Essa sua tese inútil de doutorado, por Ruth Manus

Mestrado. Doutorado. Pós doc. Livre docência. Quando entramos nesse barco, das duas uma: ou somos vistos como uma espécie de heróis-destrambelhados-inteligentes-porém-meio-sem-rumo-na-vida ou somos vistos como absolutos vagabundos que fingem que estudam porque não querem trabalhar. Não há muito meio termo.

Ser pesquisador é mesmo algo muito interessante. Porque que as expressões “ser” e “pesquisador” bastam quando estão juntas, mas quase ninguém entende isso. É fácil as pessoas entenderem as expressões “ser médico”; “ser advogado”; “ser motorista de uber”. Mas com pesquisadores, não basta ser, porque teoricamente é pouco. E sempre uma das duas perguntas a seguir será feita: e o que mais você faz? – ou – mas você faz doutorado/mestrado/pós doc/livre docência para quê?

É difícil explicar para as pessoas que toda pesquisa tem a sua relevância. E que praticamente tudo o que elas usam, fazem, consomem e sabem é fruto da pesquisa de algum acadêmico. A tecnologia do carro, a embalagem do iogurte, o tecido da roupa, o carregador do celular, o direito de ir e vir, o pavimento do chão, a proteção das árvores, as coisas que se sabe sobre a história, sobre a política, sobre a literatura, sobre as carecas e sobre a boa forma.

Nada brotou nos livros, nem na cabeça dos professores. Tudo foi pesquisado e concluído por uma dessas pessoas estranhas que fica dias e mais dias enfurnada numa biblioteca e que, nas festas de família frequentemente é vista como aquele sobrinho que não deu muito certo, enquanto todos aplaudem de pé os êxitos do primo que trabalha num grande banco e anda de carro grandalhão.

Todos temos nossos méritos. Engenheiros, comerciantes, motoristas de ônibus, cirurgiões dentistas, manicures, psicanalistas, executivos de multinacionais, empregadas domésticas. Mas é preciso começar a entender que quem “só” estuda, não merece esse “só” na frente de “estuda”. Estudar, fazer pesquisa, coletar dados, redigir teses é algo tão indispensável para uma sociedade quanto operar pessoas e construir estradas.

Se a pesquisa for na Sorbonne, em Harvard ou no Vale do Silício, parece mais louvável. Mas é importante lembrarem que alguém precisa estudar o Brasil. E que esses “vagabundos”, que vivem de bolsas de estudos muito magras (e cada vez mais raras com os intermináveis cortes do governo Temer no campo científico), são os poucos que ainda podem fazer alguma coisa por esse país, que caminha cada vez mais no rumo da ignorância e da truculência.

Toda pesquisa tem valor. E é preciso que as pessoas entendam que quando elas não compreendem a relevância do estudo de alguém, as desinformadas são elas, e não quem fez a pesquisa. Não é óbvio? E que frases como “nossa, e isso é importante?” ou “nossa, nem sabia que isso existia” são sutis agressões cotidianas a quem dedica um tempo tão valioso a temas relevantes dentro das suas áreas.

Uma tese sobre o voo das borboletas pode te parecer inútil. Mas provavelmente você só vê borboletas nos seus dias porque alguém as estuda e as protege. Uma pesquisa sobre a escravidão no Caribe pode te parecer pouco relevante. Mas só entendemos a sociedade latino-americana de hoje se estudarmos toda essa trajetória. Uma dissertação sobre um determinado princípio da física pode te parecer coisa de maluco, mas talvez seja ela que tenha sido a responsável pelo sistema de segurança do seu carro, que talvez ainda te salve a vida.

Estamos vivendo um momento no Brasil, no qual a educação representa a mais genuína ameaça aos poderes e aos privilégios daqueles que se instalaram no poder. O corte de gastos e de bolsas não acontece por acaso. Quanto menos acessível for o ensino superior, quanto menos viável for a vida acadêmica, mais ignorante o país permanece. E é exatamente isso que eles querem.

Valorize quem pesquisa. Pare de atrelar sucesso a dinheiro. Se interesse pelo que as pessoas estudam, ainda que seja um assunto distante para você. Ouça e tente aprender algo, em vez de dar de ombros julgando ser um trabalho pouco útil. Agradeça quem pesquisa. Talvez a vida deles fosse mais fácil num outro emprego, salário melhor, horário pra entrar e pra sair. Mas ainda há quem queira melhorar o mundo.

Fonte: Ruth Manus, O Estado de S.Paulo, 04/04/2018, 10h46

RUTH MANUS é advogada e professora universitária. Lê Drummond, ouve pagode, ama chuchu com bacon e salas de embarque. Dá risada falando de coisa séria. Não perde um XV de Piracicaba contra Penapolense por nada. Sofre de incontinência verbal, tem medo de vaca e de olheiras, que nem todo mundo.

Blogs como forma de comunicação científica na era das redes sociais, por Lilian Nassi-Calò

A despeito da presença ubíqua das mídias sociais em praticamente todas as áreas de atividade da sociedade, a prática de escrever blogs permanece viva e bastante ativa, especialmente na disseminação da ciência, segundo artigo publicado recentemente na Nature2. São inúmeros os motivos pelos quais pesquisadores e estudiosos se empenham em fazê-lo. Paige Jarreau enumera nada menos que 59 razões, divididas em nove categorias, que vão desde o prazer pessoal de escrever sobre algo que se tem interesse até tornar a ciência acessível a várias audiências, corrigir conceitos disseminados erroneamente e inspirar jovens a se interessar por carreiras científicas.

A construção de redes de colaboração e o fortalecimento de comunidades científicas é um dos motivos, aponta Stephen Heard, ecologista evolucional na University of New Brunswick , no Canadá: “Escrever blogs não é para qualquer um, porém é importante que as pessoas percebam que é uma forma dos cientistas falar com seus pares”. Pesquisadores do Karlsruhe Institute of Technology, na Alemanha, realizaram uma pesquisa com 865 pesquisadores das áreas de ciências exatas e da saúde nascidos após 1981. Quinze por cento deles iniciaram um blog, mas poucos escreviam com frequência, alegando falta de tempo e que a prática não era muito popular em seu país. No entanto, percebem que os blogs são apenas um formato digital para a comunicação da ciência e os pesquisadores que não utilizam nenhuma plataforma estão perdendo imensas oportunidades. Esta pesquisa revelou ainda que 70% dos pesquisadores acreditam que manter um blog – ou algum tipo de comunicação científica fora dos periódicos – ajuda a impulsionar a carreira e 90% afirmou que poderia atrair mentes brilhantes para a ciência. Allison McDonald, biologista celular na Wilfrid Laurier University, em Waterloo, Canadá, afirma que seu blog lhe permitiu consolidar uma rede de contatos e serve como fonte de ideias para novos projetos de pesquisa.

Indo ao encontro destes resultados, um recente estudo de pesquisadores brasileiros sobre a relação entre pesquisadores e jornalistas no país evidenciou vários aspectos positivos que decorrem da disseminação pública de resultados de pesquisa científica, como a obtenção de recursos para pesquisa de fontes públicas, melhorar a percepção e o impacto dos pesquisadores perante o público, atrair jovens colaboradores e estudantes e inclusive prestar contas à sociedade dos recursos investidos na pesquisa. Até mesmo uma relação direta foi encontrada entre a veiculação pública de um artigo e o número de citações recebidas.

Os interessados em iniciar um blog, entretanto, não devem esperar altos índices de acesso imediatamente. Heard, no entanto, afirma que o esforço será eventualmente recompensado. Em 2017 ele e outros colegas autores de blogs publicaram um estudo avaliando o impacto de seus blogs destinados à comunidade científica e sites dirigidos a pesquisadores sobre o empreendimento da ciência3. O blog mais popular da amostra considerada pelos autores (n=7) atingiu a mediana de 40.000 visualizações/mês, o segundo atingiu 20.000 e o terceiro, 10.000 visualizações /mês. Os autores salientam, no entanto, que alguns dos mais relevantes impactos dos blogs são impossíveis de quantificar, como reações individuais a determinados posts que motivaram mensagens aos seus autores. Terry McGlynn, um ecologista da California State University em Carson relata que disseminou uma vaga em seu departamento através de seu blog e o elevado número de candidatos que se apresentaram fez elevar seu prestígio na instituição. Como consequência, McGlynn decidiu abrir uma oportunidade a outros em seu blog Rapid Ecology, aceitando contribuições em forma de posts para seu blog de qualquer pesquisador ou estudante de pós-graduação que cumprisse com os seguintes três critérios: ser relevante, ser substancial e ser correto. Assim, até o momento da submissão do artigo, o autor havia recebido contribuições de 30 cientistas que se dispuseram a enviar posts ocasionais.

A rápida disseminação das redes sociais – também na comunicação científica – “diluiu” o impacto dos blogs, segundo Jeremy Caplan, diretor de educação de jornalismo empreendedor na City University of New York Graduate School of Journalism. Contando com Twitter e Facebook para manter-se a par, “as pessoas não querem acompanhar 10, 20 ou 30 diferentes blogs de ciência”. A solução, segundo Caplan, seria postar em um blog e disseminar os posts através das redes sociais, direcionando os leitores para o conteúdo mais detalhado.

McGlynn salienta, entretanto, de que a atividade de criar e manter um blog de ciências não é lucrativa. Se utilizar publicidade como fonte de receita, poderá haver ganhos, da ordem de US$ 10-20 mil por ano, na melhor das hipóteses. Ademais, colegas acadêmicos podem considerar que escrever em um blog ou nas redes sociais constitui uma distração e de certa forma, macular a reputação científica. Alguns autores utilizaram em 2010 pseudônimos ou apenas iniciais para assinar seus posts para desvincular sua identidade acadêmica. Isso pode parecer exacerbado nos dias atuais, porém vale recordar os riscos inerentes à exposição na Internet, podendo predispor os autores de blogs a algum tipo de abuso.

Uma indicação clara de que os blogs de ciência têm relevância e qualidade é o fato de que periódicos renomados mantém coleções de blogs em vários temas. A Nature aparentemente lidera em números, dispondo de uma rede de blogs em várias disciplinas e centenas de categorias. Além da Nature, a Science, a série PLoS, e o BioMed Central mantêm coleções de blogs em vários temas, apenas para citar alguns exemplos. O SciELO lançou em 2013, por ocasião da celebração de seu 15° aniversário, o blog SciELO em Perspectiva, que conta com um blog sobre Comunicação Científica e outro em Ciências Humanas, publicados em português, inglês e espanhol. A Tabela 1 apresenta dados sobre os posts publicados e acessos, que somando os três idiomas, atingem mais de um milhão de page views nos últimos 5 anos.

Ano Posts publicados Número de Acessos
Português Inglês Espanhol Total
GERAL
2018** 5 5 5 15 18.265
2017 38 38 38 114 251.630
2016 40 35 37 112 199.137
2015 57 56 54 167 203.227
2014 62 56 56 174 146.965
Sub-total: 202 190 190 582 819.224
HUMANAS
2018** 10 2 0 11 7.133
2017 139 22 5 146 148.226
2016 146 12 5 165 77.168
2015 124 10 0 132 63.504
2014 74 3 0 76 27.551
Sub-total: 493 49 10 530 323.582
Total geral: 242 239 200 1112 1.142.806
** Até jan/2018.

Tabela 1. Estatísticas do blog SciELO em Perspectiva

A iniciativa ScienceBlogs, criada em 2006 e que contava com mais de 120 blogs ativos em 2013, encerrou suas atividades em outubro de 2017. O ScienceBlogs Brasil, entretanto, continua ativo, com mais de 40 blogs de ciência em várias áreas do conhecimento.

Aqui estão algumas orientações básicas de Stephen Heard para os que se aventurarem nesta tarefa:

  • Escolha uma plataforma web adequada para publicar o blog. Heard utiliza WordPress, porém há outras opções fáceis de manejar.
  • Interaja primeiro com outros blogs antes de lançar seu próprio. Comece comentando sobre outros posts e escreva como autor convidado em blogs já estabelecidos.
  • Aumente a audiência de seus posts: experimente títulos atraentes, use palavras-chave fortes e experimente compartilhar os posts via Twitter e Facebook.
  • Não perca o interesse se as visualizações de sua página forem baixas no início e não espere muitos comentários. Estes, em vez, acontecem mais nas redes sociais do que no próprio blog.
  • Formar uma audiência pode demorar, mas virá com o tempo.

Segundo Allison McDonald, há inúmeras vantagens em manter um blog, pois através dele é possível tomar posição e defender ideias como o ensino de ciências, a participação de mulheres na academia e outros temas que não seriam frequentemente debatidos em artigos de periódicos, e encoraja outros pesquisadores a escrever para blogs existentes ou criar seus próprios canais de comunicação.

Leia o post completo aqui.

Notas

1. BONETTA, L. Scientists Enter the Blogosphere. Cell [online]. 2007, vol. 129, no. 3, pp. 443-445 [viewed 07 March 2018]. DOI: 10.1016/j.cell.2007.04.032. Available from: http://www.cell.com/cell/fulltext/S0092-8674(07)00543-0

2. BROWN, E. and WOOLSTON, C. Why science blogging still matters. Nature [online]. 2018, vol. 554, pp. 135-137 [viewed 07 March 2018]. DOI: 10.1038/d41586-018-01414-6. Available from: https://www.nature.com/articles/d41586-018-01414-6

3. SAUNDERS, M.E., et al. Bringing ecology blogging into the scientific fold: measuring reach and impact of science community blogsR. Soc. Open Sci. [online]. 2017, vol. 4, 170957 [viewed 07 March 2018]. DOI: 10.1098/rsos.170957. Available from: http://rsos.royalsocietypublishing.org/content/4/10/170957

Referências

BONETTA, L. Scientists Enter the Blogosphere. Cell [online]. 2007, vol. 129, no. 3, pp. 443-445 [viewed 07 March 2018]. DOI: 10.1016/j.cell.2007.04.032. Available from: http://www.cell.com/cell/fulltext/S0092-8674(07)00543-0

BROWN, E. and WOOLSTON, C. Why science blogging still matters. Nature [online]. 2018, vol. 554, pp. 135-137 [viewed 07 March 2018]. DOI: 10.1038/d41586-018-01414-6. Available from: https://www.nature.com/articles/d41586-018-01414-6

EVANS, K. 8 Best Blogging Platforms Reviewed (Updated) [online]. Start Blogging Online, 2018 [viewed 07 March 2018]. Available from: https://startbloggingonline.com/blog-platform-comparison-chart/

JARREAU, P. The World of Science Blogging [online]. Macroscope, 2016 [viewed 07 March 2018]. Available from: https://www.americanscientist.org/blog/macroscope/the-world-of-science-blogging

JARREAU, P.B. #MySciBlog Interviewee Motivations to Blog about Science [online]. Figshare. 2015 [viewed 07 March 2018]. DOI: 10.6084/m9.figshare.1345026.v2. Available from: https://figshare.com/articles/_MySciBlog_Interviewee_Motivations_to_Blog_about_Science/1345026/2

MASSARANI, L. and PETERS, H.P. Scientists in the public sphere: Interactions of scientists and journalists in Brazil. An. Acad. Bras. Ciênc. [online]. 2016, vol. 88, no. 2, pp. 1165-1175, ISSN: 1678-2690 [viewed 07 March 2018]. DOI: 10.1590/0001-3765201620150558. Available from: http://ref.scielo.org/jyfz9j

SAUNDERS, M.E., et al. Bringing ecology blogging into the scientific fold: measuring reach and impact of science community blogs. R. Soc. Open Sci. [online]. 2017, vol. 4, 170957 [viewed 07 March 2018]. DOI: 10.1098/rsos.170957. Available from: http://rsos.royalsocietypublishing.org/content/4/10/170957

Links externos

BioMed Central blog <http://blogs.biomedcentral.com/bmcblog/>

Blog SciELO <http://blog.scielo.org/>

Nature blogs <http://blogs.nature.com/>

PLoS blog <http://blogs.plos.org/>

ScieceBlogs Brasil <http://scienceblogs.com.br/>

Science blog <http://blogs.sciencemag.org/pipeline/>

ScienceBlogs <http://scienceblogs.com/>

Sobre Lilian Nassi-Calò

Lilian Nassi-Calò é química pelo Instituto de Química da USP e doutora em Bioquímica pela mesma instituição, a seguir foi bolsista da Fundação Alexander von Humboldt em Wuerzburg, Alemanha. Após concluir seus estudos, foi docente e pesquisadora no IQ-USP. Trabalhou na iniciativa privada como química industrial e atualmente é Coordenadora de Comunicação Científica na BIREME/OPAS/OMS e colaboradora do SciELO.

 

Fonte: NASSI-CALÒ, L. Blogs como forma de comunicação científica na era das redes sociais [online]. SciELO em Perspectiva, 2018 [viewed 03 April 2018]. Available from: http://blog.scielo.org/blog/2018/03/07/blogs-como-forma-de-comunicacao-cientifica-na-era-das-redes-sociais/

Você sabe o que é o Mendeley?

Mendeley é um serviço de gestão e compartilhamento de informação científica muito utilizada por pesquisadores mundialmente. Nesta entrevista com William Gunn são tratadas algumas questões importantes a respeito da operação do Mendeley, das áreas temáticas e seus usuários. A Elsevier fechou contrato com a Mendeley, mas o que isso pode significar para a comunicação científica, segundo a visão de nosso entrevistado? William Gunn é Chefe da Academic Outreach para Mendeley, especializou-se em altmetrics, reprodutibilidade e acesso aberto. Seu doutorado, em 2008, foi realizado em Ciências Biomédicas pelo Center for Gene TherapyTulane University.

1. Quais áreas são mais cobertas pelos usuários do gerenciador de bibliografias Mendeley?

As ciências são nosso principal demográfico, com maior representação de ciências biológicas e representação significativa de medicina, ciência da computação, ciências sociais, química, física, medicina e engenharia. Estamos também ganhando representação em direito e nas humanidades.

2. Os usuários do Mendeley originários de países periféricos ao Mainstream Science registram mais literatura internacional em detrimento da literatura de seus próprios países?

Certamente é verdade que a maioria dos pesquisadores tem uma perspectiva internacional. O que vemos é que a atenção tende a ser alocada ao país do pesquisador de acordo com a percentagem da produção do seu país, com algumas exceções notáveis​​, como Suíça e Suécia, que têm uma alta produção acadêmica per capita. Curiosamente, os pesquisadores argentinos tendem a ter maiores bibliotecas Mendeley, com o Brasil na posição de número 11, à frente dos EUA.

3. Os registros de bibliografias na ferramenta Mendeley podem evidenciar o uso da literatura publicada, mas são preditivos? Há uma correlação entre os registros e as citações futuras?

É muito cedo para ser capaz de prever qualquer coisa, mas vários estudos publicados têm demonstrado que existe uma correlação fraca entre os leitores Mendeley e citações:

  • JASIST@mendeley1
  • Applying social bookmarking data to evaluate journal usage2

Esses estudos também têm demonstrado que Mendeley também capta o impacto da pesquisa que ainda não é refletido em citações. Em outras palavras, muitos artigos da coleção Mendeley de um pesquisador foram lidos, mas o artigo no qual eles serão citados ainda não foi escrito! Além disso, também vemos que Mendeley pode detectar a influência que um trabalho tem sobre os leitores que não publicam – pesquisadores da indústria, médicos, pacientes e o público em geral. Eu estou realmente animado ao ouvir que Open Journal System está agora usando aplicativo de rastreamento de métricas em nível de artigo da PLOS, que incorpora informações de leitores da Mendeley. Acho que isso vai render muitos dados interessantes sobre o uso de artigo em todo o mundo.

4. Depois da aquisição do Mendeley pela Elsevier em 20133, houve uma debandada de usuários da ferramenta?

Tivemos um pequeno grupo de pessoas que pararam, mas a publicidade trouxe muitos novos usuários também. O produto tem melhorado de forma constante ao longo do ano, e o ritmo de desenvolvimento pegou, por exemplo, com o lançamento de nosso novo aplicativo iOS, e vamos continuar trabalhando para surpreender e encantar os pesquisadores que depositaram sua confiança em nós.

5. A Elsevier pretende manter a API (interface externa) do Mendeley aberta?

Absolutamente. Eles veem isso como uma parte fundamental de como Mendeley pode crescer para atender às necessidades de mais pesquisadores. Nunca houve uma boa plataforma para o desenvolvimento de terceiros em torno de dados acadêmicos, e agora estamos perfeitamente posicionados para ser essa plataforma.

Nota

JASIST@mendeley
Applying social bookmarking data to evaluate journal usage
A aquisição ocorreu em abril de 2013, de acordo com: http://techcrunch.com/2013/04/08/confirmed-elsevier-has-bought-mendeley-for-69m-100m-to-expand-open-social-education-data-efforts/

Sobre autor: http://www.scielo15.org/william-gunn/

Fonte: SCIENTIFIC ELECTRONIC LIBRARY ONLINE. Entrevista com William Gunn [online]. SciELO em Perspectiva, 2013 [viewed 03 April 2018]. Available from: http://blog.scielo.org/blog/2013/11/07/entrevista-com-william-gunn/

Inteligência Competitiva Tecnológica: Crise na ciência não se deve apenas à falta de recursos, avaliam cientistas

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Participantes de debate defendem uma política de Estado que compreenda a importância de investir em ciência para melhorar a competitividade e promover o desenvolvimento do país (foto: Elton Alisson / Agência FAPESP)

A crise de financiamento pela qual a ciência brasileira atravessa atualmente não se deve apenas à falta de recursos, mas de visão estratégica e de uma política de Estado que compreenda a necessidade de aumentar os investimentos no setor para assegurar a competitividade e promover o desenvolvimento econômico e social do país.

A avaliação foi feita por participantes do encontro “É o fim? Um debate sobre os rumos da ciência no Brasil e inspirações de Berlim”, realizado no dia 1º de fevereiro no espaço de eventos da Fnac Paulista.

O evento, que fez parte das atividades do Berlin Science Communication Award, promovido pela Humboldt-Universität zu Berlin e financiado pela Sociedade Alemã de Amparo à Pesquisa (DFG), com apoio do Ministério de Educação e Pesquisa da Alemanha (BMBF), reuniu pesquisadores e jornalistas científicos para debater sobre o cenário atual e as perspectivas da ciência no Brasil.

“Os investimentos federais em ciência no Brasil nos últimos anos vêm despencando em queda livre, independentemente do governo”, disse Helena Nader, professora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e presidente de honra da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).

De acordo com dados apresentados por Nader, 31,6% das despesas financeiras e primárias do Brasil em 2015, por exemplo, foram com amortização de dívida e 8,7% com o pagamento de juros, e somente 5,8% relacionadas a despesas discricionárias, que são aquelas que o Estado pode ou não executar, de acordo com a previsão de receitas.

Nessa categoria de despesas estão incluídos os setores de educação, saúde, defesa e ciência e tecnologia. Esse último recebeu apenas 5,6% do total de recursos destinados para o pagamento de despesas discricionárias em 2015. “[O baixo investimento em ciência e tecnologia] representa uma opção do Estado brasileiro”, avaliou Nader.

A opinião foi compartilhada por Paulo Artaxo, professor do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (IAG-USP).

O orçamento geral da União em 2018 deverá ser 1,7% maior do que o de 2017. O orçamento para custeio e investimento do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTI), contudo, deverá sofrer um corte de 56%, também em relação a 2017, comparou Artaxo.

“Há quem diga que o problema da ciência brasileira é a falta de recursos, como se fosse uma questão de contabilidade. Mas não é. O que aconteceu é que mudaram as prioridades”, afirmou. A crise pela qual a ciência brasileira passa também não é exclusiva do setor e faz parte da crise do Estado como um todo, ponderou o pesquisador.

“A crise não é só da ciência brasileira, mas do Estado. Portanto, a ciência brasileira não vai sair dessa crise enquanto o país também não sair da crise institucional na qual está imerso”, disse Artaxo.

Falta de engajamento público

Na avaliação de Herton Escobar, jornalista de ciência do jornal O Estado de S. Paulo e colaborador da revista Science, os cientistas brasileiros devem valorizar a divulgação científica e se comunicar mais diretamente com a sociedade, por meio de plataformas de mídia social, e não delegar toda essa responsabilidade para a mídia tradicional.

Segundo ele, essa ação é importante para obter maior engajamento público na defesa da ciência e evitar a falta de apoio popular para a ciência. “Quando havia dinheiro disponível para fazer ciência no Brasil, não fazia diferença se a sociedade dava valor para essa atividade. A partir do momento que temos uma situação crítica, como a que estamos vivendo hoje, os cientistas viram que era preciso o apoio da sociedade, ir à Brasília, pedir mais recursos e mostrar que a ciência é importante, mas a sociedade não respondeu”, disse Escobar.

A dificuldade de se fazer divulgação científica de qualidade e engajar a sociedade brasileira na defesa da ciência foram ponderadas pelos participantes do debate.

“55% da população brasileira não completou o ensino médio. Essa população não vai procurar na internet ou ler jornal para se informar sobre ciência. Ela se informa pela televisão”, disse Nader. “Antes de pensarmos em internacionalização das universidades, é preciso trazer o brasileiro para dentro da escola e promover a cidadania.”

Fonte: Elton Alisson  |  Agência FAPESP 

4 dicas da neurociência para aprender uma língua mais rápido

2. Invente acrônimos, acrósticos e encadeamentos

São Paulo – Você gosta de dizer que seu inglês é avançado, mas lá no fundo sabe que o seu nível não passa do intermediário?

Saiba que você não está sozinho. A desaceleração do aprendizado de uma línguaestrangeira, até o ponto em que o estudante estaciona num patamar mediano, tem até nome: “platô intermediário”.

Conhecido de muitos alunos e professores de idiomas, o fenômeno é extremamente comum no Brasil. E a razão pela qual tantas pessoas chegam a esse ponto de estagnação tem a ver com questões emocionais, diz aneurocientista Carla Tieppo, professora da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo.

“Em geral, somos muito sensíveis a críticas à nossa forma de falar uma língua estrangeira”, explica ela. “Se, no início do processo de aprendizado, a pessoa se deparou com um professor que fez uma certa expressão facial quando ela pronunciou algo errado, ou fez uma correção sem muito tato, isso pode deixar marcas na relação dela com o idioma”.

Embora profundamente ligado às emoções, o processo também depende fortemente dos seus recursos cognitivos – o que não significa que conquistar a fluência dependa apenas do grau de inteligência verbal de cada um.

Por que algumas pessoas têm mais facilidade com idiomas?

Segundo a professora Carla, a velocidade com que cada indivíduo adquire domínio sobre uma língua está atrelada a múltiplos fatores.

Um deles é a disposição psicológica para o aprendizado. Você pode, por exemplo, deixar que esse processo seja contaminado pela vergonha e pelo medo da exposição. Uma outra postura, mais produtiva, seria estar aberto à tentativa e ao erro, sem impor a si próprio a obrigação de dominar tudo de cara.

Quem tem mais facilidade para línguas costuma ter muita curiosidade e enxergar o aprendizado como um desafio, e não como como um teste.

Também é preciso mencionar o papel das habilidades cognitivas de cada pessoa. A professora Carla destaca a chamada “memória de trabalho”, uma espécie de memória RAM do cérebro.

Como a comparação sugere, trata-se do componente cognitivo que permite processar vários níveis de informação ao mesmo tempo – no caso, dominar simultaneamente pronúncia, significado e regras gramaticais enquanto você se expressa. Quem tem habilidade com esse tipo de “malabarismo” de dados normalmente se sai melhor com idiomas.

Dito isso, as variáveis envolvidas nesse processo ainda não são totalmente conhecidas e continuam intrigando os cientistas.

Basta estudar as regras?

O húngaro Balázs Csigi, fluente em 7 línguas, defende que o processo de aprendizagem pode ser facilitado se o estudante fizer uma imersão na cultura do país que fala o idioma estudado.

“Memorizar palavras não é uma opção se você quer alcançar a excelência”, escreve o poliglota em artigo para o site Business Insider. “Em vez de aprender pela repetição, você precisa ir além da superfície e desvelar a cultura escondida atrás de cada palavra e expressão”.

Para justificar sua tese, o húngaro analisa o sentido da palavra inglesa “reasonable”, muito usada em expressões como “reasonable guy”, “reasonable time” ou “reasonable request”. Em português, o termo equivalente seria “razoável” ou “sensato”, mas é bem menos empregado do que em inglês.

A razão é cultural. Segundo Csigi, o uso frequente de “reasonable”, adjetivo que se origina de “reason”, tem a ver com a admiração da sociedade anglo-saxônica por conceitos como razão, ciência, lógica e senso comum.

Para assimilar essa ou qualquer outra palavra, diz ele, é preciso entender seu significado mais profundo para os povos que a empregam. Daí a importância de se estudar a cultura paralelamente às regras gramaticais e lexicais, e assim dar um salto no seu aprendizado.

Como dominar uma língua mais rápido?

Com base em conceitos e estudos da neurociência, é possível chegar a alguns conselhos práticos para acelerar o processo de aquisição de uma língua.

Veja a seguir 4 deles:

1. Insira seu aprendizado em um contexto
Imagine que você deva dizer em francês a frase “Preciso de um telefone com urgência” em duas situações diferentes: na sala de aula, durante um exercício oral, ou no meio de uma rua escura em Paris, após ter perdido os seus documentos. Em qual momento você exigirá mais do seu cérebro?

A resposta é óbvia. “Quanto maior for a necessidade de compreender uma língua ou se expressar nela, mais veloz será o aprendizado”, diz Carla. É por isso que tantas pessoas se desenvolvem rapidamente num idioma quando moram no exterior. A vida real é muito mais exigente do que as simulações: ou você aprende, ou não sobrevive.

Mas você não precisa necessariamente morar em outro país para ganhar fluência. Basta buscar contexto e necessidade para o aprendizado. Os videogames com áudio em inglês, por exemplo, são um ótimo recurso para esse fim. “Você precisa compreender o que está sendo dito para passar para a próxima fase e continuar jogando”, afirma a professora da Santa Casa. “Isso traz um estímulo muito mais poderoso do que um exercício isolado na lousa”.

2. Assista a um mesmo filme estrangeiro 3 vezes
Outro método simples para impulsionar o seu aprendizado é ver três vezes um filme falado na língua que você está estudando. Na primeira, habilite as legendas em português. Na semana seguinte, veja tudo com legendas no idioma estrangeiro. Na terceira e última vez, dê o play no vídeo sem legendas.

Segundo Carla, essa é uma forma interessante de melhorar o seu processamento auditivo. Na terceira vez que assistir ao filme, sem legendas, você já conhecerá a história e talvez se lembre de vários diálogos.

Assim, você fará associações entre forma, som e significado, além de treinar o reconhecimento de várias palavras no outro idioma.

3. Ouça (muita) música
Este conselho vale especialmente para quem já teve contato com a língua estudada por meio de canções.

Você adora um determinado artista que canta em francês, espanhol ou inglês, por exemplo? Ao ouvi-lo – especialmente se tiver a letra da música em mãos – é provável que você tente compreender o que ele canta.

Está aí a grande contribuição da música estrangeira para o estudo de línguas, diz Carla. “A perspectiva de finalmente entender uma letra que você nunca entendeu traz muita motivação, que é uma condição básica para o aprendizado”, explica a especialista.

4. Use expressões na outra língua tanto quanto puder
Outra dica da neurocientista é empregar o idioma estrangeiro com a maior frequência possível na sua rotina – mesmo que seja entre frases em português.

De acordo com Carla, quanto mais você usar a língua em situações do dia a dia, mais rápido irá incorporá-la ao seu repertório – até o ponto em que as palavras sairão automaticamente da sua boca diante de cada acontecimento.

“Se você acha pedante dizer palavras estrangeiras no meio de uma conversa com outro brasileiro, pelo menos faça o exercício mentalmente”, diz a professora. “Ainda assim, falar em voz alta é mais aconselhável, porque permite ouvir a sua própria pronúncia e corrigi-la gradativamente”.

Fonte: Claudia Gasparini, Exame.com Foto: Thinkstock/IGraDesign