Brasil está no pior momento desde o retorno à democracia, diz ‘The Economist’

 — Foto: ReproduçãoPela terceira vez em quase 12 anos, o Cristo Redentor, monumento icônico da cidade do Rio de Janeiro, aparece em destaque na revista britânica “The Economist”, desta vez com uma máscara ligada a um tubo de oxigênio, na capa de um relatório especial sobre o Brasil, sob a manchete “Na beira” [On the brink]. Com dez páginas, o relatório publicado hoje diz que o Brasil enfrenta atualmente a maior crise desde o retorno à democracia, em 1985. O texto responsabiliza o governo do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) pela crise atual e diz que é prioridade do país se livrar dele nas próximas eleições, em 2022.

Os desafios atuais do país, diz a revista, são assustadores, vão desde a estagnação econômica, polarização política, ruína ambiental, regressão social até o pesadelo com a covid-19. E o Brasil, indica o relatório, suporta um presidente que está minando o próprio governo. “Seus comparsas substituíram funcionários de carreira. Seus decretos têm forçado freios e contrapesos em todos os lugares”, diz o texto de abertura do relatório assinado pela correspondente do “The Economist” no Brasil, Sarah Maslin.

Mais quatro anos sob comando de Bolsonaro, diz o texto, podem devastar a Amazônia, onde grande parte da floresta pode se transformar em savana seca.

Bolsonaro, indica a revista, prefere perder um acordo comercial com a União Europeia do que mudar sua política ambiental. “Isso seria ruim para todo o país, que está indo na direção errada por uma década.”

O crescimento está contido, os empregos são escassos, milhões de pessoas passam fome e os políticos pensam apenas em si próprios, diz a revista. “Para um país que gosta de festas, há pouco para comemorar.”

Antes da pandemia, o Brasil estava sofrendo uma década com problemas políticos e econômicos. Com Bolsonaro como seu médico, diz a revista, agora está em coma. A publicação reúne vários números.

Mais de 87 mil brasileiros morreram por covid-19 em abril, a pior taxa de mortalidade mensal do mundo no período, indica. As vacinas são tão escassas que as pessoas com menos de 60 anos não as tomarão até setembro.

E um recorde de 14,4% dos trabalhadores estão desempregados, destaca o texto.

Ainda assim, diz a revista, depois de explicitar que o presidente é antivacina, no dia 1º de maio, bolsonaristas envoltos em bandeiras brasileiras tomaram as ruas, que aplaudiram a recusa do presidente em usar uma máscara, seu apoio à hidroxicloroquina e seu desejo de enviar o Exército para obstruir as medidas de isolamento social.

O relatório da “The Economist” fala da influência dos militares no governo atual. A revista lembra que a ditadura militar do Brasil matou 434 pessoas, muito menos do que os regimes da Argentina e do Chile.

Isso explica em parte como, depois de devolver o poder a um governo civil em 1985, o Exército se tornou a instituição em que os brasileiros mais confiam. É também por isso que Bolsonaro, ex-capitão do Exército, foi capaz de explorar seu passado militar para ser eleito, diz a revista.

“Os generais que se juntaram ao seu governo esperavam fazer avançar a agenda do Exército. Em vez disso, prejudicam sua reputação. Eles foram cúmplices na administração incorreta da pandemia por Bolsonaro, que levou a dezenas de milhares de mortes desnecessárias. Eles não conseguiram fazê-lo assinar contratos para aquisição de vacinas ou impedi-lo de cumprimentar apoiadores quando pegou covid-19, no ano passado”, diz a revista.

O relatório faz críticas duras. Diz que “sob [o ex-ministro Eduardo] Pazuello, o Ministério da Saúde parecia uma ‘boca de fumo’ [a revista cita o termo em português] para hidroxicloroquina”.

O Exército pode descobrir, diz o texto, que tem de escolher entre a democracia e Bolsonaro. Outras instituições brasileiras sobreviveram aos seus ataques, no entanto sua resistência, diz a revista, pode se assemelhar a um jogo de “whack-a-mole”, referindo-se ao brinquedo do bate-martelo, em que se acerta cabeças que vão surgindo.

Na última parte do relatório, intitulada “É hora de partir” a revista lembra que, em 2018, apenas 14% dos brasileiros disseram confiar “muito” no Supremo Tribunal Federal e 3% no Congresso. Bolsonaro explorou essa descrença para ganhar a eleição.

Seus rivais em 2022 devem transformá-la contra ele, aponta o texto. As pesquisas, diz a revista, sugerem que Lula [Luiz Inácio Lula da Silva] venceria um segundo turno. Mas, à medida que a vacinação e a economia se recuperam, o presidente pode recuperar terreno. Segundo a publicação, Lula deve mostrar como o manejo da pandemia custou vidas e meios de sobrevivência, e como Bolsonaro governou para sua família e não para o Brasil. O ex-presidente deve oferecer soluções, não “saudades” [novamente a revista usa o termo em português], aponta a revista.

Em 31 de março, aniversário do golpe militar de 1964, seis potenciais adversários de Bolsonaro na eleição do ano que vem assinaram um manifesto dizendo que a democracia estava “sob ameaça”. Salvá-la exigirá mais do que manifestos, sentencia o texto.

“Os políticos precisam enfrentar as reformas econômicas atrasadas. Os tribunais devem conter a corrupção. E empresas, ONGs e brasileiros comuns devem protestar em favor da Amazônia e da Constituição Federal.”

E a revista acrescenta: “Mas será difícil mudar o curso do Brasil enquanto Bolsonaro é o presidente. A prioridade mais urgente é se livrar dele”, conclui.

É a terceira vez em que o Cristo Redentor aparece com destaque na “The Economist”. A primeira vez, única em que o símbolo apareceu em alusão positiva ao país, rumo ao céu como um foguete, foi em capa em novembro de 2009, quando o Brasil estava “prestes a decolar” [Brazil takes off].

As avaliações sobre a economia brasileira, então, viviam um momento peculiar. Do final dos anos 2000 até meados da década seguinte, os indicadores econômicos registravam sucessivos resultados positivos.

Em setembro de 2013, porém, o Cristo Redentor voltou a aparecer na capa da revista, mas já sob outro tom, em queda após rodopios no ar, sob o título “O Brasil estragou tudo?” [Has Brazil blown it?]. Na época a revista destacou que, depois de crescer 7,5% em 2010 – em plena crise mundial, após a quebra do Lehman Brothers – o país cresceu só 0,9% em 2012.  — Foto: Reprodução — Foto: Reprodução

Fonte: Marta Watanabe, Valor — São Paulo ,

‘The Economist’ diz que Brasil terá ‘década sombria’ em edição especial

Capa Economist
Capa da revista Economist de 5 de junho fala em ‘década sombria’ para o Brasil Foto: Divulgação

A revista britânica The Economist, uma das mais conceituadas publicações do mundo, traz nesta semana uma edição especial sobre o Brasil com uma série de críticas ao governo Jair Bolsonaro. Como em outras vezes que se referiu ao País, a revista traz na capa uma nova ilustração do Cristo Redentor, desta vez respirando com uma máscara de oxigênio.

No especial, que é capa da revista sob o título ‘A década sombria do Brasil’, a revista descreve o presidente brasileiro como um homem que quer “destruir as instituições, não reformá-las”, “esmagou todas as tentativas” de uma exploração sustentável da Amazônia e revelou serem “falsos” todos os votos favoráveis à renovação política.

Ao citar o apoio dos militares a seu governo, a revista diz que os generais que se aliaram a ele “esperavam fazer avançar a agenda do Exército” mas, “em vez disso, prejudicaram suas reputações” e afirma que, “sob Eduardo Pazuello, o Ministério da Saúde parecia uma ‘boca de fumo’ (escrito em português e traduzido) para hidroxicloroquina”.

O especial termina com uma reportagem intitulada “Hora de ir”, que afirma que o futuro do País depende do resultado de 2022. O texto destaca o apoio dos militares ao atual presidente, mas destaca o ônus aos generais em apoiar o presidente e os riscos de o presidente, e seus apoiadores cada vez mais armados, não aceitarem um resultado adverso nas urnas. Em março de 2016, a revista deu a foto da então presidente Dilma Rousseff na capa, também com o mesmo título, “Hora de ir”.

A reportagem aborda a dificuldade dos partidos de centro em encontrar um nome em comum para a disputa do pleito e, ao citar Lula, que lidera as pesquisas eleitorais, afirma que o ex-presidente “precisa mostrar como o manejo da pandemia custou vidas e formas de sustento, e como Bolsonaro governou para sua família e não para o Brasil”. Para a Economist, “o ex-presidente deve oferecer soluções, não ‘saudades’ (escrita em português e traduzida como nostalgia)” dos anos em que governou o País.

Para a revista, “para voltar aos trilhos, o Brasil deve lidar com velhos problemas”, citando favorecimentos fiscais para a indústria e para funcionários públicos e leis tributárias e trabalhistas que distorcem ou desencorajam o investimento. 

A reportagem foi a locais como Camaçari, na Bahia, para mostrar o “sonho adiado” das pessoas que ascenderam à classe C ao longo dos governos Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva mas que, depois de uma série de problemas listados pela publicação (em especial as medidas econômicas adotadas no governo Dilma Rousseff), passaram a viver em um contexto de desemprego e queda de renda. O retrato é Vinícius Rabelo, um neto de plantadores de mandioca que trabalhou na fábrica (recém-fechada) da Ford na cidade e que, hoje, vive como motorista de Uber.

Capas Economist
Outras capas da revista The Economist sobre o Brasil na última década Foto: Economist

A revista cita uma série de problemas que levaram a esse quadro, passando por uma falha do PT em não investir em uma infraestrutura que prometesse ganhos de longo prazo, a política econômica de Dilma, um controle de gastos nunca realizado pelo País e, por fim, a crise do coronavírus e a baixa taxa de vacinação. Porém, a revista aponta “vislumbres de esperança” com a agricultura em alta, as commodities voltando a terem preços em alta e, no caso de Camaçari, a transformação da cidade em um hub logístico entre Salvador e o oeste da Bahia. 

Menos otimista é a reportagem “Andando para trás”, que aborda o fim da Operação Lava Jato sob o governo Bolsonaro e a aliança mal-sucedida entre o presidente e o juiz da operação, Sérgio Moro, “que estava orientando promotores inapropriadamente” durante as investigações. O texto descreve os retrocessos no País para o controle da corrupção, mesmo após toda a investigação feita a partir das delações de executivos da Odebrecht, e ainda cita os esforços do presidente, tensionando as instituições, para proteger os filhos de investigações criminais. A reportagem diz que o caso do “tratoraço”, revelado pelo Estadão, em que o Ministério do Desenvolvimento destinou até R$ 3 bilhões para compras suspeitas de superfaturamento para parlamentares, “minou as alegações de Bolsonaro de que não houve nenhum escândalo desde que ele assumiu o governo”.

A Economist foi ainda para o Território Sete de Setembro, terra indígena na divisa entre Rondônia e Mato Grosso, na reportagem mais longa do especial, “Árvores de dinheiro”, que disseca os conflitos entre indígenas, madeireiros, garimpeiros e criadores de gado, tendo com a preservação da Amazônia como pano de fundo. A reportagem destaca que os povos residentes na região são os mais pobres do País, afirma que as oportunidades de renda a partir das atividades ilegais acabam atraindo mesmo os indígenas moradores das áreas protegidas e que faltam investimentos em pesquisa na região.

O texto fala em “cruzada” lançada pelo ministro Ricardo Salles contra o Fundo Amazônia e relembra da reunião ministerial de abril do ano passado, em que ele sugeriu “ir passando a boiada” de desregulamentação enquanto a atenção da imprensa estava na covid-19 e dá exemplos desse esforço em alterações legais, citando a autorização para garimpo em territórios indígenas. Isso sem deixar de citar a perseguição a agentes da Polícia Federal que investigam Salles.

The Economist - Brasil
Capa da The Economist citando o ‘atoleiro’ em que estava o Brasil  Foto: The Economist / Reprodução

Ao olhar para os demais políticos do País, no texto “Necessidade de reformas”, a publicação britânica diz que “Brasília está cheia de políticos jovens com ideias velhas”, citando frase da deputada federal Joênia Wapixana (Rede), primeira indígena do Congresso. O texto destaca que, depois dos protestos de 2013 e de 2016, que terminaram com o impeachment de Dilma, o parlamento brasileiro sofreu sua maior renovação, mas as expectativas de reformas políticas não se concretizaram. “Reformas mais profundas podem incluir distritos menores, regras de financiamento de campanha mais rígidas e admissão de candidatos independentes. Mas nada disso parece provável”, afirma a Economist.

Ainda no campo político, a revista explora o fator do voto evangélico na disputa eleitoral, e analisa que embora Bolsonaro busque neste eleitorado uma de suas principais bases – e conte com o apoio de líderes das principais denominações – o apoio do público evangélico ao presidente não é claro.

Outras edições especiais sobre o Brasil

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Capa de 2009 mostra o Cristo Redentor decolando  Foto: The Economist / reprodução

A Economist já trouxe edições especiais do Brasil no passado. Em 2009, o Cristo Redentor estava decolando como um foguete, em uma especial intitulada “O Brasil decola”.

Em 2013, a foto era parecida, mas o cristo era um foguete descontrolado, voando a esmo. A reportagem “O Brasil explodiu?” dissecava os problemas econômicos que se vislumbravam naquele ponto, quando o crescimento estava em xeque e a inflação, em alta.

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Capa de 2013 mostra o Brasil desgovernado, com o Cristo Redentor voando a esmo Foto: The Economist / Reprodução

Em abril de 2016, a edição falava colocava o Cristo Redentor pedido socorro. Em editorial, a revista diz que a presidente Dilma Rousseff tem responsabilidade sobre o fracasso econômico, mas que os que trabalham para tirá-la do cargo “são, em muitos aspectos, piores” e cita Eduardo Cunha como exemplo. “No curto prazo, o impeachment não vai resolver isso”. Por isso, a revista defendia novas eleições gerais.

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Em capa de 2014, The Economist colocou na capa o Cristo Redentor com uma placa de socorro SOS Foto: The Economist / reprodução

Em 2019, no começo do governo Bolsonaro, a capa trouxe a ilustração de uma floresta de tocos de árvores e teve foco na expectativa de aumento do desmatamento sob a gestão do então recém-empossado presidente.

Fonte: The Economist / Redação, O Estado de S.Paulo, 03 de junho de 2021 | 12h00. Atualizado 03 de junho de 2021 | 14h02.

Brasil: Subemprego, baixa produtividade e rombos travam crescimento do país

Apesar da recuperação prevista para 2021 e 2022, o mercado de trabalho na baixa renda deve manter tendência da última década de crescente informalidade.

Segundo especialistas, essa será uma das principais travas à aceleração do crescimento e para o resgate de milhões de brasileiros que se tornaram miseráveis na pandemia.

Na década passada, o Brasil teve o pior desempenho dos últimos 120 anos, empurrando os menos qualificados para a informalidade —área da economia que paga, produz e cresce menos, comprometendo sua evolução média.

Na pandemia, mesmo o trabalho informal foi dizimado pela paralisia do setor de serviços, responsável por 70% do PIB (Produto Interno Bruto) e dos empregos, metade deles fora da formalidade.

As principais ocupações desse segmento (trabalhadores domésticos e empregados do setor privado sem carteira, conta própria sem CNPJ, entre outros) perderam até 20% das vagas.

Já os menos instruídos, majoritariamente informais e que não chegaram a completar o ensino médio, viram até 17% da renda desaparecer, segundo o Ibre-FGV (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas) com base em pesquisas do IBGE (Pnad e Pnad-Covid-19).

Na retomada atual, ainda tímida e incerta pela falta da vacinação em massa, será necessário que a hoje metade da força de trabalho informal recupere melhores níveis de ocupação e renda para voltar a consumir e, assim, acelerar crescimento, investimentos e contratações.

O estrago da pandemia no mercado informal não apenas ampliou a desigualdade —pois os mais ricos e escolarizados recuperaram a renda— como fez a pobreza extrema voltar ao patamar de meados dos anos 2000.

No primeiro trimestre de 2021, os miseráveis (renda mensal inferior a R$ 246/mês) somavam 16% da população, ou 35 milhões de pessoas. Em 2019, antes da pandemia, eram 24 milhões na pobreza extrema, ou 11% do total.

Segundo o Datafolha, entre os mais pobres, com até o ensino fundamental, 40% dizem estar faltando comida em casa.

Desde agosto do ano passado, segundo a FGV Social, quase 32 milhões de pessoas deixaram a classe C (renda domiciliar entre R$ 1.926 a R$ 8.303). A maioria (24,4 milhões) desceu à classe E (renda até R$ 1.205) ou direto à miséria.

Para a consultoria Tendências, as classes D/E, agora mais numerosas, devem amargar mais 15% de perda de renda neste ano, travando a recuperação via consumo das famílias —que foi, até a pandemia, o principal motor da economia.

A alternativa seria o país crescer apoiado em maiores taxas de investimento e poupança. Mas ambas estão nos menores patamares desde os anos 1980.

Como agravante, ao contrário das crises socioeconômicas na década de 1980 e início dos anos 1990, desta vez o Brasil não tem muita munição para resgatar os mais pobres via programas de transferência de renda —como fez com iniciativas focalizadas nos anos 1990 (governo FHC) e com o Bolsa Família nos 2000 (Lula).

De 1980 para cá, a carga tributária, que financia esse tipo de programa, saltou de 24,5% como proporção do PIB para 35,2%; e a dívida pública bruta encostou em 90%.

Os dois indicadores são os maiores na comparação com grandes emergentes e estão na raiz da atual crise fiscal brasileira —anterior à pandemia, quando o país vinha crescendo ao redor de 1% ao ano.

“A dívida pública muito alta provoca uma insegurança que é transmitida para o dólar [no qual busca-se proteção], que pressiona a inflação [via importações], levando o Banco Central a subir os juros para segurar os preços. O resultado é uma atividade mais fraca e vagas de pior qualidade”, diz Fernando Veloso, doutor em economia pela Universidade de Chicago e pesquisador do Ibre-FGV.

Veloso observa que, desde a recessão de 2014 a 2016, a geração de vagas tem sido predominantemente informal, o que produz “marcas duradouras” no mercado de trabalho, compromete a produtividade e o crescimento.

“O que vimos a partir de 2017 foi um padrão de informalidade muito maior do que na saída de outras crises”, diz, acrescentando que isso traz “um risco elevado de que o aumento na taxa de pobreza torne-se estrutural.”

Para Marcelo Neri, diretor da FGV Social, trata-se de um “paradoxo” o Brasil ter hoje taxas altas de pobreza extrema e serviços públicos de má qualidade com carga tributária e dívida pública tão elevadas.
“Temos por aqui uma espécie de ‘Esgana’: carga tributária da Espanha e serviços públicos e padrões de Gana.”

O economista afirma que, se a hiperinflação foi o grande problema dos anos 1980, o governo Jair Bolsonaro agregou às duas mazelas atuais (baixo crescimento e alta desigualdade) um enorme grau de instabilidade socioeconômica —o que é muito ruim especialmente para os mais pobres.

Segundo Pedro Loureiro, professor na área de estudos latino-americanos na Universidade de Cambridge, no Reino Unido, o atual momento brasileiro tende, além de piorar a taxa de pobreza, a aumentar a desigualdade.

“Em um cenário sem crescimento, alguém tem de cair para que o outro melhore.”

Não apenas, mas no Brasil em particular, o resultado da pandemia tem sido uma recuperação em forma de “K”: o emprego tem reagido lentamente para todos os grupos, mas, enquanto os mais qualificados e ricos voltaram ao nível de 2019, os menos escolarizados e pobres permanecem 20% abaixo.

O economista Naercio Menezes, do Insper, lembra que os 10% mais ricos no Brasil concentram 1/3 do consumo total.

E que as mudanças de comportamento dessa faixa no consumo —mais home office; menos idas a lojas e restaurantes— podem ter impactos duradouros no emprego de funções menos especializadas, como faxineiros em escritórios, vendedores e garçons.

Segundo a FGV, quase sete em dez empregos já estão em setores com baixo conteúdo tecnológico, com salários 40% abaixo da média nacional.

“E, quanto mais tempo os jovens permanecerem desempregados, mais sua trajetória profissional será afetada, diminuindo a produtividade e salários no futuro, empurrando-os para a criminalidade e aumentando a desigualdade de renda”, diz Menezes.

Para Sérgio Vale, economista-chefe da MB Associados, os anos à frente no Brasil podem ser “trágicos”, com o governo Bolsonaro deixando uma “verdadeira herança maldita” para o próximo presidente ou para si mesmo, caso seja reeleito.

Vale lembra que, além de a criação de subempregos ter praticamente dobrado nos últimos seis anos, a taxa de desocupação acima de 10% já se arrasta por mais de meia década.

“Isso fragiliza qualquer economia e fica muito difícil para as pessoas voltarem ao mercado formal, tornando o subemprego algo permanente, perpetuando a pobreza e a desigualdade.”

Samuel Pessôa, economista da FGV-Ibre e colunista da Folha, tem uma visão um pouco mais otimista, embora diga que o Brasil “parece ter se casado com a mediocridade”.

Segundo ele, desde o final de 2020, notícias positivas na economia surpreendem, sobretudo no início de 2021, quando muitos apostavam que o país recairia na recessão.

Para Pessôa, 2022 pode ter “uma cara de 2002”, quando a economia reagiu positivamente, inaugurando um ciclo de crescimento baseado no boom nos preços das commodities que o Brasil exporta —algo que se repete agora em menor escala, por enquanto.

No começo dos anos 2000, quando o real também estava muito desvalorizado, esse boom foi crucial para o Brasil consertar suas contas externas e acumular cerca de US$ 350 bilhões (R$ 1.855 trilhão) em reservas —o que hoje garante certa tranquilidade nesse front.

“No final, as coisas devem ir se arrumando, mas dentro de nossa mediocridade. O sonho de que o Brasil poderia se tornar algo grande, porém, parece ter desaparecido”, diz Pessôa.

Fonte: Fernando Canzian, Folha de S.Paulo, 22.mai.2021 às 23h15

Afinal, Brasil vacina pouco ou muito? Confira 5 dados do ranking global

Parcela da população vacinada contra covid ao longo do tempo. Taxa de pessoas que receberam pelo menos uma dose da vacina, em %.  .

A comparação pode ser feita também com o próprio Brasil. O Ministério da Saúde afirma que o país tem capacidade instalada de vacinar 2,4 milhões por dia. E já chegou a vacinar 18 milhões de crianças em campanha contra a poliomielite. Mas desde 17 de janeiro de 2021, o Brasil só superou três vezes a marca de 1 milhão de vacinados em 24h.

A BBC News Brasil apresenta abaixo cinco gráficos para localizar o país nessa corrida contra a própria doença, que levou o sistema de saúde nacional ao colapso e matou mais de 340 mil pessoas no Brasil até agora.

Os dados brasileiros, descentralizados, costumam ter ligeiras diferenças a depender da fonte: governo federal, secretarias de saúde, pesquisadores independentes ou consórcio de veículos jornalísticos. As comparações abaixo se baseiam nos dados mais recentes de cada país e coletados no portal de Oxford.

Até o momento, 387 milhões de pessoas receberam pelo menos uma dose contra a covid-19 ao redor do mundo, equivalente a cerca de 5% da população.

Que porcentagem da população recebeu pelo menos uma dose? Brasil em 68º lugar

Até o dia 06/04, o Brasil havia aplicado pelo menos uma dose em 8,4% da população brasileira. Isso coloca o país em 68º lugar no ranking de 166 nações e territórios.

Na América, o Brasil figura em 12º lugar. O país mais bem posicionado do continente é o Chile, que aplicou pelo menos uma dose em 37% da população. E mesmo com o avanço expressivo da vacinação por lá, o país sul-americano também tem enfrentado um colapso no sistema de saúde, o que indica que a contenção da pandemia precisa ser associada a medidas eficazes de distanciamento social e uso universal de máscaras capazes de evitar a infecção.

Parcela da população vacinada contra covid ao longo do tempo. Taxa de pessoas que receberam pelo menos uma dose da vacina, em %.  .

Que porcentagem da população recebeu duas doses? Brasil em 56º lugar

Com exceção da vacina da farmacêutica Janssen, todos os imunizantes precisam de duas doses para atingir a máxima eficácia contra o coronavírus. Em geral, uma pessoa pode ser considerada completamente imunizada duas semanas depois de receber a segunda dose.

Alguns países decidiram ampliar o período entre as duas doses, a fim de garantir logo a imunização parcial de uma fatia maior de sua população, como o Reino Unido.

No ranking da proporção da população que recebeu duas doses, o Brasil (2,4%) aparece em 56º no mundo e 8º na América.

Qual é a velocidade do programação de vacinação? Brasil em 58º lugar

No quesito velocidade de doses aplicadas diariamente por cada 1 milhão de habitantes, o Brasil (3.111) aparece em 58º no mundo e 10º na América.

Como dito acima, o Brasil tem uma enorme capacidade instalada por trás de um programação nacional de vacinação reconhecido mundialmente, mas a falta de vacinas impede o país de atingir os níveis de imunização de outras décadas. Na pandemia de H1N1, por exemplo, o Brasil imunizou quase 80 milhões de pessoas em três meses.

Na pandemia atual, o governo federal distribuiu de 17/01 a 07/04 quase 43,3 milhões de doses para Estados e municípios, mas apenas 24,2 milhões tinham sido aplicadas, segundo dados do Ministério da Saúde.

Média de vacinas contra covid-19 aplicadas diariamente no Brasil. .  .

A diferença entre o número de doses distribuídas e aplicadas no Brasil se explica em parte à necessidade de reservar uma quantidade como segunda dose, e uma eventual escassez poderia afetar a imunidade dos vacinados. Para tentar acelerar a vacinação, o governo federal recomendou utilizar essas reservas como primeira dose porque fornecedores garantiram as entregas (que já sofreram novos atrasos depois disso).

Mas essa mudança de orientação federal ainda não surtiu efeito no ritmo de vacinação, e, diante da escassez e de atrasos, é provável que muitos gestores mantenham a política de reservar doses para a segunda aplicação semanas depois da primeira. A eficácia contra a covid só é garantida semanas depois da aplicação da segunda dose.

Um estudo recente da UFJF (Universidade Federal de Juiz de Fora) apontou que que Brasil precisa vacinar 2 milhões por dia para controlar pandemia em até um ano. E atualmente o país mal tem conseguido passar de 1 milhão por dia.

Quantas doses foram compradas ao todo? Brasil em 6º lugar

A aceleração das aplicações na pandemia esbarra em um problema mundial: a falta de vacinas.

No caso brasileiro, isso se agravou porque o governo Bolsonaro recusou sucessivas ofertas da Pfizer, apostou todas as fichas na vacina AstraZeneca-Oxford, ameaçou boicotar a Coronavac por disputas políticas com o governo de São Paulo e só decidiu comprar outras vacinas quando a fila de países compradores já “dobrava a esquina”.

No papel, o cronograma atual do Ministério da Saúde prevê 563 milhões de doses, e a entrega de 154 milhões delas no primeiro semestre de 2021, considerando apenas vacinas aprovadas pela Anvisa: Coronavac, AstraZeneca-Oxford e Pfizer.

Isso seria suficiente para imunizar o grupo prioritário inteiro, mas não significa que todas essas 78 milhões de pessoas estariam vacinadas antes de julho — o Brasil tem conseguido aplicar cerca de metade das doses disponíveis e há um intervalo de semanas entre a primeira e a segunda dose.

Cronograma previsto de entregas mensais de vacina contra covid-19. Em março, governo Bolsonaro mudou cinco vezes previsão de doses abaixo, em milhões.  .

Mas os constantes atrasos em importações de insumos e vacinas, além de problemas na produção em território nacional e a não aprovação de outros imunizantes por parte da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) fazem com que esse cronograma seja cada vez mais difícil de ser atingido.

Levantamento da Universidade de Duke aponta que o Brasil é o sexto maior comprador de vacinas no mundo, com 370 milhões de doses compradas (e outras 208 milhões com opção de compra negociada).

Ele fica atrás da União Europeia (1,8 bilhão), dos EUA (1,2 bilhão), do consórcio Covax (coordenado pela Organização Mundial da Saúde para beneficiar países mais pobres com 1,1 bilhão de doses), da União Africana (670 milhões) e do Reino Unido (457 milhões).

Quantas doses foram aplicadas ao todo? Brasil em 5º lugar

O dado do total de doses aplicadas no Brasil é o principal argumento utilizado para exaltar o avanço do programa de vacinação brasileiro.

Nesse quesito, o Brasil aparece em 5º lugar no ranking global, com 22,8 milhões de aplicações até o dia 06/04. Fica atrás de EUA (168,5 milhões), China (145,9 milhões), Índia (87 milhões) e Inglaterra (31,1 milhões).

Países que mais aplicaram doses de vacina contra a covid-19. Números absolutos não levam em conta tamanho da população de cada nação.  .

A vacinação no mundo                             

LugarDoses por 100 pessoasTotal de doses
Mundo16,61.297.543.452
China22,5326.167.369
Estados Unidos77,7259.716.989
Índia12,2168.304.868
Reino Unido79,453.041.048
Brasil22,146.875.460
Alemanha41,134.408.840
França37,325.414.386
Turquia29,524.918.773
Itália39,824.054.000
Indonésia8,021.993.299
Rússia14,921.754.829
México16,521.228.359
Espanha40,719.048.132
Canadá42,215.917.555
Chile82,115.703.842
Polônia36,113.670.541
Emirados Árabes Unidos112,711.145.934
Arábia Saudita30,410.584.301
Israel121,310.501.225
Marrocos26,79.864.561
Bangladesh5,79.316.086
Argentina20,19.082.597
Hungria70,56.809.350
Colômbia12,06.096.661
Romênia30,65.891.855
Holanda33,05.651.843
Bélgica39,64.591.359
Japão3,54.436.325
Coreia do Sul8,24.181.003
Portugal38,93.963.372
Sérvia55,83.798.942
Suécia36,43.679.451
República Tcheca34,13.654.376
Grécia35,03.647.689
Áustria40,33.632.879
Paquistão1,53.320.304
Suíça34,73.001.029
Camboja17,32.884.922
Austrália10,42.654.338
Nepal8,42.453.512
Filipinas2,22.408.781
República Dominicana21,62.345.528
Dinamarca40,42.339.464
Cingapura37,82.213.888
Mongólia67,52.213.376
Cazaquistão11,52.158.924
Finlândia38,92.154.469
Uruguai57,72.005.442
Peru5,91.939.155
Noruega35,41.919.369
Catar62,91.813.240
Tailândia2,61.809.894
Irlanda36,41.799.190
Eslováquia32,81.792.674
Malásia5,51.766.651
Azerbaijão16,61.687.397
Nigéria0,81.665.698
Irã1,81.485.287
Kuwait33,71.440.000
Bahrein80,91.375.967
Equador7,11.245.822
Etiópia1,11.215.934
Lituânia42,71.162.170
Croácia27,61.131.607
Sri Lanka5,31.125.740
El Salvador17,21.114.544
Jordânia10,71.091.048
Mianmar1,91.040.000
Costa Rica18,7950.252
Bulgária13,5938.064
Bolívia7,5878.563
Ucrânia2,0863.085
Quênia1,6853.081
Gana2,7849.527
Panamá18,1780.569
Eslovênia35,5737.817
Zimbábue4,6684.243
Egito0,6660.000
Uzbequistão1,8600.369
Albânia20,7596.766
Estônia40,1532.605
Vietnã0,5509.855
Líbano7,5509.705
Tunísia4,2499.369
Butão62,4481.491
Angola1,4456.349
Maldivas79,9431.792
Senegal2,6427.377
Uganda0,9395.805
Letônia21,0395.512
África do Sul0,6382.480
Malta81,4359.429
Ruanda2,7350.400
Chipre38,0332.423
Bielorússia3,5328.500
Omã6,4326.269
Malauí1,7319.323
Nova Zelândia6,3304.900
Iraque0,7298.377
Costa do Marfim1,0262.639
Venezuela0,9250.000
Afeganistão0,6240.000
Luxemburgo36,3227.314
Territórios Palestinos4,2213.989
Guatemala1,2206.951
Moldávia4,6184.660
Laos2,5184.387
Islândia54,0184.304
Guiné1,3173.623
Guiné1,3173.623
Togo1,9160.000
Paraguai2,0143.441
Sudão0,3140.227
Jamaica4,6135.473
Nicarágua2,0135.130
Seicheles129,9127.721
Guiana16,1126.800
Somália0,7117.567
Maurício9,2117.323
Montenegro17,4109.507
Macedônia do Norte5,2107.978
Bósnia-Herzegóvina3,2106.464
Taiwan0,492.049
Suriname15,490.338
Jersey87,588.404
Zâmbia0,477.348
Ilha de Man89,175.783
Guiné Equatorial5,475.518
Barbados26,375.476
Argélia0,275.000
Gibraltar220,474.256
Ilhas Cayman106,269.772
Serra Leoa0,864.966
Trinidade e Tobago4,461.120
Geórgia1,558.533
Bermuda93,458.193
Honduras0,657.639
Moçambique0,257.305
Fiji6,256.000
Mali0,249.903
Botsuana2,149.882
Belize12,047.675
Guernsey69,546.587
Namíbia1,436.417
Eswatini3,034.897
San Marino100,234.011
Dominica44,532.008
Antigua e Barbuda30,429.754
Andorra37,428.881
Quirguistão0,427.858
Bahamas6,525.692
Santa Lúcia13,725.200
Ilhas Turks e Caicos64,725.039
Mônaco62,124.390
Ilhas Faroe48,123.519
Kosovo0,00022.096
Gâmbia0,920.922
Granada15,117.000
Lesoto0,716.000
São Vicente e Granadinas13,114.526
Congo0,314.297
Groenlândia25,114.278
Liechtenstein36,313.829
Comores1,513.440
São Cristóvão e Nevis24,613.070
Camarões0,04111.000
Brunei2,410.715
Djibuti1,010.246
São Tomé e Príncipe4,49.724
Gabão0,48.897
Samoa3,77.435
Mauritânia0,27.038
Anguilla46,06.898
Tonga5,15.367
Ilhas Salomão0,74.890
Santa Helena, Ascensão e Tristão da Cunha75,34.572
Ilhas Malvinas ou Falkland126,54.407
Papua Nova Guiné0,0322.900
Timor Leste0,22.629
Síria0,0142.500
Cabo Verde0,42.184
Montserrat38,21.909
República Democrática do Congo0,0021.700
Níger0,0061.366
Sudão do Sul0,009947
Líbia0,011750
Nauru6,5700
Armênia0,019565
Benin00
Burkina Fasso00
Burundi00
Chade00
Coreia do Norte00
Cuba00
Eritreia00
Guiné-Bissau00
Haiti00
Iêmen00
Ilhas Cook00
Ilhas Geórgia do Sul e Sandwich do Sul00
Ilhas Pitcairn00
Ilhas Virgens Britânicas00
Kiribati00
Libéria00
Madagascar00
Niue00
República Centro-Africana00
Tadjiquistão00
Tanzânia00
Território Britânico do Oceano Índico00
Toquelau00
Turcomenistão00
Tuvalu00
Vanuatu00
Vaticano00

Atenção: estes dados são atualizados constantemente mas podem não refletir os números mais recentes de cada país. O total de vacinações se refere ao número de doses aplicadas, não ao número de pessoas vacinadas, por isso é possível ter mais de 100 doses para cada 100 pessoas.

Fonte: Our World in Data, ONS, gov.uk / Última atualização: 10 de maio de 2021 12:03 GMT

Fonte: Matheus Magenta, Da BBC News Brasil em Londres, 8 abril 2021

De cada 10 empresas abertas no Brasil em 2020, 8 foram MEIs

Gabriel Cabral/Folhapress

O Brasil abriu 3,3 milhões de empresas em 2020, um aumento de 6% em relação a 2019. Os números mostram o avanço durante a pandemia dos microempreendedores individuais (os MEIs), que responderam por 79,3% dos novos CNPJs.

Os MEIs representaram 56,7% das 19,9 milhões de empresas no Brasil ao fim de 2020 (o número considera CNPJs ativos, não considerando se estão com operações em funcionamento ou não).

O Ministério interpreta que o crescimento dos microempreendedores decorre de fatores como uma busca por medidas emergenciais do governo (como as de crédito a empresas) e a demanda observada a partir da mudança de comportamento de consumo da população.

Gleisson Rubin, secretário-adjunto de Desburocratização, Gestão e Governo Digital do Ministério da Economia, afirma que há evidências de mudanças no padrão de consumo influenciando a abertura de empresas, principalmente na prestação de serviços e comércio na forma de delivery (como entrega de alimentos).

“É possível que vejamos fenômeno similar [à da entrega de alimentos] na prestação de serviço. No e-commerce de maneira geral, há um movimento de substituição de lojas físicas por empresas que só funcionam no ambiente virtual”, afirmou.

O comércio digital mostrou crescimento em todo o mundo após a pandemia e as medidas de distanciamento social. No Brasil, estimativas do Ministério da Economia apontam que a modalidade tenha avançado mais de 40% no ano passado.

Os dados mostram que o número de empresas abertas em 2020 foi puxado por comércio varejista de vestuário e acessórios; promoção de vendas; cabeleireiros, manicure e pedicure; e fornecimento de alimentos preparados preponderantemente para consumo domiciliar.

O Ministério da Economia avalia que a abertura de empresas mesmo em um momento de crise ocorreu graças a medidas que facilitaram o ambiente de negócios, como a expansão de atividades que dispensam alvará ou licença para funcionamento.

Entre os setores que tiveram flexibilização estão o fornecimento de alimentos preparados preponderantemente para consumo domiciliar, além de restaurantes e similares. As medidas foram adotadas após a aprovação da Lei da Liberdade Econômica, que flexibilizou regras para empresas.

O Ministério também vê redução na burocracia para abrir empresas. O tempo para abertura de CNPJs no Brasil chegou a uma média de 2 dias e 13 horas no fim de dezembro, um recorde resultado de uma redução de 11,6% em relação a quatro meses antes e 43% em relação ao fim de 2019.

Dentre as medidas que reduziram o tempo está a simplificação do registro de empresários individuais após a Lei da Liberdade Econômica, como a implantação do registro automático do CNPJ nas Juntas Comerciais após pedido.

Também ajudou a impulsionar parte dos números de MEIs a influência do auxílio emergencial, pago mensalmente a microempreendedores.

“É claro que existe [influência do auxílio emergencial]. Fizemos uma análise de buscas por auxílio emergencial e MEI no Google, e teve um pico quando foi anunciado o auxílio. [Mas] o número de crescimento de MEI não destoa de anos anteriores. Contribuiu, mas não é a única razão que respondeu [pelo avanço]”, disse Antonia Tallarida, subsecretária de Desenvolvimento das Micro e Pequenas Empresas.

Para ela, os dados ressaltam a importância do microempreendedor para a economia brasileira e mostram que o MEI deve ser um dos pilares da retomada da atividade.

Apesar da abertura de empresas em 2020, o crescimento de 6% no total (para 19,9 milhões) representa uma desaceleração em relação a anos anteriores. Em 2019, houve crescimento de 20,3% nos CNPJs brasileiros (para 18,7 milhões). De 2017 a 2019, houve avanço médio anual de 15,8%.

O mesmo é observado com relação a MEIs –que, por outro lado, tiveram um avanço maior que o das empresas em geral. Houve avanço de 8,4% nos CNPJs de MEIs no ano passado (para 11,2 milhões). Em 2019, o crescimento foi de 23,9% (para 8,5 milhões). De 2017 a 2019, houve avanço médio anual de 19,2%.

Já o fechamento de CNPJs medido pelo Ministério da Economia mostrou uma desaceleração em relação a 2019. Foram 1,04 milhão de encerramentos em 2020 frente a 1,18 milhão um ano antes.

Os dados de fechamento refletem apenas CNPJs extintos, não considerando se a empresa está de fato em atividade. Isso porque os empreendedores não são obrigados a extinguir o CNPJ quando encerram as operações, e até existe desestímulo a isso devido à transferência de eventuais dívidas ao CPF dos sócios.

Fonte: Fábio Pupo, Folha de S.Paulo, Atualizado: 2.fev.2021 às 18h02.

Saída da Ford impacta vários setores

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O fim da produção da Ford no Brasil pode representar perda de até 0,06% no Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro de 2021 – o que representa R$ 3,8 bilhões – e de 0,28% no resultado acumulado ao longo de 20 anos até 2040 (R$ 16 bilhões). Os cálculos são de pesquisadores do Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional, da Universidade Federal de Minas Gerais (Cedeplar/UFMG).

As estimativas não consideram eventual substituição da produção da Ford por concorrentes nem a incorporação de suas fábricas por outras empresas. Mas, mesmo que isso ocorra, as perdas para a economia ainda seriam significativas e não há cenário de impacto neutro, dizem os pesquisadores.

O estudo aponta destruição de mais de 50 mil vagas formais de trabalho diretas e indiretas só neste ano devido à decisão da Ford, considerando toda a cadeia produtiva. As perdas de postos de trabalho se acentuariam até 2025 (com mais de 70 mil), mas aos poucos vão sendo reduzidas, até pouco mais de 11 mil em 2040.

É este um dos aspectos que tornam mais grave a decisão da Ford, segundo especialistas: o efeito cascata em outros ramos da cadeia de suprimentos de uma montadora de peso, sobretudo siderurgia, plástico, borracha e química. Há quem acredite, no entanto, na tendência de substituição dessa produção por concorrentes em um cenário de alta capacidade ociosa do setor no Brasil, em torno de 40%.

O estudo é feito a partir de um modelo de simulação que contempla a relação entre os setores da economia (matriz de insumo-produto do IBGE) e usa outros indicadores como a Relação Anual de Informações Sociais (Rais). É considerado um crescimento médio anual do PIB de 2,2% nos próximos 20 anos.

“A saída da Ford fatalmente vai encolher a produção do setor em 2021 e no médio prazo, com impacto na cadeia produtiva e no emprego. É um setor que tem muitos encadeamentos industriais. O modelo também capta queda de geração de renda desses trabalhadores, que afeta outros setores como serviços e agricultura”, diz um dos autores, o professor de economia da UFMG Edson Domingues.

Fonte: Lucianne Carneiro e Gabriel Vasconcelos, Valor, 15/01/2021.

Brasil segura queda do PIB na pandemia, mas desemprego e dívida superam emergentes

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Anna Kapustina/Pexels

O Brasil apresentou retração econômica menos forte do que pares emergentes durante a pandemia do novo coronavírus em 2020, principalmente por criar medidas como o auxílio emergencial para mais de 60 milhões de pessoas.

No entanto, o país aumentou de forma expressiva seu já elevado endividamento e deixou de tomar medidas permanentes como reformas para a revisão do Orçamento público enquanto vê problemas sociais como o desemprego avançarem.

Na comparação entre 14 países (sendo sete emergentes e sete desenvolvidos), o Brasil figura na quinta melhor posição quando o critério é previsão para o PIB (Produto Interno Bruto) em 2020. O Brasil fica atrás apenas de China, Rússia, Estados Unidos e Japão.

Os dados são do FMI (Fundo Monetário Internacional) e foram compilados pela FGV (Fundação Getulio Vargas) a pedido da Folha.

A posição no ranking de 2020 foi alcançada após uma emissão significativa de dívida para bancar as medidas anticrise, o que gerou o segundo maior pacote de estímulos fiscais da América Latina (11,1% do PIB), de acordo com o Banco Mundial.

Rafael Muñoz Moreno, economista-sênior do Banco Mundial e colunista da Folha, afirma que as medidas brasileiras foram fortes e abrangentes.

“A resposta contracíclica do Brasil foi bem grande. Foi um pacotão com várias características, incorporando transferências sociais, auxílio a empresas e ajuda para manter empregos”, diz à Folha.

Outro ponto considerado positivo foi a real execução das medidas. Cerca de 40 dias após a confirmação do primeiro caso, o auxílio emergencial começou a ser creditado nas contas da população.

“Não são todos os países que conseguiram implementar [as medidas anunciadas], e estamos falando de milhões de brasileiros recebendo dinheiro em suas contas”, diz.

Ele considera fundamental para a velocidade da implementação a existência de uma rede prévia de proteção social formada ao longo dos governos anteriores.

“O Brasil já tinha sistemas para isso. O fato de já ter o Cadastro Único [de recebedores de programas sociais], o fato de já ter um Bolsa Família, tudo isso fez com que o Brasil tivesse uma resposta mais rápida”, diz.

Por outro lado, as medidas custaram R$ 620 bilhões e farão a dívida bruta do Brasil saltar de 75% para 91% do PIB. Em valores brutos, o valor já passa de R$ 4,7 trilhões.

Nos últimos meses, o Tesouro Nacional tem enfrentado juros mais caros e prazos de vencimento mais curtos diante de fatores como a maior percepção de risco dos investidores no longo prazo.

O significativo aumento da dívida não será exclusividade do Brasil. Países como México, Chile, Colômbia e Peru verão aumentos de mais de 10 pontos percentuais de suas obrigações em relação ao PIB.

A grande diferença entre o Brasil e seus pares na região, diz o Banco Mundial, é que o crescimento da dívida do país parte já de uma base muito alta, apenas com a Argentina tendo um nível parecido.

Por isso, Muñoz diz que o país deve entrar no segundo tempo do jogo e encarar mudanças estruturais para buscar o reequilíbrio das contas e crescer.

“Entramos em um momento em que temos que verbalizar as reformas, porque a urgência delas aumentou. Elas são mais necessárias que nunca”, afirma.

Um dos principais objetivos é acelerar o crescimento para gerar postos de trabalho. A previsão dos dados do FMI colhidos pela FGV é que o desemprego no Brasil fique acima de 14% em 2021, o segundo maior entre todas as 15 economias analisadas (só não em situação pior que a África do Sul).

Pela metodologia do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), a taxa de desocupação já chegou a um recorde de 14,2% em novembro.

Marcel Balassiano, pesquisador da área de economia aplicada do FGV/IBRE (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas), afirma que o país se comportou mal durante a pandemia.

Ele lembra de fatos como as trocas de ministros da Saúde em plena crise e a escalada nas infecções, que acabaram obrigando os gastos orçamentários.

A própria espera pela vacinação enquanto países desenvolvidos já imunizam suas populações arrisca a necessidade de mais medidas extraordinárias e atrasa a retomada do país, diz.

Apesar disso, Balassiano afirma que, mesmo sem a pandemia, a situação do Brasil não seria tão animadora, já que nos últimos dez anos a atividade cresceu 0,2% ao ano em média. “O coronavírus não é a raiz dos nossos problemas, ele os reforçou”, afirma.

Para ele, acelerar o crescimento é ainda mais necessário depois da Covid-19 porque o país entrou na pandemia sem ter se recuperado totalmente das crises de 2015 e 2016.

“Precisamos recuperar as perdas dessa década. Por isso as reformas são tão importantes”, diz. ​Entre as listadas pelos especialistas, estão as reformas administrativa, tributária e outras que estimulem a competitividade.

A OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), por exemplo, defende que o governo melhore a eficiência de gastos, amplie a produtividade e aprimore políticas de capacitação profissional.

A Organização afirmou em relatório neste mês que um programa de reformas ambicioso para melhorar a regulamentação e a concorrência, reduzir as barreiras ao comércio exterior e reforçar as instituições e a governança econômica impulsionaria o crescimento do PIB per capita em 0,9 ponto percentual ao ano durante 15 anos.

Fonte: Fábio Pupo, Folha de S.Paulo, 26.dez.2020 às 20h00.

Reajuste do aço

preço do aço inox
fonte: Abinox
preço do aço inox
Fonte: Abinox
preço do aço inox
Fonte: Abinox

Os preços do aço devem sofrer reajustes pelo terceiro mês consecutivo em novembro. Os aumentos devem girar em torno de 4,5% a 10%, apurou o Valor.

A Usimina s e a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) implementaram os reajustes a partir de ontem e a ArcelorMittal aumentará os preços a partir de amanhã.

Esse é o quarto reajuste no segundo semestre e, segundo uma fonte do setor, deverá ser o último do ano. “Com esses aumentos, a diferença entre o aço importado e o produzido no país fica inexistente. Esses reajustes devem ser implementados em sua totalidade porque a demanda está crescente no mercado brasileiro.”

Fonte: Valor, 4/11/2020.

Inteligência Competitiva: Cenário delicado nos próximos meses

Coronavírus hoje: Brasil chega a 486 mortes e 11.130 casos confirmados, diz  Ministério | Internacional e Commodities | Valor Investe

Esta fala de Paulo Guedes provocou um certo tumulto no mercado financeiro recentemente. É, evidentemente, um exagero, dado que a inflação está pressionada, mas na faixa dos 3% anuais. Ela ilustra uma dificuldade que é a retórica descuidada do ministro, que continua dando problemas. Esta envolve, pelo menos, três questões recorrentes.

Em primeiro lugar, exageros e brincadeiras fora de hora, como aquela em que dizia que “estava uma festa danada, com empregadas domésticas viajando para a Disney”. Além disso, há um exagero nas suas metas e números: a privatização geraria R$ 2 trilhões de receita e a venda de imóveis da União traria outro trilhão, números totalmente fantasiosos. Basta ver que nenhum projeto relevante de privatização foi adiante até hoje, em quase dois anos de governo.

Finalmente, já motivo de galhofa, os inúmeros projetos que serão enviados ao Congresso numa “semana que vem” que nunca chega. Como já anotei antes, é evidente que o ministro está meio sem rumo, incapaz de montar uma visão e consequente programa, que permitam enfrentar uma situação que se afigura cada vez mais difícil, mesmo sem contar com eventual segunda onda do vírus.

Vivemos um momento paradoxal, pois o PIB do terceiro trimestre deste ano mostrará um número muito robusto, que estimamos ser de 9,3% de crescimento ante o segundo trimestre. Entretanto, a partir daí, nossas projeções mostram que, ao invés de uma retomada mais firme do crescimento, a economia começará a andar de lado.

Isso porque, como todos sabem, haverá uma drástica redução do volume de recursos transferidos às famílias. Até agosto, algo como 67 milhões de pessoas receberam R$ 600, que se reduzem a R$ 300 por mês até o final do ano. Para 2021, temos apenas na proposta do Orçamento o Bolsa Família, que atinge 14 milhões de pessoas.

Ao mesmo tempo, a forte elevação dos preços de alimentos, que projetamos ser de 12% até o final do ano, já reduzem o poder de compra do coronavoucher. Também começam a aparecer pressões em outros itens, como higiene e limpeza. Isso decorre de um movimento mais geral de alta de preços, pois todas as matérias-primas básicas (metálicas e químicas) têm conseguido reajustar suas cotações e já há produtos em falta.

Finalmente, o mercado de trabalho está muito fraco: no trimestre terminado em agosto, mais de 25 milhões de pessoas estavam desempregadas, desalentadas ou trabalhavam menos horas do que gostariam. Projetamos uma taxa de desemprego que ultrapassará os 16% em dezembro, caindo muito lentamente a partir daí. Somando tudo, o crescimento do consumo vai perder o dinamismo atual ( já há certas indicações).

Das outras fontes de demanda, o comércio exterior não parece adicionar algo mais do que já vem ocorrendo, com um bom desempenho das commodities. Da mesma forma, ainda não existe qualquer sinal de crescimento mais significativo nos investimentos, como poderia ter sido o caso, se reformas, privatizações, concessões e segurança jurídica tivessem andado de forma mais significativa.

Compõem o quadro grandes dificuldades no avanço das reformas. A experiência mostra que, sem o envolvimento mais direto do Executivo, os projetos não andam. Ora, o presidente não se interessa por essas pautas, quando não é totalmente contra as mudanças. O ministro da Economia também tem uma relação difícil com o Congresso, inclusive no que tange ao Orçamento do ano que vem e ao equacionamento da difícil situação fiscal.

Como se não bastasse tudo isso, por decisão presidencial, só a partir das eleições as coisas começarão a ser discutidas no Congresso, onde vemos uma concentração sem precedentes de grandes questões, de difícil resposta. É impossível não ver que estamos nos encaminhando para um grande problema.

Fonte: José Roberto Mendonça de Barros, O Estado de S. Paulo, 15 de novembro de 2020.

Síntese de Indicadores Sociais: em 2019

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Os resultados utilizam dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua de 2012 a 2019, entre outras fontes.

De 2018 para 2019, a pobreza medida pela linha de US$ 5,5 PPC caiu de 25,3% para 24,7% das pessoas. Já a extrema pobreza (US$1,90 PPC) se manteve em 6,5% da população, em 2018 e em 2019, afetando mais da metade dos nordestinos e 39,8% das mulheres pretas ou pardas.

O índice de Gini (0,543) caiu em relação a 2018 (0,545), mas o país é o nono mais desigual do mundo segundo o Banco Mundial.

Entre 2018 e 2019, a taxa de desocupação caiu de 12% para 11,7%. Porém, a proporção dos desocupados há pelo menos dois anos subiu de 23,5% em 2017 para 27,5% em 2019.

Entre os jovens de 15 a 29 anos de idade, 22,1% não estudavam e não estavam ocupados em 2019. O percentual foi menor que em 2018, em decorrência do aumento do nível de ocupação.

Em 2019, os estados do Nordeste apresentavam mais de ¼ dos jovens de 15 a 29 anos que não estudavam nem estavam ocupados, padrão percebido na série iniciada em 2016.

Entre as mulheres pretas ou pardas de 15 a 29 anos de idade, 32,0% não estudavam e não tinham ocupação em 2019, proporção 2,4 vezes maior que a dos jovens brancos nessa situação (13,2%).

Em 2018, segundo o Caged, mais de 71 mil contratações ocorreram pela forma intermitente no país, representando 0,5% das admissões com carteira assinada. Em 2019, foram mais de 155 mil contratações dessa forma intermitente, ou 1,0% das admissões com carteira.

Quatro em cada dez trabalhadores ocupados estavam na informalidade em 2019. A informalidade no mercado de trabalho brasileiro, de caráter estrutural, atingia 41,6% dos trabalhadores do país em 2019, ou 39,3 milhões de pessoas. Este indicador se manteve estável em relação a 2018. A proporção era maior na região Norte (61,6%) e menor na Sul (29,1%).

Entre pessoas ocupadas sem instrução ou com o ensino fundamental incompleto, a proporção de informais era de 62,4%, mas de apenas 21,9% entre aquelas com ensino superior completo.

Em 2019, a taxa de frequência escolar bruta das crianças de 0 a 3 anos atingiu 35,6% e, na faixa entre 4 e 5 anos, chegou a 92,9%, porém ainda está abaixo das metas do Plano Nacional de Educação (50% para 0 a 3 anos e universalização para 4 e 5 anos até 2024).

Na faixa de 18 a 24 anos de idade, 35,7% dos jovens brancos frequentavam ou já haviam concluído o ensino superior em 2019. Entre os jovens pretos ou pardos, esse percentual era de apenas 18,9%.

Em 2019, entre as pessoas de 25 anos ou mais de idade, 51,1% não haviam completado o ensino médio, mas apenas 4,5% da população nessa faixa etária frequentavam escola.

Um total de 23,8 milhões de jovens com 15 a 29 anos de idade e sem ensino superior completo não frequentavam escola. 57,6% dos homens pretos ou pardos e 53,2% das mulheres pretas ou pardas estavam nessa situação.

Entre as razões apresentadas pelos jovens para terem parado de estudar, ou nunca terem estudado, “precisava trabalhar” foi a resposta mais recorrente, mas com maior incidência para os homens (43,1%) do que para as mulheres (26,0%). O percentual de jovens que não estudavam e nem estavam ocupados caiu de 23,0% em 2018 para 22,1 em 2019.

Em 2019, Pará tinha a maior proporção de trabalhadores informais (67,9%)

Em 2019, 39,3 milhões de pessoas estavam ocupadas nas cinco modalidades que constituem o trabalho informal (empregado e trabalhador doméstico sem carteira assinada, conta própria e empregador não contribuintes para a Previdência Social e trabalhador familiar auxiliar), o que representou 41,6% da população ocupada, percentual mais elevado da série, e estabilidade frente a 2018 (41,5%).

Entre as pessoas ocupadas sem instrução ou com o ensino fundamental incompleto, a proporção de informais foi de 62,4%, contra 21,9% para aquelas com ensino superior completo.

Pará (67,9%), Maranhão (65,4%) e Piauí (65,1%) foram as unidades da Federação com os maiores percentuais de trabalhadores em ocupações informais em 2019, enquanto Santa Catarina (23,4%), Rio Grande do Sul (30,4%), São Paulo e Paraná (ambos com 31,4%), tinham as menores proporções.

Taxa de desocupação diminuiu em 2019

Em 2019, a taxa de desocupação (11,7%) mostrou relativa melhora frente a 2018 (12%). A taxa de desocupação da população preta ou parda (13,6%) foi maior que a da população branca (9,2%), padrão já observado na série. Mesmo entre pessoas com o mesmo nível de instrução, a taxa é maior para os pretos ou pardos em todos os níveis educacionais. No ensino fundamental completo ou médio incompleto, por exemplo, a taxa de desocupação varia de 13,7% entre brancos para 18,4% entre pretos ou pardos.

Brancos ganham em média 69,3% mais do que pretos e pardos pela hora trabalhada

A presença dos pretos ou pardos é maior na Agropecuária (62,7%), na Construção e nos Serviços domésticos (66,6%), atividades que possuíam rendimentos inferiores à média em 2019. Já nos serviços de Informação, atividades financeiras e outras atividades profissionais e Administração pública, educação, saúde e serviços sociais, cujos rendimentos médios foram bastante superiores à média, são os agrupamentos de atividades que contavam com a maior participação de pessoas ocupadas de cor ou raça branca.

Em 2019, a população ocupada de cor ou raça branca ganhava 69,3% mais do que a preta ou parda, e os homens 12,7% mais que as mulheres, considerando-se o mesmo número de horas trabalhadas. A população ocupada branca recebia rendimento-hora superior à população preta ou parda para qualquer nível de instrução, sendo a diferença maior (44,6%) no nível Superior completo, R$ 33,90 contra R$ 23,50.

Piauí e Maranhão tinham os menores rendimentos médios (respectivamente R$ 1.280 e R$ 1.287) e Distrito Federal (R$ 3.953), São Paulo (R$ 2.817) e Rio de janeiro (R$ 2.715), os maiores.

Comparado aos países da OCDE, Brasil tinha uma das maiores proporções de desocupação de longo prazo

Entre 2017 e 2019, a taxa de desocupação caiu de 12,5% para 11,7%, mas a proporção dos desocupados de longo prazo (mais de um ano procurando emprego) não passou por alteração significativa no período. Já a proporção de pessoas desocupadas há pelo menos dois anos aumentou de 23,5%, em 2017, para 27,5%, em 2019.

Para a comparação internacional do fenômeno da desocupação de longo prazo, a OIT propõe o indicador proporção da força de trabalho desocupada há pelo menos um ano. A comparação com os países da OCDE, com dados de 2018, coloca o Brasil (5,1%) entre as maiores incidências do fenômeno, apenas atrás de Grécia (13,6%), Espanha (6,4%) e Itália (6,3%).

Contrato intermitente dobra em 2019 e chega a 13% dos novos empregos com carteira

Com dados do Caged, a Síntese mostra que em 2018, primeiro ano completo de vigência da reforma trabalhista (instituída em julho de 2017), mais de 71 mil contratações ocorreram pela forma intermitente no país, representando 0,5% das admissões com carteira assinada. Em 2019, foram mais de 155 mil, ou 1,0% das admissões, sendo mais da metade (84 mil) no Sudeste.

Em 2018, houve saldo (admissões, subtraídos os desligamentos) de 51,2 mil postos de trabalho com contrato intermitente, correspondendo a 9,4% do saldo de empregos com carteira assinada. Já em 2019, 85,7 mil novos postos gerados foram na modalidade intermitente, isto é, 13,3% de todos os novos empregos com carteira assinada.

O Nordeste demonstrou maior intensidade na substituição dos vínculos de emprego com continuidade por contratos intermitentes. De fato, 19,9% do saldo de empregos na região Nordeste em 2019 foram na modalidade intermitente. No Centro-Oeste, o crescimento do saldo de empregos por contrato intermitente foi de 164%, entre 2018 e 2019.

Índice de Gini cai em 2019, mas Brasil ainda é o nono país mais desigual do mundo

O índice de Gini do rendimento domiciliar per capita foi de 0,543 em 2019, recuando em relação a 2018 (0,545) e aumentando frente a 2015 (0,524), o menor índice da série da PNAD Contínua.

A região Sul tinha a menor desigualdade de rendimentos (0,467 em 2019). O Nordeste apresentou o maior crescimento percentual do indicador entre 2012 e 2019 (2,4%) e foi a única região onde o Gini cresceu, entre 2018 e 2019, passando de 0,545 para 0,559. Três capitais nordestinas se destacaram como as mais desiguais: Recife (0,612), João Pessoa (0,591) e Aracaju (0,581). A única capital a ficar abaixo do patamar de 0,500 foi Goiânia, com Gini de 0,468.

De acordo com dados do Banco Mundial para o relatório World Development Indicators, o Brasil permanece como um dos mais desiguais do mundo quando se trata da distribuição de renda entre seus habitantes, sendo o nono país mais desigual do mundo nessa avaliação.

Maranhão continua com os menores rendimentos per capita médio e mediano do país

O rendimento médio domiciliar per capita de 2019 foi de R$ 1.406 para o total da população brasileira. As regiões Sudeste (R$ 1.720) e Sul (R$ 1.701) tinham os rendimentos mais elevados, aproximadamente o dobro do rendimento domiciliar per capita do Norte (R$ 872) e Nordeste (R$ 884). Esse padrão de diferença nos patamares de rendimento domiciliar per capita se alterou pouco desde 2012.

No Brasil, o rendimento domiciliar per capita mediano (ao que até metade da população tem acesso) equivalia a cerca de 60% do rendimento médio e foi de R$ 861 em 2019, valor inferior ao salário mínimo nacional vigente nesse ano (R$ 998).

Benefícios como Bolsa Família e BPC respondem por 1/3 do rendimento de 12% da população

A Síntese de Indicadores Sociais mostra que 11,8% da população brasileira em 2019 viviam com até o valor de ¼ de salário mínimo per capita mensal (cerca de R$ 250) e quase 30% com até ½ salário mínimo per capita (R$ 499). No Nordeste, quase metade da população tinha até esse último patamar de renda mensal. No outro extremo da distribuição, no Brasil, 4,1% tinham rendimento per capita superior a 5 salários mínimos (R$ 4.990), no Distrito Federal 12,9% das pessoas apresentavam esse rendimento.

Para o total da população, chama atenção o aumento da participação de aposentadorias e pensões entre 2012 e 2019, que passou de 18,1% para 20,5% do rendimento domiciliar total. Entretanto, esse crescimento está concentrado entre aqueles com mais rendimentos (aumento de 14,1% no período para as pessoas com rendimento domiciliar per capita acima de 3 salários mínimos).

O peso de aposentadorias e pensões no rendimento domiciliar para as pessoas com até ¼ de salário mínimo per capita, que era de 8% em 2012, reduziu-se ainda mais em 2019, passando para 7%. Nessa faixa de rendimento, a participação da componente “outros rendimentos” – Bolsa Família, BPC, entre outros – é bem mais significativa, sendo responsável por mais de 1/3 do rendimento total em 2019.

Em 2019, proporção de pobres cai para 24,7% e extrema pobreza se mantém em 6,5% da população

A Síntese mostra que a análise da evolução temporal da extrema pobreza no Brasil teve agravamento em relação ao início da série, com aumento de 13,5% na incidência pela linha de US$1,90 PPC, passando de 5,8%, em 2012, para 6,5% da população, em 2019. Em relação à 2018 (6,5%), houve estabilidade.

Pela linha de US$ 5,50 PPC, houve redução na proporção de pobres entre 2012 e 2019, de 26,5% para 24,7% da população. Frente a 2018, a proporção de pessoas com rendimento domiciliar per capita abaixo dessa linha caiu 0,6 ponto percentual, passando de 25,3% para 24,7%.

Entre os que se declararam brancos, 14,7% eram pobres e 3,4% eram extremamente pobres, enquanto entre pretos e pardos 32,3% eram pobres e 8,9% eram extremamente pobres.

Mulheres pretas ou pardas são 39,8% das pessoas extremamente pobres

As mulheres pretas ou pardas se destacaram entre os pobres: eram 28,7% da população, 39,8% dos extremamente pobres e 38,1% dos pobres. O arranjo domiciliar formado por mulheres pretas ou pardas responsáveis, sem cônjuge e com presença de filhos menores de 14 anos concentrou a maior incidência de pobreza: 24% dos moradores desses arranjos tinham rendimento domiciliar per capita inferior a US$ 1,90 e 62,4% inferior a US$ 5,50. Já entre as crianças com até 14 anos de idade, 11,3% eram extremamente pobres e 41,7% pobres

Os trabalhadores familiares auxiliares eram a posição na ocupação com maior incidência de extrema pobreza (12,2%) e de pobreza (39,5%). Chama também atenção o fato de 25,6% dos trabalhadores domésticos, 23,3% dos empregados sem carteira e 19,3% dos trabalhadores por conta-própria estarem entre aqueles considerados pobres pela linha de US$ 5,50 PPC.

11,5% da população residiam em domicílios sem documentos de comprovação de propriedade

Entre as cinco inadequações domiciliares analisadas, a mais comum foi a ausência, em domicílios próprios, de documentação que comprove a propriedade. Essa informação foi investigada pela primeira vez pela PNAD Contínua em 2019. No total da população, 11,5% residiam em domicílios com essa inadequação, proporção que atingia 21,4% das pessoas com rendimento domiciliar per capita inferior a US$ 5,50 PPC por dia.

Em 2019, apenas 26,1% da população da Região Norte foram atendidos por esgotamento por rede coletora ou pluvial

No conjunto da população, 90,6% residiam, em 2019, em domicílios com coleta direta ou indireta de lixo, 84,7% em domicílios com abastecimento de água pela rede geral, e 65,8% em domicílios com esgotamento pela rede coletora ou pluvial.

O Sudeste obtém os melhores resultados para os três serviços: em 2019, 97,0% da sua população residiam em domicílios com coleta de lixo, 92,1% residiam em domicílios com abastecimento de água e 88,3% estavam em domicílios com esgotamento por rede coletora ou pluvial. A região Norte obteve os piores resultados para os três serviços: 78,7% da população estava em domicílios com coleta de lixo, 58,3% em domicílios com abastecimento de água por rede geral e 26,1% com esgotamento por rede coletora ou pluvial.

Posse de motocicleta é mais frequente entre a população com menor rendimento

Em 2019, 51,9% da população residiam em domicílios com carro de uso particular, mas entre a população com rendimento domiciliar per capita inferior a US$ 5,50 PPC por dia, a proporção era de 21,6%.

Entre os bens investigados pela PNAD Contínua, a motocicleta é peculiar: sua posse é mais disseminada entre a população com rendimento domiciliar per capita inferior a US$ 5,50 PPC por dia (27,9%) que no conjunto da população (25,9%) – um resultado influenciado pela utilização da motocicleta como ferramenta de trabalho em ocupações como entregador ou mototáxi, bem como para deslocamento em áreas rurais, em substituição à tração animal.

Frequência escolar bruta aumenta em quase todos os grupos de idade

Entre 2016 (primeiro ano da série histórica) e 2019, a taxa de frequência escolar bruta, isto é, a proporção de pessoas de um determinado grupo etário que frequentam escola (desde creches até o nível superior) cresceu em cinco das seis faixas etárias consideradas.

Os menores aumentos foram nos grupos de 6 a 10 anos (0,3 p.p.) e de 11 a 14 anos de idade (0,6 p. p.), o que se explica porque, em 2016, o país já se encontrava em patamar bastante próximo à universalização em ambas as faixas (99,5% e 98,9%, respectivamente).

Na faixa de 15 a 17 anos, o país atingiu, em 2019, uma taxa bruta de frequência escolar de 89,2%, com elevação de 2,0 pontos percentuais frente ao dado registrado em 2016. Já o grupo de 18 a 24 anos foi o único sem avanço na taxa de frequência escolar bruta no período.

Frequência escolar das crianças de 0 a 5 anos melhora, em 2019, mas ainda está longe da meta

Em 2019, a taxa de frequência escolar bruta das crianças de 0 a 3 anos atingiu 35,6%, um acréscimo de 5,2 pontos percentuais em relação a 2016. Na faixa entre 4 e 5 anos, a taxa de frequência escolar bruta subiu 2,7 pontos percentuais, atingindo 92,9% em 2019. Porém, o país ainda não atingiu os marcos previstos no Plano Nacional de Educação (PNE): até 2024, a universalização da educação infantil na pré-escola para as crianças de 4 a 5 anos de idade e 50% para as crianças de até 3 anos.

A Região Sul teve o melhor resultado no grupo de 0 a 3 anos (43,3%) e o Nordeste no de 4 a 5 anos (95,8%). Já a região Norte apareceu com o pior indicador nos dois casos: 17,6% das crianças com até 3 anos e 86,6% das crianças de 4 a 5 anos na escola.

Frequência escolar líquida avança mais rápido que a bruta para grupos de 11 a 17 anos

A taxa ajustada de frequência escola líquida (Tafel) representa a proporção de pessoas que frequentam o nível de ensino adequado à sua faixa etária ou que já haviam concluído esse nível, de acordo com o sistema educacional brasileiro. Ela aumentou entre 2016 e 2019.

No grupo de 18 a 24 anos, a Tafel aumentou em 1,6 p. p., de 23,9% em 2016 para 25,5% em 2019. Esse aumento foi simultâneo à redução da proporção de jovens dessa faixa etária nas etapas escolares anteriores, de 12,3% para 11,0%.

A Tafel subiu 2,8 p. p. na faixa de 11 a 14 anos, entre 2016 e 2019, chegando a 87,5%, e 3,2 p. p. no grupo entre 15 e 17 anos, atingindo 71,4%. Em ambos os casos, ela se expandiu mais rápido que a taxa de frequência escolar bruta, indicando adequação do fluxo escolar.

Amapá, Santa Catarina e DF já ultrapassaram meta de Tafel do Ensino Superior em 2019

A Tafel da faixa de 15 a 17 anos ficou abaixo do indicado no PNE até 2024 (85%). Nenhuma unidade da Federação alcançou a proporção, e o valor mais alto foi o de São Paulo (84,1%).

As regiões Norte e Nordeste tiveram resultados mais baixos nos três grupos etários, com algumas exceções. Roraima e Ceará se destacaram com bons resultados nas faixas de 11 a 14 anos (ensino fundamental) e de 15 a 17 anos (ensino médio).

O Amapá (34,4%) tem uma das maiores Tafel do ensino superior (grupo de 18 a 24 anos). O estado, junto com Santa Catarina (33,7%) e Distrito Federal (42,2%) são os únicos que ultrapassaram o patamar de 33% de Tafel no Ensino superior, que é meta do PNE.

Jovem branco tem duas vezes mais chance de frequentar ou já ter concluído o ensino superior

Em 2019, na faixa de 18 a 24 anos, um jovem branco tinha aproximadamente duas vezes mais chance de frequentar ou já ter concluído o ensino superior que um jovem preto ou pardo: 35,7% contra 18,9%.

Já um jovem morador de um domicílio urbano tinha cerca de três vezes mais chance estar frequentando ou já ter concluído o ensino superior que um jovem morador de um domicílio rural – 28,1% contra 9,2%.

Apenas 7,6% dos jovens pertencentes ao quinto populacional de menor rendimento domiciliar per capita frequentavam ou já haviam completado o nível superior em 2019, uma proporção oito vezes inferior à verificada entre os jovens do quinto populacional de maior renda (61,5%).

Apenas o Sudeste chegou à média de 12 anos de estudo prevista na meta do PNE

A média de anos de estudos na população entre 18 e 29 anos moradora de domicílios rurais registrada pela PNAD Contínua em 2019 foi de 10,0 anos, e na população residente em domicílios urbanos foi de 11,8 anos, ambos abaixo da meta do PNE, que é de 12 anos até 2024. O Sudeste foi a única região a alcançar essa marca em 2019; Norte e Nordeste registraram um valor de 10,9 anos para esse indicador. Na categoria de cor ou raça, os brancos tinham uma escolaridade média de 12,3 anos e os pretos ou pardos, de 11,1 anos.

Seis em cada dez estudantes da rede pública de ensino médio são pretos ou pardos

Os pretos ou pardos representavam 62,1% da população entre 15 e 17 anos em 2019. Entre os estudantes da rede pública de ensino médio, essa proporção é 63,9%. Já na rede particular, eram 35,7%.

No ensino superior, a distribuição por cor ou raça dos estudantes das redes pública e privada é semelhante, registrando proporções de estudantes pretos e pardos de 49,9% e 47,0%, respectivamente, bem abaixo da proporção de pretos e pardos na população entre 18 e 24 anos (60,4%) em 2019.

Na distribuição por quintos de rendimento, a rede pública de ensino médio apresentava uma distribuição (30,9% no 1° quinto, 29,1% no 2°) relativamente próxima ao verificado na população de 15 a 17 anos (31,8% no 1° quinto, 26,4% no 2°), enquanto a rede privada apresenta uma distribuição mais concentrada no quinto de maior rendimento (46,5%).

Mais de 50% dos alunos do ensino superior estavam nas faixas de maior rendimento

No ensino superior, a rede pública (23,7% no 4° quinto e 29,2% no 5°) e a privada (29,9% no 4° e 34,7% no 5°) apresentavam uma distribuição concentrada nos quintos de maior rendimento, em contraste com o verificado na população entre 18 e 24 anos (22,4% no 1° e 22,8% no 2°).

No entanto, a rede pública teve um percentual superior de participação dos estudantes dos quintos de menor rendimento: em 2019, 26,7% dos estudantes da rede pública de ensino superior pertenciam aos dois quintos de menor rendimento, proporção que era de 17,0% na rede privada.

Apenas 4,5% das pessoas com 25 anos ou mais de idade frequentam escola

Em 2019, 51,1% das pessoas de 25 anos ou mais de idade não haviam completado o ensino médio. Apesar de terem direito constitucional a completar seus estudos de forma gratuita, apenas 4,5% da população nessa faixa etária frequentavam escola em qualquer nível.

A evolução verificada entre 2016 e 2019 no nível de instrução da população dessa faixa etária é resultado, principalmente, da morte de pessoas mais velhas com menor instrução e do ingresso nessa faixa etária de pessoas mais instruídas.

Quase metade das pessoas com mais de 25 anos no Nordeste não têm instrução ou não completaram o ensino fundamental

Na população com mais de 25 anos da região Nordeste, 49,1% não tinham instrução ou tinham o ensino fundamental incompleto, e apenas 12,1% tinham superior completo. Na região Sudeste, em 2019, a proporção de pessoas sem instrução ou com fundamental incompleto foi de 32,5%, enquanto a proporção de pessoas com nível superior foi de 20,5%.

A proporção de pessoas de cor ou raça branca com 25 anos ou mais com nível superior era de 24,9%, enquanto os pretos ou pardos registravam 11,0%. Nota-se também que as mulheres apresentaram uma distribuição por nível de instrução superior à dos homens.

Taxa de analfabetismo das pessoas de 65 anos ou mais de idade é 37,1% no quinto mais baixo de rendimento

No quinto de maior rendimento da população, a taxa de analfabetismo dos quatro primeiros grupos etários, até 54 anos, é menor que 1%, e praticamente a mesma. Nesse quinto populacional, a taxa de analfabetismo só supera 1% no grupo com 65 anos ou mais. Já no quinto de menor rendimento, embora a taxa de analfabetismo entre pessoas de 15 a 19 anos seja 0,8%, ela atinge 1,9% já na faixa etária seguinte (20 a 24 anos) e sobe rapidamente nas faixas posteriores, até atingir 37,1% no grupo com 65 anos ou mais.

Proporções de jovens sem nível superior completo que não estudavam é maior entre homens pretos ou pardos

Em 2019, cerca de 23,8 milhões de jovens com 15 a 29 anos de idade e sem ensino superior completo não frequentavam escola, pré-vestibular ou curso da educação profissional. A proporção de jovens que não estudavam e não haviam concluído o ensino superior era maior entre os homens pretos ou pardos (57,6%).

As mulheres pretas ou pardas apareciam em seguida (53,2%), em desvantagem com relação aos homens brancos (47,4%), mesmo as mulheres sendo mais escolarizadas em geral. As mulheres brancas apresentaram o menor percentual para este indicador (39,5%). O perfil das mulheres pretas ou pardas que não estudavam e não tinham concluído o ensino superior em 2019 se distinguia dos demais grupos, pois entre elas a maioria não estava ocupada, enquanto nos outros prevalecia quem tinha ocupação.

Mulheres interromperam os estudos para afazeres domésticos e cuidado de pessoas 13 vezes mais do que homens

Entre as razões apresentadas pelos jovens para terem parado de estudar, ou nunca terem estudado, “precisava trabalhar” foi a resposta mais recorrente, mas com maior incidência para os homens (43,1%) do que para as mulheres (26,0%).

As mulheres, por sua vez, além de interromperem os estudos em consequência de gravidez (11,8%), também o fazem por estarem mais atribuídas dos afazeres domésticos e cuidado de crianças e adolescentes, idosos e pessoas com deficiência (6,5%), 13 vezes mais do que os homens (0,5%).

Entre as jovens brancas, 9,2% apontaram a gravidez como principal motivo para parar de estudar e 4,9% a realização dos afazeres e cuidados. Entre as jovens pretas ou pardas, esses motivos apareceram com 13,1% e 7,3%, respectivamente. Mais da metade (56,4%) das mulheres pararam de estudar em decorrência de gravidez afirmaram não estar estudando por ter de realizar afazeres domésticos ou cuidar de criança, adolescente etc.

Na análise por quintos de rendimento, quanto mais baixo o quinto, mais os jovens responderam não estar estudando por ter de realizar afazeres domésticos ou cuidar de criança, adolescente, idoso ou pessoa com deficiência.

No Nordeste, ¼ dos jovens não estudavam nem estavam ocupados, em 2019

A proporção de jovens de 15 a 29 anos de idade que não estudavam nem tinham ocupação diminuiu em 2019, passando de 23,0%, no ano anterior, para 22,1%. Esse movimento foi decorrente do aumento do nível de ocupação dos jovens. Apesar desse aumento, o Brasil se encontrava em pior situação que a maioria dos países que compõem o Mercosul como Estados Partes ou países associados.

Os estados da Região Sul apresentaram percentuais de jovens sem trabalho e sem ocupação mais próximos aos de países desenvolvidos, em especial nas capitais. Por outro lado, na Região Nordeste, em todas as Unidades da Federação, mais de ¼ dos jovens de 15 a 29 anos não estudavam nem estavam ocupados. Nessa região, apenas 40,5% dos jovens estavam ocupados, enquanto a média nacional era 49,8%.

Uma jovem preta ou parda tem 2,4 vezes a chance de um jovem branco de não estudar nem ter ocupação

A proporção de jovens que não estudavam nem trabalhavam era maior entre as mulheres (27,5%) do que entre os homens (16,6%). Na análise por cor ou raça, 17,0% dos jovens brancos e 25,3% dos jovens pretos ou pardos não estudavam nem estavam ocupados. Essa diferença se acentuou ligeiramente em relação ao ano anterior (18,5% dos brancos e 25,8% dos pretos ou pardos).

Entre as mulheres pretas ou pardas de 15 a 29 anos de idade, 32,0% não estudavam e não tinham ocupação em 2019. Uma jovem preta ou parda tinha, então, 2,4 vezes mais chances de estar nessa situação do que um jovem branco (13,2%). As mulheres brancas, por sua vez, estavam em maior proporção sem estudar e sem ocupação (20,8%) do que os homens pretos ou pardos (18,9%) em 2019.

Na análise por rendimentos, 42,8% dos jovens que não estudavam nem estavam ocupados em 2019 estavam no quinto da população com os menores rendimentos domiciliares per capita e apenas 4,7% no quinto com os maiores rendimentos.

Fonte: IBGE, 12/11/2020 10h00 | Última Atualização: 12/11/2020, 17h21.