade de crédito nos bancos, os associados também relatam discricionariedade entre os setores.

“Os bancos estão diferenciando os segmentos e dando preferência para aqueles que estão funcionando efetivamente, como os de alimentos e bebidas. Para os setores cuja expectativa é de queda de consumo e imprevisibilidade de retorno, os ratings [notas dadas pela capacidade de pagamento] setoriais estão caindo. Isso é normal em uma economia regular, mas estamos vivendo uma economia de guerra”, afirmou o executivo.

Pimentel afirma que a Abit também já apresentou ao governo federal a necessidade de que o setor tenha um seguro de crédito.

“Ele seria bancado pelo Tesouro mesmo, para que as operações consigam fluir aos custos vigentes, que já não eram baratos”, disse.

OUTRO LADO

Em nota, a Febraban afirmou que a decisão de conceder crédito, assim como a taxa de juros que será cobrada e o prazo de pagamento, varia de um banco para o outro de acordo com a metodologia de cada um deles e para a avaliação de risco de cada operação.

Também em nota, o Itaú Unibanco disse que “está cumprindo rigorosamente o compromisso assumido de atender a pedidos de prorrogação, por 60 dias, dos vencimentos de dívidas de Clientes Pessoas Físicas e Micro e Pequenas Empresas para os contratos vigentes em dia e limitados aos valores já utilizados”.

Ressalta ainda que, caso se concretize o adiamento, “as taxas de juros permanecem as mesmas do contrato original e o cliente evita atrasar seus pagamentos e sofrer com incidência de multas e encargos adicionais”.

O banco esclarece que, “em alguns casos, o valor da parcela do cliente pode aumentar em função de IOF e da aplicação dos juros do contrato original sobre a carência adicional.” O banco afirma que “em nenhum momento haverá aumento nas taxas de juros ou cobranças adicionais pela operação”.

Também em nota, o Bradesco disse que “está à disposição para prorrogar por 60 dias as prestações de financiamento de seus clientes. A taxa de juros inicialmente contratada será mantida e haverá a cobrança proporcional dos juros, considerando a carência solicitada, para o período restante da operação”.

O banco disse ainda que “podem prorrogar o financiamento, por até 60 dias, todos os clientes que estiverem em dia com os seus pagamentos”.

O Banco Safra disse que não comentaria o assunto.

Fontes: Isabela Bolzani, Marília Miragaia, Ivan Martínez-Vargas, Folha de S.Paulo, 27.mar.2020

Nubank anuncia fundo de R$ 20 mi e parcerias de serviços para clientes

A fintech brasileira Nubank anunciou nesta terça-feira, 24, a criação de um fundo de R$ 20 milhões para ajudar seus clientes durante a pandemia de coronavírus. O fundo é composto por reduções de custos da startup e por marketing. O Hospital Sírio-LibanêsiFoodRappi e Zee.Dog fecharam parcerias com o banco para oferecer serviços de apoio.

Os recursos do fundo levantado pelo Nubank, intitulado “Pessoas Primeiro”, vão ser destinados para serviços como atendimento médico e psicológico a distância (via teleatendimento), pedidos de supermercados, farmácias e outros serviços de entrega.

Os clientes do Nubank poderão ter acesso aos benefícios subsidiados pelo banco. O Hospital Sírio-Libanês, por exemplo, disponibilizou gratuitamente mil atendimentos em sua plataforma de teleorientação médica para os clientes da fintech. A empresa de acessórios para pets Zee.Dog vai oferecer 20% de desconto na Zee.Now, sua loja de produtos, aos clientes do Nubank em sua primeira compra. 

Os contatos poderão ser feitos por telefone, chat ou email, onde o Nubank vai analisar as situações de forma individual para encaminhar aos serviços. O banco também se comprometeu a continuar buscando parcerias para adicionar serviços ao projeto.

“Vamos além do dinheiro. Doaremos o que temos de mais precioso: nosso tempo e energia para ouvir as pessoas e ajudá-las dentro do que for possível, para além da vida financeira. Esse é o nosso DNA”, afirma David Vélez, presidente executivo e fundador do Nubank. “A nossa expectativa é dar suporte a dezenas de milhares de pessoas até o final de abril”. 

Fonte: Redação Link – O Estado de S. Paulo, 24/03/2020 | 13h49

FMI vê recessão 'tão ruim ou pior' quanto a da crise mundial de 2008

Kristalina Georgieva
O fundo disse que está pronto para usar toda a capacidade de empréstimo de US$ 1 trilhão, se necessário. Foto: Brendan Smialowski/AFP

WASHINGTON – O Fundo Monetário Internacional (FMI) disse esperar para este ano uma recessão “tão ruim ou pior” do que a crise financeira de 2008, com recuperação em 2021. A diretora-geral do FMI, Kristalina Georgieva, divulgou um comunicado nesta segunda-feira, 23, depois de participar de ligação emergencial com os ministros e presidentes de Banco Centrais dos países do G-20, no qual disse que 80 países estão pedindo a ajuda do fundo.

“O impacto econômico é e será severo, mas quanto antes o vírus parar, o mais rápido e com mais força a recuperação virá”, afirmou a diretora-geral do fundo, que disse que é preciso priorizar as medidas de contenção do vírus e fortalecimento dos sistemas de saúde dos países.

Segundo ela, o FMI apoia ações fiscais extraordinárias que os países têm tomado para ampliar e melhorar seus sistemas de saúde e proteger empresas e trabalhadores e também as recentes ações de bancos centrais que fizeram diminuições nos juros. “Esses esforços serão do interesse não só de cada um dos países, mas da economia global como um todo. Ainda mais será necessário, especialmente na frente fiscal”, afirmou.

A situação dos países emergentes e dos de baixa renda, no entanto, é mais preocupante. A diretora-geral do FMI afirmou que investidores já tiraram US$ 83 bilhões dos mercados emergentes desde o começo da crise, a maior fuga de capital já registrada, segundo ela. 

O fundo disse que trabalha com outras instituições financeiras para organizar uma resposta coordenada e está pronto para usar toda a capacidade de empréstimo de US$ 1 trilhão.

Fonte: Beatriz Bulla, correspondente, O Estado de S. Paulo, 23 de março de 2020.