China: ‘live commerce’ vira moda no País

Lives

Monique Lima (E) e Etienne, da Mimo: venda em lives expande setores e ganha força Foto: Daniel Teixeira/Estadão

No mundo da moda, o “live commerce”, venda de produtos em que as pessoas podem tirar dúvidas e fazer a compra online na mesma hora, não é novidade. Mas, com a pandemia de covid-19, essa espécie de “reality show” do mundo das compras espalhou seus tentáculos para mercados correlatos e também para alguns bem diferentes. Hoje, o live commerce já faz sucesso em cosméticos, decoração e até automóveis. 

O modelo foi importado da China, berço do live commerce, onde ele movimentou cerca de US$ 200 bilhões em 2020. A estimativa da Research and Markets é de que a indústria global do “e-commerce social” vai faturar US$ 600 bilhões até 2027.

A plataforma Mimo surgiu em meio ao isolamento social. A ideia, segundo a presidente Monique Lima, amadureceu quando ela percebeu os desafios da irmã, dona de uma loja de sapatos. “Sem fazer qualquer mídia tivemos 300 pessoas na primeira live e 600 na segunda, com grande engajamento”, diz a ex-publicitária que fundou a empresa com Etienne Du Jardin. Com amigos, conseguiram uma rodada de investimento. Entre os apoiadores está também o publicitário Nizan Guanaes. 

Em poucos meses a plataforma atraiu marcas como Ri Happy e Dolce & Gabbana. No momento, negocia uma live para uma marca de carros. “Entendemos que é possível vender tudo por live”, diz Monique. Segundo ela, o consumidor passou a valorizar a entrega do produto em casa. Ao mesmo tempo, quer a relação pessoal, e a live equaciona essa conta.

A marca francesa Givenchy é outra que se rendeu ao “shopstreaming” no Brasil. A primeira empreitada de venda digital foi no início do ano, quando aproveitou um lançamento e fez um “reality” com um maquiador para demonstrar os produtos. 

A ideia, segundo a diretora da Givenchy no Brasil, Marjorie Pilli, foi trazer produtos de cuidados para a pele e maquiagem, algo mais visível para ser acompanhado pelo vídeo, mas a live terminou com a exibição do perfume carro-chefe da marca. “Foi a forma que encontramos para encantar o consumidor.” A iniciativa, feita ao lado do e-commerce Época Cosméticos, do Magazine Luiza, levou a marca a pensar em ter um e-commerce no País.

Já a Dermage, de dermocosméticos, fez a pré-venda de um de seus lançamentos em live em maio e concedeu benefícios aos clientes, como frete grátis. A empresa escalou especialistas em cuidados com a pele e uma influenciadora – em uma hora teve 3 mil acessos. O faturamento do online, segundo a coordenadora de marketing Jéssica Lopes, dobrou naquele dia. “Vemos isso como oportunidade para lançamentos e para datas importantes de venda.”

A estilista Martha Medeiros conta que se sentiu “dentro da casa da cliente, interagindo com ela.” Segundo Martha, o retorno foi melhor que o esperado, principalmente com a venda de itens de casa como copos e jogos americanos. O próximo passo será a realização de uma live diretamente com rendeiras – tirando assim o intermediário, em uma ação conjunta com comunidades e associações.

O fundador da consultoria Varese Retail, Alberto Serrentino, afirma que em todo o mundo o fenômeno explodiu na pandemia, com o novo jeito de se fazer compras criado pelo gigante Alibaba. “Foram eles que desenvolveram esse jeito de integrar conteúdo, mídia, entretenimento e compra.” Ele explica que a diferença dos canais de home shopping, como o Shoptime, “é a interatividade e a forma em que a dinâmica do evento sofre interferências do consumidor”.

O Grupo Soma, dono de marcas como Animale e Farm, lançou seu live commerce há um ano, quando suas lojas estavam fechadas. Desde então já fez cerca de 50 lives. O grupo conseguiu deixar de lado o QR-Code, tradicional nesse tipo de venda, para que a cliente possa arrastar os produtos vistos na live para o carrinho e concluir a compra.

O diretor de tecnologia do Soma, Alisson Calgaroto, diz que a modalidade reúne uma série de complexidades que devem ser equalizadas para que o produto seja satisfatório. Também alia áreas fora do e-commerce em si, como comunicação e marketing: afinal, ficar horas ao vivo exige bom roteiro para evitar que o cliente fique entediado e desista de assistir e de comprar.

Fonte: Fernanda Guimarães, O Estado de S. Paulo, 07 de junho de 2021.

Quem são e o que querem as big techs chinesas

Para cada empresa de tecnologia do Vale do Silício, nos Estados Unidos, existem dezenas de versões chinesas, mas não são apenas cópias. Com visões de negócio diferentes, a China emergiu no cenário mundial com um conjunto de empresas globais competitivas. Cada vez mais, os modelos de sucesso estão sendo estudados e replicados em outros mercados, como o brasileiro.

Hoje, a China é representada por seis grandes empresas de tecnologia: Tencent, Alibaba, Baidu, ByteDance, Meituan e Didi Xuxing, que controlam dezenas de outras empresas que vão desde serviços de saúde até pagamentos. Por meio de superapps, usando apenas uma plataforma, um cidadão chinês pode fazer compras, realizar pagamentos, agendar consultas e conversar com amigos.

A Alibaba é detentora da taobao.com (ecommerce), KuWo Music (música), Weibo (redes sociais), Alibaba Cloud (nuvem), Alipay (pagamentos), apenas para citar alguns exemplos.

Bicicletas de vários serviços de compartilhamento de bicicletas são vistas em um vilarejo urbano em Hangzhou, província de Zhejiang, na China – Reuters

A fórmula para o sucesso das big techs chinesas tem uma combinação de ingredientes um pouco diferente da adotada em boa parte do Ocidente, explica Otávio Miranda, cientista político formado pela Renmin University, na China.

Primeiro, a competitividade do mercado doméstico é brutal e sem paralelo. Uma boa representação da disputa local são aquelas fotos com milhares de bicicletas enfileiradas —de um número incontável de diferentes marcas.

As empresas cresceram aproveitando investimento públicos em infraestrutura, e investindo e comprando outras empresas privadas.

“As empresas cresceram sem participação do estado chinês. São fruto de décadas de investimento público na construção da infraestrutura urbana e de redes fundamental ao crescimento e desenvolvimento de uma nova indústria de serviços pronta para avançar centenas de milhões de habitantes.”, diz. “Ao mesmo tempo em que tinham liberdade e incentivo para fazer negócios fora da China”.

Também há incentivo a fusões e aquisições. Baidu, Alibaba e Tencent controlam ou investem em pelo menos 50% das startups unicórnios chinesas. “As empresas de tecnologia chinesas funcionam da seguinte forma: ‘sua margem é minha oportunidade’. Uma forma de crescer é via aquisição de novas empresas”, diz Miranda.

“Tanto Alibaba quanto Tencent e as outras empresas saíram fazendo aquisições assim que uma nova empresa surgia —e esse é o espírito chinês”, explica.

A indústria de venture capital, segmento em que fundos investem em novos negócios, também foi responsável por potencializar a inovação na China. Segundo o South Morning China, que oferece o dado público mais recente sobre o setor, esse tipo de investimento alcançou em 2018 a marca de US$ 70,5 bilhões (R$ 405,7 bilhões), então, 37% do total mundial.

Para efeito de comparação, naquele ano, o Brasil contou com US$ 700 milhões (R$ 3,6 bilhões) em investimentos de venture capital, segundo dados da Abvcap, entidade que representa o setor.

“Tecnologia era um setor dominado por americanos, que tinham antes apenas a concorrência europeia”, diz Leonardo Azevedo, professor do departamento de direção geral do ISE Business School. “Agora, a Alibaba já se expandiu para fora da China e é uma nova competidora global”.

Para Azevedo, existe um certo preconceito infundado no Ocidente com empresas da China por causa de sua relação com o Estado.

“Devemos analisar um mercado chinês como vetores de bons negócios, desapegando da ideia de controle estatal”, diz. “Eles investiram para sereme um player capaz de falar de igual para igual com os EUA, principalmente no setor de tecnologia”.

Otávio Miranda avalia que o mercado brasileiro tem mais semelhanças com o chinês do que o americano.

“China, Índia, Brasil, Indonésia e Nigéria apresentam as maiores oportunidades para crescimento e transformação digital. Apostar em negócios que integram uma só plataforma é uma tendência bem absorvida no país”, diz.

Para se tornar um superapp, de olho no modelo de negócio do Alibaba, a Magazine Luiza fez mais de 20 aquisições desde 2017, envolvendo ecommerce (Netshoes, Shoestock, Estante Virtual, Época Cosméticos, tonolucro, aiqfome), logística (logbee, GLF, sinclog), serviços financeiros (Hub Fintech), marketing (inlocomedia) e entretenimento (Jovem Nerd, Canaltech, Steal the Look).

“Nem Jack Ma [Alibaba], nem Jeff Bezos [Amazon]; preferimos Luiza Trajano”, diz Eduardo Galanternick, vice-presidente de negócios da Magazine Luiza.

“Assim como o modelo chinês, o brasileiro está conectado através do celular. Acreditamos que a forma mais eficiente para crescer é via aplicativo”, afirma.

Para o executivo, fazer aquisições é uma forma de cortar caminhos e acelerar o crescimento da empresa. “Uma coisa que demoraríamos dois anos para fazer, solucionamos em dois meses”, diz.

Segundo ele, a área de tecnologia é uma das que mais recebem investimentos, e tem uma equipe de 1.500 engenheiros de software.

As aquisições dos últimos anos integram-se às plataformas de serviços Magalupay, Magalu Pagamentos, Magalu Entregas, Magalu Ads, Luizacred, Luizaseg, Parceiro Magalu, Consórcio Magalu, Maga+ e ao Luizalabs.

“O conceito de superapp é o seguinte: as pessoas usam poucos aplicativos por dia, e foi assim que o WeChat começou”, diz Sérgio Saraiva, presidente do Rappi no Brasil. “Como engajar o usuário? Ter um app só garante que o usuário vá entrar milhares de vezes no aplicativo, e é isso que fazemos aqui”, explica.

WeChat é um app chinês que concentra diversos serviços, de mensagens a pagamento.

“Fizemos esse plano de investir em um superapp há cinco anos, e nossa proposta acabou encaixando no momento de crise”, diz Saraiva. O início da plataforma focada em restaurantes foi uma das estratégias para crescer no país, seguido de mercado, farmácia, passagens aéreas e pagamentos.

“Descobrimos que o usuário gosta de cash back [modalidade de venda em que parte do dinheiro gasto é devolvido]. O cliente quer imediatismo, vamos dar imediatismo”, diz “O usuário resolve seus problemas dentro de uma só plataforma.”

Fonte: Amanda Lemos, Folha de S.Paulo, 15.mai.2021.

Nova moeda digital chinesa visa controle sobre economia e sociedade

As celebrações na China pela chegada do Ano-Novo, o Ano do Boi, iniciado em 12 de fevereiro, foram contidas, por conta da pandemia do coronavírus. O número de pessoas que viajaram para visitar parentes caiu acentuadamente este ano, e isso tornou as reuniões familiares um pouco menos alegres.

Mas nem tudo é desânimo. As autoridades de diversas cidades distribuíram dezenas de milhões de yuan como “pacotes vermelhos” de presente de Ano-Novo, que podem ser baixados por smartphones. Pequim e Suzhou distribuíram 200 mil pacotes vermelhos, cada qual em valor de 200 yuan (R$ 168), por meio de uma loteria.

Um cliente faz um pagamento eletrônico via Alipay em um restaurante em Pequim, China – Nicolas Asfouri – 29.out.2020/AFP

Gestos filantrópicos como esse ocultam uma agenda mais séria. Ao distribuir os tradicionais pacotes vermelhos em forma de “yuan digital”, as autoridades da China estão conduzindo testes para uma tecnologia nova e crucial que pode resultar na adoção mundial de moedas digitais, e estabelecer padrões para o planeta.

Ainda que não tenha sido anunciada uma data oficial de lançamento, a China está determinada a se tornar a primeira grande economia do planeta a introduzir uma moeda digital, demonstrando sua posição de líder mundial em tecnologia de pagamentos na Olimpíada de Inverno que o país sediará no ano que vem. O Camboja lançou uma moeda digital, chamada bakong, no final do ano passado.

“As autoridades econômicas chinesas são de longe as mais avançadas em seu pensamento sobre uma moeda digital”, diz o chefe de operações asiáticas de um grande banco de Wall Street, que pediu que seu nome não fosse mencionado. “Estão pensando em coisas sobre as quais o resto do planeta nem está perto de começar a pensar”.

“O yuan digital colocará todas as transações digitais no radar do Banco Popular da China” [o banco central chinês], o financista acrescenta.

O plano digital da China se encaixa bem às ambições mais amplas do país para sua moeda, e Pequim espera que a tecnologia ajude a promover o yuan internacionalmente e enfraqueça a supremacia do dólar americano. Embora profissionais de finanças digam que o foco inicial será o uso da moeda digital no mercado interno, dentro de alguns anos ela deve passar a ser usada para a realização de transações de comércio internacional, segundo diversos analistas chineses.

Mas os demais objetivos por trás da moeda virtual chinesa apresentam um forte contraste com a discussão pública sobre o assunto em muitas outras partes do mundo. Enquanto nos Estados Unidos as criptomoedas são debatidas com o jargão do movimento libertário, na China o projeto de moeda digital está vinculado aos esforços do Partido Comunista para manter o controle sobre a sociedade e economia do país.A tecnologia foi concebida em parte como forma de reforçar o Estado de vigilância.

As criptomoedas costumam ser descentralizadas; não são emitidas por governos e não contam com a adesão deles. O yuan digital, em contraste, é parte do sistema chinês de controle, imposto de cima para baixo. O banco central emite e regulamenta a moeda, e seu status como meio circulante é garantido pelo Estado chinês.

Códigos de pagamento do Alipay e do Wechat em um mercado em Xangai, China – Hector Retamal – 27.out.2020/AFP

O formato digital da moeda permite que o banco central rastreie todas as transações em nível individual, e em tempo real. Pequim usa esse recurso para combater a lavagem de dinheiro, a corrupção e o financiamento do “terrorismo” no país, e ele reforça ainda mais os poderes de vigilância já formidáveis do Partido Comunista.

Analistas dizem que Pequim também espera usar o yuan digital como meio de reafirmar o controle do Estado sobre o setor de tecnologia financeira e o vasto mercado de pagamentos eletrônicos, dominado por duas grandes empresas privadas, o Ant Group e o Tencent. A nova tecnologia pode, na prática, se tornar rival das plataformas de pagamento dos dois serviços, que substituem o dinheiro em papel.

O governo chinês já está envolvido em um esforço de múltiplas frentes para controlar do poder dos novos serviços de pagamentos, o que levou o Ant Group a cancelar sua abertura de capital, que teria sido realizada no final do ano passado.

Samantha Hoffman, analista sênior do Australian Strategic Policy Institute, diz que o controle social é uma prioridade para Pequim. “O [yuan digital] gira pesadamente em torno da capacidade do partido para exercer controle”, ela diz.

TOMADA DE CONTROLE DO SETOR DE TECNOLOGIA FINANCEIRA

A estratégia da China é popularizar a moeda digital ao conduzir testes em nível municipal este ano e no ano que vem, e tê-la pronta para uso amplo no momento em que o país sediar a Olimpíada de Inverno, no final de 2022, disseram integrantes do governo. Esse cronograma coloca Pequim muito adiante da longa fila de governos nacionais que estão começando a conduzir experiências sobre a mesma ideia.

Cerca de 60% dos mais de 60 bancos centrais pesquisados pelo Banco de Compensações Internacionais (BIS) disseram estar “conduzindo experimentos ou testes” com moedas digitais no ano passado, ante 42% em 2019. Entre eles, 14% estão avançando na direção de programas piloto, a pesquisa constatou.

Uma cliente mostra a confirmação de pagamento eletrônico via Alipay uma loja de bebidas em Pequim, China – Nicolas Asfouri – 29.out.2020/AFP

Na China como em outros países, as ramificações de adotar uma moeda digital são imensas. Não é só que o yuan digital vá substituir o dinheiro em papel; ele também pressagia a construção de um novo sistema de pagamentos que solapará a posição do Alipay e do WeChat Pay, as duas plataformas de pagamentos mais populares do país, ambas privadas, controladas pelo Ant Group e Tencent, respectivamente.

O principal motivo para isso é que o yuan digital é distribuído diretamente às carteiras digitais dos usuários por bancos estatais, o que estabelece canais de pagamento que não passam pelo Alipay e WeChat Pay.

Em testes conduzidos até agora, usuários puderam sacar o yuan digital em caixas automáticos ou baixar a moeda virtual para as carteiras digitais de seus celulares.

Os consumidores então pagam por compras segurando o celular perto de um aparelho de ponto de venda habilitado para o yuan digital. Um sistema como esse representa uma alternativa clara ao Alipay e WeChat Pay, cujas bases mundiais de usuários ativos, somadas, são estimadas em 1,9 bilhão de pessoas.

“O uso generalizado do yuan digital afetará a posição de mercado e o modelo de lucro de plataformas terceirizadas de pagamentos como o Alipay e o WeChat Pay”, diz Wang Yongli, antigo vice-presidente do Bank of China, um dos maiores bancos estatais chineses.

E isso não é pouco. O Alipay e o WeChat Pay não só formam a espinha dorsal do sistema de pagamentos chinês, em uma economia na qual o dinheiro em papel cada vez circula menos, como seus negócios também sustentam os preços das ações do Tencent, uma das 10 maiores companhias do planeta, com capitalização de mercado de mais de US$ 920 bilhões (R$ 5 trilhões), e do Alibaba, que controla uma participação no Ant Group.

A sensação de que a popularização do yuan digital pode acontecer em detrimento do Alipay e WeChat Pay é reforçada pelas mensagens de Pequim, divulgadas via mídia estatal. Em uma reportagem nas ruas de Pequim, durante a comemoração do Ano-Novo chinês, um jornalista da CCTV, a rede oficial de televisão chinesa, disse que usar o yuan digital era “mais conveniente” do que usar outros sistemas de pagamento.

“A moeda digital será um golpe contra o Alipay e o WeChat, porque pode substitui-los”, diz o diretor de um grande banco estatal chinês. “É provável que o governo use seu poder administrativo a fim de promover o uso do yuan digital a fim de solapar o monopólio sobre os dados de consumidores mantidos pelas empresas de tecnologia”.

Na verdade, esses poderes administrativos são inerentes ao yuan digital. Porque ele é aceito como moeda oficial, nenhum comerciante pode recusá-lo, e portanto todos serão obrigados a instalar terminais de pagamento e sistemas de caixa que o incorporem, quando a moeda for lançada formalmente. O mesmo não se aplica ao Alipay e WeChat Pay, que os comerciantes têm o direito de recusar.

Um cliente digitalizando um código de pagamento QR para fazer um pagamento eletrônico em uma loja de doces em Pequim, China – Nicolas Asfouri – 29.out.2020/AFP

Reportagens na mídia estatal também trombeteiam uma função do yuan digital que dizem torná-lo tão versátil quanto o dinheiro em papel: a capacidade de ser usado em pagamentos offline. Se não houver conexão com a internet, os usuários poderão ainda assim transferir dinheiro entre dois aparelhos desconectados, usando o que a mídia estatal descreve como “tecnologia offline dual”.

O sistema usa uma tecnologia de comunicação em curta distância parecida com o Bluetooth, dizem analistas. Ainda não está claro se esses sistemas –ou o yuan digital de modo mais amplo– são confiáveis, mas Mu Changchun, que comanda o Instituto de Pesquisa de Moeda Digital do banco central chinês, disse que a tecnologia “offline dual” se provou “comparativamente bem sucedida”.

A China considera seu sistema bancário centralizado como instrumento crucial para o poder econômico do partido e Estado. Sempre que esse controle é ameaçado, como aconteceu quando o setor de pequenos empréstimos pessoais online começou a se desenvolver aceleradamente, em 2016, as autoridades agem de forma decisiva a fim de reafirmar sua influência. Depois de uma campanha de limpeza conduzida por Pequim, restam apenas 29 empresas nesse segmento, que um dia contou com mais de 6.000 companhias. Da mesma forma, o sucesso extraordinário do Ant Group, antes do cancelamento de sua oferta pública inicial de ações, era visto como ameaça pelo poderoso lobby dos bancos estatais chineses.

Embora seja claro que o ecossistema de pagamentos com o yuan digital foi projetado para operar independentemente do Alipay e WeChat Pay, é provável que as duas plataformas privadas de pagamentos sejam usadas para transações com a moeda, dizem analistas. Assim, pelo menos por algum tempo, as plataformas privadas serão usadas para promover a ascensão do yuan digital.

“O crescimento da fatia de mercado do yuan digital acontecerá à custa do Alipay e WeChat Pay”, diz Zou Chuanwei, especialista em moedas digitais no Wanxiang Blockchain, um instituto de pesquisa em Xangai. “O governo está apertando o controle regulatório sobre os grupos de tecnologia financeira e a substituição do Alipay e WeChat Pay pela nova moeda digital prejudicará seus negócios de empréstimos ao consumidor”, ele acrescenta.

FERRAMENTA DE CONTROLE

Quinze séculos depois de a China ter inventado as cédulas bancárias, a natureza do dinheiro está a caminho de uma mudança fundamental. Naquela época, durante a dinastia Tang (que reinou sobre o país entre 618 e 907), o dinheiro em papel era pouco mais que um vale e se tornou conhecido como “dinheiro voador”, porque, ao contrário das moedas metálicas, tinha a tendência de ser arrastado pelo vento.

Mas o yuan digital representa uma mudança de passo. A nova moeda é muito mais que um meio de troca. Pequim a vê como baluarte contra a intervenção potencial de moedas digitais estrangeiras, como o diem, um projeto comandado pelo Facebook, e como ferramenta para facilitar a vigilância em massa sobre a população da China.

Na metade de 2020, Mu, do Instituto de Pesquisa de Moeda Digital, argumentou que o yuan digital poderia impedir que a libra –o nome original da moeda do Facebook– ocupasse espaço no sistema monetário chinês. Esse raciocínio se seguiu a considerações semelhantes em 2018, quando pesquisadores do banco central chinês advertiram que a chegada de moedas privadas –conhecidas como “stablecoins”– vinculadas ao dólar dos Estados Unidos poderia prejudicar os esforços de Pequim para internacionalizar o yuan.

Mas além de agir como baluarte contra criptomoedas estrangeiras indesejadas, o yuan digital carrega expectativas, da parte das autoridades do país, que derivam de um impulso arraigado de buscar controle social, dizem analistas.

Um cliente escaneia o código de pagamento Alipay em um mercado em Xangai, China – Hector Retmal – 27.out.2020/AFP

“O yuan digital provavelmente beneficiará a vigilância do Partido Comunista chinês sobre a economia e a interferência do governo na vida dos cidadãos chineses”, escreveram Yaya Fanusie e Emily Jin em um relatório publicado no mês passado pelo Centre for a New American Security, uma organização de pesquisa de Washington.

Os autores afirmam que a adoção do yuan digital permitirá que o banco central chinês explore um grande repositório de dados sobre as atividades econômicas de seus cidadãos. Isso se enquadra a um plano do governo para o setor de tecnologia financeira, lançado no final de 2019, que previa uma fusão de dados financeiros a fim de promover a construção de “um grande centro integrado nacional de big data”.

“Se o banco central for capaz de lançar com sucesso o yuan digital, ele seria de fato uma ferramenta crucial para o controle interno”, disse Jin. “As pessoas ainda poderiam tentar contornar a capacidade de monitoração do governo [sobre a moeda], mas imagino que isso seria incrivelmente difícil, se considerarmos que o sistema permitiria que o banco central rastreie transações em tempo real”.

Se essas capacidades não se materializarem, o banco central chinês pode receber poderes ampliados para disciplinar os mercados e teria a capacidade de impor medidas punitivas por meio do bloqueio de transações, em base de caso a caso.

Hoffman, do Australian Strategic Policy Institute, que publicou um dos primeiros estudos aprofundados sobre o yuan digital, no ano passado, diz que a moeda expandirá significativamente a capacidade de vigilância do partido.

“Por meio da moeda virtual, o Estado e partido poderiam visualizar todas as transações financeiras”, ela afirma. “As transações são completamente rastreáveis, e não haverá qualquer traço de anonimato para os usuários”.

ISENTOS DE ESCRUTÍNIO?

O nível de anonimato que os cidadãos chineses terão ao usar a moeda digital continua a ser uma área cinzenta, em termos oficiais. Mu, falando em uma conferência em Singapura no ano passado, disse que um sistema de “anonimato controlado” seria adotado gradualmente.

“Sabemos que a demanda do público geral é pela manutenção do anonimato, expresso pelo uso de dinheiro em papel e moedas… concederemos às pessoas que assim exigirem o anonimato em suas transações”, disse Mu na conferência.

“Mas ao mesmo tempo, manteremos o equilíbrio entre ‘anonimato controlável’ e o combate à lavagem de dinheiro e ao financiamento para o terrorismo, e também levaremos em consideração as questões tributárias, jogos de azar online e quaisquer atividades criminosas eletrônicas”, ele acrescentou.

Hoffman diz que essa ambiguidade causa preocupações. “Requerimentos como o combate ao financiamento de terrorismo e à lavagem de dinheiro são normais nos bancos centrais, mas o que é diferente na China é quem se torna alvo de escrutínio”., ela afirma. “A definição de terrorismo inclui os oponentes políticos do partido”.

Um QR Code da Alipay doe Wechat em um mercado em Xangai, China – Hector Retmal – 27.out.2020/AFP

Preocupações como essas podem prejudicar as aspirações duradouras de Pequim a promover o uso da moeda chinesa internacionalmente, como parte da ambição do país de se libertar da obrigação de liquidar a maior parte de suas transações internacionais em dólares americanos.

“Se o partido comunista tiver informações sobre todas as transações que fizermos usando o yuan digital, acho que muita gente fora da China não vai querer usar a moeda”, diz um empresário em Hong Kong, que pediu que seu nome não fosse mencionado.

Mesmo assim, a China continua a promover com entusiasmo sua campanha de internacionalização. No mês passado, o país chegou a um acordo com a Swift, uma empresa sediada na Bélgica que opera um sistema de pagamentos internacionais, em uma decisão que segundo observadores tem por objetivo promover o uso do yuan digital.

A nova entidade criada pela parceria, chamada Finance Gateway Information Services, tem por objetivo integrar sistemas de informação a fim de facilitar o lançamento da moeda digital, disseram pessoas informadas sobre o projeto. Um dos demais acionistas do empreendimento é a Cross-Border Interbank Payment System (Cips), da China, concorrente da Swift que opera com compensação de transações denominadas em yuan. Segundo a Swift, o foco da parceria não é o yuan digital, mas “questões fiscalizatórias”.

No entanto, mesmo financistas de dentro do sistema bancário chinês, dominado pelo Estado, dizem que é preciso temperar o otimismo quanto à adoção internacional do yuan digital. “Para nós, um objetivo mais importante é desafiar o domínio do dólar americano sobre a compensação de transações comerciais internacionais”, diz o diretor de um grande banco estatal chinês. “Mas o progresso nessa direção será apenas gradual”.

As razões para expectativas de progresso lento como as descritas derivam de um problema antiquado e analógico. Os estrangeiros têm pouco incentivo para deter posições em yuan enquanto o acesso aos mercados financeiros chineses continuar complicado e opaco para os investidores não especializados.

“[Um yuan digital] não eliminaria muitos dos problemas que desestimulam o uso mundial mais amplo da moeda chinesa”, disse Maximilian Kärnfelt, especialista que trabalha para o instituto de pesquisa Merics, de Berlim, cuja especialidade é a China. “Boa parte do mercado financeiro da China continua fechada aos estrangeiros, e os direitos de propriedade ainda são frágeis”.

Fontes: James Kynge e Sun Yu, Financial Times, 24.fev.2021 às 10h10. Publicado na Folha de S.Paulo. Tradução de Paulo Migliacci.

China atrai e vai se tornando ‘a economia indispensável’

Na manchete do Wall Street Journal ao longo do domingo, “China ultrapassa Estados Unidos como destino número 1 para novos investimentos estrangeiros” (abaixo, com Xangai em novembro). Em letras menores, “EUA ocuparam o primeiro lugar por décadas”.

Foi o foco principal de outros veículos financeiros americanos, como CNBC, com a avaliação de que o presidente Xi Jinping, que abre o Fórum Econômico Mundial nesta segunda, “está posicionando a China como a economia indispensável“.

Para o WSJ, os dados mostram que “a pandemia acentua a mudança no centro de gravidade da economia global” para a Ásia. Cita investimentos crescentes de Walmart, Tesla e Disney na China, em contraponto aos quatro anos de pressão da Casa Branca para as empresas americanas deixarem o país.

Os dados da ONU mostram ainda que os novos investimentos externos caíram pela metade no Brasil, em linha com outras economias maiores da América Latina —com exceção do México, com queda inferior a 10%.

BIDEN & AMLO

O Council on Foreign Relations chegou a comparar o presidente do México a um “cachorro” rosnando para os EUA, no New York Times, mas o jogo pesado dos lobbies de Washington não funcionou e Joe Biden ligou para Andrés Manuel López Obrador.

Abordaram imigração e comércio, segundo agências, com o americano prometendo rever as políticas “draconianas” de seu país. “O México é o maior parceiro comercial dos EUA” hoje, explicou a Bloomberg.

PERDIDO NA TRADUÇÃO

Os ataques a AMLO em Washington se acentuaram depois que ele exigiu e obteve o retorno de um ex-ministro mexicano de defesa, preso no aeroporto nos EUA por suposta ligação com tráfico.

Sites mexicanos e americanos, como Vice, tiveram acesso às evidências e apontaram erros primários de tradução dos investigadores americanos, em pontos centrais da acusação, e inconsistência na própria atribuição de mensagens ao ex-ministro.

‘AMERICA FIRST’ 2

WSJ noticiou que Biden detalha nesta segunda-feira a sua proposta “Compre [produto] Americano”, que está sendo “vista com desconfiança por outros países”. Em especial, pelo Canadá, já atingido com a suspensão do oleoduto Keystone pelo novo presidente.

Também Donald Trump teve o seu “Buy American”, sublinhou o jornal, questionando os efeitos da iniciativa.

TIKTOK PAY

Em especial de fim de semana, o WSJ destacou que a “China se junta ao esforço” de Europa e EUA para “conter o poder das gigantes de tecnologia”, de Facebook e Amazon a Alibaba e Tencent.

A edição em inglês do Caixin (imagem acima), que cobre extensivamente as ações regulatórias que vêm sendo adotadas pelo governo chinês, informou que agora o duopólio Alipay/WeChat Pay ganhou um concorrente, o Douyin Pay, do mesmo grupo do TikTok.

Fonte: Folha de S.Paulo, Nelson de Sá, 24.jan.2021 às 23h15. Jornalista, publica a coluna Toda Mídia e cobre imprensa e tecnologia

China deve se tornar a maior economia do mundo em 2028, diz centro de estudos britânico

Trump e o presidente chinês, Xi Jinping, em encontro em Pequim, em novembro; guerra comercial entre os países se acirrou e americano acusa chineses de tentarem impactar sua base eleitoral
Trump e o presidente chinês, Xi Jinping, em encontro em Pequim. Foto: Nicolas ASFOURI / AFP

A pandemia de covid-19 deve antecipar em cinco anos a data em que a China ultrapassará os Estados Unidos no total de riquezas produzidas e se tornará a maior economia do planeta. A previsão anterior era que a mudança no ranking ocorreria em 2033, mas agora deve acontecer em 2028, segundo estudo do britânico Centro de Pesquisa em Economia e Negócios (CEBR, na sigla em inglês) publicado neste sábado, 26.

O relatório, que acompanha e faz projeções econômicas de 193 países, afirma que os países da Ásia, em especial os do leste asiático, foram mais bem-sucedidos ao lidar com a pandemia do que os europeus e os americanos. No total, o CEBR calcula que a pandemia fará a economia global recuar US$ 6 trilhões na comparação com 2019.

Segundo o documento, a perspectiva é de que o Produto Interno Bruto (PIB) da China cresça 2,0% em 2020, enquanto o PIB dos EUA deve recuar 5,0%. Globalmente, a projeção é que retração de pelo menos 4,0%.

Brasil

No trecho em que analisa a situação econômica do Brasil, o CEBR estima que o PIB do País caia 5,0% neste ano e cresça 3,3% em 2021. Atualmente, o centro de estudos coloca o Brasil na 12ª posição entre as maiores economias, e estima que o País chegará ao 9º posto somente em 2035.

O relatório diz que o Brasil passa por “consideráveis instabilidades políticas e econômicas desde uma profunda recessão, em 2016” e analisa que a economia brasileira entra em 2021 em situação frágil e com limitado espaço fiscal.

O texto também afirma que o mercado de trabalho brasileiro “nunca se recuperou da recessão entre 2015 e 2016, e a pandemia de 2020 só tornou a situação ainda pior”.

Fonte: Gregory Prudenciano, O Estado de S.Paulo, 26 de dezembro de 2020 | 14h23.

Realme no Brasil

Celulares Realme — Foto: Divulgação
Celulares Realme — Foto: Divulgação

A fabricante de smartphones Realme, sediada em Shenzhen, na China, está contratando pessoas e estruturando sua operação no Brasil.

Conforme apurou o Valor, a empresa negocia a venda de seus smartphones localmente e tem vagas abertas, incluindo gerente de canais de vendas, gerente de e-commerce e de redes sociais, em São Paulo.

Recentemente, a Realme submeteu aparelhos para homologação junto à Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel). A empresa também possui uma linha de relógios inteligentes.

A Realme foi criada em maio de 2018 como uma subsidiária da fabricante Oppo, quinta colocada no ranking global de vendas de smartphones da consultoria IDC, com 8,7% do mercado no segundo trimestre. Naquele mesmo ano, a Realme tornou-se independente sob o comando de Sky Li, que deixou a vice-presidência da Oppo para seguir com a nova companhia.

Em junho deste ano, a Realme informa ter alcançado 35 milhões de clientes globais. No primeiro trimestre, a empresa entrou na sétima posição do ranking de vendas globais de smartphones da consultoria Counterpoint.

No período, a fabricante registrou 7,2 milhões de unidades vendidas, um avanço de 11% sobre o primeiro trimestre de 2019.

Além do mercado asiático, a empresa expandiu suas vendas para a Europa, em meados de 2019. Hoje seus smartphones são vendidos em 27 países incluindo China, Índia, Rússia e Austrália.

O Valor apurou que a empresa deve iniciar suas operações no país no primeiro
semestre de 2021.

Fonte: Daniela Braun, Valor — São Paulo, 31/10/2020.

A China já é a maior economia do mundo

Ficha dos gigantes

Os Estados Unidos já não são mais o número 1 do mundo em pelo menos um critério importante. A China já os ultrapassou em tamanho do PIB. E se o maior tende a ser o mais influente e mais poderoso, já se pode imaginar o impacto geopolítico desse fato novo. 

Na última sexta-feira, a conservadora revista The National Interest, dos Estados Unidos, já advertia para as consequências dessa nova liderança.

Mas vamos primeiramente às relevâncias. Há duas maneiras de medir o PIB de um país. A primeira delas define em moeda local estável (deflacionada) o valor de bens e serviços (renda) e, depois, para efeito de comparação com outras economias, a converte em dólar, a moeda líder, pelo câmbio médio do período, tal como praticado no mercado. Esse pode ser chamado de PIB pelo câmbio de mercado.

A segunda maneira de cálculo busca quanto um país pode comprar em bens e serviços com sua moeda. Trata-se do critério do PIB pela Paridade do Poder de Compra (PPC), que parece mais apropriado para medir a renda de um país, porque o câmbio de mercado sempre está sujeito a variáveis subjetivas.

Donald Trump e Xi Jinping
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o presidente da China, Xi Jinping, em encontro bilateral no G-20 em 2019 Foto: Kevin Lamarque/REUTERS – 29/6/2019

Há alguns anos, quando se deu conta das limitações dos cálculos tradicionais das contas nacionais, a revista britânica The Economist procurou um produto universal cujos preços poderiam definir o poder de compra de cada economia. E escolheu o Big Mac, o sanduichão da rede de fast-food McDonald’s produzido em toda a parte com padrão uniforme de qualidade. Assim nasceu o Índice Big Mac.

O critério da PPC – e não propriamente o Big Mac – vem sendo usado não só pela revista The Economist, mas também pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), pelo Banco Mundial e pela própria agência de inteligência americana, a CIA, para medir grandezas relacionadas à renda.

Ora, pela medida convencional, o PIB da China ainda será de US$ 15,2 trilhões ou quase 27% menor do que os US$ 20,8 trilhões do PIB dos Estados Unidos, calcula o FMI. Mas, medido pelo PPC, o PIB da China já alcança US$ 24,7 trilhões, ou seja, é quase 20% mais alto do que o PIB dos Estados Unidos, de US$ 20,8 trilhões.

Neste ano açoitado pela pandemia, a China deverá ser a única grande economia que registrará crescimento positivo, de 1,9%, de acordo com as projeções do FMI. E, como pontua a revista The National Interest, o crescimento de dois dígitos por ano em despesas com Defesa já tornou favorável à China o balanço de forças nos conflitos regionais. Em 2020, a China ultrapassará os Estados Unidos em despesas com Pesquisas & Desenvolvimento. Ou seja, prepara-se para ser potência ainda maior em tecnologias de ponta.

O governo Trump não esconde sua contrariedade com o avanço do dragão oriental e decidiu enfrentar o desafio com o jogo duro que já se convencionou chamar de Nova Guerra Fria.

Se Joe Biden vier a ser eleito presidente dos Estados Unidos em novembro, como parece mais provável, o enfrentamento com a China deverá continuar. Mas de Biden se espera um conjunto de políticas mais inteligentes. Uma dessas políticas deverá ser deixar de atirar até mesmo nos aliados históricos, como são os países da União Europeia, e voltar a valorizar mecanismos multilaterais de integração, especialmente a Organização Mundial do Comércio (OMC).

Biden não poderá coordenar as demais potências se continuar com o mote principal “America first”. Se os Estados Unidos mantiverem a pretensão de defender seus próprios interesses acima dos dos demais, não poderá mesmo ter condições de liderar. E deixará caminho aberto para a China.

Fonte/autor: Celso Ming, Economia, O Estado de S.Paulo, 16 de outubro de 2020.

Os efeitos da inovação da China no mundo pós-COVID19

Inovação pode ser considerada a base da criação de valor de muitos negócios. Durante a pandemia, temos acompanhado muitas empresas ao redor do mundo acelerando a inovação e digitalização de seus negócios para desafiar o status quo de seus nichos de atuação. A crise de saúde que o mundo enfrenta trouxe uma necessidade real de inovação para aqueles que desejam sobreviver.

Na China, a pauta de inovação já é uma constante dentro dos mais variados setores de negócios. Muitos ainda se impressionam ao perceber que a China, quando comparada com outras potências, possui uma vantagem tecnológica de alguns anos, notadamente no caso do Brasil podemos estimar uma vantagem em cerca de 10 anos.  Alguns modelos de negócio que o mundo ainda experimenta, já podem ser classificados como maduros na China, tais como “Internet +”, Inteligência Artificial, Big Data, e Blockchain.

Em outras palavras, se em um momento anterior a pandemia, a oferta de inovação na China era assustadora, pós-mundo COVID-19 será ainda mais impressionante. O distanciamento físico tem acelerado inovações em negócios que visam atender as necessidades do mundo em isolamento.

Vejamos, por exemplo, o caso do Ping An Good Doctor, a maior plataforma de assistência médica da China, que entendeu que para um aumento de tráfico de usuários em sua plataforma seria necessário fornecer informações em seu aplicativo para atualizações e aconselhamentos relacionados à COVID-19. O projeto foi tão bem-sucedido que, durante o isolamento, a plataforma foi acessada mais de 1,1 bilhão de vezes em apenas 20 dias. Os números foram tão impressionantes que gigantes como Baidu, JD, and Tencent igualmente seguiram a estratégia do aumento de fluxo.

Com efeito, podemos citar também o caso da empresa Beike, uma plataforma online de locação imobiliária, que oferece uma experiência de tours virtuais por meio de aparelhos de realidade virtual (VR). Somente durante a pandemia, a empresa teve mais de 10 milhões de exibições de propriedades por meio de aparelhos VR, estes tours eram disponibilizados aos potenciais compradores em isolamento durante o lockdown.  Em termos econômicos, a empresa reportou, em março de 2020, um aumento expressivo de 35 vezes o número de exibições em comparação com março de 2019.

Na linha dos casos expostos, outro leading case foi a plataforma de recrutamento Veryeast.cn que, durante o isolamento, criativamente inovou ao permitir que as empresas de turismo, gravemente atingidas pelos efeitos do Covid-19, pudessem “compartilhar”  seus funcionários com empresas que tiveram crescimento exponencial durante o isolamento, tais como empresas dos setores de logística. Ao “compartilhar” estes funcionários temporariamente as empresas de turismo tiveram uma redução de custos trabalhistas, em outros termos, puderam ter um alívio, enquanto seus negócios se mantivessem ativos. Ao passo que a empresa de recrutamento, pode agregar valor ao seu negócio por meio da inovação.

Em meio aos desafios de fluxos de caixa, estas empresas seguiram a tendência de agregar valor aos seus produtos por meio da inovação enquanto minimizavam os custos de seus negócios. Além disso, recorreram às ferramentas de tecnologia com vistas a aprimorar seus negócios. Muitos são os casos de empresas que recorreram aos modelos analíticos de Big Data, projetando ajustes de informações necessárias aos seus negócios durante a pandemia, enquanto incrementavam os produtos já existentes e/ou desenvolviam novos negócios. Vale ressaltar que manter a alta performance durante períodos de trabalho remoto foi fator preponderante ao sucesso destas companhias.

Deste modo, enquanto milhares de empresas enfrentam a falência na China pós-lockdown, outras, surpreendentemente, emergem mais fortes do que nunca por meio da única chance de sobrevivência que possuem: inovação. Assim, à medida que o resto do mundo ensaia passos para voltar ao normal, a China se prepara para ser uma verdadeira sala de aula para a pauta de inovação por meio de seus modelos de negócios inovadores que desafiam o status quo de mercados estagnados e agregam valor ao mundo pós-COVID19

Fonte: Harvard Business Review, Rodolfo Barrueco é advogado, empresário, fomentador do Innovation Hub do IBMEC e comentarista de inovação e tecnologia, além de advisor sobre novos negócios e tecnologias entre Brasil e China, 9 de setembro de 2020.

4 new shopping trends revealed in post-lockdown China

Four new shopping trends revealed in post-lockdown China | World Economic  Forum
A shopping centre in Wuhan, China, after the COVID-19 lockdown was lifted
Image: REUTERS/Aly Song

Are Chinese consumers really indulging in ‘revenge consumption’ – a phrase coined by Chinese social media users to describe an anticipated flood of post-lockdown purchases – in the post-COVID era?

An analysis of data generated by JD.com’s 618 Grand Promotion – the biggest mid-year shopping festival in China – is a good way to find out. Transaction volumes on JD.com on the first day of this event, which kicked off on 1 June, showed an increase of 74% year-on-year, demonstrating a strong recovery of consumer confidence.

JD’s data and analysis of the first half of 2020 has revealed the following lasting trends, as people gradually adapt themselves to a new shopping normal in the post-COVID era:

1. A big step forwards in online shopping habits

COVID-19 broke out during Chinese New Year, when most shops were closed, and people immediately turned to online shopping to stockpile essentials. Thanks to the readiness of Chinese e-commerce ecosystems in terms of supply chain and logistics, these shopping needs were largely met during the lockdown period. On JD.com alone, more than 160,000 tons of staple items and daily necessities were delivered to customers’ doorsteps in time – helping to prevent a great toilet paper panic from occurring in offline stores.

In the first four months of this year, China’s total retail sales of consumer goods amounted to RMB10.68 trillion ($1.5 trillion), a decrease of 16.2% compared with the same period last year, while sales of online retail reached RMB2.56 trillion ($360 billion), an increase of 8.6%.

This shift from offline to online is significant and has continued after the lockdown, leading customer’s online shopping habits to leapfrog at least one or two years, especially in the grocery category. On the first day of the 618 Grand Promotion, JD Super, JD’s online supermarket, saw its sales increase by 100% while online sales of fresh groceries rose by 140%, compared with the same promotional day last year.

2. More family responsibilities for young consumers

It’s no surprise that young people are the main driver of lockdown shopping, as they are savvier about using online shopping apps. With the extended holiday keeping them at home longer than usual, young people have taken on more responsibilities. Data indicates that since the beginning of this year, more than 70% of consumers born after 1995 have shifted from “buying only for themselves” to “buying necessities for the whole family”.

Furthermore, when many young people returned from major cities to their homes in China’s lower-tier cities, they helped their family members to engage with online shopping – and to some extent they have driven the penetration of brand, quality and authentic products into lower-tier city markets.

These trends became more pronounced during the 618 Grand Promotion period. According to data from JD Super, young people have moved into the kitchen; purchases of kitchen paper towels by young people, for example, has doubled compared with the same period last year. Awareness of the need to protect the family has also strengthened; the data shows a 34-fold increase in transaction volumes of disposable cleaning products and a 340% increase in purchases of sterilization products year-on-year.

3. Shopping frenzy led by livestream and community group buying

To manage social distancing, consumers are using digital to connect, entertain and shop, fuelling a surge in livestreaming by retailers and social e-commerce. These innovative ways to shop have helped bolster sales for both international brands and local businesses.

The travel restrictions and closures of brick-and-mortar stores have not dampened Chinese consumers’ passion for big international brands. Interacting with their favourite brands online, combined with celebrities and attractive offers for fear of price rises later on due to production disruption, is the biggest emerging trend in the post-COVID market – and consumers are saving on travel expenses, too. More and more international brands are jumping on this bandwagon. For example, on 19 March, Canadian fashion brand PORTS did a nine-hour livestream on JD Live, featuring young celebrities and the fashion editor of Elle magazine. Over 1.3 million customers visited the livestream and PORTS’ sales surpassed RMB10 million ($1.4 million) on that day.

On the local business side, livestream and social channels are playing an important role in supporting direct sales for farmers and local factories who have been hit hard by the pandemic. Consumers feel inclined to support them, and are also benefited by these new shopping formats. Under a community group-buying initiative on JD platform, consumers bought over 225 tons of agricultural produce from Wuhan – the first epicentre of COVID-19 – in less than two months. Mingzhu Dong, chairwomen of China’s home appliances brand Gree Electric, staged a livestream session on 15 May and made RMB703 million ($99 million) in sales.

Coronavirus' impact on online traffic of selected industries worldwide
Coronavirus’ impact on online traffic of selected industries worldwideImage: Statista

4. Value for money, comfort and the new normal

As consumers become more cautious in making purchase decisions in the face of ongoing pandemic uncertainty, sales of customized products that are more directly tailored to consumers’ needs are rising. Consumer-to-manufacturer (C2M) products, which are designed based on big data analysis of direct customer feedback, are increasingly popular, satisfying consumer demand and providing good value for money. are increasing popular. These products are designed based on insights gleaned from data generated by targeted consumers and are thus able to provide more customized functions at reasonable cost, resulting in better value for money.

Perhaps as a result of COVID-19, customers are looking to invest more in products and services that provide comfort at home. Data shows that besides books and exercise equipment, expensive home furnishings goods – such as latex mattresses, silk quilts, smart bathroom mirrors and electrically heated towel racks – are in high demand. In addition, demand for pet-related products and virtual support services – such as programmes that store pet profiles and preferences, and online pet hospitals – is also growing.

Although in many respects work and life have resumed in China, shopping data shows that people are shopping with the aim of adapting to the new normal. Here are a few examples: with mandatory mask-wearing in public spaces, sales of lipstick and other facial maintenance products have gone down, while sales of eye-related make-up products as a proportion of category sales have risen; mothers are continuing to buy large amounts of milk powder and diapers in June to ensure they have enough imported supplies for the longer term; and bicycles and electric motorcycles have experienced explosive growth in the post-COVID market.

Source: Vivian Yang, Senior Manager, Global Corporate Affairs, JD.com. Ella Kidron, Senior Manager, Global Corporate Affairs, JD.com

The views expressed in this article are those of the author alone and not the World Economic Forum.

Voos diários de passageiros na China recuperam 80% do nível pré-pandemia

China Southern Airlines to quit SkyTeam alliance - Chinadaily.com.cn

PEQUIM | REUTERS – O número de voos diários de passageiros na China recuperou 80% dos níveis anteriores à crise causada pelo novo coronavírus, disse o regulador de aviação chinês na sexta-feira (24).

As companhias aéreas chinesas operaram 13.059 voos de passageiros nesta quinta-feira (23), informou a Caac (Administração de Aviação Civil da China).

O tráfego diário de passageiros chegou a quase 70% do nível visto no ano passado. Os fatores de aproveitamento (taxa de ocupação das aeronaves) ficando na média de 73,57%.

Mesmo quando a China notificou novos casos de Covid-19 em algumas partes do país, a demanda doméstica de viagens se mostrou robusta, à medida que as restrições de viagens diminuíam e as tarifas aéreas continuavam baratas.

O setor de aviação global está observando atentamente a capacidade na China como um indicador das tendências de recuperação da demanda.

Pequim também está permitindo mais vôos internacionais, mas exige que todos os passageiros de chegada forneçam resultados negativos do teste Covid-19 antes do embarque.

Publicado na Folha de S.Paulo, 24.jul.2020.