Abrainc pede fim de tarifa de importação de materiais

Empresas de incorporação imobiliária, por meio de sua entida, a Abrainc, solicitou ao governo federal, por meio do Ministério da Economia, a suspensão temporária das alíquotas de importação de materiais de construção, segundo o Valor apurou. A pressão de custos de materiais tem sido considerada o maior desafio para incorporadoras e construtoras, principalmente na cidade de São Paulo, onde o mercado imobiliário é mais pujante.

“Há conversas com o governo para ver o que é possível fazer, por um determinado período, para que os fornecedores de materiais mantenham os preços”, conta uma fonte do setor. No momento, Abrainc e Ministério da Economia estão realizando – cada parte, por seu lado – análises técnicas sobre as implicações das importações. Procurada, a entidade não se manifestou.

Materiais como aço, concreto, fios de cobre e PVC estão entre os que têm as altas mais comentadas no setor. Conforme a fase da obra, o empreendimento será mais afetado pelos reajustes de materiais básicos ou de acabamento. “A construção está bastante sufocada com o aumento dos insumos”, afirma o presidente do Sindicato da Construção (Sinduscon-SP), Odair Senra.

Segundo o vice-presidente de relações institucionais da Tecnisa, Fabio Villas Bôas, no ano passado, o setor entendeu que as altas de preços praticadas pelos fornecedores de materiais eram um “ajuste” após a retomada da demanda. “Mas, aparentemente, os aumentos não têm fim”, diz o executivo.

Elevações dos insumos têm contribuído para pressionar o indicador de referência para ajustes das parcelas pagas pelo comprador à incorporadora até o recebimento das chaves. Em 12 meses, o Índice Nacional de Custo da Construção – Disponibilidade Interna (INCC-DI) acumulado é de 9,37%. A alta de janeiro foi de 0,89%.

Na avaliação de Senra, do Sinduscon-SP, ajustes acentuados do INCC podem vir a resultar em inadimplência ou distratos se não forem acompanhados por aumento de renda do comprador. “Isso ainda não está acontecendo, mas é uma preocupação de todos nós”, ressalta Villas Bôas.

Os prazos para recebimento dos insumos também está mais dilatado. Na SKR Incorporadora e Construtora, o tempo entre pedir e receber aço de fornecedores pequenos costumava ser de 15 a 20 dias e, das grandes produtoras, por volta de 30 dias. “Agora, nos pedem de 60 a 90 dias para a programação de entrega”, compara Gabriel Junqueira, diretor de engenharia da SKR.

Nos padrões médio e alto, incorporadoras podem repassar as elevações de custos para os preços dos imóveis ainda não vendidos, desde que o novo valor não ultrapasse a capacidade de compra dos consumidores ou torne a unidade pouco competitiva em relação a imóveis semelhantes comercializados na mesma região.

Segundo o diretor financeiro e de relações com investidores da Mitre Realty, Rodrigo Cagali, a incorporadora conseguirá vender lançamentos com elevação de preços para preservar margens, assim como ocorreu em 2020. Já o diretor técnico da Trisul, Roberto Pastor, diz não ser possível repassar aumentos de custos para os preços, o que leva a companhia a buscar outras formas de compensação. “Estamos buscando tornar a construção mais racional e mais tecnológica”, afirma Pastor.

Na baixa renda, repassar os aumentos é ainda mais difícil por causa do teto de preço definido para cada faixa de imóveis incluídos no programa habitacional Casa Verde e Amarela. “Do total de nossas obras, 90% está no programa. Temos tentado fazer as construções em tempo menor, mas não há muito para onde correr”, diz Dante Seferian, presidente da Danpris.

Algumas incorporadoras já se preocupam com a potencial volta do risco de estouros de orçamentos. No começo da década passada, o setor enfrentou revisões de orçamento que prejudicaram as margens das empresas. “Em 2020, havia folga, mas os aumentos dos insumos têm comido nossa economia de obras. Em algum momento, pode haver estouro de novo”, diz o vice-presidente da Tecnisa.

O presidente da Direcional Engenharia, Ricardo Gontijo, porém, diz não ver o setor voltar àquela situação de estouro de custos do passado. “O setor aprendeu demais. Houve mudança de processos construtivos que possibilitaram elevar a produtividade. E, lá atrás, o maior problema foi ligado à mão de obra, não aos materiais”, destaca.

Em um cenário mais extremo, construtoras que prestam serviços a incorporadoras podem ter de paralisar obras pela inviabilidade dos custos, no entendimento do presidente do Sinduscon-SP.

A preocupação com a inflação ultrapassa os limites setoriais, de acordo com o executivo de uma incorporadora. O principal impulso para as vendas de imóveis têm sido os juros baixos. Conforme o patamar de alta da inflação, as taxas de juros poderão voltar a subir, alterando a dinâmica favorável ao setor. Não é o que as empresas esperam para o curto prazo, mas trata-se de ponto de atenção.

Fonte: Chiara Quintão, Valor, 01/03/2021.

Loft e Zap mostram que espaço para home office já impacta o mercado de imóveis

Home office
Foto: Bench Accounting/Unsplash

Um cantinho para chamar de teu escritório em casa. Ao que tudo indica, o espaço dedicado para o home office veio para ficar e já começa a se materializar como tendência de mercado. É o que revelam dados levantados com exclusividade pela Loft para o CNN Brasil Business. Em pouco mais de dois anos, a startup se tornou uma das maiores empresas do país em compra, reforma e venda de imóveis.

“Em maio registramos um aumento de mais de 25% no número de reuniões com clientes que precisam de reformas em relação a abril. E o número de contratos subiu 20%, o que mostra o crescente interesse por reformas”, afirma Murilo Morale, diretor da Decorati, empresa da Loft especializada em reformas e decoração.

Segundo o executivo, soluções para o home office passaram a ser pedido obrigatório dos clientes no momento de montar um projeto de reforma.

Mais espaço

A preferência por imóveis maiores em meio à pandemia, o que sugere espaço para o trabalho em casa, é sentida também nas buscas para o aluguel de imóveis.

Segundo dados do Grupo ZAP, empresa que recebe mensalmente 50 milhões de visitas na sua plataforma de negociação de imóveis, houve uma queda de 34% para 28% na procura por imóveis de um dormitório na cidade de São Paulo em março e abril na comparação desse mesmo período em 2019 com 2020, respectivamente.

Na contramão, a procura por imóveis com dois dormitórios passou de 52% para 56%; e aqueles com três dormitórios saltaram de 14% para 16%.

As informações fazem parte do estudo “Os Efeitos Econômicos da Covid-19 no setor imobiliário”, divulgado nesta quarta-feira. A queda na busca por imóveis compactos foi verificada pela Data ZAP, o braço de inteligência imobiliária do Grupo ZAP, em outras capitais, como Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Salvador, Curitiba e Porto Alegre.

“A queda de demanda mais acentuada para o nicho de imóveis compactos (com até um dormitório) está muito provavelmente relacionada à mudança de comportamento dos consumidores, buscando imóveis com mais espaço, vislumbrando uma vida em que se passa mais tempo dentro de casa”, dizem os analistas do Grupo ZAP. 

Os dados acima referendam novos interesses que já se manifestavam em consultas de mercado. Uma pesquisa conduzida pela Loft com 1.300 clientes e corretores nos estados de São Paulo e do Rio de Janeiro revelou que 7 em cada 10 pessoas querem uma área separada dentro de casa para trabalhar. Outros 45% disseram que o tempo de isolamento social com a pandemia despertou o interesse por apartamentos maiores.

A culinária doméstica foi outra campeã de preferência, segundo a pesquisa. Quase a metade dos entrevistados (46%) disse que pretende ampliar o uso na cozinha no dia a dia, superando com folga os que dizem que vão usar serviços de entrega (22%).

Fonte: Marcelo Sakate, do CNN Brasil Business, em São Paulo, 17 de junho de 2020 às 10:25.

XP vai ganhar nova sede e oferece trabalho remoto permanente a seus funcionários

Desenhos do projeto pensado para a Villa XP
Nova sede da XP será nos arredores de São Paulo e será alimentada de energia 100% renovável – Livro digital XP de Qualquer Lugar

A XP anunciou que terá uma nova sede no interior de São Paulo nos próximos meses e que passa a oferecer a possibilidade de trabalho remoto de maneira permanente a seus funcionários.

A novidade foi apresentada em forma de um e-book denominado “XP de Qualquer Lugar”, no qual a corretora traz um futuro “imaginado” de suas operações em um momento de início da reabertura da economia no país ante a pandemia do coronavírus.

Segundo a companhia, a escolha da cidade que vai receber a nova sede —denominada Villa XP— já está em andamento. A ideia é que o prédio da sede, “moderno e sustentável”, fique próximo à capital paulista, com fácil acesso a aeroportos e rodovias.

Nas dicas dadas pelo livro digital, a ideia é que a Villa XP conte com heliponto e que seja alimentada 100% com energia renovável, contando também com uma tecnologia de reaproveitamento de água e uso de materiais sustentáveis.

Além disso, a nova sede também deve contar com espaço para crianças, sala de exposições com tela de cinema, fotos, obras e painéis interativos que contem a história da XP. Haverá ainda área com mesas e poltronas, um café, palco de eventos e salas de treinamentos. A Villa XP contará com um complexo esportivo com quadras de tênis, basquete, futebol pista de corrida, piscina e academia de ginástica.

Desenhos do projeto pensado para a Villa XP
Nova sede da XP será nos arredores de São Paulo e será alimentada de energia 100% renovável – Livro digital XP de Qualquer Lugar

Pelo projeto, o complexo terá uma loja, a XP Store, para vender o livro “Na Raça”, que conta a história do fundador da corretora, Guilherme Benchimol, e outros artigos, como camisetas e o chamado “coletrader”, colete de nylon acolchoado, símbolo do mercado financeiro paulistano.

“Não deixaremos de ter uma sede. Ela só mudou de lugar e de finalidade. Despedimo-nos dos arranha-céus à beira do rio Pinheiros para buscar um espaço que tenha mais a nossa cara”, diz o texto do anuncio no e-book.

Segundo a XP, o prédio no bairro Itaim Bibi, na capital paulista, será mantido.

Em relação ao trabalho remoto, a companhia afirmou que já passou a oferecer a seus funcionários a possibilidade de home office permanente.

“Mobilidade é a palavra de ordem nesses novos tempos de trabalho a distância. Garantir que a nossa infraestrutura remota esteja, no mínimo, igual à que tínhamos no modelo antigo é fundamental para trabalharmos bem em qualquer lugar”, diz a corretora no livro.

Ainda segundo o e-book, a empresa fornecerá todo o equipamento necessário ao trabalho remoto aos seus funcionários, como notebook, monitores adicionais, mouse, teclado, fones sem fio e com cancelamento de ruído, quando necessário, entre outros.

“O nosso time de infraestrutura mapeia constantemente os diferentes perfis de colaboradores e estabelece, em conjunto com os líderes das diferentes áreas, um kit básico que atenda a cada um deles. Esses kits são entregues na casa do colaborador antes do início da semana de onboarding [integração]”, afirmou.

A companhia também afirmou que trabalhará com horários flexíveis, que ficarão à critério de cada área da empresa, e que contará com uma plataforma de autoatendimento, onde o funcionário poderá solicitar serviços, encontrar informações e registrar e resolver problemas.

Fonte: Folha de S.Paulo, Isabela Bolzani, 11.jun.2020 às 23h15.

RNI prepara lançamentos de dois projetos residenciais após pandemia

Prédio em construção ilustra obras do
mercado imobiliário em São Paulo.
Crédito da Foto: Patrícia Cruz / AE

A RNI (antiga Rodobens Negócios Imobiliários) está se aquecendo para retomar os lançamentos de novos projetos logo que a pandemia do coronavírus der uma trégua, em uma sinalização de confiança na retomada do mercado imobiliário. A companhia realizou nesta semana dois eventos de pré-lançamentos, fase em que as incorporadoras apresentam os projetos aos parceiros comerciais. A partir daí, os corretores já começam a prospectar clientes interessados na aquisição dos imóveis.

Em breve. O pré-lançamento foi para um projeto em São Paulo (bairro do Jaçanã) e outro em Goiânia (Urias Magalhães), ambos enquadrados no Minha Casa Minha Vida. Ao todo, serão 800 apartamentos e devem movimentar na ordem de R$ 250 milhões em vendas. Os estandes já estão sendo montados, e a RNI vai bater o martelo nos próximos 30 dias sobre qual será a data exata do lançamento oficial, que, geralmente, não costuma levar muitas semanas após a convocação dos corretores.

Demanda. A demanda por imóveis deu sinais de uma retomada em abril, segundo o portal de classificados Imovelweb. Após uma redução de 33% em sua audiência em março, o portal registrou na primeira semana de abril uma alta de 13% nas buscas em comparação com as semanas anteriores. Empresários estão confiantes de que, apesar da crise, o mercado terá liquidez, auxiliado pelas condições facilitadas de financiamento na Caixa Econômica Federal. O banco oferece carência de seis meses para pagamento da primeira parcela do empréstimo para aquisição de imóveis.

Fonte: Circe Bonatelli, O Estado de S.Paulo, 10 de maio de 2020 | 05h14.

Sinais de mercado: imóvel em São Paulo perde 10 metros quadrados nos últimos dez anos

O engenheiro Rodney Schiavon em seu apartamento de 35 metros quadrados na Bela Vista. Foto: JF Diorio/Estadão

O engenheiro civil Rodney Schiavon adquiriu um estúdio de 35 m² na região da Bela Vista, após mais de seis anos morando de aluguel. Segundo ele, a escolha do imóvel e da localização foi estratégica. “Eu queria um apartamento cujo preço estivesse adequado à minha realidade financeira. Além disso, vou para o trabalho a pé em 15 minutos.”

Exemplos como o de Rodney reforçam a mudança que o estilo de morar vem sofrendo nos últimos anos. A busca por apartamentos cujo preço cabe no bolso – mesmo com tamanho reduzido, porém bem localizados – levou construtoras a investirem em empreendimentos com unidades de metragens cada vez menores. Em 2008, segundo estudo do Secovi (Sindicato da Habitação), a área útil mínima de um apartamentode um dormitório em São Paulo era de 28,12 m². Hoje, é em média de 17,66 m².

Segundo Arthur Igreja, professor da FGV-RJ e especialista em inovação, a crise econômica foi um dos principais fatores que levaram ao encolhimento dos imóveis. “As pessoas não conseguiam mais comprar apartamentos amplos com a redução da renda e o preço deles corrigidos acima da inflação. Acabaram optando por apartamentos menores, porém tiveram a oportunidade de morar em bairros mais bem localizados sob o ponto de vista da mobilidade.”

Soma-se a isso, segundo Lucas Araújo, superintendente de marketing da construtora Trisul, o aumento do preço dos terrenos e dos materiais de construção. Araújo conta que, há dez anos, predominavam apartamentos menores em regiões comerciais como Paulista e Berrini. “Havia grande oferta de flats e hotéis. E alguns estúdios.” Hoje, estão espalhados por vários bairros da cidade, como Pinheiros, Vila Mariana, Higienópolis, Santa Cecília, Paraíso, Pompeia, Campo Belo, Cerqueira César, Perdizes e Moema.

“Nós levamos em conta a estrutura em volta do terreno antes de fazer a construção do empreendimento. As pessoas querem ter a vida em torno de sua moradia”, explica Davi Rubinsohn, diretor estatutário e sócio da construtora You, focada em imóveis para esse segmento.

Na Grande São Paulo também já existem alguns movimentos nesse sentido. A construtora Danpris está apostando em apartamentos com metragens entre 30 m² e 42 m² em locais como Osasco, Barueri e Carapicuíba. “Procuramos locais que privilegiem o acesso fácil às estações de trem, escolas, hospitais e comércio para facilitar a vida do morador”, afirma Dante Seferian, CEO da empresa.

Extensão da casa

O perfil de pessoas que habitam os apartamentos com metragem reduzida é variado. Envolve estudantes, executivos, divorciadas, casais de aposentados e também investidores, pois são unidades com boa liquidez. “Nos prédios feitos pela MAC para esse mercado, entre 12% e 18% das unidades são ocupadas por casais que preferem morar em locais menores após os filhos terem saído de casa”, enfatiza Ricardo Pajero, gerente comercial.

A aposentada Izabel Arieta e o engenheiro Roberto Arieta decidiram comprar um apartamento de 20 m² na região central da cidade, após anos de sufoco. “Nós morávamos na Penha e eu demorava duas horas para chegar na empresa de carro. E de metrô eu mal conseguia entrar no vagão no horário de pico.” Logo nos primeiros dias do novo imóvel, os ganhos já foram sentidos. Roberto agora leva 20 minutos a pé para ir ao trabalho. “Ainda consigo chegar a tempo de ir à academia do prédio”, diz. E Izabel está aproveitando para conhecer o centro da cidade.

Para contrabalancear os espaços internos reduzidos dos apartamentos, as construtoras apostam nas áreas comuns como extensões das unidades. Os condôminos podem usufruir de lounge, lavanderia, cozinha gourmet, coworking e até espaço para armazenar alimentos e para compartilhar utensílios. “O objetivo é não deixar faltar nada no dia a dia desse cliente”, destaca Piero Sevilla, diretor de incorporação da Cyrela. Na visão de Marcelo Dzik, diretor comercial e de clientes da Even, os ambientes permitem que o morador conviva fora da unidade.

Para os entrevistados, empreendimentos com esse perfil é um caminho sem volta. “Apesar de uma retomada tímida da economia, o Brasil só vai voltar a crescer de fato daqui a alguns anos. Enquanto isso, o brasileiro vai continuar com a renda mais enxuta, investindo em imóveis menores”, analisa o professor Arthur Igreja.

Lançamentos pequenos

You
Bairro: Pinheiros (a partir de 25 m²)

Trisul
Bairro: Vila Mariana (a partir de 27 m²)

MAC
Bairro: São Judas (a partir de 25,6 m²)

TPA
Bairro: Centro (a partir de 19,7 m²)

Even
Bairro: Bela Vista (a partir de 23 m²)

Cyrela
Bairro: Ibirapuera e Centro (a partir de 27 m²)

Fonte: Júlia Zillig, 12 de maio de 2019 | 06h10, especial para o Estado de S.Paulo

Sinais de Mercado: empresas de tecnologia entram no setor imobiliário residencial

A Zillow comprou menos de 700 residências em 2018, mas espera comprar 5.000 por mês de três a cinco anos. Foto: Caitlin O’Hara/NYT

No mundo digital on-demand de hoje em dia, comprar e vender uma casa continua teimosa e dolorosamente analógico. A maioria das vendas ainda começa com um agente imobiliário (e uma comissão de 6%). A maioria ainda termina em um escritório, com os dois lados assinando página após página de papéis em linguagem jurídica.

O Vale do Silício quer mudar isso. As empresas de tecnologia começaram a mordiscar as margens do setor imobiliário residencial, oferecendo visitas virtuais, encerramentos digitais e outros serviços. Agora eles estão indo direto para a própria transação imobiliária através da “compra instantânea”, na qual as empresas compram casas, realizam alguma rápida manutenção e as recolocam de volta no mercado.

Empresas consolidadas como a Zillow e iniciantes financiadas por capital de risco, como a Opendoor e a Offerpad, levantaram bilhões de dólares com a promessa de que podem usar sofisticados algoritmos para prever o valor de casas individuais. Eles alegam que essas previsões, combinadas com economias de escala antiquadas, permitirão que sejam muito mais eficientes do que as tradicionais compras e revendas rápidas (flippers).

As empresas e seus financiadores dizem que estão usando o melhor da tecnologia: trazendo eficiência e conveniência para um processo que não é conhecido por nenhum deles. O Vale do Silício já mudou a forma como pegamos um táxi e pedimos comida, argumentam eles. Por que não melhorar uma transação que mesmo profissionais bem instruídos consideram intimidante?

“Você terá condições de vender uma casa com alguns cliques”, disse Eric Wu, diretor executivo da Opendoor. Mas as casas não são táxis. Um passeio ruim do Uber pode custar US$ 20 a um usuário e atrasá-lo para uma reunião. Já uma casa é o maior ativo para a maioria dos americanos e a compra mais cara que ele jamais fará.

Na melhor das hipóteses, os céticos veem a compra instantânea, também conhecida como “iBuying”, como um negócio exagerado de capital intensivo, cujo crescimento explosivo fracassará assim que os investidores cansarem das margens de lucro que a própria Zillow chama de “finas como lâminas de gilete”. No pior cenário, poderia trazer volatilidade e risco para um setor que já derrubou a economia americana uma vez neste século.

Glenn Kelman, diretor executivo da Redfin, corretora on-line, disse que há um perigo em investir enormes somas na compra de casas “sem ter uma ideia clara de como você vai ganhar dinheiro em quase todas elas”. Acontece que, ele disse, “você está apenas colocando em um certo grau de risco o mercado de habitação, e o mercado de capitais”.

A compra instantânea é uma pequena parte do mercado, embora esteja crescendo a uma velocidade vertiginosa. A Zillow comprou menos de 700 residências em 2018. Ela espera comprar 5.000 residências por mês em três a cinco anos. A Opendoor, primeira grande iBuyer, comprou mais de 11 mil casas no ano passado, ano em que arrecadou mais de US$ 1 bilhão para acelerar seu ritmo.

As empresas geralmente pretendem manter as casas por 90 dias ou menos antes de vendê-las, para um comprador individual. Para o eventual proprietário, o processo trará mudanças pequenas.

Em Phoenix, a compra instantânea responde por 6% de todas as transações imobiliárias, segundo Mike DelPrete, analista do setor. E em um sinal de como a iBuying está reformulando o mercado imobiliário, a própria empresa de Kelman está entrando no jogo, comprando casas na Califórnia, no Colorado e no Texas através de um programa chamado RedfinNow.

Mesmo corretoras tradicionais, como a Keller Williams e a Realogy, que são proprietárias da Coldwell Banker, da Century 21 e de outras marcas, anunciaram planos para programas de compra instantânea. A tendência é uma ameaça ao modelo de negócios dos corretores – mas, se isso acontecer, eles prefeririam ficar com parte da ação.

Sempre houve pessoas que precisavam vender suas casas rapidamente por causa da perda do emprego ou de uma mudança súbita. Mas vender rápido tem seu custo, geralmente um acentuado desconto. Compradores instantâneos prometem um desconto muito menor, talvez reduzindo apenas 1% ou 2% do que um proprietário pode obter em uma venda convencional.

Para o vendedor certo, esse trade-off pode valer a pena.

Casa comprada pela Zillow em Phoenix, EUA, para ser revendida. Foto: Caitlin O’Hara/NYT

Se a iBuying funciona fora de mercados como Phoenix e Las Vegas é uma questão em aberto. O modelo ainda não entrou no Nordeste, onde o estoque de habitações é mais antigo, o clima eleva os custos de manutenção e há menos subdivisões do tipo que os algoritmos do setor avaliam melhor. Os preços também são mais elevados, tornando os erros mais caros para as empresas.

As empresas dizem que serão capazes de extrair mais eficiência do sistema à medida que ganharem em escala e experiência. Mas especialistas estão em dúvida. Chris Mayer, economista do setor imobiliário da Universidade de Columbia, disse que as coisas que tornam as transações imobiliárias caras não deveriam mudar. “Isso não é como vender uma hipoteca, onde todos estão vendendo a mesma hipoteca ou assentos em um voo”, disse Mayer.

De fato, a visão de Wu de vender uma casa com alguns toques em um smartphonecontinua distante. Por enquanto, os algoritmos ajudam a determinar os lances preliminares de iBuyers, mas essas ofertas não se tornam definitivas até que um inspetor tenha feito uma inspeção. Ainda depende mais de humanos para determinar se uma fundação está rachada ou se uma cozinha precisa ser reformada.

Mesmo as funções de back-office exigem grande participação de mão-de-obra. A Zillow Offers tem cerca de 200 funcionários em Phoenix trabalhando em fileiras de cubículos para dimensionar e agilizar o processo de décadas de trabalho com um agente imobiliário para precificar, preparar e mostrar uma casa na esperança de obter o melhor preço do mercado. Uma fileira de cubículos tem analistas trabalhando para criar índices de preços comparáveis. Outra linha tem pessoas recebendo ligações de potenciais vendedores e ajudando-as a fechar o negócio. Outras estão trabalhando para conseguir equipes de pintura, carpetes e paisagistas para as casas compradas recentemente, para que a Zillow possa colocá-las logo no mercado.

A Zillow admite essencialmente que não espera ganhar muito dinheiro por casa em seu programa de ofertas instantâneas. Em vez disso, encara a venda de residências como uma maneira de gerar negócios para seu braço de empréstimos hipotecários, que desenvolveu depois de adquirir a Mortgage Lenders of America no ano passado e para outros serviços. É o equivalente aproximado da concessionária que vende carros com prejuízo, mas ganha dinheiro oferecendo financiamento.

“Onde você é capaz de ganhar dinheiro é através da geração de hipotecas”, disse Svenja Gudell, economista-chefe da Zillow. “É por isso que possuímos uma companhia de hipotecas.” A questão que ninguém pode responder é o que acontecerá com os iBuyers – e o iBuying – quando o mercado imobiliário esfria inevitavelmente, deixando as empresas com milhares de casas que valem menos do que se pensava.

A Zillow e a Opendoor dizem que seus produtos poderiam ficar ainda mais valiosos quando o mercado imobiliário desacelerar. O mercado habitacional, muitas vezes, se aproveita dos períodos de mudanças rápidas, à medida que compradores e vendedores se esforçam para chegar a um acordo sobre os preços. Compradores imediatos, com seus algoritmos sem emoção, poderiam fazer o mercado voltar a movimentar-se, aceitando preços mais baixos para as casas mantidas em estoque e, assim, estabelecendo referências para outros vendedores.

Esse desacordo dá realce a uma tensão no centro do modelo iBuying. Destina-se a eliminar os atritos que desaceleram o mercado imobiliário: negociações prolongadas, ofertas contingentes, financiamento que se desfaz antes de um fechamento. Mas essa própria lentidão contribui para a estabilidade do mercado imobiliário – é difícil ter um “crash instantâneo” quando leva 90 dias para que uma venda seja liberada. E uma grande parte da economia dos EUA, desde a hipoteca de 30 anos até o empréstimo da casa própria até os impostos sobre a propriedade que financiam escolas distritais, é construída sobre essa estabilidade.

Fontes: Ben Casselman e Conor Dougherty, New York Times/Estadão, 12 de maio de 2019 | 06h05. Tradução de Claudia Bozzo