Aceleração digital faz crescer busca por cientistas de dados

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Pesquisa inédita da consultoria de recrutamento de executivos ZRG Brasil com 63 empresas, obtida com exclusividade pelo Valor, indica que faltam cientistas de dados no mercado. Pressionadas pelo avanço da transformação digital nos negócios, as companhias não conseguem preencher as vagas disponíveis. Foram ouvidas grandes redes de varejo, bancos, operadoras de telecom e consultorias de gestão, entre janeiro e março.

Quarenta e um por cento dos especialistas não estão abertos para novos projetos, pois fizeram um movimento profissional recente, há menos de um ano, ou receberam bônus de retenção do empregador, explica Bruno Lino, sócio e diretor responsável pelas verticais de consumo e varejo da ZRG. A tendência é de escalada na demanda, avisa.

Somente no Itaú Unibanco, o número de cientistas de da dos passou de um, em 2017, para mais de 250, em 2021. Apenas no primeiro trimestre do ano foram admitidos 18 currículos e há 24 seleções em andamento, segundo a diretora de recursos humanos Valéria Marretto. “Como a ciência de dados é um campo recente, o volume de profissionais formados é relativamente baixo e deixa a busca por especialistas mais aquecida”, diz.

O cientista ou profissional de estratégia de dados ganhou notoriedade nos últimos anos com a disseminação de novas tecnologias de armazenamento e de gestão de grande volume de informações (big data). No dia a dia, precisa combinar conhecimentos matemáticos e de análise para entregar modelos de predição de comportamento de consumo, estratégias de relacionamento com clientes ou de desenvolvimento de vendas. Além disso, segundo a ZRG, para ocupar uma cadeira de liderança nesse nicho, é necessário um amplo entendimento do negócio da empresa, experiência na gestão de pessoas e de projetos.

Lino destaca que, como a ciência de dados é um ramo novo no mercado de trabalho, a maioria das empresas não possui um departamento de estratégia de dados estruturado e há poucos profissionais experientes que construíram carreira no setor – o que deixa a disputa por talentos mais acirrada. “Executivos mais seniores tiveram de migrar de outras áreas”, diz.

É o caso de Vitor Matsuda Azeka, superintendente de ciência de dados do Itaú Unibanco, 40 anos, há 17 no grupo. “Antes de exercer o papel de cientista de dados, trabalhava com políticas de crédito para o segmento de varejo do banco”, diz o executivo, que entrou na instituição como trainee e está no novo departamento desde 2017.

Azeka iniciou sua trajetória no segmento de cobrança e lembra que desenhar modelos inteligentes para dinamizar processos já era parte do seu perfil de trabalho. “Com o tempo, apliquei a inteligência de dados para tornar as políticas de crédito mais precisas e, conforme aprendia técnicas mais avançadas de modelagem, passei a utilizá-las para solucionar as ‘dores’ dos clientes”, detalha.

Graduado em engenharia de produção e com mestrado em economia, o executivo diz que a profissão exige especialização contínua. Ele pesquisa o tema por conta própria, por meio de plataformas on-line, e o banco oferece oito horas semanais de estudos para a equipe. “Temos uma agenda de monitoria e consultoria, em que separamos parte do expediente para tirar dúvidas e partilhar aprendizados”, explica.

O executivo se reporta ao diretor de tecnologia e CDO (Chief Data Officer), e é responsável pela gestão e formação de mais de 60 times, que atuam junto às áreas de negócios, desenvolvem soluções e capacitam novos técnicos. Recentemente, trabalhou com um algoritmo capaz de analisar imagens de câmeras em agências, para detectar a quantidade de pessoas no local. “Dentro do contexto da pandemia, a aplicação nos ajuda a identificar princípios de aglomeração e encontrar maneiras de superar o problema”, diz.

O home office de Pedro Holanda, 30 anos, head de data science da empresa de inteligência artificial Rocketmat, com clientes como Ambev e Hospital Albert Einstein, também está movimentado. O especialista finaliza um novo projeto, desenvolvido em três semanas, para dinamizar a contratação de profissionais de saúde com a ajuda da análise de dados. “O maior desafio foi encontrar um paralelo entre os contratados antes da pandemia e durante esse período”, diz.

Doutorando em ciências da computação, Holanda foi contratado pela Rocketmat em 2019, por indicação. Antes, atuava como arquiteto de soluções em uma startup do setor automotivo, propondo soluções como o rastreamento inteligente de veículos. “Sempre tive contato com pesquisas em machine learning [aprendizado de máquina], o que me motivou a buscar o cargo de cientista de dados.”

O especialista confirma a disputa ombro a ombro por currículos no setor. Somente no ano passado, recebeu mais de dez propostas para mudar de emprego. “As empresas descobriram os benefícios da ciência de dados”, explica. “Os registros gerados nas operações oferecem informações que a companhia não é capaz de notar sozinha. Com análise e modelos de aprendizado de máquina, é possível gerar novos cenários de negócios que dificilmente seriam percebidos sem essas técnicas.”

Paulo Repa, 56, cientista de dados da multinacional brasileira de tecnologia Stefanini há quase três anos, diz que a quantidade de convites de trabalho subiu de três para cinco por semana em 2021, vindos do Brasil e de contratantes internacionais. “Há demanda em áreas ligadas a marketing digital, estudos de perfil de consumidores e em assistentes digitais”, afirma o engenheiro de software que também ministra cursos sobre o tema em escolas técnicas estaduais de São Paulo (ETECs).

Entre os projetos mais recentes que Repa participou estão uma solução interna de predição do turnover de funcionários, baseada em indicadores como o risco de saída voluntária e os atritos no trabalho; e um sistema de inteligência artificial feito sob encomenda que mapeia redes sociais para atuar de forma preventiva no combate às organizações criminosas.

No C6 Bank desde dezembro de 2019, o matemático Bruno Pauka Gouveia, 35, gerente de data science, liderava um time de ciência de dados em um grande grupo brasileiro antes de aceitar o chamado do banco digital, fundado em agosto daquele ano. Com mestrado em estatística, ele trabalha agora no desenho de soluções para as áreas de crédito, cobrança e prevenção à fraude. Em 2020, foi abordado mais de 40 vezes por outras companhias.

Para aceitar e continuar na posição que ocupa, ele diz que pesam fatores como a oportunidade de trabalhar com uma infraestrutura tecnológica de ponta; o desafio inerente à função e o “fit” cultural do grupo, de viés inovador. A atividade, explica, exige um diálogo permanente com os “heads” de todos os setores da empresa. “Eles são os ‘donos’ dos problemas que vamos solucionar e ainda ajudam a validar as nossas descobertas.”

Fonte: Jacilio Saraiva — Para o Valor, de São Paulo, 29/04/2021.

Como a ciência de dados vai mudar o ensino de Administração, de Contabilidade e de Direito

VanDyck Silveira, CEO da Trevisan Escola de Negócios Foto: Divulgação

Novas propostas para o ensino, segundo a Trevisan:

  • Carreiras hoje são inseparáveis de ciência de dados, machine learning, internet das coisas e inteligência artificial
  • Não basta ter conhecimento teórico, é preciso saber resolver problemas com o uso da ciência de dados
  • Administradores, contadores, advogados e médicos devem estar preparados para promover as mudanças disruptivas na profissão
  • Os profissionais terão de montar algoritmos diferenciados e saber tirar insights originais dos dados
  • Em ciência de dados, é preciso ter, além do conhecimento técnico, uma visão humanista para levantar as perguntas certas
  • Os profissionais vão ter de repensar suas carreiras várias vezes ao longo da vida
  • O mundo profissional está em processo de transformação radical constante e não vai voltar atrás

Os 5 mil alunos de Administração e de Contabilidade da Trevisan Escola de Negócios iniciaram o ano letivo de 2020 com uma novidade de peso no currículo. A partir de agora, ciência de dados deixa de ser um tema extra e passa a fazer parte do dia a dia da sala de aula. Das 4 mil horas da grade total dos cursos, entre 600 e 700 horas serão dedicadas a temas como big data, inteligência artificial e internet das coisas. E os alunos não terão apenas aulas teóricas. Farão projetos práticos de aplicação das novas técnicas em Administração e de Contabilidade. A escola também acaba de criar um MBA exclusivamente dedicado à ciência de dados.

Criada a partir da tradicional consultoria, a escola de negócios andou a passos lentos nos últimos anos e decidiu se reinventar com a chegada de novos executivos. Há cerca de um ano, VanDyck Silveira, que trabalhou com Paulo Guedes e Claudio Haddad no Ibmec, virou sócio e assumiu o posto de CEO da Trevisan Escola de Negócios. Seu objetivo é levar o grupo a um rápido crescimento, ao incorporar a ciência de dados na formação básica dos profissionais ­- além de abrir novos cursos, como Direito, Ciência da Computação e Engenharia da Produção. Ele aposta que o processo de transformação digital vai se aprofundar. “Em pouco tempo, não haverá mais cientista de dados. Haverá um cientista de dados dentro de um contador, de um médico, de um engenheiro ou de um advogado”, disse Silveira, na seguinte conversa com o blog:

Por que a Trevisan está mudando seus cursos?
A Trevisan teve muita evidência no começo dos anos 2000 com a criação da faculdade. A gente já foi maior do que hoje, andou uns anos um pouco desaparecido, voltado para o mercado B2B (entre empresas). No começo de 2018, a escola começou um processo de mudança com a entrada de novos executivos. Notamos que no Brasil a gente tinha escolas de negócios muito boas, mas vocacionadas para a economia industrial. Eram as mesmas disciplinas dos anos 1970. Por outro lado, temos escolas de engenharia, com viés de dados, o Impa, o Ita, o Ime, a Poli, mas elas têm muito pouco conhecimento do mundo de negócios. No Brasil a interdisciplinaridade é muita rara. Trabalhamos em silos acadêmicos que não se misturam. O Insper, uma escola de negócios de vanguarda, ainda tem foco muito industrial. Decidimos reposicionar e recriar a marca Trevisan com uma mudança na lógica. Queremos nos colocar na confluência do mundo dos negócios, da tecnologia e da transformação digital. Hoje é inseparável a carreira em Administração ou Contabilidade com a ciência de dados, com o machine learning, com a internet das coisas e com a inteligência artificial.

Qual o papel da ciência de dados?

A ciência dos dados é o motor de popa de todas essas tecnologias. Se você não tiver não somente fluência, mas também o conhecimento da aplicação para solução de problemas de negócios no cotidiano, você é apenas um bom técnico, mas não fala a língua do mundo. E o Brasil está muito atrás dos EUA, da China e da Europa nesta transformação digital. A gente tem uma produção muito baixa de engenheiros e de administradores, de economistas que são profundamente conhecedores das tecnologias de ciências de dados. Nossa proposta é criar esse profissional na confluência desses fatores. Temos um dos cursos mais notórios de Contabilidade, uma disciplina que, muitos dizem, pode morrer pela automatização e pela inteligência artificial. Por que não recriar os cursos de Contabilidade e de Administração para que tenham uma forte carga de ciência de dados? Queremos que o aluno saia fluente neste tipo de conhecimento para que seja capaz de produzir tecnologia, de provocar a disrupção da própria profissão.

Por que criar um MBA em ciência de dados?

Inoculamos essa tese no programa de graduação, mas ainda não estávamos satisfeitos. Criamos então um MBA totalmente focado em ciência de dados. Está na moda falar em big data. Big data está contido no conjunto mãe da ciência de dados, a gênese de toda a transformação digital. Se você ensinar uma pessoa a fazer uma especialização apenas em big data, seria mais ou menos um economista que só sabe de microeconomia, mas não sabe de economia abrangente. Queremos ir à essência do negócio. Hoje existe uma enorme demanda por cientista de dados, mas tudo indica que é temporário. Em pouco tempo não haverá mais cientista de dados. Haverá um cientista de dados dentro de um administrador, dentro de um contador, dentro de um médico, de um engenheiro, de um advogado. Essas profissões serão inseparáveis da ciência de dados. Fui almoçar com um dos sócios do C6 Bank para falar do nosso projeto e ele me contou que apenas um terço dos funcionários deles é ‘banker’, os outros dois terços são cientistas de dados e profissionais de tecnologia. Isso mostra que falta no banker essa capacidade de ciência de dados, de compor um algoritmo, de criar uma solução tecnológica.

Como vai funcionar na prática a mudança nos currículos tradicionais?
Os cursos de Administração de empresas e de Contabilidade têm ao todo pouco mais de 4 mil horas cada. Dessas 4 mil horas, 600, 700 horas são destinadas à ciência de dados. Incluindo ferramentas, modelagem, utilização de softwares, tecnologias usadas no dia a dia. Em todas as disciplinas temos a visão da disciplina pela ciência de dados. A gente não espera que seja apenas um esforço acadêmico. Quer que os alunos já comecem a pensar a respeito de fintech, accountech, lawtech. Como resolver problemas por meio da inteligência artificial e dos dados em cada uma das disciplinas. Existe uma série de laboratórios em cada disciplina onde vamos criar um portfólio de atividades em que os alunos façam as coisas, não apenas aprendam. Em paralelo, estamos criando dentro da Trevisan uma aceleradora de negócios digitais, um hub focado em fintech, accountech, lawtech  e possivelmente outras techs que vão aparecer. Desde o primeiro semestre, o aluno trabalha dentro de empresas que vão ser aceleradas aqui. Acho muito louco o sujeito que se forma administrador de empresas sem portfólio de coisas que criou, para mostrar o que sabe fazer.

Pelo seu projeto, o que um aluno estará apto a fazer ao ser formado?

Para você ter uma ideia, o MBA tem em média 360 horas. No curso de graduação da gente terá quase 700 horas de ciência de dados, mais do que o dobro do que num MBA. Essa vai buscar mais que entender padrões, mas buscar insights. Manipular os dados de uma maneira que nos habilite a não só fazer aquilo que nos dispomos a fazer numa consultoria, num banco, mas também criar modelos tecnológicos que façam os processos muito mais rápidos, ágeis e eficientes. São profissionais que vão poder montar algoritmos diferenciados. Conheci uma empresa em uma incubadora em Pequim que pode dar crédito. Em dois segundos, ela faz uma triagem de 5 mil pontos de dados de cada candidato (score de crédito) e leva em consideração variáveis como a frequência que o cliente deixa acabar a bateria do celular. Aparentemente existe uma correlação forte entre deixar o celular sem a bateria e ser uma pessoa mais atenta, mais disciplinada. Como o cara descobriu isso? São esses insights que vamos buscar.

Para o estudante: em que áreas a ciência de dados vai fazer diferença?

Será importante em todos os campos profissionais. Mesmo que seja um profissional que não use diretamente ciência de dados, vamos dizer um artista. Para pensar a respeito de materiais, composições, cores diferentes, ele vai usar ciência de dados. Tem muita ignorância sendo falada sobre o assunto por medo. Claro que precisamos levar em conta as questões éticas, não queremos suplantar o ser humano, mas eu vejo com muito otimismo a relação com as profissões. Algumas profissões serão totalmente disruptivas. É possível que em dez anos não haja nenhum ser humano dirigindo um trator ou um caminhão. Ao mesmo tempo, milhões de empregos novos vão surgir para compensar. No dia em que surgiu o automóvel não acabou emprego, mas substituiu o trabalho no haras. Estamos num processo de disrupção irrevogável, não vamos voltar atrás. Os bons e velhos tempos não eram tão bons assim. Vamos ter muito mais tempo disponível para nós mesmos. Vamos ter um excedente de produção e de riqueza, é possível que a gente tenha uma classe de seres humanos que pagamos para consumir aquilo que é produzido.

E para quem já está trabalhando? Como as pessoas devem se adaptar?

Eu buscaria treinamento formal e informal. Desde leitura, assistir vídeos no YouTube, ouvir podcasts, até buscar formação complementar. Cursos de curta duração e MBA para pessoas que vêm do mundo analógico e querem aprender a usar essas ferramentas tecnológicas e seguir carreira como médico, psicólogo, administrador, contador. A minha geração, tenho 46 anos, é a ultima que se criou, decidiu o que ia estudar e não tinha expectativa de se recriar de novo. Daqui para frente, a pessoa vai ter de tomar várias decisões dessas ao longo da carreira.

Qual o conhecimento mínimo que um profissional de negócios precisa para se adequar à novas tecnologias?

Sou economista, tenho Ph.D., estudei econometria, mas minha econometria é um traque diante desta explosão atômica. Agora é necessário buscar o dado, fazer a curadoria e usar a informação em um modelo para produzir insights não triviais. São milhões de microdados que juntos compõem não uma foto, mas um filme das pessoas. É precisa ter a capacidade de antecipar desejos e anseios, entender ao longo do dia qual é o melhor momento colocar no smartphone uma propaganda, que a pessoa tem propensão a interagir. Também tem um lado humanístico, capacidade de fazer perguntas, saber quais são as mais importantes. Como cientista de dados, as perguntas são mais importantes que as respostas. Trabalhar a empatia na ciência de dados, tem muitas questões que são artísticas.

Fonte: Ricardo Grinbaum, O Estado de S.Paulo, 05 de março de 2020.

USP inaugura Centro de Ciências de Dados em parceria com Itaú Unibanco

Centro de Ciências de Dados, na Escola Politécnica da USP (Foto: Divulgação)CENTRO DE CIÊNCIAS DE DADOS, NA ESCOLA POLITÉCNICA DA USP (FOTO: DIVULGAÇÃO)

A Escola Politécnica da USP (Universidade de São Paulo) inaugurou nesta quarta-feira (7) o Centro de Ciências de Dados, espaço destinado a estudantes e professores. O projeto foi realizado em parceria com o Itaú Unibanco. Chamado de c2d, o centro científico tem objetivo de fomentar a pesquisa no setor de arquitetura de dados, analytics e inteligência artificial e aproximar os profissionais do banco dos jovens estudantes da USP — tudo isso para promover um intercâmbio de informação entre iniciativa privada e universidade.

“Queremos levar os problemas cotidianos das empresas para os estudantes. Assim, eles vão aprender na prática”, explica Estevão Lazanha, diretor do Itaú Unibanco.

De acordo com o executivo, a constante transformação tecnológica exige sistemas cada vez mais modernos. A escassez de talentos no Brasil, contudo, é um empecilho para avanço no segmento. Com o novo espaço, o Itaú Unibanco espera descobrir jovens profissionais para integrar seu time. “Temos interesse enorme de evoluir e gente talentosa, como encontramos na Poli, certamente tem lugar no banco”, garante.

Equipe responsável pelo desenvolvimento do C2D; à esquerda, o diretor Estevão Lazanha (Foto: Divulgação)ESTEVÃO LAZANHA (PONTA ESQUERDA), RICARDO GUERRA, VALÉRIA MARRETO E ANDRÉ SAPOZNIK (PONTA DIREITA), DO ITAÚ UNIBANCO (FOTO: DIVULGAÇÃO)

Não à toa, o banco vai patrocinar bolsas de mestrado e doutorado para cursos da USP voltados à engenharia de dados.  Na avaliação de Antonio Carlos Hernandes, vice-reitor da Universidade, o debate entre jovens pesquisadores e profissionais renomados do mercado vai trazer vantagens competitivas ao próprio país.

“Agora temos um grande grupo de pessoas pensando em dados. “Essa parceria [universidade e banco] será útil para entregarmos projetos à sociedade”, afirma ele, que é doutor em física.

Parceria com MIT
Além da Escola da Politécnica da USP, o Itaú Unibanco também tem parceria com o ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica), em São José dos Campos (SP), e com o MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts). Este mês, inclusive, o banco tornou-se membro do FinTech@CSAIL, laboratório de tecnologia financeira do MIT. Nove outras empresas também são cofundadoras do centro, entre elas a startup Alibaba, a Ripple (de tecnologia de pagamentos) e a Nasdaq, bolsa de valores dos EUA.

Fonte: Época Negócios, 08/11/2018 – 17H13 – ATUALIZADA ÀS 18H12 – POR PATRÍCIA BASILIO

Inteligência Competitiva – Sinais de Mercado: Ciência de dados cresce na preferência dos estudantes

Assim como muitos profissionais ambiciosos no começo de suas carreiras, Maria Jimenez acreditava que acabaria precisando de um MBA se quisesse um cargo corporativo importante. Mas ela mudou de ideia depois de observar os colegas em seu primeiro emprego, no departamento de tecnologia da informação da Tecnoquimicas, uma empresa farmacêutica sediada em Bogotá, na Colômbia.

O departamento estava tomando decisões estratégicas para a empresa com base em dados coletados em resultados médicos. Em uma equipe de mais de 100 funcionários, Jimenez era a única com graduação em administração. “O que eles precisavam era de alguém com cabeça de negócios que também pudesse falar a linguagem dos engenheiros de softwares”, diz Jimenez. Assim, ela abandonou seus planos de fazer um MBA e em vez disso escolheu um curso de pós-graduação em ciência de dados.

Os cursos de especialização em ciência de dados estão em rápida expansão, graças ao entusiasmo com o potencial da análise de dados para os negócios e ao medo que profissionais sentem de ficar para trás. Nos Estados Unidos, onde as inscrições para o tradicional curso de MBA de dois anos vêm caindo há vários anos, os mestrados em análise de dados são um mercado em crescimento.

Setenta e quatro por cento dos cursos de big data nos Estados Unidos reportaram aumento na demanda no ano passado, em comparação a 32% dos programas de MBA de dois anos em tempo integral, segundo o Graduate Management Admission Council, organização que aplica o teste de admissão para escolas de negócios.

Uma em cada dez mulheres e 15% dos homens entrevistados no ano passado pela consultoria especializada em educação CarringtonCrisp para sua pesquisa global com futuros alunos de escolas de negócios disseram que os programas de big data e análise de dados para negócios eram suas principais opções de especialização.

Na pesquisa mais recente da CarringtonCrisp, entre os homens, o big data só perdeu em popularidade para finanças, subindo da 13ª posição no levantamento anterior. Para as mulheres, a mudança vem ocorrendo na mesma direção, mas de uma maneira menos significativa, com o curso passando do 13º posto para o 8º e ficando atrás de administração, contabilidade, recursos humanos e psicologia.

A demanda pelos cursos de big data é motivada por um crescimento das oportunidades de emprego lucrativas anunciadas para pessoas com essas qualificações, segundo Andrew Crisp, cofundador da CarringtonCrisp. “A empresa de treinamento General Assembly, que oferece capacitações nessa área, sempre destaca em seus e-mails a falta de cientistas de dados qualificados em Londres”, diz Crisp. “Suspeito que a demanda vem simplesmente de os estudantes verem empregadores tentando recrutar pessoas com essas habilidades.”

Dados de 2015 mostram que, nos Estados Unidos, a remuneração anual média de cientistas de dados e analistas da área foi de US$ 94.57 6, segundo um relatório da PwC e do Business-Higher Education Forum que incluiu 48.347 empregos do tipo anunciados. Mais de um terço dessas ofertas exigia mestrado.

Jimenez se mudou para a França para se qualificar na área. Ela agora está na metade do curso de análise de big data na Iéseg School of Management, da Universidade de Lille. “Eu não percebi o dinamismo do mercado de trabalho para analistas de dados até eu começar a me candidatar para esses cargos”, diz ela, observando que muitas companhias estão em busca de funcionários com as habilidades que ela tem.

A anuidade do curso e as despesas para viver na França estão sendo pagas em parte por um empréstimo estudantil do governo colombiano. Se ela voltar para o país natal até três anos após sua formatura, metade do valor emprestado será convertido em bolsa de estudos.

Jimenez acredita que permanecerá na França, mesmo que isso signifique precisar quitar toda a sua dívida com o governo colombiano. Isso porque os empregos anunciados na França pagam muito bem. “O curso é um grande investimento, mas posso ver que ele vai se pagar rapidamente”, afirma ela.

A poucos quilômetros da Iéseg, no campus da HEC Paris, a primeira turma que busca o diploma duplo de mestre em ciência de dados aplicado aos negócios, junto com a Ecole Polytechnique, ainda não se formou. Mas as escolas já receberam mais de mil candidatos para a segunda turma, de 60 alunos. “Para um programa novo, esses números são realmente promissores”, diz Julien Manteau, diretor de estratégia e desenvolvimento global para programas de mestrado da HEC.

A Stern Business School, da Universidade de Nova York, tem um limite rígido de 7 0 alunos para a turma do mestrado em ciência de análises de dados de negócios. Roy Lee, diretor do programa, diz que se a turma fosse maior, os alunos que vêm da área de tecnologia se sentiriam menos confortáveis para compartilhar seu ponto de vista com os colegas de mentalidade mais voltada para os negócios.

Para ele, essa troca é crucial para o rompimento de barreiras entre as duas áreas. “A ideia é ter os dois lados para que eles compartilhem diferentes perspectivas”, afirma Lee. “Os alunos estão aprendendo uns com os outros sobre onde e como aplicar suas habilidades.”

Sarah Laouiti é aluna em período integral do mestrado em análise de negócios da Imperial College Business School, de Londres. Ela estudou gestão internacional durante a graduação, na Warwick Business School, mas não tinha certeza se sua qualificação seria suficiente para o mercado de trabalho. Ela acredita que até mesmo empregos em consultorias, que sempre pagaram muito bem, hoje estão sendo automatizados.

“Definitivamente me sinto melhor preparada para o mundo do trabalho com uma especialização em big data no meu currículo”, diz Laouiti. “Não sei quais empregos vão sobreviver no futuro, mas tenho certeza que serão aqueles que envolvem o uso de dados.”

Potenciais alunos precisam apresentar níveis parecidos de realizações acadêmicas independentemente de estarem se inscrevendo para mestrados na área de análise de dados ou para os tradicionais programas de MBA. Os caminhos se diferem nas especificidades da grade curricular do cursos.

Os estudantes de ciência de dados fazem disciplinas que ampliam suas habilidades quantitativas, como análise avançada de planilhas e aulas sobre os conceitos por trás de bancos de dados relacionais. Com frequência, essas matérias também incluem lições sobre como analisar o conteúdo das redes sociais e técnicas que as empresas usam para atribuir pontuações de crédito para clientes.

Os alunos dos programas de MBA podem abordar essas questões, mas o foco será na formação de habilidades de liderança e no entendimento dos negócios, geralmente fazendo uso de materiais de estudo de casos.

Fonte:  Jonathan Moules , Financial Times/Valor, 19/04/2018 às 05h00. (Tradução de Mario Zamarian)