Fernando Henrique Cardoso e seu novo livro: Crise e Reinvenção da Política no Brasil

Ana Paula Paiva/Valor

FHC: “O crime e a roubalheira não são mais bandeiras da direita rica, como no passado, mas do pobre que é vítima da violência e vê o dinheiro das políticas públicas se esvair”. Foto: Ana Paula Paiva/Valor

“Na história, quando se pensa que acontecerá o inevitável, ocorre o imprevisto.” Ao longo de 238 páginas, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso ora se rende ora se debate com a ideia-chave em novo livro, “Crise e Reinvenção da Política no Brasil”.

É a uma sociedade “mais forte porque desorganizada” que atribui possibilidades e riscos de uma crise cujo desfecho diz ser difícil prever. As reflexões do ex-presidente foram colhidas, de setembro de 2017 a janeiro deste ano, em conversas com Sérgio Fausto, superintendente do instituto que leva seu nome, e Miguel Darcy, diplomata e seu assessor internacional.

Delas emerge a ambiguidade da conjuntura: o indivíduo se fortaleceu frente ao Estado, mas a sociedade, sem o filtro dos partidos, se tornou mais vulnerável a aventureiros despreparados para o exercício do poder. E não apenas no Brasil.

Já nas primeiras páginas de seu novo livro estampa a autocrítica do que deixou de fazer como senador, ministro e presidente da República. Com esse habeas corpus preventivo, põe-se a criticar a passagem do PT pelo poder e a tratar do porvir, a começar de tarefas historicamente retrancadas no Brasil, inclusive em seu governo, como a de impor concessões mais amplas àqueles que ganham mais.

A “utopia viável” com a qual conclui suas reflexões passa ainda pelo combate à impunidade, que hoje diz não ser mais um valor da classe média abastada, mas da maioria da população que vê se esvaírem os recursos de políticas públicas.

É o apego ao oxímoro que parece levá-lo, nesta entrevista, a concordar mais com o ministro Luís Roberto Barroso, indicado pela ex-presidente Dilma Rousseff, do que com o ministro Gilmar Mendes, seu escolhido para a Corte. FHC nega a seletividade da Lava-Jato e defende, em ordem decrescente, seus correligionários Geraldo Alckmin, Aécio Neves e Eduardo Azeredo.

No dia seguinte, o Supremo tornaria réu o senador mineiro. Relativiza tanto a entrega do Ministério da Defesa, criado em seu governo, para um militar quanto o peso das declarações do comandante do Exército, general Eduardo Villas Bôas, às vésperas da votação do habeas corpus do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva – “falou para sua tropa” -, e diz que a intervenção no Rio só se justifica se for para pôr ordem na polícia.

Não descarta que um dia, quando o gesto não se configurar como afronta à Justiça, possa vir a visitá-lo na prisão. Foi em seu apartamento, em meio a uma agenda de sucessivas reuniões, com tucanos e o presidente de um grande banco, que Fernando Henrique deu, ao Valor, uma entrevista.

Para ler a entrevista, clique aqui.

Fonte: Maria Cristina Fernandes | VALOR, São Paulo, 20/4/2018. 

 

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O brasileiro quer educação para já, por Priscila Cruz

É muito comum ouvirmos que o brasileiro não valoriza a educação. De fato, em diversas pesquisas ao longo dos últimos anos, quando perguntado sobre o que é mais importante fazer pelo Brasil, costuma-se posicionar o tema atrás de saúde, emprego, combate à corrupção e segurança.

Mas se olharmos com mais profundidade, qual a razão por trás disso? Não valorizamos a educação ou perdemos a confiança na capacidade da gestão pública de promover alguma solução no curto prazo, horizonte em que se notam resultados concretos e visíveis?

Busquemos investigar esses dois pontos: confiança na gestão pública e viabilidade de melhorias rápidas. Em levantamento realizado pela empresa de pesquisa Ideia Big Data a pedido do Todos Pela Educação, fizemos a 3 mil pessoas uma pergunta diferente das usuais: se você passasse a ter uma renda extra no mês, o que faria? Investir em sua educação ou na de seus filhos foi a alternativa mais votada em primeiro e segundo lugares, à frente de opções como aplicar na poupança, reformar a casa, abrir um negócio e melhorar o plano de saúde.

A má notícia é que esse dado mostra que deixaram de confiar no poder público e, consequentemente, de nutrir expectativas de que dele venha uma educação de qualidade.

Em outro estudo realizado pelo mesmo instituto com 1.500 brasileiros, 85,8% disseram crer que a escola pública vem piorando ano após ano. Especificamente entre os consultados das classes C, D e E, 70% matriculariam seus filhos na rede particular em razão de uma suposta “melhor qualidade de ensino”. Entretanto, as evidências apontam um valor agregado semelhante ao das instituições públicas.

Além dessa falsa percepção, uma explicação razoável é o desejo por uma boa educação agora, não a que virá daqui a alguns ou muitos anos, fruto de boas políticas providas justamente pelos entes públicos dos quais esperam pouco ou nada. Desilusão, menos esperança, queda de expectativa, essa é receita certa para nos manter onde estamos ou até para piorar ainda mais a situação pela via de soluções fáceis, rasas e populistas (que muitos candidatos, oportunamente, vendem aos seus eleitores).

Ao contrário do senso comum, as famílias e a sociedade, no geral, querem, sim, mais educação. A questão é o prazo: o desejo é para já, de modo que usufruam imediatamente os benefícios, não daqui a 30 anos. Como unir as duas pontas, ou seja, proporcionar um grande salto de qualidade e equidade na educação básica pública sem que tenhamos de esperar por décadas?

Primeiro, é importante perceber onde estamos pisando. Há um grave cenário de estagnação da aprendizagem. Quase 55% das crianças estão praticamente analfabetas no terceiro ano do ensino fundamental. Como aceitar um país que, na largada, simplesmente descarta boa parte do seu futuro? Que aceita crianças analfabetas aos 8 anos de idade?

O resto da história dificilmente seria outro: de cada 100 crianças que ingressam no ensino fundamental, somente 65 concluem o ensino médio. E entre estas o panorama é ainda mais grave: apenas 7% com aprendizagem adequada em Matemática e 28% em Português. Entre essas 65, só 7 dão sequência à trajetória escolar e rumam para o ensino superior. O restante fica pelo caminho.

Não há, portanto, um percurso para a melhoria significativa da educação sem que ela seja de fato uma prioridade da Nação. O panorama atual reflete uma herança de anos de descaso e negligência com o tema. E não há possibilidade de vivermos num país socialmente mais justo, economicamente mais competitivo, inovador, seguro, saudável e ético sem educação de qualidade para todos.

A boa notícia é que é possível avançarmos, com resultados consideráveis, já nos próximos anos. Para isso se faz necessário um conjunto de ações que ataquem os reais problemas da educação de forma sistêmica.

Fazem parte das respostas: 1) Uma governança federativa que elimine sobreposições e estimule uma colaboração efetiva e coesa entre os entes; 2) um sistema de financiamento com menor desigualdade entre as redes e que induza ainda mais a qualidade; 3) o incremento da capacidade técnica das Secretarias de Educação nos níveis estadual e municipal; 4) maior foco, da parte das redes de ensino, na orientação no e apoio pedagógico às escolas, de modo a estabelecer objetivos e metas de aprendizagem claras e organizadas num currículo, com recursos didáticos adequados, formação continuada, instrumentos de avaliação formativa, bem como programas de reforço e recuperação para que nenhum aluno fique para trás; 5) reforço de mecanismos de gestão dos recursos humanos das redes de ensino, envolvendo legislação e planos de carreira dos profissionais da educação; 6) adequação da infraestrutura física para a aprendizagem em todas as escolas brasileiras; 7) organização acadêmica e estrutura de funcionamento dos anos finais do ensino fundamental e do ensino médio de modo a incentivar o protagonismo juvenil e cumprir um currículo à altura dos desafios do mundo atual; 8) incremento na gestão escolar, compreendendo direção e coordenação pedagógica, com foco em autonomia, preparo técnico e atuação focada na liderança do trabalho pedagógico e de gestão da aprendizagem; 9) valorização social da carreira docente, tornando-a opção atrativa para os jovens, assim como fornecimento de estrutura de formação e condições de trabalho necessárias para os desafios cotidianos em sala de aula; e 10) reversão da cultura de reprovação e naturalização da não aprendizagem, que alimentam um cenário de alta defasagem e de imobilismo do sistema.

Aqui, vejam, não há soluções mágicas nem pontuais. Um tema de políticas públicas complexo, com histórico de descaso e deficiências acumuladas, necessita de uma abordagem sistêmica, intensiva e com gestão de alto padrão.

Fonte: PRISCILA CRUZ, PRESIDENTE EXECUTIVA DO TODOS PELA EDUCAÇÃO.

Artigo publicado em O Estado de S.Paulo, 10/3/2018

Inteligência Competitiva: Investimento em educação no Brasil é baixo e ineficiente

O diretor da OCDE durante evento, em 2016, em Paris

O diretor da OCDE durante evento, em 2016, em Paris – AFP

SÃO PAULO

​Os investimentos do Brasil em educação são baixos e pouco eficientes, afirma Andreas Schleicher, diretor do departamento educacional da OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico) e um dos idealizadores do Pisa, teste de aprendizagem internacional aplicado pela instituição.

O debate sobre a adequação dos gastos educacionais às necessidades brasileiras tem sido frequente e gera divergência entre especialistas.

Para ele, embora o investimento do Brasil em relação ao PIB (Produto Interno Bruto) seja próximo à média da OCDE, é necessário considerar o gasto educacional por aluno, uma vez que há uma grande parcela de jovens.

“A primeira lição que aprendi pesquisando os países que aparecem no topo das comparações do Pisa é que seus líderes parecem ter convencido seus cidadãos a fazer escolhas que valorizam mais a educação do que outras coisas”, disse o especialista em entrevista à Folha por email.

Folha – É verdade que após cada edição do Pisa seu time analisa os resultados de cada país, sem seus respectivos nomes, tentando adivinhar quem é quem?

Andreas Schleicher – Sim, no último exame, conseguimos prever mais de 85% das diferenças entre escolas. Alguns países se reinventaram por meio de reformas sistemáticas e investimentos. Os alunos de 15 anos entre os 10% mais pobres do Vietnã têm ido tão bem no Pisa quanto os 10% mais ricos no Brasil. Pobreza não é destino.

O Brasil melhorou nos anos iniciais do Pisa em matemática, mas está estagnado desde 2006. Nosso desempenho em leitura e ciências também não é bom. O que nos impede de melhorar?

Ainda vejo o Brasil como uma das poucas histórias de sucesso na América Latina, e eu acho que o copo está mais para metade cheio do que para metade vazio. Entre 2003 e 2015, o Brasil adicionou 500 mil alunos, ao reduzir as barreiras que mantinham uma grande proporção de adolescentes fora das escolas.

Conforme as populações excluídas ganham acesso a níveis mais avançados de escolaridade, uma proporção maior de alunos com baixo desempenho será incluída nas amostras do Pisa, levando a uma subestimação das melhoras reais do sistema educacional.

Mas há outros fatores também. Todos os países na Íbero-América são caracterizados por altos níveis de repetência. No Brasil, mais de um em cinco estudantes informaram ter repetido uma série na escola primária. As pesquisas têm mostrado que isso tem efeitos negativos sobre o desempenho acadêmico.

Até que ponto a inclusão desses novos alunos explica o desempenho recente do Brasil?

A amostra brasileira se tornou mais representativa, mas as notas mínimas recebidas pelos jovens que estão entre os 25% com melhor desempenho aumentaram cerca de dez pontos a cada período de três anos.

Mesmo quando olhamos uma amostra maior de alunos, o desempenho em matemática melhorou ao longo dos anos e os resultados em leitura e ciências permaneceram estáveis. Mas muito mais precisa ser feito em termos de qualidade e equidade para ajudar a aumentar a nota média em que o Brasil parece estar firmemente ancorado.

Há divergências sobre o patamar de investimento em educação no Brasil. Alguns argumentam que ele é insuficiente, pois o gasto por aluno é baixo. Outros ressaltam que nosso gasto como fatia do PIB per capita ultrapassou a média da OCDE. Que indicador devemos considerar?

O gasto em educação no Brasil ainda é baixo. A primeira lição que aprendi pesquisando os países que aparecem no topo das comparações do Pisa é que seus líderes parecem ter convencido seus cidadãos a fazer escolhas que valorizam mais a educação do que outras coisas.

No Brasil e na maior parte do mundo ocidental, os governos começaram a pegar emprestado o dinheiro das próximas gerações para financiar seu consumo hoje, e a dívida que fizeram coloca um freio enorme no progresso econômico e social. O Brasil é um país em desenvolvimento grande com uma parcela crescente de jovens. Ainda que, como parcela do PIB per capita, o gasto brasileiro por estudante seja maior do que a média da OCDE, esse ainda não é o nível ideal.

Alguns países que gastam o mesmo ou menos do que o Brasil têm melhores resultados no Pisa. Isso mostra que nossos investimentos não têm sido eficientes?

Sim, mesmo quando o gasto médio parece adequado, isso não significa automaticamente que o dinheiro é empregado onde ele pode fazer maior diferença. A chave é priorizar o gasto de forma que ele possa aumentar a qualidade do magistério, casar recursos com necessidade.

Há algo que o Brasil possa copiar de países como Cingapura, CanadáFinlândia, que consistentemente conseguem bons resultados?

As experiências não são facilmente transplantáveis. Os países ibero-americanos poderiam ganhar muito aprendendo com as mudanças que esses países têm feito. Os sistemas ibero-americanos precisam aumentar as expectativas dos alunos sobre seu bem-estar e suas perspectivas futuras.

As escolas podem ajudar fornecendo aconselhamento acadêmico e profissional para todos os alunos. Sistemas como o de Cingapura têm desenvolvido esse tipo de política.

Em segundo lugar, os professores desempenham um papel muito importante. A relação extraordinariamente alta entre o número de alunos por professor em países ibero-americanos, como o Brasil, revela as condições de trabalho desafiadoras que muitos países enfrentam.

Com classes cheias, o tempo que os professores podem dedicar a preparar lições e apoiar os alunos individualmente é severamente limitado. Nos sistemas educacionais bem sucedidos, as salas de aula podem ser relativamente grandes, mas o número de estudantes por professor é baixo, liberando tempo para a preparação de aulas e outras tarefas ligadas à escola.

Esses sistemas, especialmente o da Finlândia, promovem políticas para aperfeiçoar a qualidade do magistério e a liderança escolar, focando na melhoria da qualidade da formação inicial dos professores, a progressão na carreira, a remuneração.

Finalmente, todos esses países que você mencionou atingiram o patamar crítico de gasto em educação, acima do qual apenas alocação eficiente e igualitária de recursos explica variações no desempenho acadêmico. Os países ibero-americanos como o Brasil ainda estão no nível mais baixo de gasto e precisam não só elevar seus investimentos como também aprender a gastá-los de forma mais eficiente.

O relatório aponta que “tem sido difícil conseguir apoio político entre os países latino-americanos para expandir” a avaliação de competências globais no Pisa [uma versão ampliada do exame]. O Brasil é um desses países?

Sim, entre os países da região apenas Chile, Colômbia, Costa Rica e Panamá estão participando. O entendimento é que o Brasil não fará essa parte do exame.

PAÍS FICA LONGE DE GASTO ‘MÍNIMO’ COM EDUCAÇÃO

Pesquisas têm mostrado que o aumento de investimentos em educação não leva necessariamente a um melhor desempenho dos estudantes. A OCDE confirma o diagnóstico, mas ressalta que ele é válido apenas a partir de um patamar mínimo de gasto por aluno do qual o Brasil permanece distantes.
O investimento médio por estudante brasileiro de 6 a 15 anos é de US$ 38 mil dólares em paridade do poder de compra (medida que considera diferenças no custo de vida entre os países). Segundo a OCDE, incrementos de gastos por aluno até US$ 80 mil dólares, em PPC, afetam os resultados dos jovens de 15 anos que fazem o Pisa a cada triênio.
Acima desse patamar, maiores investimentos deixam de ter relação direta com as notas, que passam a depender muito mais da eficiência dos gastos.
A conclusão consta de um documento que será apresentado por Andreas Schleicher, diretor da OCDE, na próxima terça (20), em São Paulo. No evento, organizado pela instituição e pelo Ministério da Educação, com apoio da Fundação Santillana e da Secretaria-geral Ibero-americana, será discutido o desempenho dos países desse grupo.
No caso do Brasil, além de baixa, a alocação de recursos para a educação é pouco eficiente, segundo a OCDE. Várias nações que têm gasto por aluno próximo ou até menor do que o brasileiro —como Turquia, Tailândia, Uruguai e Colômbia –alcançaram melhores resultados na prova de ciências do último Pisa.

RAIO-X

Nome completo

Andreas Schleicher

Idade

54

Nacionalidade

Alemã

Carreira

Diretor para educação e habilidades e assessor especial de política educacional da OCDE. Idealizador e principal responsável pelo Pisa, avaliação internacional feita com alunos de 15 anos

Formação

Graduação em Física, mestrado em Matemática e Estatística

Fonte: Érica Fraga, Folha de S.Paulo, 19.fev.2018 às 2h00

Alfabetização requer mais do que só método, diz ganhadora do Jabuti

Belo Horizonte, MG, BRASIL, 17-11-2017, 11:00h. Retrato da educadora Magda Soares, 85, em sua casa em Belo Horizonte. Ela é uma das maiores especialistas em alfabetização no país.(Luis Evo/Folhapress COTIDIANO) *** EXCLUSIVO FOLHA *** ORG XMIT: Luis Evo

A educadora Magda Soares, 85, uma das maiores especialistas em alfabetização no país

Pouco antes de ter a aposentadoria compulsória na UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), o que ocorre aos 70 anos, a professora Magda Soares adiantou sua saída. Depois de décadas na docência e pesquisa, decidiu voltar às escolas públicas (onde começou a carreira) de forma voluntária.

Autoridade em pesquisas sobre alfabetização, ela atuou então em uma creche e, desde 2007, passou a coordenar um projeto de alfabetização no município mineiro de Lagoa Santa (a 35 km da capital), que veio a se tornar uma referência no país, com resultados superiores à preocupante média brasileira.

Alfabetização - A Questão dos Métodos

Aos 85 anos, sua última obra “Alfabetização –A Questão dos Métodos” (Ed. Contexto) recebeu o prêmio Jabuti de 2017 na categoria educação e, no início de dezembro, foi escolhido como o livro de não ficção do ano.

“A ideia é que esse livro alertasse quem forma o professor de que alfabetização é mais do que métodos”, disse. Além de defender a articulação entre teorias e métodos para que se entenda o processo de alfabetização –e dessa forma, realizá-lo– Soares ressalta a importância da reformulação dos cursos de formação de professores e da Base Nacional Curricular (que define o que se deve aprender).

Folha – No livro, a senhora reforça a importância de pensar menos no método de alfabetizar, mas sim em alfabetizar com método. Por quê?

Magda Soares – A discussão na alfabetização sempre ficou na questão dos métodos. Qual usar? Qual é melhor? Fiquei 40 anos na universidade trabalhando com formação de professores e fazendo pesquisas, e a pergunta que me fazia era a seguinte: todo mundo dá o método, mas o método tem que estar com a base em teorias, em fundamentos. Mas cada método tem uma coisa certa aqui, mas nunca é tudo. Outro faz sentido pra outra coisa, mas não pra outra.

A alfabetização é uma questão complexa, que tem muitas facetas. E a tendência dos métodos é olhar um lado só, só uma faceta, e o objeto se perde. Nos anos 1980, fiz uma pesquisa longa para levantar toda a produção científica. Ninguém discutia o que é alfabetização. E sempre houve na área uma tendência, um partidarismo, de ser a favor a determinado método.

Quando falamos em uma criança alfabetizada, estamos falando do que exatamente?

Tudo se discute sem se pensar o que, afinal, é isso. Eu vejo dois lados importantes. Primeiro é o ponto de vista da criança, do desenvolvimento cognitivo. E por outro, um desenvolvimento cognitivo para quê? Para se apropriar de um objeto linguístico que é muito complexo. Fiz um capítulo sobre isso motivada sobretudo pela tendência de as pessoas quererem importar sucessos exteriores. Ah, porque os americanos já resolveram que o método fônico é melhor. Mas olha a ortografia do inglês e olha a ortografia do português. No inglês, há uma relação muito complexa. Tem uma letra que representa vários sons, um conjunto de letras que representa vários sons. E vários sons que são representados pelas mesmas letras. É uma língua muito opaca. Na outra ponta, tem o finlandês. Cada letra um fonema, cada fonema uma letra. Aí dizem: “A gente tem que fazer igual na Finlândia”, “as crianças se alfabetizam em seis meses”. Está bom, mas a ortografia deles ajuda isso.

Essas línguas favorecem métodos mais homogêneos?

Sim. Porque você vai ensinar uma criança brasileira a se alfabetizar e tem uma mesma letra que pode representar diferentes sons. Ou diferentes sons serem representados pela mesma letra. O que não acontece no finlandês, que é uma ortografia transparente, registra exatamente os sons da língua. Não adianta buscar exemplos do finlandês, porque está alfabetizando num outro objeto. Então vamos trazer a experiência dos Estados Unidos, que tem uma produção de pesquisas enorme? Mas são ortografias completamente diferentes. A do português brasileiro é próxima da transparência.

O foco da discussão foi muito direcionado em o que fazer?

Sempre se considerou em ensinar a ler e escrever, se pensou nisso como método. No Brasil, a alfabetização sempre foi um problema da pedagogia. A partir de um certo momento os linguistas começaram a se interessar e isso no Brasil começou nos anos 1970, outro dia historicamente.

Só a partir disso começa ter uma produção significativa de linguistas olhando para “o que a criança faz com a língua”. E, ao mesmo tempo, a psicologia cognitiva se voltou para o contrário: “o que a língua escrita faz com a criança”. Dois campos que foram trabalhando isolados, e a pedagogia como um terceiro, dizendo: é preciso falar o que é pra fazer.

E o pedagogo acaba isolado sabendo que vai pra sala de aula logo após a formatura.

A gente forma o professor, põe na sala e fala: “Alfabetiza essas crianças”. Então ele diz: “Me dá uma cartilha, livro, uma receita”. Acho que está mais evidente que só se pode discutir alfabetização conhecendo como o processo ocorre. É o processo cognitivo de crianças em determinadas fase de desenvolvimento para se apropriar de um objeto linguístico, de características próprias. Além das pesquisas, [o projeto de]Lagoa Santa me ajudou muito. Porque eu pude ver a coisa acontecendo, e tentar fazer com que as professoras não ficassem atrás do “que é que eu faço”, mas atrás do “por quê”.

https://arte.folha.uol.com.br/graficos/EJ5zo/?

A que a senhora atribui o sucesso em Lagoa Santa?

É um projeto baseado em teorias e de trabalho com as professoras. Nada foi artificial, é o pessoal da rede. Para atingir a rede toda, escolhi uma professora da sala de aula de cada escola. A primeira providência foi a base [curricular]. Falei: vamos pensar juntas quais habilidades que as crianças têm de adquirir pra aprenderem. Fiz uma versão, que chamamos de nossas metas, ano por ano. Discuti e me corrigiram muito.

A gente até leva em consideração avaliações externas, mas o que nos interessa são as metas que temos, e o que a gente está fazendo pra chegar lá. E não tem material pronto.

As pessoas nunca se perguntaram como se alfabetiza com qualidade. Entra numa tradição de repetir, porque só estão atrás de métodos. E o fundamental é alfabetizar com métodos, e isso significa que eu entenda o que estou fazendo. E aí muda enormemente quando se vê uma criança com dificuldade.

Como a senhora vê a oposição de pesquisadores que receiam uma escolarização adiantada na educação infantil?

Dizem que é forçar a criança, que nessa fase ela tem de ter campos de experiências. Bom, toda criança se desenvolve com experiências. Mas na educação, o que caracteriza as experiências é que elas são dirigidas para determinadas habilidades, conhecimentos que deve se adquirir. Mas não querem saber para onde a experiência vai, e acham que a alfabetização começa em uma determinada hora.

As crianças nascem hoje no meio da escrita. Elas estão vendo escrita por todo lado, veem os pais, têm interesse. Toda criança pergunta “como é a letra?” “O que está escrito?”.

Como vê a discussão sobre considerar o processo de alfabetização até o 2º ano ou até 3º ano do fundamental?

É uma discussão sem foco. É um processo que dura e vai acompanhando o desenvolvimento da criança. E não tem um momento que você fala: aqui eu posso começar a alfabetizar. Porque já começou há muito tempo. Ou então: aqui está alfabetizada. Ela se apropriou do sistema alfabético de escrita, mas ainda não é capaz de ler com fluência ou escrever um pequeno texto. Mas no 3º ano, ela já é capaz. E no 4º ano, está melhor. É contínuo.

Mas sobre o conjunto de conhecimentos que se divide até 2º ou 3º ano, para que a criança esteja autônoma para aprender outras coisas, inclusive se aprofundar na própria alfabetização. Quando faz sentido ter uma régua, avaliar o que é esperado?

Só se pode fazer isso com uma decisão política, não pedagógica. Com os professores que temos, com a formação, condições, as escolas, se a gente conseguir que no 2º ano as crianças tenham se apropriado do sistema alfabético, então vamos marcar o segundo ano. É política, aleatória. mas é importante não deixar solto, sem critério.

Ao mesmo tempo que as faculdades não dão atenção à alfabetização, quem vai para esse segmento são em geral professores iniciantes. É possível ser otimista quando o contexto é tão fragilizado?

Sem mudar a formação do professor, ao menos para educação infantil e séries iniciais, não vamos avançar. Uma esperança é que a base force os cursos a começar a preparar os professores para atender o currículo. As redes vão poder orientar melhor, e os livros vão ter que se organizar pela base.

Raio X

Formação
Graduada em letras, doutora e livre-docente (1962) em educação pela UFMG

Carreira
Professora emérita da UFMG. Chefia o Núcleo de Alfabetização e Letramento de Lagoa Santa (MG). Com “Alfabetização – A Questão dos Métodos” (Ed. Contexto), levou o Jabuti de livro do ano

Fonte: PAULO SALDAÑA, Folha de S.Paulo, ENVIADO ESPECIAL A BELO HORIZONTE, 

Sinopse do livro “Alfabetização – A Questão dos Métodos” de Magda Soares

Muita tinta já se gastou para discutir a alfabetização. Não resolver questões como quando e de que forma alfabetizar implica abrir mão de um ensino de qualidade, condição fundamental para uma sociedade verdadeiramente democrática. A persistência do problema e as controvérsias em torno dos métodos de alfabetização demandam uma reflexão profunda sobre o tema. E é isso que realiza Magda Soares nesta obra imperdível. Além de décadas de pesquisa, Magda faz questão de se manter próxima à realidade das salas de aula – discute o histórico do problema e apresenta os principais métodos utilizados. Mais do que isso, mostra que o método é caminhar em direção à criança alfabetizada. Nesse sentido, alfabetizadores precisam conhecer os caminhos da criança para orientar seus próprios passos e os passos da criança. Só assim é possível alfabetizar com método.

Inteligência Competitiva Tecnológica: “Inovação é o motor que mantém as políticas sociais em funcionamento”

Avaliação foi feita por Elisabeth Reynolds, que coordenou no MIT um conjunto de estudos sobre inovação no Brasil (foto: MIT)

O Brasil enfrenta, neste momento, grandes limitações orçamentárias. De modo a apoiar a agenda de política social, o país necessita investir em aumento de produtividade e crescimento por meio da inovação.

A avaliação foi feita por Elisabeth Reynolds, diretora executiva do Industrial Performance Center (IPC) – um instituto de pesquisa vinculado ao Massachusetts Institute of Technology (MIT), nos Estados Unidos –, durante um workshop realizado no fim de janeiro, na FAPESP.

Intitulado “Innovating in Brazil” (Inovando no Brasil), o evento reuniu pesquisadores norte-americanos e brasileiros, além de representantes do governo e da indústria, com o objetivo de debater qual deve ser a agenda de inovação para o Brasil avançar.

A discussão teve como base 14 artigos elaborados por cientistas do MIT e por seus alunos de pós-graduação – muitos deles brasileiros –, além de colaboradores de instituições como Banco Mundial, Universidade de São Paulo (USP), Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Inter.B Consultoria Internacional de Negócios e Mobilização Empresarial pela Inovação (MEI).

Os trabalhos – ainda não publicados – traçam um panorama das instituições, políticas e programas que dão forma ao sistema de inovação do Brasil. Discutem o que falta às universidades brasileiras para que possam atuar efetivamente como motores da inovação no país. Destacam a necessidade de abrir a economia brasileira, altamente protegida, para o mercado globalizado.

Os trabalhos tratam também dos chamados “intermediários da inovação” – como os centros de engenharia da Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii) e da FAPESP, além dos Institutos Senai de Inovação (ISI) – que, segundo os autores, “se esforçam para preencher lacunas importantes no ecossistema de inovação”. Como formas organizacionais mais simples e menos burocráticas, avaliam os pesquisadores, esses intermediários encorajam grandes projetos aplicados de pesquisa e desenvolvimento em empresas, além de colaborações mais produtivas com as universidades.

Segundo Reynolds, o objetivo do workshop foi debater os temas tratados nos artigos com membros da academia, do governo e da indústria antes de tornar os trabalhos acessíveis ao grande público. A expectativa é que a versão final seja divulgada ainda em 2018 – a tempo de influenciar o debate sobre inovação durante as eleições presidenciais.

Em entrevista concedida à Agência FAPESP, a diretora executiva do IPC destacou a necessidade de um planejamento de longo prazo na área de ciência, tecnologia e inovação, descolado das urgências políticas do dia a dia. Leia, a seguir, os principais trechos da conversa.

Agência FAPESP – Poderia explicar o escopo do IPC e por que o centro tem interesse no tema da inovação no Brasil?
Elisabeth Reynolds – O instituto foi fundado no início da década de 1990. Na época, o Japão dominava o mercado automotivo e havia uma grande preocupação em relação à produtividade e à competitividade da indústria norte-americana. O MIT conduziu então um grande estudo sobre o tema nomeado “Made in America“, que se tornou bastante popular. O trabalho deixou claro que precisávamos de um centro de investigação que não fosse focado em apenas um tipo de indústria, ou em uma questão específica como produtividade, mas olhasse para todas as empresas e a indústria no contexto da economia globalizada. Esse tem sido o trabalho do IPC nos últimos 25 anos: entender como nossas empresas e a indústria podem se desenvolver, inovar e aumentar sua competitividade no contexto da economia globalizada. Nossa pesquisa pode estar focada em uma indústria ou em um país específico. Já desenvolvemos trabalhos na Europa, na Ásia e no México. O Brasil é uma economia emergente e é muito interessante para nós entender qual deve ser a agenda de inovação e o que precisa ser feito para que o país realmente avance.

Agência FAPESP – Quando começaram as pesquisas no Brasil e quantos cientistas estão envolvidos?
Reynolds – Temos trabalhado no Brasil há muitos anos, em parceria com pesquisadores de campo interessados em construir capacidade de inovação no país. Nosso time no IPC é formado por cinco ou seis pesquisadores sêniores e, além disso, contamos com cerca de oito estudantes – a maioria é brasileira. Temos nos beneficiado dessa proximidade com os estudantes, pois eles moram nos Estados Unidos, mas conhecem o contexto brasileiro muito bem. Fomos trazidos ao Brasil pela primeira vez em um projeto patrocinado pelo Senai [Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial], que tinha o objetivo de introduzir mais inovação em sua agenda. Nossa missão era estudar não apenas os 25 institutos de inovação mantidos pelo Senai em diversos estados, como também avaliar o contexto mais amplo para a inovação no país. Após anos de investigação, decidimos reunir os pesquisadores do IPC e nossos parceiros brasileiros, além de outros acadêmicos e líderes de empresas, para iniciar uma conversa sobre qual seria a agenda de inovação necessária para o Brasil. O resultado foi debatido no workshop realizado na FAPESP.

Agência FAPESP – Qual era a proposta do workshop?
Reynolds – Discutimos o conteúdo de 14 artigos ainda não publicados – metade escrita por pesquisadores do MIT e metade por nossos colegas brasileiros. Convidamos também cerca de 10 debatedores envolvidos com a indústria, com o governo ou com a academia. Os artigos cobrem temas-chave, que consideramos importantes para a agenda de inovação brasileira. Entre eles está o contexto político-econômico da inovação, o papel das universidades e das instituições. Nós observamos muita inovação institucional no Brasil – novas instituições sendo formadas, que são organizações voltadas a promover pesquisa translacional com potencial impacto em empresas e na economia. Também buscamos entender a competitividade das empresas e da indústria brasileira. Trata-se de uma economia altamente fechada e protegida. Uma das discussões relevantes foi sobre como criar políticas públicas que ajudem a abrir a sociedade para a economia global.

Agência FAPESP – Há previsão de quando e onde esses artigos serão publicados?
Reynolds – Esperamos que seja ainda este ano, antes das eleições. Nossa expectativa é que o resultado das pesquisas auxilie o debate sobre o tema durante as eleições. Não estamos interessados em publicar artigos em jornais acadêmicos altamente especializados e sofisticados, pois poucos têm acesso a esses meios. Gostaríamos de ver este trabalho publicado em jornais e também reunir os artigos em um livro acessível ao público geral. Também esperamos comunicar os resultados em diversos locais, para pessoas interessadas em fazer com que essa agenda avance, sejam elas ligadas ao governo ou a organizações relacionadas à indústria.

Agência FAPESP – Com base nos artigos em discussão, quais seriam os principais pontos da agenda de inovação brasileira?
Reynolds – Podemos destacar três fatores. O primeiro é a necessidade de abrir a economia brasileira para a economia global – algo importante para aumentar a competitividade e a inovação. Isso trará verdadeiros benefícios para o país, não apenas para as empresas como também para trabalhadores de baixa renda. Em segundo lugar eu destacaria a necessidade de reformas institucionais. Uma das principais discussões do workshop foi o que precisa acontecer para o governo se tornar um parceiro completo do setor privado. E como obter uma melhor coordenação no sistema fragmentado de inovação do Brasil. O terceiro ponto é a criação de uma mentalidade [mindset] no país que permita ver a agenda de inovação e a agenda da ciência e da tecnologia como algo fundamental para sustentar as políticas sociais e a rede de segurança social do Brasil. O país enfrenta grandes limitações orçamentárias atualmente. De modo a apoiar a agenda de política social, o país deve investir em aumento da produtividade e no crescimento por meio da inovação. Sacrificar a agenda de inovação em nome de uma agenda social seria destruir o motor que mantém as políticas sociais do país em funcionamento. Temos que encontrar uma maneira de construir um consenso, criar uma abordagem sistêmica para apoiar a agenda de inovação, de modo que seja vista como parte importante do avanço da economia brasileira. O Brasil começou a ver algum crescimento econômico e esse mindset tem de ser encorajado neste momento. Caso contrário, há um grande risco de o motor ser destruído, comprometendo o avanço das políticas sociais no país.

Agência FAPESP – Um obstáculo ao avanço da inovação apontado por vários dos participantes do workshop é a falta de governança e de planejamento de longo prazo no país. Como superar esse problema em um cenário político tão instável como o atual?
Reynolds – É um fato da democracia as políticas públicas estarem sujeitas a experiências políticas. Temos esse problema nos Estados Unidos também. Políticos querem ser reeleitos e isso significa apoiar políticas que, no curto prazo, agradem seus eleitores. O que temos visto em outros países é a construção de instituições capazes de ficar a um passo de distância do processo político. Um serviço público bem estruturado, por exemplo, que não se mova com a mudança do vento a cada governo político. Instituições que se sobressaem a qualquer indivíduo, um ministério que trabalha com planejamento de longo prazo, investimentos direcionados para um determinado projeto de longo prazo. Nos Estados Unidos vemos isso com frequência no Departamento de Defesa, onde há um plano de longo prazo independente do que acontece na política. No passado, o Brasil já fez isso. Foi o caso da Embraer no setor aeroespacial. Também há exemplos no setor agrícola e de biocombustíveis – este último infelizmente não é mais assim. É um grande desafio para o Brasil. O primeiro passo é criar um contexto institucional que permita e incentive um planejamento de longo prazo separado das urgências políticas do dia a dia. Penso que esse é o tipo de reforma institucional que o país deveria estar buscando – pelo menos no que se refere à agenda de inovação.

Fonte: Karina Toledo  |  Agência FAPESP, 22 de fevereiro de 2018 

Brasil fecha 2017 com desemprego menor, a 11,8%, sustentado pela informalidade

A taxa de desemprego no Brasil caiu ligeiramente em 2017 e ficou abaixo do esperado, mas a melhora foi sustentada pela informalidade diante da gradual recuperação da atividade econômica depois da recessão que marcou o país.

A taxa de desemprego ficou em 11,8 por cento no quarto trimestre do ano passado, comparado com 12,4 por cento no terceiro, informou o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nesta quarta-feira, marcando a nona queda seguida. No pico de 2017, a taxa chegou a 13,7 por cento no primeiro trimestre.

No final de 2016, a taxa havia ficado em 12 por cento. O resultado do final do ano passado igualou a taxa que foi registrada nos trimestres encerrados entre agosto e outubro de 2016 e ficou ligeiramente abaixo da expectativa em pesquisa da Reuters com analistas, de 11,9 por cento.

Entre outubro e dezembro, a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua mostrou que o contingente de pessoas desempregadas no país alcançou 12,3 milhões, 5 por cento a menos em comparação com os três meses anteriores e estável sobre o mesmo período do ano anterior.

O levantamento também mostrou que o Brasil tinha 92,1 milhões de pessoas ocupadas, alta de 0,9 por cento sobre o terceiro trimestre e de 2 por cento ante o quarto trimestre de 2016.

O emprego informal continuou sendo o destaque para a melhora do cenário. A economia vem apresentando recuperação gradual após anos de recessão, porém o mercado de trabalho tende a responder de maneira tardia ao ciclo econômico.

No quarto trimestre, o emprego sem carteira assinada subiu 1,9 por cento sobre o período anterior, para 11,115 milhões de pessoas. Sobre 2016, o salto foi de 5,7 por cento.

O emprego com carteira subiu 0,1 por cento sobre o terceiro trimestre, somando 33,3 milhões de trabalhadores, mas caiu 2,0 por cento em relação ao quarto trimestre de 2016.

O IBGE informou ainda que o rendimento médio do trabalhador chegou a 2.154 reais no último trimestre do ano, ante 2.134 reais entre julho e setembro e 2.120 reais no mesmo período de 2016.

Em 2017, o Brasil perdeu 20.832 postos de trabalho formais, terceiro ano seguido de déficit apesar do início da recuperação econômica e da vigência das flexibilizações trabalhistas defendidas pelo governo para impulsionar o número de vagas, segundo o Ministério do Trabalho.

Fonte: Reuters/DCI,

Brasil tem 102 milhões de acessos 4G

O Brasil fechou 2017 com 102 milhões de acessos 4G, um crescimento de 70% nos últimos 12 meses. As redes de quarta geração também tiveram crescimento expressivo em 2017 e já estão em operação em 3.823 municípios, onde moram 93% da população brasileira.

Essa cobertura é mais de três vezes superior à obrigação estabelecida nos leilões das licenças de serviços móveis, que prevê uma cobertura de 1.079 municípios.

Segundo balanço de dezembro de 2017 da Associação Brasileira de Telecomunicações (Telebrasil), 2.297 novos municípios receberam as redes de 4G, um crescimento de 150% no ano passado. O número é resultado de um investimento massivo das teles em aumento da cobertura mediante à limpeza do espectro, que até 2014 era ocupado pelo sinal analógico da TV aberta e rádios AM e FM.

Outras tecnologiaDe acordo com os dados compilados pela Anatel, e ratificados pela entidade que representa as operadoras, a cobertura de 3G também mostrou expansão, alcançando 5.131 municípios em dezembro, onde moram 98,8% da população brasileira.

Desde dezembro de 2016, aponta a agência, 146 novos municípios receberam as redes de 3G. Ao todo, o número de acessos 3G chega a 83,7 milhões no País. A cobertura de 3G ultrapassa em muito a obrigação atual, que é de 3.917 municípios.

Como resultado, ao todo, já existem no Brasil 204,1 milhões de acessos à internet pela rede móvel, resultado da maior venda de aparelhos.

Consideradas os acessos fixos e móveis, os dados de dezembro de 2017 mostram um total de 233 milhões de acessos no País. Destes, 28,7 milhões são em banda larga fixa, segmento que cresceu 7,8% no ano passado, com 2,2 milhão de novos acessos.

Fonte: Redação DCI, São Paulo

Relator no TRF4 vota por condenação e aumento de pena de Lula

O relator dos recursos do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva no Tribunal Regiona Federal da 4ª Região (TRF4), desembargador João Pedro Gebran Neto, votou pela manutenção da condenação do petista e aumentou a pena para 12 anos e um mês de reclusão e 280 dias de multa. Para o desembargador, a pena de Lula deve ser cumprida em regime fechado. O juiz federal Sérgio Moro, em primeira instância, estabeleceu 9 anos e 6 meses de prisão.

O relator também fixou a pena de Agenor Franklin em 5 anos, 6 meses e 26 dias de reclusão e mais 130 dias de multa. As penas do ex-presidente da empreiteira da OAS, José Aldemario Pinheiro Filho, foram mantidas.

Segundo Gebran, é possível afirmar com certeza o contexto em que ocorreram os crimes de corrupção. “Há prova, acima do razoável, de que o ex-presidente foi um dos principais articuladores, se não o principal, do esquema de corrupção na Petrobras.”

Contudo, Gebran negou o recurso do Ministério Público Federal que pedia a condenação por três atos de corrupção passiva. “Considero uma única atuação de corrupção”, afirmou. Também negou a imputação de mais de um crime de lavagem de dinheiro. Segundo eles, os três atos de lavagem apontados pela acusação estão inseridos no mesmo contexto. Ele rebateu a tese da defesa de que o imóvel pertence à empreiteira. “A OAS figurava como um verdadeiro laranja para esconder o verdadeiro titular da unidade [triplex].”

Voto

Gebran embasou o voto, que tem aproximadamente 430 páginas, nos depoimentos. Entre as oitivas que foram usadas está a do o ex-presidente da OAS, Pinheiro Filho. “Se houvesse quaisquer dúvidas [quanto à propriedade do imóvel], quero crer que elas sucumbem ao interrogatório de José Aldemário Pinheiro Filho”, disse. “Cabia a ele [Lula] dar suporte de continuidade ao esquema de corrupção”, acrescentou.

Fonte: Administradores

Inteligência Competitiva Brasil: PIB cai 3,6% e indica retomada lenta

A queda de 0,9% do Produto Interno Bruto (PIB) no último trimestre de 2016, maior que a esperada pelos analistas, não muda a avaliação de que a economia deve voltar a crescer em 2017 . No entanto, para que o país evite um terceiro ano consecutivo de queda do PIB, a recuperação no primeiro semestre terá que ser mais forte do que a prevista. A recessão do ano passado, de 3,6%, anunciada oficialmente ontem pelo IBGE, deixou uma herança estatística bastante negativa, de ­1,1%. Isso significa que se a economia ficar com produção estabilizada neste ano em relação ao nível do quarto trimestre de 2016 haverá uma nova recessão, de 1,1%, em 2017 .

Apesar do resultado ruim, não houve entre os analistas revisões significativas na previsões para o PIB deste ano. A expectativa dominante é que haverá recuperação lenta e gradual ao longo do ano, que pode começar já no primeiro trimestre, embora com uma alta muito modesta em relação ao trimestre anterior. Paulo Picchetti, pesquisador do IbreFGV, prevê crescimentos de 0,1% no primeiro semestre e de 0,4% no ano todo. Marcelo Carvalho, economista  ­chefe do BNP Paribas, trabalha com uma taxa positiva de 1% para o ano, estimativa que ele poderá revisar um pouco para baixo.

O ciclo de queda dos juros e a expectativa de safra recorde são dois dos principais fatores que levam os economistas a apostar na retomada, ainda que moderada, em 2017 . No acumulado de 2015 e 2016, a economia brasileira encolheu 7 ,2%, uma das maiores retrações do mun­do.

No ano passado, só a Venezuela teve desempenho pior do que o brasileiro na América Latina. A Argentina também enfrentou recessão, de 2,2%. Corrigido pela inflação, o PIB per capita brasileiro anual caiu 4,4% em 2016 e ficou em R$ 30.407 , segundo o IBGE.

Esse nível é inferior, também, ao de 2010, quando atingiu R$ 31.97 9, segundo cálculos do economista Cláudio Considera, do Ibre­FGV. Em 2015, o PIB per capita já havia caído 4,6%.

O PIB per capita brasileiro era de R$ 24.992 em 2001 e cresceu ininterruptamente até 2012, quando alcançou R$ 33.330 (deflacionado) e passou a cair a partir de 2013, acumulando em 2016 três anos consecutivos de retração.

Esse indicador é uma medida de desenvolvimento do país. Mais que o dado geral do PIB, é um bom termômetro dos níveis de bem ­estar e satisfação da população, afirma o professor do Insper, Otto Nogami.

Fontes: Valor, Rio e São Paulo, 08/03/2017,­ 05:00

Inteligência Competitiva: TV paga registra queda de 105,40 mil assinantes em janeiro

A Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) registrou em janeiro de 2017 um total de 18,69 milhões de assinantes de TV paga no Brasil, o que corresponde a uma diminuição de 105,40 mil assinantes em comparação com dezembro de 2016, menos 0,56%. Dos grupos acompanhados pela Agência, a Oi e a Cabo apresentaram crescimento de 1,06% e 0,24%, respectivamente. Todos os outros grupos apresentaram redução.

Nos últimos doze meses, a redução foi de 364,46 mil assinantes, menos 1,91%. Neste período, a Oi apresentou crescimento de 12,03% com mais 141,55 mil assinantes. Todos os outros grupos apresentaram redução, destaque para a Blue com queda de 30,66%, redução de 46.116 assinantes.

Em relação às tecnologias, entre dezembro de 2016 e janeiro de 2017, a fibra ótica apresentou crescimento de 0,22% devido à adição de 485 usuários. No entanto, em 12 meses, esta tecnologia apresentou crescimento de 27,35% com a entrada de 47, 59 mil assinantes. Todos os outros serviços apresentaram queda, em termos absolutos a maior redução foi registrada por usuários de satélite, menos 353,67 mil assinantes (-3,2%).

Nos estados brasileiros, no último mês o Ceará liderou a redução percentual nos números de usuários de TV paga, menos 1,73%, seguido pelo Amazonas com redução de 1,62% e Amapá com menos 1,54%. Piauí apresentou crescimento de 0,19% e Maranhão de 0,06%, entre dezembro de 2016 e janeiro de 2017.

Nos últimos doze meses, Pernambuco liderou a redução percentual nos assinantes no país, menos 8,02%, seguido de Rondônia com queda de 7,98% e Amapá com menos 7,58%. Lideraram o crescimento da TV paga no Brasil os estados do Piauí com 7,47%, Sergipe com 4,26% e Maranhão com 4,08% de aumento no número de assinantes.

Fonte: Agência Nacional de Telecomunicações