Referências Bibliográficas: Como citar um artigo publicado em um site?

Como exemplo o artigo “Radiografia da publicação acadêmica em acesso aberto e seus indicadores bibliométricos”, escrito por Lilian Nassi-Calò e publicado no Blog SciElo em Perspectiva.

Leia o artigo na íntegra, aqui.

Como citar este post [ISO 690/2010]:

NASSI-CALÒ, L. Radiografia da publicação acadêmica em acesso aberto e seus indicadores bibliométricos [online]. SciELO em Perspectiva, 2018 [viewed 03 April 2018]. Available from: http://blog.scielo.org/blog/2018/02/09/radiografia-da-publicacao-academica-em-acesso-aberto-e-seus-indicadores-bibliometricos/
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Cicilia K. Peruzzo e as Ciências da Comunicação no Brasil

Com os 50 anos de existência das Ciências da Comunicação no Brasil, convidamos a professora Cicilia K.Peruzzo para falar dos resultados e dos desafios da área. A Revista Intercomprimeiro periódico de comunicação científica disponibilizado em acesso aberto pela Internet, certamente, é um projeto editorial de fôlego, com indexação SciELO, que vem promovendo, ao longo de muitos anos, a divulgação da pesquisa nacional e internacional, contribuindo para o ensino universitário de Comunicação e para a promoção de um debate cada vez mais amplo sobre essa área e suas relações com outras áreas.

Cicilia  K. Peruzzo é doutora em Ciências da Comunicação (1991) pela Universidade de São Paulo – USP. Realizou Pós-doutorado na Universidade Nacional Autônoma do México. Foi Presidente da Intercom (Sociedade Brasileira de Estudos da Comunicação) 1999-2002. Desde 2006, trabalha como Editora da Intercom – Revista Brasileira de Ciências da Comunicação. Atualmente, é Professora do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Metodista de São Paulo – IMESP; pesquisadora da área da Comunicação nas linhas Comunitária, Alternativa e Mídia Local, além de Relações Públicas, na perspectiva crítica e dos movimentos sociais. E é Vice-Presidente da Federação Lusófona de Comunicação. Coordena o Núcleo de Estudos de Comunicação Comunitária e Local (COMUNI) e o GT Comunicação e Cidadania da Associação Brasileira de Programas de Pós-Graduação em Comunicação (2012-2013).

1. Com base em sua experiência acadêmica como professora e pesquisadora, sobretudo, como Presidente que foi da Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação, e também como atual Editora da Intercom – Revista Brasileira de Ciências da Comunicação, qual o seu parecer sobre os desafios da divulgação científica em Comunicação no Brasil?

Em nível internacional, à primeira vista, o principal desafio é o de se inserir num espaço competitivo que as ciências já consolidadas dominam e participam de suas regras de funcionamento dentro de uma dinâmica de “mercado” que tem por base os padrões editoriais e a cultura científica estadounidenses e anglosaxônicas. No entanto, existe um esforço crescente no campo da Comunicação para ampliar a presença nos circuitos internacionais de circulação do conhecimento e, aos poucos, esse desafio parece que já faz parte do universo acadêmico, principalmente, no âmbito dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação e das associações científicas. Aliás, com o avanço do ensino e da pesquisa em nível de pós-graduação no país também se sinaliza o aumento da quantidade e de qualidade da produção científica no campo e, consequentemente, sua maior oferta e participação nos fóruns nacionais e internacionais. 

No nível nacional, a divulgação do conhecimento científico produzido começa a galgar desafios similares, pois, o número de periódicos científicos bem qualificados é baixo em relação à oferta crescente de artigos produzidos nas universidades, até em decorrência da pressão produtivista que vem se instaurando nos últimos anos. Paralelamente, também nota-se um processo de amadurecimento sobre as demandas, esforços e vontades em se avançar no valor da ciência, tanto a partir de parâmetros tecnocientíficos quanto da contribuição esperada ou necessária dos conteúdos para o avanço do conhecimento e seu papel na sociedade. 

2. Dos 50 anos de formação das Ciências da Comunicação no País – que, aliás, estão sendo comemorados atualmente com o Ciclo de Conferências Fapesp e Intercom –, gostaria que você comentasse um pouco a respeito da especificidade dessa área e seu desenvolvimento e desdobramentos ao longo desse período.

Em primeiro lugar, por tratar-se de algo novo – ou melhor, de uma ciência recente, ousaria dizer –, em processo de desenvolvimento rápido e que, ao mesmo tempo, sofre diuturnamente as transformações tecnológicas e sociais das sociedades, constitui-se em uma área desafiadora porque se revela muito ampla e dinâmica, e com e sem fronteiras em relação a outras áreas do conhecimento. Ou seja, as configurações do universo da Comunicação têm sido alteradas muito rapidamente nas últimas décadas – dos canais, aos meios e mensagens –, dos processos comunicacionais – interpessoais aos organizacionais, massivos e digitais – dos ambientes comunicacionais presenciais e midiáticos aos virtuais – e assim por diante, o que obriga a uma contínua busca pela revisão de conceitos e teorias, suas reelaborações e a formulação de novos conceitos e teorias para se dar conta das transformações. Por outro lado, o campo congrega uma diversidade muito interessante, além de perpassar e ser perpassado por outras ciências.

Quanto ao seu desenvolvimento, do ponto de vista do ensino é algo extraordinário em número de escolas e cursos de graduação (Jornalismo, Publicidade, Relações Públicas, Editoração, Rádio e Televisão, etc.) e de Programas de Pós-Graduação em Comunicação que têm linhas de pesquisa mais abertas de modo a contemplar a diversidade do campo e dar conta também de fenômenos ligados à cultura, à recepção, às relações entre comunicação e educação, às estruturas de meios de comunicação, às políticas públicas relativas ao campo, às expressões de comunicação nos diferentes universos tanto em termos de linguagens (impresso, audiovisual, ciberespaço) quanto de âmbitos (midiático, institucional, comunitário, etc.). Hoje são 64 cursos de pós-graduação (43 de mestrado e 20 de doutorado) reconhecidos pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), em contraste com o fim dos anos 1980 quando existiam 6 (seis), sendo 3 (três)cursos de mestrado e outro tanto de doutorado). Existem ainda várias associações científicas nacionais, além de uma federação de associações em nível nacional (SOCICOM – Federação Brasileira das Associações Científicas e Acadêmicas de Comunicação), e outra que abarca as associações do mundo lusófono, (CONFIBERCOM – Confederação Ibero-Americana das Associações Científicas e Acadêmicas de Comunicação).

3. Que balanço em sua opinião poderia ser feito no âmbito das Ciências da Comunicação, pensando a sua produção científica no plano nacional e no internacional?

É uma produção em ascensão. Nunca se publicou tanto na área como nos últimos anos. Dezenas de coletâneas e livros autorais são lançadas no Congresso Intercom a cada ano. É elevado o número de periódicos científicos em circulação. O número de trabalhos publicados em Congressos da Intercom é equivalente a seis por ano, um nacional e um por região geográfica; por exemplo, isso dá conta de demanda significativa provinda de todas as regiões do Brasil. De 2009 a 2013, foram selecionados 4.524 papers para apresentação nos Grupos de Pesquisa (GP), no conjunto de todos os seis eventos. Esses receberam inscrição de 42 mil participantes nesse mesmo período1. Gostaria de ressaltar que esse movimento corresponde à participação tanto de pesquisadores sêniors como de jovens, o que tem caracterizado uma importante abertura da área para a formação e acolhimento de novos pesquisadores. Nessa perspectiva, há ainda um grande incentivo por parte da Intercom, ao institucionalizar, no âmbito de seus eventos, espaços específicos (Intercom Junior) para apresentação de trabalhos de iniciação científica. 

Num outro sentido, e sem a pretensão de fazer um balanço, diria que, em termos de América Latina e países lusófonos, é crescente a presença de pesquisadores apresentando trabalhos, sendo que a maior presença tem sido de brasileiros. Em outros termos, levantamentos têm mostrado a tendência da presença majoritária de brasileiros – em relação à America Latina e países de língua portuguesa – em eventos internacionais, tais como no Congreso Latinoamericano de Investigadores de la ComunicaciónAnnual Conference of the International Association for Media and Communication Research;  Congresso Internacional Ibercom; Congresso Internacional de Comunicação Lusófona etc.

4. Acesso Aberto, o que isso significa para os editores científicos e os autores dos artigos de periódicos acadêmicos das Ciências da Comunicação? Quais são os resultados obtidos, até o momento, nesse sentido?

Significa uma possibilidade imensurável de democratizar o conhecimento, torná-lo mais acessível e provocar o debate. Dadas as dificuldades de circulação do periódico impresso num país com as dimensões do Brasil e, ainda, devido às características bastante regionais da maioria deles, a disponibilização online realmente potencializa o acesso e a circulação da informação.

5. Você poderia falar sobre a Intercom – Revista Brasileira de Ciências da Comunicação, tanto em relação à sua história (desde 1977), quanto ao que ela vem representando para a área nessas últimas décadas de mudanças efetivas, em especial com o uso de novas tecnologias?

A Intercom – RBCC foi o primeiro periódico científico a ser disponibilizada para acesso gratuito na internet ainda no início da década passada.  Iniciou como periódico modesto, mas significativo para um campo que dava os primeiros passos em torno de sua organização. Foi se aperfeiçoando no decorrer dos anos, com esforço de vários editores. Atualmente é uma revista científica de alta reputação na área da Comunicação, cujos processos de submissão online de artigos, de seleção, além dos aspectos técnicos e de formatação têm inspirado o aperfeiçoamento de outros periódicos. Sua missão é contribuir para a difusão do conhecimento científico e a reflexão pluralista sobre Comunicação de modo a alcançar seus objetivos, que são: (a) Promover e divulgar a pesquisa científica acadêmica nacional e internacional sobre Comunicação; (b) Contribuir para desenvolver o nível da investigação e do ensino universitário de Comunicação; (c) Servir de espaço para a reflexão sobre temas de interesse público do âmbito da Comunicação.

6. Quais os próximos projetos de melhoria da produção científica vinculados às políticas de ação da Intercom? Há um levantamento sobre os periódicos da área que já estejam indexados na WoSScopus e na coleção SciELO?

Bem, a Intercom é uma associação civil sem fins lucrativos que atua na perspectiva de contribuir para que o campo da Comunicação se desenvolva em bases sólidas, avance e se consolide enquanto ciência, e amplie a conquista de espaço acadêmico-científico nos níveis nacional, regional e internacional. A ela não cabe realizar a pesquisa propriamente dita, nem o ensino regular formal, mas colaborar tornando acessíveis subsídios teóricos à pesquisa, ao ensino e à extensão universitária, proporcionando espaço a pesquisadores, docentes e outros profissionais, além de estudantes, por meio de livros, revistas científicas, congressos, internet etc., como canais de expressão para a comunicação pública do que é produzido de modo que possa ser compartilhado e avaliado pelos pares e apropriado pela sociedade.

No que se refere à indexação de periódicos da área em bases internacionais, infelizmente o número é baixíssimo.  Em estudo que realizei em 2011, pude identificar a existência de 71 periódicos científicos de Comunicação no Brasil, a maioria desse total concentrada na região Sudeste. Desse número, apenas cinco atualmente têm a melhor classificação do sistema Qualis de Avaliação de Periódicos, pela CAPES, obtida na área, a A2. E apenas uma revista, a Intercom – Revista Brasileira de Ciências da Comunicação está indexada no SciELO. A meta agora é indexar nossa revista em outras bases internacionais. Em relação aos indexadores internacionais, todas as cinco melhores revistas estão no Directory of Open Access Journals (DOAJ), nenhuma no Scopus ou WoS. Mas, algumas fazem parte da Red de Revistas Científicas de América Latina y el Caribe, España y Portugal (RedALyC), um projeto impulsionado pela Universidad Autónoma del Estado de México  (UAEM), e um tanto mais próximo ao campo da Comunicação.

Notas

1 Informação transmitida pela diretoria da Intercom com base em levantamento feito recentemente.

Fonte: SCIENTIFIC ELECTRONIC LIBRARY ONLINE. Entrevista com Cicilia K. Peruzzo [online]. SciELO em Perspectiva, 2013 [viewed 03 April 2018]. Available from: http://blog.scielo.org/blog/2013/09/10/entrevista-com-cicilia-k-peruzzo/

Essa entrevista foi publicada no Blog SciELO em Perspectiva em 

Redes sociais e periodismo científico: desafios aos editores, por Viviane Gonçalves de Campos

No v. 40, n. 2, abr./jun. 2014, do periódico “Educação e Pesquisa”, Jaime L. Benchimol, pesquisador titular da Casa de Oswaldo Cruz, Fundação Oswaldo Cruz, e editor científico de História, Ciências, Saúde Manguinhos, com Roberta C. Cerqueira e Camilo Papi publicaram o artigo “Desafios aos editores da área de humanidades no periodismo científico e nas redes sociais: reflexões e experiências¹”que traz à tona reflexões sobre as dificuldades e experiências em se produzir, manter e divulgar um periódico de qualidade. Estratificado com A1 Qualis/Capes, HCS-Manguinhos é publicada trimestralmente, seus artigos são publicados no idioma original (português, inglês, espanhol e francês) e possuem traduções para o inglês. Indexada em índices de destaque nacional e internacional, busca ampliar sua visibilidade e citação.

Em três eixos os autores discutem: 1) os processos de hierarquização e internacionalização dos periódicos brasileiros; 2) as formas de divulgação de conteúdo e avaliação do seu impacto; e, 3) as tendências quantitativas e produtivas que cercam o meio acadêmico. Além disso, abordam as dificuldades para internacionalizar o periódico HCS-Manguinhos e a experiência com o uso das redes sociais. Apresentam questões específicas da pesquisa na área de humanas e ponderam sobre o número de periódicos brasileiros em funcionamento (entre três a quatro mil) em detrimento a quantidade/qualidade e como os órgãos avaliativos e as políticas interferem nesse processo.

Cabe ressaltar que os argumentos levantados neste artigo têm sido alvo de discussões por pesquisadores, entidades, grupos, bases de dados, entre outros, dos rumos e alternativas para que a pesquisa brasileira possa se consolidar no meio internacional. Publicações recentes apontam o crescente número de produções versus o baixo índice de tudo que se publica em nosso país.

Pautado nas discussões apresentadas nesta entrevista, Jaime emite seu ponto de vista aos desafios presentes na gestão, publicação e internacionalização de um periódico e com sua experiência auxilia-nos a compreender como intervir no processo de melhoria.

1. O artigo de sua autoria e da equipe do periódico HCS-Manguinhos apresenta um histórico de avanços e conquistas sistemáticas que são notáveis para um periódico da área de humanas – pela sintonia oportuna da direção e gestão do periódico em resposta aos estímulos e demandas externas dos sistemas de indexação, avaliação e ranqueamento como são o Qualis, o SciELO e os índices internacionais WoS e Scopus –. O texto sinaliza que os estímulos e demandas externas implicaram desafios para a condução do periódico, mas o fato é que HCS-Manguinhos passou a ocupar posição destacada enquanto periódico do Brasil com crescente inserção no fluxo internacional de informação científica. Além da liderança do editor-chefe, quais as características da gestão do HCS-Manguinhos que permitiram e/ou facilitaram a conquista desta posição destacada?

Em termos mais imediatos, essa conquista deve-se ao trabalho de uma equipe dedicada, competente, com ótimo entrosamento. O periódico só tem essa equipe e só pôde reunir os recursos materiais e simbólicos para as inovações que implementou até agora porque está inserida numa instituição pública que, primeiro, valoriza seus periódicos científicos, desde o mais tradicional, as “Memórias do Instituto Cruz”, aos mais recentes; e investe neles, o que muitas instituições não fazem, em geral por miopia administrativa; segundo, por estar HCS-Manguinhos numa instituição biomédica que impõe a suas unidades e equipes uma ‘cultura’ na qual a veiculação de conhecimentos em forma de artigos é muito valorizada. Lembro que, quando foi criada a Casa de Oswaldo Cruz, há 28 anos, os historiadores e cientistas sociais chamados a integrá-la eram muito mais afeitos à produção de livros, estranhavam essa hegemonia do periódico, característica da área biomédica e de outros campos científicos, e que só agora contamina por inteiro a área de humanas. Outro valor a que muito cedo tivemos de aderir foi a tendência já cristalizada na Fiocruz de investir na internacionalização de suas produções. Sua trajetória desde o laboratório fundado em fins do século XIX para produzir soro e vacina contra a peste bubônica mostra que as conquistas institucionais dependeram, desde cedo, da repercussão junto às elites letradas do país de êxitos alcançados em âmbito internacional. Por último, mas não menos importante, está o fato de terem assumido, nos anos 1980, o comando da Fiocruz, intelectuais progressistas que lideravam o chamado movimento sanitarista, responsável pela promulgação da reforma sanitária e do SUS no contexto da redemocratização do país. Eram médicos que muito valorizavam a reflexão histórico-social crítica, e que transformaram a história numa das atividades finalísticas dessa instituição biomédica. Tais fatores, em minha opinião, ajudam a explicar porque pudemos responder consequentemente a tendências conjunturais que se impuseram a toda a comunidade acadêmica brasileira a partir dos anos 1990: as políticas e ações de estímulo à internacionalização da ciência brasileira, com suas faces positiva e danosa… Uso esta última palavra para designar a ideologia produtivista burra, burocrática, que impregna muitas instituições e agências governamentais, com sua fome insaciável por números e sua incapacidade de analisar e promover adequadamente a qualidade.

2. Quais as lições que a condução dessa trajetória do HCS-Manguinhos, merecem ser compartilhadas com os outros periódicos?

Em primeiro lugar, a importância da profissionalização do trabalho editorial. Sou do tempo em que se faziam textos com máquina de escrever e periódicos com mimeógrafo. As engrenagens envolvidas hoje na produção, veiculação, indexação e ‘qualificação’ de um periódico, em condições de navegar num mundo cada vez mais globalizado e competitivo, são cada vez mais complexas, e os editores de minha geração (ultrapassei o marco dos 60 anos) têm (acho eu) dificuldade de acompanhar o ritmo acelerado de mudanças que ocorrem nas tecnologias de informação. Editores e grupos de pesquisa que têm o desejo de criar e manter um bom periódico deparam-se com custos altos, e não estou me referindo apenas aos custos financeiros. É preciso aparelhar-se adequadamente e, tão importante quanto conquistar o apoio das agências de fomento, é convencer os dirigentes das universidades ou instituições de que periódicos científicos são indispensáveis e são custosos e complexos e não podem ser feitas à base de improvisações e do voluntarismo de alguns abnegados. Essa é uma luta que associações profissionais como ANPUH e AMPOCS deviam encampar. Nos orçamentos das instituições de ensino superior, a rubrica ‘publicações científicas’ devia ser muito mais valorizada, e esses recursos tanto podem ser destinados ao custeio de periódicos próprios ou interinstitucionais como ao custeio da publicação de artigos pelos docentes das universidades.

3. Os periódicos do Brasil, não obstante os desafios que representam os critérios de qualificação exigidos pelos sistemas de indexação e avaliação, gozam de total liberdade de gestão editorial. No artigo você e sua equipe defendem que “toda a produção intelectual tem direito a um lugar ao sol, e todo periódico, desde o mais rudimentar boletim estudantil, cumpre papel importante na formação de cada autor e da cultura científica em geral”. Mas, muitos periódicos foram (e continuam sendo) criados para responder ao produtivismo científico e assim a liberdade editorial é impregnada pela endogenia, que o artigo assinala como “prima-irmã do compadrio, traço da identidade brasileira muito forte também no meio acadêmico”. Segundo sua experiência, como os editores-chefes e responsáveis dos periódicos podem e devem lucrar com a liberdade de gestão editorial em prol de uma comunicação científica pautada pela ética e mérito?

Escrevemos no artigo em debate que toda a produção intelectual tem direito a um lugar ao sol e cumpre papel importante, mas isso não quer dizer que não sejam estabelecidas de forma inexorável hierarquias de competências, de know-how e de qualidade. Por isso, vemos de forma crítica a proliferação de periódicos endógenos que recorrem a expedientes mais ou menos oportunistas para ‘dourar’ as ‘pílulas’ de conhecimento que distribuem. Digo que vejo de forma crítica porque, como membro por um tempo do comitê SciELO, incumbido de selecionar periódicos para figurar em seu portal, deparei-me com grande quantidade de periódicos endógenos e paroquiais, com aspirações desarrazoadas para a qualidade do que tinham a oferecer. Para muitas instituições ou comunidades de pesquisa que recorrem a essa estratégia de valorização de seu capital simbólico, muito mais razoável e eficaz seria direcionar suas produções de qualidade para periódicos bem conceituados nas áreas de conhecimento pertinentes, periódicos com condições de dar tratamento e visibilidade muito maiores a esses trabalhos. Grupos e instituições podem negociar isso de várias formas com os editores dos periódicos com os quais tem afinidades programáticas. Isso não significa desmerecer os esforços honestos, feitos com seriedade, daqueles que fundam novos periódicos em condições de prosperar pela qualidade, abrangência ou originalidade do que tem a oferecer.

4. As tecnologias de informação e comunicação contribuem com sucessivas inovações em prol do aperfeiçoamento da comunicação científica desde que a publicação online passou a existir a partir dos anos 90. A disseminação e compartilhamento de informação adquiriram uma nova dimensão com as redes sociais na última década. Entretanto, o artigo científico na sua essência permanece inalterado para a maioria dos periódicos. Ao mesmo tempo, o artigo da equipe do HCS-Manguinhos faz uma ode à versão impressa do periódico? Não parecem extemporâneas as alegações de que a versão impressa é essencial frente a possíveis apagões ou para atender leitores excluídos do acesso à Internet, visto que a frequência que ocorrem e o público que se pretendem proteger é mínimo em relação ao volume de leitores que usufruem na publicação online? Em sua opinião, existirão mudanças nos artigos propriamente ditos?

Sua pergunta me faz lembrar aquele hino entoado à época ditadura militar: “Noventa milhões em ação / Pra frente, Brasil … Todos ligados na mesma emoção/ Tudo é um só coração!…” Lembra? Pois é, a pergunta é feita a um camarada de 60 anos que aprendeu a amar os livros e publicações em papel, e em nome dessa geração e das mais novas, que valorizam ainda o objeto impresso (como valorizam os discos de vinil), eu protesto contra a suposição de que este valor seja ‘extemporâneo’. Não é apenas um sentimento, um afeto, é também um modo de ler, refletir e anotar que não pode prescindir do papel, e que não se pode reproduzir nos suportes eletrônicos. Depois, como historiador, sei que a Manguinhos em papel continuará impávida, por séculos, nas prateleiras das bibliotecas, ao passo que os servidores, as nuvens, os HDs que agasalham as edições digitais têm existência muito mais efêmera. Terceiro, que provas há de que é mínimo o volume de leitores que usufruem da publicação em papel? Você pode dizer que a publicação onlinetem poder de difusão incomparavelmente maior, e por isso mesmo investimos decididamente nela. Por último, no ponto de vista deste sexagenário, as edições digitais não têm (ainda) a beleza e a praticidade das edições em papel. Pode ser que essa crença venha a perecer junto com quem a enuncia. Quem viver verá. E o papel enfrenta ameaças poderosas, especialmente custo, tempo e espaço. Este é cada vez mais exíguo, e o viajante que vier a se hospedar num tubo de metal, como já acontece no Japão, certamente terá mais vantagem em ler, digamos, a última obra de Benchimol num celular. Custo é uma variável decisiva, e os tempos de vacas gordas, até para HCS-Manguinhos, estão por um fio. Quanto ao tempo, para aqueles que precisam devorar dez Cervantes por dia e mais um monte de notícias e dados, durante viagens em vagões lotados de metrô, entre muitas reuniões durante jornadas nervosas, estressantes, não há dúvida de que as publicações online são um must. Mas HCS-Manguinhos não quer desatender aqueles que prezam ou tem o privilégio de poder virar as páginas de um livro ou periódico, comodamente e sem pressa.

Ok. Meu argumento é caricato. Há pouco virei fã da portabilidade que um tablet permite, da rapidez com que se pode hoje adquirir e baixar um texto ou livro. Fico assombrado com a quantidade de materiais interessantíssimos que se pode obter via internet, mas gosto de ter também à minha volta, sólidas e reconfortantes prateleiras de livros e periódicos. O ideal a meu ver, e na perspectiva ainda de muita gente, é conciliar os suportes. E digo isso consciente de que às vezes a opção pela veiculação online exclusiva pode ser uma saída para muitos periódicos bons que lutam para sobreviver ou para dar os saltos necessários à internacionalização.

5. Os dados apresentados no artigo favorecem o uso das redes sociais e confirmam a experiência de muitos periódicos do exterior. Entretanto, o artigo expressa a necessidade de reorganização da equipe e de recursos para fazer frente à dinâmica acelerada das redes sociais. Quais as mudanças concretas que o HCS-Manguinhos implantou para a operação regular do periódico para atender tanto a avaliação de manuscritos, editoração e publicação dos artigos, quanto às publicações e interações nas redes sociais?

Nosso fluxograma tornou-se mais complexo. Os trabalhos de redação, revisão e versão aumentaram, e consequentemente também os custos. O periódico e as redes sociais têm ritmos, linguagens e públicos muito diferentes. O sujeito pode ser ‘bam-bam-bam’ na feitura ou avaliação de um texto acadêmico e um desastre nos textos ágeis e concisos que um BlogFacebook ou Twitter exigem. Talvez as gerações mais novas de editores, educadas desde cedo no universo digital, tenham mais facilidade para conciliar tais habilidades. Seja como for, para um periódico, o ingresso nas redes sociais representa custo adicional em termos de força de trabalho e de recursos financeiros, mas se o trabalho for bem feito os resultados compensam largamente. Digo bem feito porque as redes sociais exigem constante atualização de conteúdos. Não vale à pena criar páginas e deixá-las inalteradas por semanas ou dias. O SciELO abriu aos periódicos da área de humanas de sua base a possibilidade de desfrutarem destas novas personas unindo forças. Esse é um caminho. Por outro lado, da mesma forma como se discute hoje a ideia de cobrar dos autores a publicação de seus trabalhos, como já acontece em muitas áreas ou países (um tabu nas humanas), talvez seja o caso de se discutir também as possibilidades que as redes sociais abrem em termos de publicidade e obtenção de recursos (outro tabu).

6. De acordo com o artigo da equipe do HCS-Manguinhos, o processo de gestação e de consumo da pesquisa na área de humanas é diferente das outras áreas. Esta afirmativa está sempre presente no grupo de editores e nas discussões da área. O que fazer para que haja isonomia entre as áreas no processo avaliativo?

Acho que a avaliação deve sempre levar em consideração as peculiaridades de cada área. Esse é o verdadeiro sentido de isonomia.

7. A internacionalização dos periódicos promovida pelo SciELO abrange três aspectos principais. A composição dos corpos editoriais com a participação crescente de editores e pareceristas estrangeiros, o uso predominante do idioma inglês e o aumento de autores com afiliação no exterior. O HCS-Manguinhos possui praticamente todos os pré-requisitos formais para a plena internacionalização – indexação internacional, capacidade de publicação em inglês, capacidade de articulação internacional, etc. Quais são as dificuldades ou barreiras para que o HCS-Manguinhos se posicione como um periódico plenamente internacionalizado.

Acho que já estamos bem encaminhados. É um processo e ele tem seu tempo. A entrada de Marcos Cueto como coeditor científico do periódico, um profissional respeitadíssimo internacionalmente, acelerou a obtenção de pareceristas e autores internacionais. À medida que vamos nos tornando conhecidos fora do país, tende naturalmente a aumentar o número de colaborações vindas de fora. A crise internacional, o crescimento do interesse pelo Brasil nos últimos anos (espero que se mantenha!), os estímulos dados por muitas instituições estrangeiras à publicação em periódicos de acesso aberto favorecem o nosso esforço de internacionalização. HCS-Manguinhos, como outros periódicos da área de humanas, publica textos mais extensos e mais elaborados estilisticamente que os de muitas outras áreas científicas, e o periódico, que já era muito cuidadoso na preparação dos textos na língua vernácula, quer manter esse padrão na língua estrangeira (elegemos o inglês)… Isso dificulta o processo, tanto em termos de custos quanto de qualidade dos profissionais. Estamos com um time muito bom de tradutores, mas não é fácil encontrar bons profissionais. As empresas ou free lancers que dão conta dos textos curtos e muito mais padronizáveis da área biomédica em geral não dão conta dos textos de HCS-Manguinhos. Estou otimista quanto à perspectiva de em breve chegarmos à plena internacionalização tanto do periódico como de suas personas nas redes sociais. Na contramão dos tempos mui modernos, é devagar que se vai ao longe ou, se preferir, a pressa é inimiga da perfeição.

Nota

¹ BENCHIMOL, J. L.; CERQUEIRA, R. C.; PAPI, C. Desafios aos editores da área de humanidades no periodismo científico e nas redes sociais: reflexões e experiências. Educação e Pesquisa. 2014, vol. 40, n. 2, pp. 347-364. Available from: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1517-97022014000200004&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt&ORIGINALLANG=pt

Referências

BENCHIMOL, J. L.; CERQUEIRA, R. C.; PAPI, C. Desafios aos editores da área de humanidades no periodismo científico e nas redes sociais: reflexões e experiências. Educação e Pesquisa. 2014, vol. 40, n. 2, pp. 347-364. Available from: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1517-97022014000200004&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt&ORIGINALLANG=pt

PACKER, A. L. A eclosão dos periódicos do Brasil e cenários para o seu porvir. Educação e Pesquisa. 2014, vol. 40, n. 2, pp. 301-323. Available from: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1517-97022014000200002&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt&ORIGINALLANG=pt

REGO, T. C. Produtivismo, pesquisa e comunicação científica: entre o veneno e o remédio. Educação e Pesquisa. 2014, vol. 40, n. 2, pp. 325-346. Available from: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1517-97022014000200003&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt&ORIGINALLANG=pt

Sobre Viviane Gonçalves de Campos

Bibliotecária e mestre em ciência da informação pelas Universidades Federais de Santa Catarina e do Paraná. Atualmente atua como consultora em projetos editoriais incluindo livros, revistas, blogs em âmbito nacional e internacional.

Como citar este post [ISO 690/2010]:
Fonte: CAMPOS, V. G. Redes sociais e periodismo científico: desafios aos editores [online]. SciELO em Perspectiva, 2014 [viewed 03 April 2018]. Available from: http://blog.scielo.org/blog/2014/09/05/redes-sociais-e-periodismo-cientifico-desafios-aos-editores/