Setor de veículos em São Paulo contribui para retração da indústria em 2020

A baixa produção de veículos em São Paulo pressionou a queda na produção industrial brasileira – Foto: José Fernando Ogura /AEN-Paraná

A produção industrial caiu em 12 dos 15 locais pesquisados pelo IBGE em 2020, e levou a indústria nacional a encerrar o ano em -4,5%. O resultado negativo foi puxado, principalmente, pelo baixo desempenho do setor de veículos automotores de São Paulo, principal influência negativa. Os dados são da Pesquisa Industrial Mensal Regional (PIM-REG), divulgada hoje (9) pelo IBGE.

“Mesmo vindo de oito meses seguidos de resultados positivos, logo após as paralisações que aconteceram devido às medidas mais restritivas de isolamento social, o setor de veículos paulista fecha o ano no campo negativo. Isso é atribuído à baixa produção de automóveis, autopeças e, também, caminhões”, explica o analista da pesquisa, Bernardo Almeida.

São Paulo, que representa aproximadamente 34% da produção industrial brasileira e fecha o ano com -5,7%, acumula outras baixas no ano. “O estado também teve queda na produção de máquinas e equipamentos, principalmente na produção de máquinas para trabalhar matéria-prima na fabricação de pasta de celulose, e também retração na produção de rolamentos para equipamentos industriais”, afirma.

O segundo local que mais influenciou a queda no acumulado do ano na produção industrial foi o Rio Grande Sul (-5,4%), também por causa da retração no setor de veículos automotores, com queda na produção de automóveis, autopeças e carrocerias para ônibus. “Dentro da indústria gaúcha, temos também o setor de produtos de couro, artigos de viagens e calçados, que é bastante atuante dentro da indústria gaúcha e teve queda na produção de calçados femininos de couro e de material sintético”, diz o pesquisador.

Os demais resultados negativos do ano foram registrados nas indústrias de Espírito Santo (-13,9%), Ceará (-6,1%), Amazonas (-5,5%), Bahia (-5,3%), Mato Grosso (-5,2%), Santa Catarina (-4,4%), Minas Gerais (-3,2%), Região Nordeste (-3,0%), Paraná (-2,6%) e Pará (-0,1%).

Já Pernambuco (3,7%) apontou o principal avanço no índice acumulado de janeiro a dezembro de 2020, pressionado, sobretudo, pelas atividades de produtos alimentícios. “Houve aumento na produção de açúcar cristal, açúcar VHP e também de açúcar refinado de cana. Já um setor secundário nesse crescimento é o de produção de bebidas, que teve aumento na produção de cervejas e chopes, refrigerantes e aguardente de cana-de-açúcar”, explica Bernardo.

Rio de Janeiro (0,2%) e Goiás (0,1%) completaram o conjunto de locais com crescimento na produção no índice acumulado no ano. “A indústria fluminense acaba fechando o ano com um crescimento bem tímido, sendo impulsionado, principalmente, pelo setor extrativo, devido ao aumento na extração de óleos brutos de petróleo e gás natural. Em segundo plano, temos a indústria farmacêutica, com aumento na produção de medicamentos”, diz. Já Goiás teve seu crescimento impulsionado pela indústria de alimentos.

Onze locais tiveram crescimento na produção em dezembro

Já na passagem de novembro para dezembro de 2020, 11 dos 15 locais pesquisados tiveram taxas positivas, acompanhando a expansão de 0,9% da indústria nacional. As expansões mais acentuadas foram no Espírito Santo (5,4%) e no Ceará (4,7%). Pará (3,6%), São Paulo (3,4%), Minas Gerais (3,1%), Mato Grosso (3,0%), Paraná (2,8%), Santa Catarina (2,4%) e Rio Grande do Sul (1,2%) também mostraram avanços mais intensos do que a média nacional (0,9%).

Rio de Janeiro (0,2%) e Região Nordeste (0,2%) completaram o conjunto de locais com índices positivos nesse mês.

“Nessa passagem de novembro para dezembro, temos como principal influência do resultado a indústria de São Paulo, que atinge 3,4% de crescimento. Essa é a oitava taxa positiva consecutiva para o estado e esse crescimento é o mais intenso desde setembro de 2020, quando atingiu 5,3%. Esse resultado pode ser atribuído a uma influência positiva no setor de máquinas, aparelhos e materiais elétricos e também do setor de veículos”, explica o pesquisador, que destaca que a indústria paulista acumula ganho de 54,8% em oito meses e está 9% acima do patamar de fevereiro de 2020, quando as medidas de isolamento social ainda não tinham sido adotadas no país.

Bahia (-4,0%) e Amazonas (-3,7%) tiveram as quedas mais acentuadas em dezembro de 2020, seguidos por Pernambuco (-2,9%) e Goiás (-0,8%).

Fonte: IBGE, 09/02/2021.

Produção sobe e vendas caem: o janeiro das montadoras após saída da Ford

FIM DA MAMATA - Veículos produzidos em fábrica de Pernambuco: fruto de incentivos fiscais que poderão acabar
Pandemia e alta carga tributária nas montadoras assombram o setor neste início de 2021 – Germano Lüders/VEJA

A saída da Ford do Brasil ainda é o principal assunto do setor automotivo. Ícone do capitalismo do século XX, a montadora atuava há mais de 100 anos no país e foi a pioneira em produzir carros por aqui. A partir deste ano, sem o volume de produção da estadunidense — que entregou pouco mais de 100 mil unidades em 2020 — e com a demissão de 5 mil trabalhadores, a indústria vai tentar juntar esforços para atravessar por mais um momento sombrio e de muitas dúvidas. Em janeiro, foram licenciados 171 mil autoveículos, queda de 11,5% em relação ao mesmo período de 2020. Ainda que tenham sido produzidas 199,7 mil unidades, o crescimento de 4,2% sobre janeiro passado é reflexo dos baixíssimos estoques da cadeia.

As estimativas apontam que as fábricas têm apenas 18 dias de estoque — ante 17 no mês de dezembro. O setor sofre com a falta de alguns insumos, em especial semicondutores, desde novembro. O baixo número de veículos nos depósitos e o agravamento da pandemia, que prejudica atividades industriais e comerciais em algumas regiões do país, colocam um ponto de interrogação para a indústria em 2021. Ainda assim, as exportações cresceram 21,9% no período.

A Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), responsável pelos números da cadeia, elaborou um estudo em que afirma que a indústria é “exageradamente tributada, pouco incentivada e gera retornos espetaculares ao país sob todos os ângulos de análise”. A análise leva em conta que desoneração fiscal sobre arrecadação tributária do setor foi de 8% na última década, enquanto a de todas as outras esferas econômicas no país foi de 18%.

O estudo alega ainda que a desoneração tributária de 6,8 bilhões no período de 5 anos do programa Inovar-Auto (2013 a 2017) teria resultado em uma economia de 35 bilhões em combustíveis aos donos desses novos veículos no período, e ainda seria responsável por reduzir a emissão de CO2 em 2 milhões de toneladas por ano, o equivalente ao plantio de 14 milhões de árvores. Uma das contrapartidas para receber benefícios era produzir veículos menos poluentes. A entidade ainda lembra que o número de exportações subiu de 443 mil para 766 mil unidades no período. Fato é que a alta carga tributária de 44% sobre o preço do automóvel — o dobro do praticado na maioria dos países da Europa e mais que isso para casos como Japão e EUA — afasta novos investimentos no país.

Vale lembrar que, além da Ford, a Mercedes também encerrou a produção no Brasil e a Audi ainda negocia com o governo a restituição de créditos de IPI do Inovar-Auto para retomar as atividades. A empresa alega que pagou além do que era devido. “É importante frisar que o governo não tira dinheiro do bolso ou dos contribuintes para doar a indústrias. Ele abre mão de parte da arrecadação de impostos para compensar algumas deficiências estruturais, e também para estimular regiões ou desenvolvimentos tecnológicos”, afirma Luiz Carlos Moraes, presidente da Anfavea. Com ou sem incentivos, o momento do setor demonstra a necessidade urgentemente de novos rumos antes que outras companhias abandonem o Brasil, o que diminuiria ainda mais a entrada de capital no país e agravaria o desemprego.

Fonte: Veja, Diego Gimenes Atualizado em 4 fev 2021, 20h05 – Publicado em 4 fev 2021, 16h27.

Indústria automobilística começa 2021 mal e pede fim do “custo Brasil”

ANFAVEA/divulgação

Após ter um péssimo 2020 por causa da pandemia do coronavírus, a indústria automobilística esperava um bom início de ano no Brasil. No entanto, o balanço de janeiro volta a soar o alerta vermelho no setor. Logo no primeiro mês de 2021 houve queda de quase 30% nos licenciamentos, além de um recuo de 35% nas exportações em relação a dezembro.

Segundo a Anfavea, a representante das montadoras de veículos, é normal que janeiro tenha números menores que dezembro, que costuma ser um mês forte em vendas. A queda na comparação com janeiro de 2020, por exemplo, foi de 11,5%. Entretanto, a associação considera o resultado preocupante. E começa 2021 sem fazer as tradicionais projeções.

“Temos questões indefinidas da pandemia, tais como a falta do abono emergencial, o déficit fiscal, possíveis aumentos da taxa de juros, problemas com fornecimento de matérias-primas. Ainda não dá para tirar conclusões. Historicamente, janeiro fica abaixo de dezembro. Vamos acompanhar os próximos meses para entender o ano. Continuamos com neblina”, resume Luiz Carlos Moraes, presidente da Anfavea.

“Custo Brasil” é maior entrave

A Anfavea dedicou a maior parte da coletiva falar, não dos números da indústria, mas do sistema tributário brasileiro — que resulta no chamado “custo Brasil”. A apresentação trouxe dezenas de números e comparou o percentual de tributos pagos nos carros aqui e em vários outros países.

O levantamento da Anfavea aponta que a carga tributária sobre o automóvel no Brasil chega a 44% do valor do veículo em modelos com motor acima de 2.0 litros, que pagam IPI maior. Contudo, tem um detalhe: este percentual não inclui outros impostos, como o IPVA e o IOF cobrado no financiamento. Ou seja, essa carga de tributos é ainda maior.

“Está prejudicando as montadoras? Não. Está prejudicando também o fornecedor, o concessionário e toda a cadeia. E quem está pagando por isso é o consumidor. Enquanto cidadãos, pagamos uma carga tributária absurda para comprar um carro. Então, por favor, não duvidem dela. A carga tributária no Brasil é insuportável, ninguém aguenta mais. Nós queremos um sistema tributário mais equilibrado, simplificado e transparente para toda a sociedade”, desabafa Luiz Carlos Moraes.

Anfavea propõe seguir a Europa

Segundo o presidente da Anfavea, se o Brasil estabelecer um sistema tributário equivalente ao praticado nos países da Europa, com 22% de tributos sobre os veículos, então já será razoável. Em nome da indústria, Moraes pediu também a simplificação dos tributos. “Se quisermos ter o país crescendo, precisamos de um sistema tributário mais simples. Temos estudos sobre isso”, pontuou.

Um dos slides da apresentação mostra que o custo das empresas com os departamentos financeiros no Brasil supera a despesa com áreas de pesquisa e desenvolvimento. Por causa do avanço dos carros elétricos e das leis de emissões, e de tecnologias como a condução autônoma, os centros de P&D são, portanto, os que mais recebem investimentos atualmente.

“Eu tenho certeza de que, com uma carga tributária aceitável, o volume de vendas será bem maior. Muito mais brasileiros poderão comprar um carro ou investir em veículos pesados. E certamente o valor arrecadado pelo Estado será maior. O Brasil tem a maior carga tributária, e não é só. Tem ICMS diferente para cada estado, 11,6% de PIS/COFINS, um absurdo! Sem falar no IPVA e no IOF”, enumera Luiz Carlos Moraes.

Empregos temporários em alta

No início de janeiro, a Ford encerrou a produção de veículos no Brasil. Dessa maneira, a indústria no país fechará cerca de 5 mil empregos diretos, a maioria na fábrica de Camaçari, na Bahia, onde eram produzidos a linha Ka e o SUV EcoSport. Entretanto, estas demissões ainda não constam no balanço da Anfavea, já que os sindicatos negociam a rescisão com a Ford.

Por ora, o ano registra alta de 2,1% nos contratos em relação a dezembro de 2020. Contudo, Luiz Carlos Moraes explica que grande parte das vagas abertas são temporárias. Por isso, não há como prever o ano de 2021 e as consequências do fechamento das fábricas da Ford.

“O impacto é enorme quando vem o investimento, e também quando se perde uma grande fábrica. Sabemos que as autoridades estão se movimentando, governadores, prefeitos, sindicatos. Esperamos que isso ajude a resolver a situação da Ford”, espera Moraes.

Para o presidente da Anfavea, o Brasil não pode sair do mapa da indústria de carros. O levantamento da representante das montadoras mostra que, de todos os setores da economia, o automobilístico é o que gera mais empregos, principalmente com pesquisa e desenvolvimento.

“É o setor que puxa a pesquisa, o que mais gera empregos de qualidade, com treinamento. Para cada vaga perdida na indústria automobilística, outros oito postos de trabalho são fechados. O Brasil não pode perder a indústria de transformação”, conclui Luiz Carlos Moraes, da Anfavea.

Fonte: Estadão, Jornal do Carro, Diogo de Oliveira, 4/2/2021.

FT: Saída da Ford lança grande sombra sobre indústria automotiva brasileira

Ford do Brasil – Wikipédia, a enciclopédia livre

Rui Costa não conseguia esconder a irritação quando a Ford anunciou o fechamento das fábricas no Brasil, inclusive na Bahia, terra natal do político, onde milhares de pessoas dependem da montadora americana para trabalhar.

“[No Brasil] estamos satisfeitos em nos tornarmos uma grande fazenda”, disse o governador do enorme Estado, na costa nordeste do Brasil. “O que pensamos nos últimos cinco anos para aumentar o investimento em tecnologia e a industrialização? Nada.”

Os comentários de Costa refletem a profunda preocupação a pairar sobre a indústria automotiva brasileira, ainda zonza da pancada que foi a saída da Ford em janeiro, depois de mais de 60 anos de produção no Brasil.

Carente de investimentos adequados e assolada pelas baixas vendas e pesados custos burocráticos, a produção de carros no Brasil parece cada vez mais insustentável.

Executivos do setor tentam pintar um quadro ensolarado. Destacam o imenso potencial do mercado brasileiro, a série de novos produtos ofertados e até raios de sol em meio à pandemia da covid-19, como o maior número de pessoas que passou a usar transporte privado.

Para muitos observadores independentes, porém, os fatores estruturais do mercado e, particularmente, o início do desmantelamento, pelo governo Jair Bolsonaro, de antigos subsídios de bilhões de dólares apontam para um destino fadado ao fracasso, a não ser que ocorra uma rápida recuperação econômica na maior economia da América Latina.

Fonte: Bryan Harris, Michael Pooler e Peter Campbell, Financial Times, Valor — São Paulo e Londres. 01/02/2021.