Inteligência Competitiva Tecnológica: Livro “Ciência Além Da Visibilidade”, de Gilson Volpato

O que significa ser um cientista e que atributos são necessários para seguir uma carreira científica? São essas questões que Gilson Volpato aborda em Ciência Além da Visibilidade, livro recém-lançado pela editora Best Writing.

Professor aposentado do Instituto de Biociências da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Botucatu, Volpato, que atende mais de 10 mil alunos por ano em cursos que dá pelo país, viu que era preciso ir além da técnica. Após escrever livros sobre redação científica e estatística para cientistas, decidiu aprofundar o tema, o que resultou em um livro que dá diretrizes para graduandos e pós-graduandos que querem se firmar como cientistas.

Na nova obra, o autor explica a diferença entre pesquisador e cientista, o significado de fazer ciência e reflete sobre o cientistas que estão sendo formados no Brasil.

“Para ser um cientista, é preciso conseguir ligar conhecimentos de diversas áreas. Muitas vezes a pessoa sabe fazer pesquisa, usar o método científico e resolver um problema, mas cientista é diferente de pesquisador”, disse Volpato à Agência FAPESP.

O livro está dividido em três partes. Na primeira, o autor explica o que é ciência, o método científico e passa uma visão da ciência a partir da epistemologia. “O aluno precisa entender o sistema, o método científico e por que ciência é importante para qualquer área do país”, disse.

Na segunda parte, o livro se aprofunda na formação do cientista. “Existem vários tipos de cientistas. É um degradê: de um lado temos os muito ligados a uma área específica e, na outra ponta, aqueles que se envolvem em diversas áreas de conhecimento. Ser cientista é agregar conhecimento a uma rede de conhecimento de todo o mundo e é esse o poder magnífico da ciência, onde todo mundo pode usar essa rede”, disse Volpato.

Na terceira parte, o livro aborda boas práticas da ciência. “Eliminando-se os erros de má índole [corrupção], há vários equívocos a que estamos sujeitos sem que o percebamos. São erros conceituais que levam a desdobramentos equivocados na Ciência”, escreveu.

O autor lista quais são esses equívocos – seja na escolha do orientador, análise e coleta de dados, ou montagem do estudo, por exemplo –, indica como corrigi-los e ainda aponta eventuais consequências.

“É um livro voltado para quem já é ou tem interesse em se tornar um cientista. Mais que a visibilidade, é importante que haja qualidade na ciência e, por isso, fiz esse conjunto de orientações para construir conhecimento científico com competência e nível internacional”, disse.

Ciência Além da Visibilidade
Autor: Gilson Volpato
Lançamento: 2017
Preço: R$ 65
Páginas: 210
Editora: Best Writing
Mais informações, clique aqui

Fonte: Maria Fernanda Ziegler  |  Agência FAPESP, 17 de maio de 2017

Inteligência Competitiva Tecnológica: O RH encara robôs e inteligências artificiais

Divulgação

Erica Dhawan, CEO da Cotential, defende conexões mais inteligentes nas empresas. Foto: Divulgação.

A tecnologia hoje pode ajudar os departamentos de recursos humanos a reunir dados que traçam o perfil dos funcionários e os comportamentos que melhor se adaptam à organização.

Com isso, podem ter um recrutamento mais assertivo e direcionar treinamentos para as necessidades individuais dos empregados.

Novas ferramentas podem estimular ainda o trabalho em equipe e oferecer a oportunidade do profissional gerenciar a própria reputação na empresa. Tudo isso representa um grande avanço para a gestão de pessoas.

Mas os desafios dos RHs passam por questões que vão além de ter que aprender a interpretar dados, e que requerem novas competências como gestores.

A chegada da geração nascida nos anos 80 aos cargos de chefia e a entrada dos nativos digitais exigem um novo olhar para a atração, retenção e desenvolvimento de talentos.

Além disso, a discussão sobre o uso de inteligência artificial, a robotização e a as novas funções que sobrarão para os humanos já começa a tirar o sono desses executivos.

Todas essas questões foram discutidas na quarta edição do HCM World, evento promovido pela Oracle, que reuniu em Boston mais de 2 mil gestores de RH, de vários países.

Em três dias, foram mais de 60 palestras de executivos da área e de pensadores da gestão. “Parece que o RH está sempre correndo atrás”, diz o sócio da Deloitte, John Bersin.

Em um estudo da consultoria, que reuniu dados de 10 mil pessoas da área, em 140 países, nos últimos três anos, apenas 17 % dos gestores disseram que se sentem prontos para gerenciar uma força de trabalho com pessoas, robôs e inteligências artificiais.

“Eles estão praticamente sendo empurrados para ajudar as organizações a se tornarem digitais.” O brasileiro Fábio Fukuda, diretor global de RH da Cummins, foi responsável pela implementação de um de programa de gerenciamento de talentos na nuvem que envolveu os 55 mil empregados da companhia, em 50 países.

“Foi uma grande mudança cultural para os líderes de RH acostumados a fazer os processos manualmente”, diz. O programa teve início em 2015 e terminou no fim do ano passado. A área de RH da Cummins tem 1.7 00 profissionais.

“O aumento por mérito, que antes era indicado pelo gestor de cada área em um processo que durava até três meses, agora leva duas semanas”, explica Fukuda. Antes, o RH coletava manualmente o quanto cada gestor gostaria de conceder de aumento para a equipe.

O novo sistema indica esses valores e o RH só faz a “calibração” com o executivo para entender se os valores estão corretos e por que um empregado vai ganhar mais que o outro.

“O trabalho ficou mais inteligente e o gestor de pessoas passou a atuar como um consultor especializado em remuneração.” Para o CEO da Oracle, Mark Hurd, não dá para pensar só em aplicativos para RH, é preciso falar de processos. Com 140 mil funcionários em mais de 100 países, ele conta que usa em casa a plataforma que criou para o gerenciamento de capital humano na nuvem, a HCM. “Recrutamos mais de 20 mil pessoas por ano”, diz.

Mas mesmo em uma empresa de tecnologia novas soluções são implementadas aos poucos. “Estamos chegando a um nível de sofisticação em que os gestores terão todo o fluxo de trabalho da organização no celular.” “Como faremos todos os trabalhadores confiarem em algoritmos?”, questiona Steve Denton, presidente da Collective(i), rede global que usa inteligência artificial para analisar as compras das empresas e orientar profissionais de vendas. A resposta não é fácil e divide os ouvintes em sua palestra.

“A melhor combinação para se ganhar músculo e agilidade é ter pessoas que contam com o suporte dos números”, diz. Ele concorda que ninguém vai mudar de comportamento em um minuto, mas diz que o engajamento dos empregados com as inteligências artificiais é possível.

“Todos usamos alguma IA, o Waze é um exemplo.” “A questão é obter vantagens competitivas com os números”, diz José Francisco da Silva, diretor de capital humano da empresa de call center TeleTech, que tem 48 mil empregados em 23 países.

No Brasil, onde reúne 3 mil funcionários, a companhia contrata cerca de 120 pessoas por mês. Silva conta que adotou ferramentas para identificar o perfil dos melhores candidatos no recrutamento. “Alimentamos o algoritmo com o perfil dos mais bem sucedidos”, diz.

Com a medida, ele aumentou os acertos na seleção. “Em 3 anos, nosso turnover caiu de 8% para 3,5%”, diz. Outra ferramenta tecnológica que pode ajudar o RH a aumentar a produtividade nas empresas é a que ajuda a divulgar a reputação dos funcionários em fóruns, mídias sociais internas e e­mails.

Nesses espaços, os funcionários promovem habilidades que podem ser usadas em projetos de outras áreas. Andrew Fulton, presidente da Inoapps, desenvolvedora de aplicativos, diz que esse tipo de ferramenta só funciona quando existe alinhamento entre as motivações pessoais dos funcionários e os objetivos da companhia.

Para Erica Dhawan, CEO da Cotential e co­autora do best­seller “Inteligência Conectiva” (Editora Gestão Plus), a chave do sucesso é justamente conhecer os funcionários e promover conexões inteligentes entre eles.

“Aproveitamos pouco o networking informal da empresa”, diz. Segundo ela, um terço do valor agregado ao negócio por meio de colaboração vem de apenas 3% dos empregados.

A tecnologia ajuda a encontrar experts e facilita a interação longe das reuniões e teleconferências formais, diz a autora. Poucos gestores, no entanto, conseguem entender o trabalho em rede. Segundo Erica, um estudo da HBR mostra que apenas 21% dos líderes admitem ter habilidade para construir times multifuncionais.

Ela lembra que 36% dos funcionários com alta performance possuem fortes laços internos. Como exemplo de trabalho multifuncional, ela cita o caso da Oreo que, em 2013, em menos de quatro minutos após o início de um blackout no Superbowl, publicou uma mensagem no Twitter dizendo que era possível saborear a bolacha no escuro.

A rápida resposta fez com que o anúncio fosse considerado um dos melhores daquele ano, com custo zero. “Isso só foi possível porque executivos, advogados, publicitários e equipes de mídia social aprenderam a trabalhar juntos em tempo real anos antes.”

Os jovens são naturalmente familiarizados com trabalho em equipe e tecnologia. “Hoje o primeiro acesso de quem procura emprego é pelo mobile”, diz Lindsay Stanton, da Digi­Me, que produz conteúdo digital para recrutamento.

Ela conta que 60% dos candidatos que acessam as vagas são da geração Y e preferem vídeos do que textos sobre os empregos. Se por um lado a nova geração é viciada em tecnologia, por outro, como os demais profissionais, ela sabe que por isso está trabalhando demais.

O uso de tecnologia cresceu nos últimos anos, enquanto a produtividade despencou. “Nunca foi tão baixa desde a Revolução Industrial”, afirma John Bersin da Deloitte.

Ele diz que 48% dos jovens americanos gostariam de ter mais dias de férias, enquanto 86% dos trabalhadores, em geral, dizem que o fato de serem “mártires”do trabalho prejudica suas famílias.

A razão para esse cenário devastador, segundo ele, é que ainda não estabelecemos regras de como as organizações devem operar na era digital. Portanto, é certo que o RH terá um papel fundamental para definir o nosso futuro.

Fonte: Stela Campos, Valor, 24/04/2017, ­ 05:00, A jornalista viajou a convite da Oracle.

Inteligência Competitiva Tecnológica: Estudo analisa regulação de medicamentos genéricos no Brasil

Estudo analisa regulação de medicamentos genéricos no Brasil

Trabalho de pesquisadores do Insper e da London School of Economics avalia fatores como equivalência, prescrição e substituição na produção de genéricos (foto: Wikimedia Commons)

Menos de 20 anos depois de o Brasil começar a produzir versões com os mesmos princípios ativos, nas mesmas doses e formas farmacêuticas de medicamentos de referência que tivessem a patente expirada, mais de um quarto das vendas farmacêuticas são de genéricos.

Em artigo publicado no Pan American Journal of Public Health, Elize Fonseca, pesquisadora do Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper), e Ken Shadlen, da London School of Economics, fazem um estudo de caso sobre a regulação de medicamentos genéricos no Brasil e comparam abordagens nacionais para a promoção e regulação dos remédios. O estudo teve apoio da FAPESP por meio do Programa Jovens Pesquisadores em Centros Emergentes.

“É comum pensar que a regulação de genéricos no Brasil é algo estabelecido, mas se trata ainda de uma área com pouco estudo. Queremos entender como e por que o Brasil optou pela regulação vigente. É importante compreender isso, uma vez que é a regulação que dita as regras de um mercado com vários atores – como governo, consumidores, farmacêuticas –, podendo ampliar ou restringir o acesso aos medicamentos”, disse Fonseca à Agência FAPESP.

O estudo destaca que diversos fatores e interesses, tanto dos setores públicos como dos privados, influenciaram o desenho e a implementação da regulação de medicamentos genéricos no Brasil.

O trabalho enfocou quatro temas centrais da regulação de genéricos, que envolvem equivalência, embalagem, prescrição e substituição. Foram estabelecidas perguntas-chave que permitissem analisar a regulação de genéricos: como foi provada a equivalência entre o genérico e o medicamento de referência; os genéricos podem ter nome de marca na embalagem; médicos podem prescrever o medicamento usando o nome do genérico ou um nome de marca; farmacêuticos podem substituir genéricos por produtos inovadores.

Os resultados da análise tiveram como base dados coletados entre 2007 e 2015 de documentos do governo brasileiro – como memorandos da política de regulação de genéricos e discursos oficiais –, além de mais de 400 reportagens de jornais e artigos científicos.

Os dados foram complementados por 60 entrevistas com reguladores e funcionários do governo que participaram da elaboração e implementação das políticas de medicamentos genéricos do Brasil.

Segundo Fonseca, o exemplo brasileiro é fundamental para compreender a regulação de genéricos. O país é o maior mercado da América Latina no setor e, embora tenha testemunhado altos níveis de penetração desses medicamentos no mercado farmacêutico, o processo foi acompanhado por uma série de conflitos entre governo, farmacêuticas e consumidores. “No fim, vemos que a regulação é uma questão técnica e também política”, disse.

Segundo observaram os pesquisadores, “a Lei de Medicamentos Genéricos de 1999 foi uma oportunidade para promover a utilização do nome genérico (também chamado de Denominação Comum Brasileira) como regra de prescrição e aumentar os requisitos farmacológicos para registrar genéricos”.

Na prática, de acordo com a regulação referente às embalagens dos medicamentos – que incluem a tarja amarela e o uso do G em destaque para indicar que o medicamento é genérico –, foi impulsionado o nome genérico dos medicamentos no lugar de nomes de marca (registrada).

Outro ponto analisado foi a regulação sobre a prescrição. No Sistema Único de Saúde (SUS), os profissionais devem prescrever os medicamentos pela denominação genérica. Já nos serviços privados de saúde, a prescrição fica a critério do médico responsável, podendo ser realizada sob nome genérico ou de marca.

O estudo cita uma pesquisa realizada em 2006 em oito cidades brasileiras, que avaliou a opinião de 55 profissionais de saúde. Os resultados mostraram que 44% dos profissionais achavam que os medicamentos genéricos não eram tão confiáveis como os originais e que, mesmo entre os que confiavam nos genéricos, 17% não os prescreviam.

Bioequivalência

O processo de discussão sobre medicamentos genéricos no Brasil teve início na década de 1970. Porém apenas na década de 1990 que foi publicada a Lei 9.787, de 10/02/1999, que criava condições para a implantação de medicamentos genéricos, em consonância com normas adotadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e em países da Europa, dos Estados Unidos e do Canadá.

No ano 2000, iniciou-se a concessão dos primeiros registros de medicamentos genéricos. Na época também foram tomadas ações para implementar a produção desse tipo de medicamento, inclusive com incentivo à importação.

“Antes da aprovação da lei de genéricos, as indústrias farmacêuticas locais podiam copiar os medicamentos de referência sem apresentar nenhum teste de equivalência terapêutica. A exigência de bioequivalência [quando fica comprovado que as duas drogas, medicamento genérico e o de referência, são iguais] tirou do mercado vários produtores que não conseguiram se adaptar às exigências da nova regulação”, disse Fonseca.

A pesquisadora ressalta que é importante observar que quando se restringe o número de concorrentes, em um cenário extremo, o preço pode subir, limitando o acesso da população aos medicamentos. “Nesse setor, a concorrência é fundamental para reduzir o preço dos medicamentos”, disse.

Os pesquisadores ressaltam que, em comparação com outros países latino-americanos, as exigências brasileiras são muito rigorosas. Eles apontam um estudo realizado pela Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), que concluiu que nenhuma outra autoridade reguladora nacional da América Latina solicitou bioequivalência para tantos fármacos. Dos 86 fármacos analisados nos países latino-americanos pelo estudo, 51 necessitaram de demonstração de bioequivalência no Brasil.

No início dos anos 2000, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) criou diversos instrumentos de apoio aos fabricantes de genéricos para estimular o registro desses produtos no país. Entre eles o fast-track, que dava prioridade na aprovação do registro de medicamento genérico.

A Anvisa também prestou apoio contínuo às empresas locais, ao supervisionar as mudanças em seus departamentos reguladores. Com isso, o Brasil ganhou expertise em realizar testes de bioequivalência, que anteriormente tinham que ser realizados fora do país. Atualmente, quase todos os testes de equivalência terapêutica (87,6%) são realizados no Brasil.

“O consenso entre os representantes do setor farmacêutico a respeito da regulação de medicamentos genéricos era visto inicialmente como uma ameaça à sua sobrevivência, porém revelou-se que a regulação foi instrumental na melhoria das fábricas e nos processos de produção de medicamentos”, escreveram os autores.

Regulação em outros países

Fonseca e Shadlen pretendem usar a metodologia desenvolvida para fazer uma comparação da regulação entre diferentes países da América Latina. O objetivo é estudar caso a caso sobre como funciona a regulação de genéricos no Chile, Colômbia, Argentina e México e entender as relações comerciais na região.

“Existem diversas negociações e tentativas de harmonizar, ou seja, padronizar, a regulação de genéricos nos países da América Latina. É um tema bastante controverso, se devemos harmonizar ou não. Hoje, cada país tem um tipo de regulação diferente, o que acaba criando uma barreira comercial. Respondendo às quatro perguntas-chave, podemos ter um maior entendimento sobre a regulação de cada país”, disse Fonseca.

A Organização Mundial da Saúde sugere uma regra, mas, por questão de soberania, cabe às agências regulatórias de cada país escolher a regra que querem adotar.

O artigo Promoting and regulating generic medicines: Brazil in comparative perspective, de Elize Massard da Fonseca e Kenneth Shadlen, pode ser lido aqui

Fonte: Maria Fernanda Ziegler  |  Agência FAPESP,  19 de abril de 2017

Inteligência voltada para a tecnologia

PRESCOTT & MILLER (2002) afirmam que enquanto os aspectos da Inteligência Competitiva comercial estão bem documentados, a Inteligência voltada para a tecnologia não recebeu a mesma atenção.

E cada vez mais, ser surpreendido pelos avanços técnicos de um concorrente pode ser algo devastador, o que faz com que o monitoramento da tecnologia em suas várias formas seja um componente decisivo da Inteligência Competitiva, dizem Prescott & Miller (2002).

Inteligência Competitiva Tecnológica: FIAT – Portal na CES 2017

AFP

A Fiat revelou o carro conceito Portal, que conta com direção parcialmente autônoma e é totalmente elétrico. Por ser apenas um protótipo, ainda não se sabe se o carro irá ser, de fato, produzido. Foto: AFP

Estadão, 04/01/2017 | 18h12

Inteligência Competitiva Tecnológica: “Pesquisa básica pode evitar que a humanidade seja subjugada por máquinas”

Leibniz Lecture: Autonomous cars, smart energy distribution and Industry 4.0: Towards the new cybernetics of the 21st century.
Frank Allgöwer is director of the Institute for Systems Theory and Automatic Control at the University of Stuttgart in Germany and Vice-President of the The Deutsche Forschungsgemeinschaft (DFG, German Research Foundation).

De veículos autônomos a fábricas e cidades inteligentes, a humanidade está construindo sistemas dinâmicos cada vez mais complexos, que trabalham em rede com alto grau de automação e de autonomia.

Nesse grande mundo interconectado que se avizinha, os humanos tendem a se tornar meros usuários desses sistemas dinâmicos complexos – não mais a força que os controla. Portanto, somente com investimento em pesquisa básica – particularmente na área de engenharia cibernética – será possível desenvolver mecanismos de controle para garantir que tudo funcione de maneira adequada.

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Em palestra na FAPESP, pesquisador alemão Frank Allgöwer falou sobre como a engenharia cibernética e as ciências humanas podem ajudar a entender e controlar sistemas dinâmicos complexos no futuro (Foto: Phelipe Janning/Agência FAPESP)

A avaliação foi feita por Frank Allgöwer, diretor do Instituto de Teoria de Sistemas e Controle Automático da Universidade de Stuttgart, na Alemanha, em palestra apresentada na sede da FAPESP no dia 1º de dezembro.

“Ainda não entendemos muito bem como esses sistemas funcionam, como interagem e se organizam, mas ainda assim os estamos construindo. Embora pense que os efeitos positivos devem superar os negativos, fico hesitante em dizer que devemos acelerar nosso desenvolvimento tecnológico. Creio que este seria o momento de fazer a pesquisa básica alcançar as inovações tecnológicas que estão surgindo para que possamos realmente entender o que está acontecendo”, ponderou Allgöwer.

De acordo com o pesquisador alemão, a autonomia crescente e a estrutura em rede são as características-chave das inovações tecnológicas que estão surgindo na atualidade. E a engenharia cibernética é a ciência básica que está no centro desse processo, pois possibilita por meio de métodos matemáticos e teoremas prever o funcionamento desses sistemas complexos e influenciar seu comportamento.

“Controlar um sistema dinâmico – como por exemplo um carro autônomo – é uma tarefa difícil, nada trivial. Requer, portanto, uma boa base teórica. Mas esse não é o fim da linha. No futuro, haverá muitos carros autônomos e eles terão de se organizar e conversar entre si, de modo a otimizar o trânsito, poupar energia, tempo e evitar acidentes. Essa rede terá de ser operada por controladores cibernéticos, pois nenhum humano consegue reagir rápido o suficiente para gerir uma rede tão complexa e da qual muitas vidas dependem”, exemplificou Allgöwer.

No futuro, acrescentou, a geração de energia não será mais concentrada em grandes usinas e sim distribuída em pequenas unidades individuais –formadas por geradores eólicos ou solares interconectados. Essas unidades terão de se organizar de modo a enviar energia onde há demanda, evitando falhas e interrupções no fornecimento.

Já nas fábricas, as linhas de montagem introduzidas na segunda revolução industrial estão dando lugar a estações de manufatura estruturadas em redes. “Na indústria 4.0, se o robô de uma determinada estação quebrar ou estiver sobrecarregado, outro assume sua função e, nesse sistema interconectado, é possível produzir mercadorias de forma mais barata e eficiente”, disse.

Para Allgöwer, a crescente autonomia dos sistemas dinâmicos é a princípio algo positivo. Deve beneficiar a economia, os meios de trabalho, aumentar a qualidade de vida e a eficiência no uso de recursos, tornando as atividades humanas mais sustentáveis. Porém, pode haver perigos associados.

“Esses sistemas são tão complexos que os seres humanos não têm como acompanhar tudo o que está acontecendo. Os robôs terão todo o conhecimento sobre nós e vão influenciar tudo o que fazemos. Poderiam essas máquinas assumir o controle da sociedade?”, indagou.

Para responder a questões como essa, segundo Allgöwer, além de pesquisas em engenharia cibernética também serão necessários estudos em áreas como filosofia e ciências sociais. “É preciso que pesquisadores da área de humanas supervisionem o que os engenheiros estão construindo”, disse.

10 anos de parceria

Intitulada “Autonomous cars, smart energy distribution and Industry 4.0: Towards the new cybernetics of the 21st century”, a palestra apresentada por Allgöwer integra o programa Leibniz Lecture – uma estratégia da Sociedade Alemã de Amparo à Pesquisa (DFG) para estimular o diálogo entre os vencedores do Prêmio Leibniz, considerado o Nobel alemão, e a comunidade científica. Allgöwer, que também é vice-presidente da DFG, recebeu o prêmio em 2004 por seus estudos na área de teoria de sistemas não lineares e de controle.

Promovido conjuntamente pela FAPESP e pela DFG, o evento também teve o objetivo de celebrar os 10 anos de parceria entre as duas instituições de fomento à pesquisa.

“Como vice-presidente da DFG, posso dizer que a parceria com a FAPESP é algo muito especial. As duas organizações seguem o mesmo princípio-chave para o financiamento: a qualidade científica. Também compartilhamos a crença de que o progresso da ciência e do conhecimento requer um certo grau de liberdade na pesquisa. Acreditamos que a pesquisa movida pela curiosidade é essencial para o desenvolvimento econômico, social e para inovação”, afirmou Allgöwer.

Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor científico da FAPESP, também destacou as semelhanças entre as duas organizações. “Ambas valorizam a iniciativa do pesquisador, a curiosidade, a pesquisa básica e a pesquisa botton up [de baixo para cima], na qual a comunidade científica opina sobre o que deve ser financiado e como deve ser o processo de seleção – sempre baseado na qualidade científica da proposta”, disse.

Presente na cerimônia de abertura, o vice-presidente da FAPESP, Eduardo Moacyr Krieger, afirmou que a Alemanha é um dos parceiros mais tradicionais do Brasil na pesquisa científica e que ambos os países mantêm uma colaboração bem-sucedida e intensa. “Espero que este evento ajude a ampliar essa colaboração”, afirmou.

Axel Zeidler, cônsul-geral da República Federal da Alemanha em São Paulo, disse que a parceria entre FAPESP e DFG “é peça-chave das relações científicas entre Alemanha e Brasil”.

Kathrin Winkler, diretora do escritório da DFG para a América Latina em São Paulo, ressaltou que a parceria tem resultado em uma grande variedade de programas conjuntos. Como exemplos, foram apresentados durante o evento dois projetos de pesquisa colaborativa conduzidos por pesquisadores paulistas e alemães e cofinanciados pela FAPESP e pela DFG.

O pesquisador Paulo Ruffino, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), apresentou o projeto “Fenômenos dinâmicos em redes complexas: fundamentos e aplicações” – coordenado no Brasil por Elbert Einstein Nehrer Macau, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), e na Alemanha por Jurgen Kurths, da Universidade Humboldt.

O objetivo do grupo é entender o comportamento de redes complexas por meio de modelos e simulações computacionais. “São várias situações, como redes neurais, clima e meteorologia, epidemiologia [disseminação de vírus como Zika e chikungunya] e distribuição de energia elétrica”, contou Ruffino.

Já Luiz Carlos Carvalho Navegantes, da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP), apresentou o projeto “Role and mechanism of action of anabolic stimuli on neuromuscular trophicity” – coordenado por Isis do Carmo Kettelhut (FMRP-USP) e por Rüdiger Rudolf, da Universidade Hochschule Mannheim de Ciências Aplicadas, da Alemanha.

O grupo vem investigando a participação do sistema nervoso simpático na regulação da contração muscular e na trofia dos músculos. Os resultados devem contribuir para o tratamento de doenças como miastenia, desnervação atrófica e miopatias.

Fonte: Karina Toledo | Agência FAPESP, 07 de dezembro de 2016. 

Inteligência Competitiva Tecnológica: Talvez você não precise mais de emprego! Veja seis previsões tecnológicas para nosso futuro

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A tecnologia está avançando tão rapidamente que experimentaremos mudanças radicais na sociedade nos próximos anos. Já começamos a enxergar maneiras pelas quais a computação, os sensores, a inteligência artificial e as ciências genéticas estão remodelando indústrias inteiras e nosso cotidiano.

À medida que sofremos essa rápida mudança, muitas das velhas premissas nas quais confiávamos não se aplicam mais. A tecnologia está criando um novo conjunto de regras que mudarão nossa própria existência. Aqui estão seis delas:

1) Qualquer coisa que puder se tornar digital, se tornará

A digitalização começou com palavras e números. Em seguida, mudou para os jogos e, mais tarde, para outras mídias – como filmes, imagens e música. Também migramos funções complexas dos negócios, ferramentas médicas, processos industriais e sistemas de transporte para o domínio digital. Agora, estamos digitalizando tudo sobre nossas vidas diárias: nossas ações, palavras e pensamentos.

O sequenciamento de DNA [métodos que decifram e interferem em nosso DNA] a baixo custo e as técnicas de machine learning [aprendizado de máquina – quando o computador aprende observando padrões de comportamento] estão desbloqueando as senhas dos sistemas da vida. Sensores onipresentes e de baixo custo estão documentando tudo o que fazemos e criando registros digitais completos de nossa vida.

2) Seu trabalho tem chance significativa de ser eliminado

Em vários campos, as máquinas e robôs estão começando a fazer o trabalho dos humanos. Vimos isso acontecer primeiro na Revolução Industrial, quando a produção manual deu lugar às fábricas e muitos milhões de pessoas perderam seus meios de subsistência. Novos empregos foram criados, mas foi um período terrível, e houve um deslocamento social significativo (da qual surgiu o movimento ludita – que lutava contra a mecanização do trabalho).

O movimento de transformar os empregos em digitais está bem encaminhado nas indústrias que têm baixos salários. A Amazon confia em robôs para fazer uma parte significativa de seu trabalho de armazenamento. A Safeway (cadeia de supermercados) e a Home Depot (rede de materiais de construção e para casa) estão expandindo rapidamente o autoatendimento na hora de pagar. Logo, os carros autônomos vão eliminar milhões de empregos de motoristas.

Também estamos vendo desaparecerem funções no Direito, com softwares especializados eliminando a necessidade de legiões de advogados associados para vasculhar papeis e documentos digitais. oS diagnósticos automatizados irão substituir médicos em campos como radiologia, dermatologia e patologia.

O único refúgio será em segmentos que são criativos de alguma forma, como marketing, empreendedorismo, estratégia e áreas técnicas avançadas. Novos empregos que não podemos imaginar hoje surgirão, mas não substituirão todos os empregos perdidos. Devemos estar prontos para um mundo de elevada taxa de desemprego. Mas não se preocupe, porque…

3) A vida será tão acessível que para sobreviver não será preciso ter um emprego

Note como os minutos das ligações via celular são quase gratuitos e como nossos computadores passaram a ser mais baratos e poderosos nas últimas décadas. À medida que avançam, tecnologias como computação, sensores e energia solar diminuirão seu custo. A vida como a conhecemos se tornará radicalmente mais barata. Já estamos vendo os primeiros sinais disso: graças aos avanços no mercado de carros compartilhados e a serviços de aplicativos como o Uber, toda uma geração está crescendo sem a necessidade ou mesmo o desejo de possuir um veículo.

Saúde, alimentação, telecomunicações, eletricidade e computação vão ficar mais baratos rapidamente, assim que a tecnologia reinventar estas indústrias.

4) Seu destino estará em suas mãos como nunca antes

O benefício da queda nos custos de vida será que a tecnologia e as ferramentas para nos manter saudáveis, felizes, bem-educados e bem informados serão baratas ou gratuitas. O aprendizado online em praticamente qualquer área já é gratuito. Os custos também estão caindo com dispositivos médicos embarcados em dispositivos móveis. Seremos capazes de fazer autodiagnósticos sofisticados e tratar uma porcentagem significativa de problemas de saúde usando apenas um smartphone e um software inteligente.

Kits modulares e de código aberto estão tornando o “faça-você-mesmo” mais fácil. Assim, você cria seus próprios produtos. O DIYDrones.com, por exemplo, permite que qualquer um mescle ou combine componentes, com instruções relativamente simples, e assim construa seu próprio dispositivo voador não-tripulado. Com impressoras 3D, você pode criar seus próprios brinquedos. Em breve, elas permitirão que você “imprima” itens domésticos comuns – e até eletrônicos.

A tecnologia que impulsiona estas melhorias em eficiência também tornará a personalização de massa e a melhor distribuição da produção uma realidade. Sim, você talvez tenha uma pequena fábrica em sua garagem, e seus vizinhos também.

5) A abundância se tornará um problema muito maior do que a escassez

Com a tecnologia tornando tudo mais barato e abundante, nossos problemas estarão mais no consumir em excesso do que na escassez. Isso já é evidente em algumas áreas, especialmente no mundo desenvolvido, onde as doenças de afluência – obesidade, diabetes, parada cardíaca – são as maiores assassinas.

Estas pragas rapidamente chegaram, junto com a dieta ocidental, ao mundo em desenvolvimento. Os genes humanos adaptados às condições de escassez são lamentavelmente despreparados para condições de excesso calórico. Podemos esperar que este processo só piore com a queda dos preços do Big Mac, e de outros produtos dos quais nossos corpos não precisam, tornando tudo isso acessível para mais gente.

O crescimento da mídia social, a era da internet e as conexões constantes são outras fontes de excesso. Os seres humanos têm evoluído para gerenciar as tarefas em série. A degradação de nossa atenção e o aumento precipitado dos problemas de déficit dela, que já experimentamos, são em parte atribuíveis a esse espalhar rarefeito de nossa concentração.

Como o número de entradas de dados e opções para a atividade mental continuam crescendo, só vamos dividir mais e mais nossa atenção. Então, mesmo que tenhamos as ferramentas para fazer o que precisamos, forçar nossos cérebros a se comportar bem o suficiente para finalizar as coisas se tornará uma tarefa cada vez mais árdua.

6) A diferença entre homem e máquina ficará cada vez mais obscura

A controvérsia sobre o Google Glass mostrou que a sociedade continua inquieta sobre a fusão entre homem e máquina. Lembra-se daqueles óculos estranhos que as pessoas usavam, que gravavam tudo ao redor? O Google parou de vendê-los por causa da frenesi, mas versões miniaturizadas deles logo estão em toda parte. Os implantes de retina já usam silício para substituir ligações nervosas.

As próteses que operam com a ajuda de softwares são extensões personalizadas e altamente específicas de nossos corpos. Exoesqueletos guiados por computador serão usados pelas forças armadas nos próximos anos e deverão se tornar ferramentas comuns de mobilidade para deficientes e idosos.

Vamos tatuar sensores em nossos corpos para monitorar indicadores básicos de saúde e transmitir esses dados para os nossos telefones. Isso se soma aos numerosos dispositivos que interagem diretamente com nossos corpos e dão feedbacks informativos e biológicos. Como resultado, a própria ideia do que significa ser um humano mudará. Será cada vez mais difícil traçar uma linha entre o humano e a máquina.

*Esta coluna é baseada no próximo livro de Vivek Wadhwa, “Driver in the Driverless Car: How Our Technology Choices Will Create the Future” [“Motorista em um Carro Sem Motorista: Como Nossas Escolhas Tecnológicas Vão Moldar o Futuro”, em tradução livre]”, que será lançado nos próximos meses nos Estados Unidos. Wadhwa é professor da Carnegie Mellon University Engineering no Vale do Silício (Califórnia) e diretor de Centro de Empreendedorismo e Pesquisa de Mercado da Duke University (Carolina do Norte).

Fonte: Vivek Wadhwa, Washington Post, Gazeta do Povo, 17/11/2016, 14h13