Bradesco tem lucro recorrente de R$ 6,5 bi no 1º trimestre, salto de 73% sobre 2020

Notas De Banco Sortidas
Pixabay

Bradesco teve lucro líquido recorrente de R$ 6,515 bilhões no primeiro trimestre, com alta anual de 73,6%. Na comparação com o quarto trimestre, houve queda de 4,2%. O resultado ficou acima da média das projeções dos analistas consultados pelo Valor, que apontava ganho de R$ 6,223 bilhões.

O lucro contábil foi de R$ 6,153 bilhões no primeiro trimestre, alta de 81,9% ante igual período de 2020.

A rentabilidade sobre o patrimônio líquido médio trimestral (ROAE) atingiu 18,7%, de 20,0% no quarto trimestre e 11,7% no primeiro trimestre de 2020. O índice de Basileia ficou em 15,4%, de 15,8% e 13,9%, respectivamente.

As despesas com provisões para devedores duvidosos (PDD) ficaram em R$ 3,907 bilhões no 1º trimestre, com recuo de 14,5% no trimestre e de 41,8% em 12 meses

A margem financeira somou R$ 15,578 bilhões, com queda de 6,5% no trimestre e alta de 7,4% em 12 meses.

A receita de serviços somou R$ 8,067 bilhões, queda de 7,5% no trimestre e 2,6% em 12 meses. As despesas operacionais totalizam R$ 11,204 bilhões, queda de 2,4% no trimestre e de 4,7% em 12 meses.

As linhas do balanço indicam que as incertezas do cenário estão em arrefecimento, segundo o presidente executivo do Bradesco, Octavio de Lazari Jr. “Estamos trocando as dúvidas sombrias por uma narrativa virtuosa”, afirma em nota. “Em termos objetivos, os bancos estão preparados para enfrentar o cenário desafiador da pandemia. E os resultados alcançados neste início de ano indicam isso”.

Lazari destaca que a principal razão do bom desempenho do Bradesco no primeiro trimestre foi uma mudança para melhor nos fluxos financeiros e de negócios das empresas e pessoas físicas, principalmente com o crescimento e consolidação da economia digital. Nesse cenário, há reflexos positivos na originação do crédito, especialmente financiamento imobiliário e via aplicativos, e nos produtos de seguros.

Segundo ele, o posicionamento estratégico adotado no início do ano passado, quando a pandemia chegou ao Brasil, “se mostrou tempestivo e oportuno, protegendo a instituição na travessia da crise aguda e, agora, permitindo uma posição robusta no relançamento da economia”.

Ainda assim, Lazari afirmou que o ritmo de vacinação precisa ser intensificado. “Estamos chegando aos 20% da população vacinada em primeira dose, no ritmo possível. Isso pode ser intensificado. A mudança da velocidade da vacinação é a peça-chave para a construção mais rápida de um cenário positivo da economia”, afirma.

Fonte: Álvaro Campos, Valor — São Paulo, 04/05/2021, 18h24.

Bradesco cria vice-presidência de clientes e nomeia presidente para banco digital Next

Bradesco cria vice-presidência de clientes
Joá Souza – 27.jan.2021/Folhapress

O Bradesco anunciou nesta segunda-feira (1º) a criação de uma vice-presidência de clientes e indicou um presidente para o banco digital Next, em estratégia para fazer frente aos “desafios desta década”, que incluem aumento da competição no setor financeiro e efeitos econômicos da pandemia.

Entre as mudanças, o Bradesco também indicou Oswaldo Tadeu Fernandes como vice-presidente financeiro e afirmou que Felipe Thut foi confirmado para o cargo de diretor do Bradesco BBI.

O banco criou a vice-presidência para abrigar o cargo de CCO (Chief Customer Officer), diretor do cliente, em tradução livre, que terá a função de aprofundar o conceito do cliente como centro das decisões. A visão é investir na melhor experiência do cliente com o banco”, afirmou o Bradesco em comunicado à imprensa.

A nova área será comandada por Rogério Câmara, que foi promovido da diretoria-executiva. Sob a gestão de Câmara estarão as áreas de desenvolvimento de sistemas, arquitetura de TI, gestão de dados, CRM e Bradesco Experience. A promoção do executivo amplia de quatro para cinco o número de vice-presidentes do Bradesco.

A presidência do banco digital Next, criado em 2017 e hoje com 4 milhões de clientes, ficará a cargo de Renato Ejnisman, que será o primeiro a ocupar o posto.

Fonte: Reuters. Publicado na Folha de S.Paulo, 1/3/2021.

Grandes bancos privados fecharam mais de 1.500 agências e pontos de atendimento em 2020

Bancos apostam em transformação digital
Bancos apostam em transformação digital – Gabriel Cabral – 22.ago.2019/Folhapress

Itaú, Bradesco e Santander, os três maiores bancos privados do país, sinalizam que estão revendo seus processos mais tradicionais de operação e atendimento ao cliente. O movimento ocorre na esteira de uma maior adesão dos brasileiros aos canais digitais, como reação ao isolamento social, mas também como uma alternativa para a redução de custos.

O maior indicador dessa mudança é o fechamento de agências e a redução no quadro de funcionários. Apenas em 2020, as três instituições fecharam, juntas, mais de 1.500 agências e pontos de atendimentos. O número representa uma queda de 12% na estrutura.

enxugamento de agências não é de agora. Especialistas e analistas do mercado já projetavam a tendência de migração de áreas físicas para canais digitais, com investimentos cada vez maiores em tecnologia.

“A capilaridade, de certa forma, era um grande ativo para o setor. Mas, de um tempo para cá, os bancos se anteciparam à digitalização, e não é de hoje que vêm diminuindo a presença física”, afirmou o presidente da Febraban (Federação Brasileira de Bancos), Isaac Sidney, em um Webinar promovido pela Fitch Ratings em setembro de 2020.

A expectativa, agora, é que o maior uso dos canais digitais durante a pandemia intensifique esse movimento. Pesquisa realizada pela federação e pelo Ipespe (Instituto de Pesquisas Sociais, Políticas e Econômicas) com 3.000 entrevistados embasa essa percepção: 60% afirmaram que passaram a usar mais os canais virtuais dos bancos com a pandemia.

Outro levantamento feito pelo Banco Central apontou que o distanciamento social e o pagamento do auxílio emergencial em 2020 aceleraram o processo de bancarização no Brasil, fazendo com que 9,8 milhões de pessoas iniciassem relacionamento com uma instituição financeira entre março e outubro.

Segundo Milton Maluhy Filho, novo presidente do Itaú Unibanco, que assumiu o cargo na terça-feira (2) no lugar de Candido Bracher, o grande banco privado deve focar ainda mais em sua atuação digital e também no ESG (melhores práticas ambientais, sociais e de governança).

A instituição encerrou o quarto trimestre de 2020 com 24,4 milhões de clientes digitais, um aumento de 2,9% em relação aos três meses imediatamente anteriores.

“Investiremos o dobro em tecnologia em 2021 do que investimos em 2018. Aumentamos a quantidade de soluções de tecnologia em 81%, com novos serviços e funcionalidades para as plataformas digitais. Esses canais continuam a crescer mesmo depois do período mais crítico da pandemia”, afirmou o executivo.

O mesmo aconteceu nos outros dois grandes bancos privados.

Em relatório divulgado nesta quarta-feira (3) o Bradesco apontou que um quarto (25, 3%) dos empréstimos feitos pelo banco em 2020 foi feito em canais digitais.

Em nota, Octavio de Lazari, presidente da instituição, disse que parte da explicação para a rápida reação do banco diante da crise do coronavírus foi poder contar com uma robusta estrutura tecnológica para atendimento digital.

Segundo Sergio Rial, presidente do Santander, o banco trabalhar para colocar 90% de seus produtos em canais digitais em dois anos.

“Até o final de 2022, esperamos que a atividade operacional das nossas lojas [agências] seja próxima de zero. Isso significa eliminar processos que precisem de papeis e trazer produtos e serviços cada vez mais digitais”, afirmou.

Para ele, a mudança para os meios digitais também reflete em agências mais voltadas para o atendimento especializado –que priorizam a consultoria ao invés do atendimento de caixa, pagamento de contas ou assinatura de contratos, por exemplo.

“Não acho que alguém consiga fazer previdência de longo prazo por meio de uma tela digital. A não ser que seja um investidor qualificado, o cliente pode querer uma consultoria. O mesmo acontece para financiamentos de veículos”, disse Rial.

Só o Santander encerrou o ano passado com 3.564 agências e pontos de atendimento, um redução de 7,2% na estrutura em relação a 2019. O banco também demitiu 3.220 funcionários no período. O quadro atual conta com 44.599 colaboradores.

O Bradesco fechou 1.083 agências em 2020 –400 delas apenas no quarto trimestre. Nesta quinta-feira (4) o presidente do banco, Octavio de Lazari, também sinalizou que estima fechar mais 450 agências em 2021, o que totalizaria um corte superior a um terço da estrutura física do Bradesco.

O banco encerrou 2020 com uma redução de 8% do seu quadro de funcionários, de 97.329 para 89.575.

“Esse movimento intensifica a transformação digital, com uma cultura intensiva de dados e o melhor atendimento dos clientes com essas ferramentas. Isso tem se mostrado fundamental”, disse Lazari. Ainda assim, o movimento enfrenta reações de sindicatos dos bancários que têm feito críticas à instituição.

​O Itaú, apesar de também ter registrado demissões ao longo da pandemia, encerrou o ano com 96.540 funcionários, 1.659 a mais do que o registrado em 2019. De acordo com o banco, foram contratados 3.764 engenheiros e equipe de tecnologia, já incluindo os profissionais absorvidos com a compra da Zup, companhia mineira de serviços de tecnologia.

Em 2020, o banco também encerrou 167 agências e pontos de atendimento – 117 deles no Brasil. Segundo Maluhy, no entanto, o banco não tem planos de reduzir ainda mais a sua estrutura física.

“Temos um público muito heterogêneo, desde pessoas que vão nas agências todos os dias até aqueles que só conseguem resolver as coisas pelos canais digitais. Mas nós continuamos trabalhando bastante na evolução do sistema legado e o investimento em tecnologia é uma tendência do setor”, disse Maluhy.

EFEITOS DA TRANSFORMAÇÃO DIGITAL NOS BANCOS

Redução de agências
Juntos, Itaú, Bradesco e Santander reduziram mais de 1500 agências e pontos de atendimento

Cortes no quadro de funcionários
Só Bradesco e Santander demitiram, juntos, mais de 10 mil pessoas em 2020

Investimentos em tecnologia
Além da inovação de sistemas, as instituições também investem em segurança dos canais digitais

Fonte: Folha de S.Paulo, Isabela Bolzani, Atualizado: 4.fev.2021 às 15h42.

Fintechs enxergam cada vez menos os bancos como rivais

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Se até pouco tempo atrás as fintechs eram vistas como a maior ameaça à hegemonia dos grandes bancos, aos poucos essa percepção vem mudando. Primeiro porque várias das que ganharam mais visibilidade atuam em meios de pagamento e novos segmentos que estão surgindo graças a tecnologias recentes, como o Pix e open banking, e não batendo de frente no varejo bancário. E segundo porque as próprias fintechs cada vez menos enxergam os bancos como rivais.

Pesquisa elaborada pela Associação Brasileira de Fintechs (ABFintechs) e a consultoria e auditoria PwC mostra que apenas 10% das fintechs enxergam os bancos como competidores, índice bem menor do que no ano passado, quando eram 18%. Para 46%, os bancos já são parceiros (de 35% em 2019) e para outras 29% são possíveis parceiros (de 28% no ano passado). Uma fatia restante de 15% vê os bancos como potenciais compradores, ante um patamar de 20% na edição anterior da pesquisa.

Fonte: Valor, Álvaro Campos, 23/12/2020.

Furacão PIX: fintechs e WhatsApp ganham, máquinas e bancos perdem bilhões

Feira livre em São PauloFoto: Germano Lüders16/11/2018
Pix: novo sistema do Banco Central pode revolucionar o mercado de transações e pagamentos no Brasil (Germano Lüders/Exame)

Banco Central anunciou nesta semana que vai antecipar de novembro para outubro a estreia de um serviço que vai revolucionar o mercado de pagamentos no Brasil. É o PIX, o sistema de pagamentos instantâneos e de transferências entre carteiras digitais que vai funcionar 24 horas por dias a custo zero para o consumidor final.

Pode ser o fim do TED e do DOC, os instrumentos de transferências usados atualmente pelos grandes bancos com limite de horário, mas será também um reequilíbrio de forças no mercado financeiro brasileiro. Afinal, quem ganha, e quem perde?

Um estudo da consultoria Roland Berger calcula que o fim das taxas sobre transferências vai custas aos grandes bancos e às empresas de adquirência (as famosas maquininhas) de 18% a 63% de suas receitas — 13 bilhões de reais por ano. Entre as empresas atingidas estão Cielo, Rede, GetNet, Stone, PagSeguro e Mercado Pago.

Na outra ponta, os vencedores tendem a ser as mais de mil instituições que já se cadastraram para usar a novidade. Entre elas estão varejistas, como Magalu, fintechs, como Nubank e Neon, mas também financeiras mais consolidadas, como Cielo e Itaú.

Segundo a Roland Berger, o PIX deve acelerar o uso de pagamentos por QR Code, muito comuns em países como a China. “Abre-se espaço para uma revolução no mercado de pagamentos que, embora de forma silenciosa, teve o seu início com a covid-19”, afirma o relatório da Roland Berger. Na China, os pagamentos por QR Code, com os apps de pagamento Ant Financial e WeChat, passaram de 7% para 69% do total de pagamentos presenciais desde 2017.

No Brasil, as carteiras digitais, que permitem pagamentos presenciais por QR Code e também pagamentos digitais, tiveram um boom durante a pandemia. O PicPay, uma das principais carteiras digitais do país, ampliou em quatro vezes o número de aberturas mensais de contas durante a pandemia e já tem mais de 20 milhões de usuários.

A consultoria sugere que os principais adquirentes “revisem suas estratégias para antecipar a transformação do mercado”. Entre as inovações propostas estão “lançamento de ofertas atrativas de gestão de conta corrente a criação de portfólios abrangentes”.

É uma pressão adicional em um mercado que vive uma revolução nos últimos anos. O aumento da concorrência fez com que Rede e Cielo deixassem de ter 89% do mercado, como em 2014, e passassem a cerca de 50%, em 2019. As taxas caíram cerca de 30%, segundo a Roland Berger, e agora devem cair ainda mais.

Para além das maquininhas, o PIX deve afetar outra série de companhias. As bandeiras de cartão perdem espaço nos pagamentos com cartão de débito num primeiro momento, e risco para os cartões de crédito no médio prazo. As processadoras de cartão perdem volume. Os bancos tradicionais perdem receitas com transferências.

Um estudo divulgado em fevereiro pela agência de risco Moody’s calcula que os bancos tradicionais perderiam 4,3 bilhões de reais apenas em taxas de cartões caso o PIX roube até 15% de seus volumes. As perdas com receitas em taxas de DOC e TED podem chegar a 2% dos lucros totais dos grandes bancos, segundo estimativas obtidas pela EXAME. “Mais que a perda financeira, o risco maior está na aceleração da digitalização e da competição”, diz um especialista. 

Segundo um investidor ouvido pela Exame, um grande vencedor pode ser o WhatsApp. “O serviço de mensagens é o que tem maior tempo de atenção dos consumidores, e deve ser a plataforma de uso mais ampla para o PIX. Será um intermediador para milhares de fintechs. Hoje elas têm o depósito como maior gargalo, mas agora conseguirão oferecer uma gama muito maior de serviços”, diz.

Fonte: Exame, Lucas Amorim. Publicado em: 24/07/2020 às 13h34. Alterado em: 24/07/2020 às 17h06.

Bancos apostam em agilidade: dados da Febraban mostram que grandes instituições estão avançando no assunto

Luana Rosales
Luana Rosales, Baguete

O assunto agilidade está pouco a pouco conquistando seu espaço entre os maiores bancos do país, organizações mais conhecidas pela sua abordagem tradicional do tema desenvolvimento de software.

É o que apontam dados da pesquisa anual sobre investimentos dos bancos divulgada pela Febraban na quinta-feira, 18.

Segundo dados da pesquisa sobre os investimentos em treinamentos dos bancos, em 2019 as capacitações focadas em formação de times ágeis receberam R$ 7,1 milhões.

A formação dos times de TI recebeu R$ 17,3 milhões e a de pessoas em geral dentro dos bancos chegou a R$ 107,3 milhões.

Quando o assunto é o número total de participantes, 146 mil funcionários passaram por treinamentos em tecnologia, enquanto 31 mil profissionais de TI foram capacitados e 11,4 mil participaram de formação de times ágeis.

Como os times de TI têm uma participação importante dentro das equipes ágeis, é possível deduzir que uma parte importante deles passou por treinamentos focados no método.

Segundo a Febraban, o valor investido no treinamento de times ágeis é significativo para o setor, que começou a aplicar a técnica timidamente entre 2016 e 2017 e apostou nela de vez no ano passado.

“São treinamentos que não são tão caros e, quando você olha a quantidade de pessoas, nós estamos falando de 11,4 mil pessoas treinadas. Pensando numa estrutura de quais pessoas do banco trabalham na área, é um número forte”, afirma Gustavo Fosse, diretor de TI no Banco do Brasil e diretor setorial de tecnologia e automação bancária da Febraban.

Nos últimos meses, o Baguete cobriu algumas iniciativas de desenvolvimento ágil em organizações do setor financeiro.

É o caso do Sicoob, que, em 2019, apostou na criação de um laboratório próprio para criar as suas soluções de TI. O banco reuniu cerca de 200 profissionais dos times de tecnologia e de negócios para acelerar as entregas, que são todas desenvolvidas internamente.

Um pouco antes, o Banrisul, banco estatal gaúcho, também adotou metodologias ágeis na sua unidade de transformação digital, vinculada à área de tecnologia da informação.

Ainda de acordo com a pesquisa da Febraban, o setor bancário aumentou em 24% seu orçamento para tecnologia de forma geral na comparação entre 2018 e 2019, o que inclui as despesas e os investimentos na área.

No período, os investimentos aumentaram 48%, passando de R$ 5,8 bilhões para R$ 8,6 bilhões, crescimento vindo da injeção de capital em ATMs e softwares, além de ambiente distribuído e mainframe.

Já as despesas cresceram de R$ 14 bilhões para R$ 16 bilhões, também puxadas por gastos com ambiente distribuído e mainframe, assim como equipamentos para usuários finais.

Assim como nos anos anteriores, as despesas e investimentos em software estiveram no centro das atenções das instituições financeiras, somando R$ 13,2 bilhões, ou 54% do total. 

O setor bancário é o maior investidor privado em tecnologia no Brasil e no mundo, responsável por 14% do total destinado à área em ambos. O setor governamental vem um pouco na frente, sendo responsável por 15% dos dispêndios com tecnologia no país e 16% em termos globais.

A Pesquisa Febraban de Tecnologia Bancária 2020 foi realizada pela Deloitte com 22 bancos que representam 90% dos ativos da indústria bancária. Todos responderam um formulário e, na sequência, 10 executivos da área de tecnologia foram selecionados para conceder entrevistas mais aprofundadas.

Fonte: Luana Rosales, repórter no Baguete Diário, 19/06/2020.

Santander planeja demitir 20% dos funcionários no Brasil durante a pandemia de Covid

Logo do Santander
Santander descumpre acordo e começa processo de demissão de funcionários – Edgard Garrido – 3.abr.2020/Reuters

O Santander Brasil começou a demitir funcionários em um processo que pode cortar 20% do quadro de trabalhadores do banco.

A projeção de corte foi antecipada à Folha por integrantes da alta gestão do banco com a condição de que não tivessem os nomes revelados. Por intermédio de sua assessoria de imprensa, o banco nega o percentual de corte e informa que, como ocorre em qualquer negócio, iniciou o processo de avaliação de produtividade das equipes.

As demissões ocorrem durante a pandemia do novo coronavírus mesmo após o banco ter assinado um compromisso público de que não demitiria enquanto perdurasse a crise.

O Santander tinha 47 mil funcionários no final de março. Com o corte de 20% do quadro, 9.438 pessoas podem perder o emprego. O percentual de redução da equipe foi confirmado à Folha.

Em nota, o Santander afirmou que o compromisso de não demissão de funcionários tinha validade de 60 dias, prazo que venceu no final de maio.

A ordem para demitir teria sido dada na semana passada e, segundo denúncias recebidas pelo Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e Região, os cortes estão ocorrendo sem justa causa.

A entidade que representa os bancários afirma que pelo menos 15 demissões já foram registradas na sexta-feira (5).

Executivos do banco afirmaram à Folha que as justificativas para os desligamentos seriam relacionadas à performance dos funcionários, que estaria aquém do esperado pela instituição.

Durante a crise, o presidente do banco, Sergio Rial, se queixou da queda de produtividade e também pressionou funcionários a deixar o home office, mesmo com os casos de Covid-19 ainda em expansão. O Santander, que se enquadra na categoria de serviço essencial, havia afirmado que desde o início da quarentena manteve 20% dos funcionários em funções administrativas na sede, em São Paulo.

Um dos executivos afirmou que o banco já fez cortes no quadro de trabalhadores nos últimos anos e diz que, agora, sobra pouca gente pra demitir por performance.

“Em 23 de março o Santander assumiu um compromisso público de que não faria demissões durante o período mais crítico da pandemia. Já recebemos as primeiras denúncias de demissões sem justa causa na sede do banco e há relatos de desligamentos também na Aymoré, que pertence ao Santander”, afirma a dirigente sindical e funcionária do banco, Lucimara Malaquias.

Segundo Malaquias, do Sindicato dos Bancários, outra justificativa dada pelos executivos para demissão de funcionários seria o ajuste no orçamento do banco.

O Santander registrou um aumento de 10,5% no lucro do primeiro trimestre deste ano ante igual período de 2019, para R$ 3,9 bilhões.

O aumento de risco de crédito ante a crise do coronavírus, no entanto, já trouxe um aumento de 85% nas provisões dos quatro maiores bancos do país —Banco do Brasil, Bradesco, Itaú e Santander. Segundo analistas, há tendência de queda de receita nessas instituições nos próximos trimestres.

Na última quarta-feira (3), porém, o banco divulgou a abertura de 1.500 vagas destinada para áreas de tecnologia, riscos, dados, financeiro e jurídico. “Estamos nos preparando para lidar com uma nova realidade que, sem dúvida, exigirá profissionais de alta performance e capacidade de adaptação”, afirmou Vanessa Lobato, vice-presidente de recursos humanos do Santander, na época.

Em matéria publicada no domingo (7) pela Folha, consultores e advogados afirmaram à reportagem que receberam diversas consultas de empresários que, sem perspectiva de uma retomada rápida da economia no mercado interno, sem garantia de crédito e com o crescente risco de assumir custos ainda maiores para demitir lá na frente, desistiram de reduzir jornada e salário e começaram a demitir.

Segundo os advogados, a redução no número de funcionários ocorreria, por orientação de assessores jurídicos, a conta-gotas, uma vez que mandar embora um grupo grande de trabalhadores pode levar a questionamentos judiciais.

OUTRO LADO

Em nota, o Santander negou o corte de 20%. “O Santander repudia a informação publicada pela Folha de S. Paulo, dando conta de que a organização planeja demitir 20% de seu quadro de funcionários”, afirma a assessoria de imprensa.

“Essa informação não é verídica e o título denota uma total falta de sensibilidade em relação aos mais de 45.000 funcionários da empresa. Lamentamos profundamente a abordagem sensacionalista,” afirma ainda o texto.

Em comunicado separado, a instituição afirma também que faz parte do abaixo-assinado do movimento Não Demita (rede de empresas que se comprometeram a não reduzir o quadro de funcionários por 60 dias) e que foi uma das primeiras empresas no Brasil a anunciar que não faria demissões até o final de maio.

O texto ainda reforça que o banco, inclusive, está contratando.

“Nosso compromisso social segue inabalável. Anunciamos recentemente a busca de mais de 1.000 profissionais e iniciamos uma nova operação de atendimento no sul do Brasil que poderá gerar mais de 4.000 empregos ainda neste ano”, afirmou o banco.

O Santander disse ainda que, como em de praxe em qualquer instituição, avalia suas equipe. Na nota destaca: “Em paralelo, como parte da gestão de qualquer negócio, a liderança do Banco iniciou um processo de reavaliação do nível de produtividade de suas equipes, que deve ser contínuo em uma empresa que busca manter o melhor nível de eficiência da indústria”.

O texto ainda diz que “o movimento é necessário para fazer frente a um entorno muito mais desafiador, além da necessidade de navegar com eficácia em um ambiente de arquitetura aberta, trabalho em rede e busca incessante de níveis de automação ainda mais contundentes”.

Segundo o banco, “este quadro de mudanças inclui, por exemplo, o trabalho remoto de equipes de forma mais permanente, já a partir do segundo semestre. A meritocracia é um dos grandes valores da instituição e é o filtro que pauta qualquer medida na esfera de gestão do nosso capital humano.”​

Fonte: Isabela Bolzani, Folha de S.Paulo, 9.jun.2020 às 17h21Atualizado: 9.jun.2020 às 20h55.

BB, Itaú, Bradesco, Caixa e Santander concentram 80,7% do crédito no País

5 grandes bancos
Os cinco maiores bancos do País. Foto: Montagem Estadão

As cinco maiores instituições financeiras do Brasil – Banco do BrasilItaú UnibancoBradescoCaixa Econômica Federal e Santander – concentram 80,7% das operações de crédito no País no segmento bancário, conforme dados divulgados nesta quinta-feira, 4, no Relatório de Estabilidade Bancária (REB), do Banco Central (BC). Os números referem-se ao mês de dezembro de 2019. Em 2018, o porcentual era de 82,2%.

Essas cinco instituições concentram 79,2% dos ativos totais e 82,3% dos depósitos. Em 2018, os porcentuais eram de 79,5% e 82,8%, respectivamente.

No relatório, o BC avaliou que os indicadores de concorrência mantiveram “tendência de queda” iniciada em meados de 2017, sinalizando um “ambiente de aumento da competição bancária e redução de custos de crédito e de outros serviços financeiros”.

“É importante também ressaltar que, nos doze meses encerrados em dezembro de 2019, houve redução do custo médio de captação, acompanhada de redução dos preços das novas operações de concessão de crédito, notadamente nas operações com pessoas jurídicas”, acrescentou.

O documento mostra que o Índice de Herfindahl-Hirschman normalizado (IHHn), utilizado como instrumento na avaliação de níveis de concentração econômica, fechou o ano de 2019 em 0,1308 no segmento bancário no caso de ativos totais. Em 2018, ele estava em 0,1334.    

Em depósito total, o índice atingiu 0,1419 no fim do ano passado, ante 0,1447. Já o IHHn relacionado a operações de crédito do segmento bancário atingiu os 0,1427, ante 0,1530.  

O Banco Central considera mercados que registram valores para o IHHn situados entre 0 e 0,1000 como de “baixa concentração”. Entre 0,1000 e 0,1800, como no Brasil, ocorre “moderada concentração”. De 0,1800 a 1, o mercado é de “elevada concentração”.

Rentabilidade sobe e lucro bate recorde

A rentabilidade dos bancos brasileiros subiu no ano de 2019 e o lucro das instituições financeiras bateu novo recorde, segundo informações divulgadas do BC.

O chamado retorno sobre o patrimônio líquido do sistema bancário nacional alcançou 16,5% em dezembro do ano passado, contra 14,8% no fechamento de 2018, e retornou a patamares registrados em 2011.

No caso dos bancos de grande e médio portes, a rentabilidade foi maior ainda, atingindo 18,8% no final do ano passado. “Isso se deve, provavelmente, aos maiores ganhos de escala e diversificação, que permitem aos bancos grandes e médios captarem recursos com menor custo”, informou o BC.

“A recuperação do ambiente econômico e a melhora da percepção de risco observada até final de 2019 criaram condições favoráveis para o crescimento da rentabilidade do sistema bancário ao longo do ano”, informou o Banco Central.

De acordo com a instituição, o aumento da rentabilidade dos bancos decorreu principalmente da retomada do crédito, com alteração da composição das carteiras para segmentos mais rentáveis (PF e PME), que “implicaram aumento no valor do resultado de crédito bruto do setor bancário”.

Além disso, acrescentou o BC, outro “fator importante” para a evolução da rentabilidade foi o aumento das receitas de serviços, que contou principalmente com o crescimento das rendas de mercado de capitais (colocação de títulos e corretagens).

De acordo com dados do BC, a rentabilidade do sistema bancário brasileiro está entre as maiores do mundo. O indicador brasileiro ficou abaixo, em 2019, da Argentina, do México e do Canadá, mas superou grande parte dos países desenvolvidos – como Estados Unidos, Itália, Reino Unido e Japão.

De acordo com o relatório do BC, o lucro líquido dos bancos se aproximou dos R$ 118 bilhões e bateu novo recorde no ano passado. A série histórica do Banco Central para este indicador começa em 1994.

O aumento da rentabilidade e do lucro dos bancos brasileiros acontece em um cenário de juros bancários elevados. Apesar de a taxa básica da economia, a Selic, estar no menor patamar da história (3% ao ano), as instituições financeiras ainda cobram taxas elevadas.

Apesar de a taxa básica de juros da economia brasileira ter recuado 6,5% ao ano no fim de 2018 para 4,5% ao ano no fechamento de 2019 – uma queda de dois pontos percentuais -, os juros bancários médios recuaram 1,6 ponto percentual no ano passado. Ou seja, as instituições não repassaram toda a queda da taxa Selic registrada no último ano.

Em algumas linhas de crédito, como cartão de crédito rotativo e no cheque especial das pessoas físicas, os juros bancários médios fecharam 2019 acima de 300% ao ano. Neste ano, o juro do cheque especial recuou para 119,3% ao ano (6,8% ao mês) em abril depois que o Banco Central impôs limite para essa taxa.

Dados do BC mostram que os cinco maiores conglomerados bancários do país detinham, no fim de 2019, 83,7% do mercado de crédito e com 83,4% dos depósitos totais. Os cálculos englobam bancos comerciais, bancos múltiplos com carteira comercial e as caixas econômicas.

Fonte: Fabrício de Castro, O Estado de S.Paulo, 04 de junho de 2020 | 10h39.

Com empurrão da crise, ativos de grandes bancos chegam a R$ 7,363 bi e superam PIB

5 grandes bancos
5 grandes bancos – Foto: Montagem Estadão

Os cinco maiores bancos brasileiros têm em mãos recursos equivalentes à toda a economia brasileira. Turbinado pelo aumento de crédito para suprir a demanda maior durante a pandemia de coronavírus, o volume de ativos totais das instituições financeiras atingiu R$ 7,363 trilhões ao fim de março, superando, pela primeira vez, o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, que foi de R$ 7,3 trilhões em 2019, conforme dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) publicados em março. 

O resultado ocorreu em meio à expansão do crédito, enquanto a economia brasileira tenta ganhar tração. Do fim de 2017 para cá, a correlação crédito/PIB subiu de 47,1% para 48,9%, segundo o Banco Central. Se for considerado apenas o crédito livre, com o qual os grandes bancos atuam, o avanço foi ainda maior: subiu de 23,6% para 28,8%.

O presidente da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), Isaac Sidney, afirmou que o aumento na proporção entre ativos dos bancos e o PIB tem correlação direta com a expansão do crédito vista no País nos últimos anos, frente ao desempenho econômico. “Esse aumento na relação crédito/PIB não é sinônimo de maior rentabilidade ou lucro”, diz.

Além disso, em momentos de crise os bancos atraem maior volume de depósitos, uma vez que o investidor busca mais segurança, de acordo com Claudio Gallina, diretor sênior de instituições financeiras da Fitch Ratings para América Latina. “Assim, a liquidez do sistema (que já vinha muito boa e robusta) aumenta mais”, disse. “Isso indica que os bancos teriam até mesmo mais dinheiro para emprestar.”

Com a crise, o crédito ganhou impulso adicional com a explosão da demanda em cima dos grandes bancos. O saldo conjunto dos empréstimos nos cinco maiores bancos brasileiros cresceu quase R$ 176 bilhões no primeiro trimestre em relação ao fim de dezembro, totalizando R$ 3,312 trilhões. Em um ano, o aumento foi de quase R$ 348 bilhões.

O salto nas carteiras foi capitaneado, principalmente, por empréstimos a grandes empresas, que precisam de liquidez para enfrentar a crise. O movimento foi acompanhado por uma enxurrada de críticas aos grandes bancos, por restringirem o crédito e elevarem juros em meio à turbulência, a despeito da injeção de R$ 1,2 trilhão de liquidez em medidas do Banco Central para apoiar o sistema financeiro no enfrentamento da covid-19.

Os bancos anunciaram uma série de medidas de apoio financeiro, mas admitem que, diante da piora do risco na economia, é natural maior rigor no crédito.

O presidente do Itaú Unibanco, Candido Bracher, afirmou esta semana não ser possível o crédito crescer no mesmo ritmo da demanda, que deve se reduzir daqui para frente. “O crescimento do crédito será muito mais baixo, se é que haverá crescimento em 2020”, disse, durante transmissão ao vivo.

Os bancos já concederam mais de R$ 540 bilhões em créditos na pandemia, segundo balanço da Febraban, considerando novos empréstimos, renovações e postergações de parcelas. Para os próximos meses, a expectativa é de que o crédito novo ceda espaço a uma onda de renegociações de dívidas e reestruturações por parte de empresas que viram seu faturamento despencar.

“Um dos principais riscos para os bancos ainda é, naturalmente, a situação financeira das empresas, ou seja a dificuldade na previsibilidade em termos de geração de caixa”, disse Gallina, da Fitch.

No segmento de pessoa física, a demanda por crédito caiu no primeiro trimestre, mudando a dinâmica vista até então. Esse movimento deve continuar, com o aumento do desemprego e a perda de renda.

A queda, principalmente no financiamento imobiliário, obrigou a Caixa Econômica Federal a rever suas projeções. “De fato, a crise muda toda a dinâmica. A demanda de crédito vem sendo totalmente diferente. Estamos avaliando”, afirmou Pedro Guimarães, presidente do banco público, em coletiva de imprensa, para comentar os resultados do banco no primeiro trimestre.

Proteção contra calote

A pandemia também fez os bancos ampliarem os recursos reservados para compensar perdas, com temor quanto ao impacto futuro na inadimplência. A leitura, ao menos até aqui, é de que a crise será bem mais severa que as anteriores, incluindo a desencadeada pela Operação Lava Jato e ainda a turbulência financeira de 2009.

O reforço nas provisões custou mais os bancos. No primeiro trimestre, as despesas com provisões para devedores duvidosos, as chamadas PDDs, passaram dos R$ 30 bilhões, um salto de cerca de 45% em relação aos três meses anteriores.

Dos cinco grandes, somente Santander e Caixa não fizeram o movimento de criar colchões para perdas adicionais por conta da crise. “O balanço da Caixa é, continua e continuará extremamente sólido”, afirmou Guimarães.

Como consequência de uma postura mais conservadora por parte da maior parte dos bancos, o lucro líquido combinado de Itaú, Bradesco, Satander, BB e Caixa encolheu 25,6% no primeiro trimestre, para menos de R$ 18 bilhões, na comparação com o mesmo período de 2019, quando foi de mais de R$ 24 bilhões. “Mesmo mantendo níveis confortáveis de solidez, liquidez e capitalização, a atual crise também atingiu o setor bancário”, afirmou Sidney.

Em uma perspectiva de médio e longo prazo, o CEO e fundador da Mauá Capital e ex-diretor do Banco Central, Luiz Fernando Figueiredo, vê maior pressão por parte das fintechs na disputa por recursos com os grandes bancos, que foi comprometido na crise. Os próprios pesos pesados do setor admitem que a trégua é temporária.

“Com os reflexos do juro mais baixo, mais decente, e uma maior concorrência vinda das fintechs, o Brasil está se tornando mais normal, mas a crise atrapalhou”, disse.

Fonte: Aline Bronzati, O Estado de S.Paulo, 22 de maio de 2020 | 10h27.

Engatinhando no Brasil, superapps se empenham em conquistar brasileiros

“O brasileiro gosta de usar o celular para acessar os serviços, mas a maioria tem aparelhos com tecnologia limitada; por isso, a economia de memória é um grande atrativo” — Ligia Cano, do Google (Foto: Divulgação)
“O brasileiro gosta de usar o celular para acessar os serviços, mas a maioria tem aparelhos com tecnologia limitada; por isso, a economia de memória é um grande atrativo” — Ligia Cano, do Google (Foto: Divulgação)

Em datas especiais como casamento e feriados, os chineses costumam presentear amigos, funcionários e parentes com dinheiro em envelopes vermelhos, os “hong bao”. Com a revolução nos meios de pagamento que reduziu drasticamente o uso de papel moeda no país nos últimos anos, o tradicional envelope passou a ser entregue de uma forma menos graciosa, mas bem mais prática: no Ano Novo Lunar chinês de 2019, mais de 800 milhões de pessoas utilizaram este serviço por meio do aplicativo de celular WeChat, da Tencent.

Este é apenas um dos (literalmente) milhares de serviços oferecidos por este superapp, que é ativado em diversos momentos do cotidiano de um habitante da China. Ele permite, por exemplo, reservar hotéis, fazer compras online, agendar consultas médicas, solicitar vistos, pagar impostos, chamar táxis e outras facilidades do dia a dia –tudo isso com o dinheiro que sai da carteira virtual do aplicativo.

Com cerca de 1 bilhão de usuários ativos mensalmente, o WeChat nasceu em 2011 como aplicativo de mensagens, ganhou popularidade como mídia social e se firmou como um superapp. Ele divide o mercado chinês com o AliPay, do grupo Alibaba, superapp que construiu o próprio ecossistema a partir da sua plataforma móvel de pagamentos, e também ostenta 1 bilhão de usuários ativos mensais, que acionam o mesmo aplicativo em diversos momentos de sua rotina diária.

A abundância de serviços oferecida pelos superapps chineses é resultado da estratégia de plataforma aberta, que permite a terceiros desenvolver os chamados miniapps, que seriam os “subapps” dos superapps. WeChat, que saiu na frente, já tem mais de 1 milhão de miniapps, seguido pelo Alipay, com 120 mil miniapps.

Esse tipo de ecossistema está maduro somente na China, mas há players de vários setores empenhando-se em consolidar-se como o app “faz-tudo” dos brasileiros. “Estamos em um estágio inicial na corrida dos superapps; há concorrentes de diversos setores, mas cada um deles ainda está limitado a sua atividade inicial”, analisa Ricardo Heidel, da área de Estratégia de Negócios da consultoria Accenture. “Eles podem ter frequência de uso, mas ainda não se firmaram com um grande hub, um portal”.

Engajada em se firmar como uma central de serviços na primeira tela do celular no Brasil (e na América Latina), a colombiana Rappi se posiciona como o “delivery de tudo” e se autointitula um superapp. Além de apresentar opções de entrega de comida, itens de supermercado, farmácia e outros produtos, a plataforma apresenta serviços de diversos tipos como aluguel de patinete, entrega de dinheiro em espécie e cabelereiro em domicílio.

Um diferencial da Rappi é o botão “Qualquer coisa”, em que o prestador de serviço vai atrás de um produto não listado no app. “Conseguimos ser o seu assistente pessoal favorito para resolver problemas ao longo do dia”, diz Fernando Vilela, diretor de Crescimento e Marketing da Rappi no Brasil. O crescimento do número de usuários é de 30% ao mês, segundo o executivo. Como meio de pagamento, a Rappi oferece uma carteira digital, o Rappi Pay (via QR Code) e um cartão de crédito e débito em parceria com a Visa, lançado em junho, com 100 mil pessoas na espera.

A alta frequência do usuário no app permite ter muitos dados dos clientes que podem ser usados com inteligência, diz Vilela. “A ciência dos dados dá insights, tanto para o varejista como para o entregador”, diz ele. “Sempre apresentamos oportunidades para o varejista melhorar a sua oferta, baseado no que sabemos do comportamento do seu consumidor.” O apicativo mostra para um estabelecimento que vende hambúrguer como ele deixa de vender quando não tem refrigerante, exemplifica Vilela. No caso dos entregadores, eles têm acesso a um mapa com as áreas de maior demanda, explica.

Não à toa, a inspiração da Rappi é o app chinês Meituan, da Meituan Dianping, eleita pela Fast Company a empresa mais inovadora do mundo em 2019. O superapp, que permite reservar mesas em restaurantes, comprar ingressos de cinema e procurar hotéis, se destaca por analisar os hábitos de consumo dos usuários para entregar os serviços e oferecer promoções.

“O superapp permite ver as relações de consumo digital, oferece uma visão mais completa da sua identidade como consumidor, pois acompanha a sua jornada”, diz Heidel, da Accenture. “No Brasil, ainda não conseguimos transpor essa fronteira, pois os apps estão limitados à área de consumo que se propuseram inicialmente.”

CENÁRIO PROPÍCIO

Uma pesquisa do Google divulgada em agosto revela que 80% dos brasileiros não sabem o que são superapps; mas que, ao serem apresentados ao conceito, 45,8% afirmaram estar dispostos a baixá-los no celular.

A redução do espaço ocupado na memória do smartphone foi apontada como principal benefício dos superapps (30,1%), no levantamento do Google. “O brasileiro gosta de usar o celular para acessar os serviços, mas a maioria tem aparelhos com tecnologia limitada; por isso, a economia de memória é um grande atrativo”, diz Ligia Cano, líder de apps para clientes de alto crescimento do Google Brasil.

O Google Maps é apontado por especialistas como um forte candidato a superapp, mas, apesar da vocação, Ligia nega que este seja um objetivo do Google. Na visão da executiva, os apps de serviços financeiros, m-commerce e delivery têm potencial para se tornarem superapps, por conta do maior número de usuários e frequência. “Ao contratar um serviço ou comprar um produto, você terá que pagar de qualquer forma” argumenta. “Quem já tem o meio de pagamento, sai em vantagem; além disso, a frequência de uso dos bancos e serviços financeiros costuma ser alta”, diz.

Os bancos tradicionais estão ainda em fase de estudos e desenvolvimento e preferem, por enquanto, discrição quando consultados sobre o tema. Já os chamados bancos digitais deram a largada na corrida dos superapps no Brasil.

next, por exemplo, tinha como premissa ter um superapp desde a construção de sua plataforma digital, afirma o diretor Jeferson Ricardo Garcia Honorato. Além de oferecer 40 serviços financeiros providos pelo Bradesco, Grupo Bradesco Seguros & Previdência e Ágora, o superapp do next tem a Plataforma de Mimos, que oferece descontos de 350 parceiros de segmentos diversos como transporte, alimentação e entretenimento, com algumas opções de cashback (devolução de dinheiro).

“A aplicação de algoritmos e geolocalização nos permite ser mais assertivos [eficazes] nessas ofertas”, disse Honorato. Com dois anos de existência, o next conquistou 2 milhões de clientes, que fazem 2,3 milhões de transações por dia. “Temos a ambição de estar na primeira tela de todos os clientes.”

cashback, que devolve uma quantia do dinheiro pago em um produto, também é chamariz do superapp do Banco Inter, que traz uma área de shopping com 68 lojas. “Vamos repassar para o consumidor 50% da comissão que recebermos do varejista”, explica Rodrigo Gouveia, diretor de marketplace do Banco Inter. Com esse atrativo, a expectativa é explorar o potencial das compras via celular: segundo levantamento da consultoria PWC feito em 2019, 50% dos brasileiros afirmaram fazer compras pelo celular pelo menos uma vez ao mês.  

Dos 4 milhões de clientes do Banco Inter, 450 mil já transacionaram pelo superapp, segundo Gouveia. Além da área de compras e dos serviços financeiros, há oferta de recarga de celular, vale-presente, pagamento de estacionamento rotativo (“zona azul”), entre outras opções. “Desenvolvemos recursos baseado na análise do perfil do nosso cliente, que quer economia de tempo e no bolso; em breve, teremos o recurso de delivery, pagamento de estacionamento e de combustível via app”, diz.

E, enquanto os bancos constroem seus marketplaces, os varejistas preparam seus serviços financeiros. Em dezembro, o Magazine Luiza anunciou que, no primeiro trimestre de 2020, irá lançar a sua conta digital gratuita, Magalu Pay. Em parceria com o BB, permitirá fazer transferências pelo Banco do Brasil, depósitos e saques nas lojas da rede, transferência de valores entre usuários por QR Code e pagamentos de contas e boletos.

Magalu deve ficar de olho na Amazon, a gigante do e-commerce norte-americana que mostra as suas garras no mercado brasileiro e faz suas movimentações para se posicionar como superapp.

Na Índia, por exemplo, a gigante do e-commerce aliou-se à plataforma Cleartrip para oferecer o serviço de reserva de voos diretamente no seu app de pagamentos Amazon Pay. Também fez parceria com a plataforma de ingressos para shows e eventos MyBookShow, para aumentar os recursos do seu app. Sua concorrente no mercado indiano, a Flipkart, tem a plataforma aberta para desenvolvedores externos, que preparam miniapps como no modelo chinês.

Assim com o Magazine Luiza e a Amazon, o Mercado Livre, plataforma de e-commerce e serviços financeiros, foi considerado uma das empresas com potencial para ter sucesso como um superapp no mercado brasileiro, em pesquisa do Itaú BBA divulgada em 2019 (veja quadro).

Apesar desse reconhecimento, a empresa prefere dispensar o rótulo de superapp. Rodrigo Furiato, diretor da Carteira Digital do Mercado Pago, explica que o pequeno empreendedor faz um “ciclo”: usa a plataforma Mercado Livre para vender, o serviço de logística do Mercado Envios, recebe o dinheiro das suas vendas na conta do Mercado Pago e, a partir dela, faz a compra de mercadorias ou pode ainda tomar crédito para ampliar os negócios.

“Nossa proposta é alavancar a nossa conta digital como centro desse ecossistema, que passa pelo acesso ao crédito, até a melhor experiência possível em compras e pagamentos no mundo online e físico”, descreve.

O app Mercado Pago oferece serviços como pagamentos de impostos, saque com Código QR, recarga de Bilhete Único (transporte público), recargas pré e pós-pagas de serviços de telefonia e TV, além de crédito direto na conta digital. Recentemente, a empresa lançou a Central de Descontos, um marketplace de ofertas que reúne todos os estabelecimentos que aceitam pagamento via Código QR do Mercado Pago.

COMPETIÇÃO ENTRE PLAYERS

No Brasil, diferentemente da China, a tendência é de pulverização de superapps, segundo os especialistas. Os players no Brasil terão o desafio de conquistar os clientes diante de muitos concorrentes, na visão de Norberto Sanches, gerente de produtos da Cielo. A disputa de mercado, porém, é válida.

“Os superapps entregam vantagens, como a digitalização de pagamentos, a oportunidade de conhecer melhor seu cliente para ofertar de produtos, melhorar a assertividade [eficácia] na concessão de crédito, além de reduzir custos”, diz.

Para Sanches, o Cielo Pay pode ser considerado um superapp, mas nos padrões brasileiros. Lançado em agosto, essa e-wallet com conta digital e serviços atende principalmente estabelecimentos comerciais e empreendedores. Permite realizar transferências e cargas de valores por meio de boletos, pagar contas, fazer compras por QR Code em qualquer máquina Cielo e acessar promoções.

A empresa considera incrementar o seu super app com serviços financeiros, de seguros, marketplace e oferecer serviços de profissionais liberais. “Há um grande espaço para o crescimento dos superapps no Brasil, numa corrida que parte das carteiras digitais, que só começaram a ganhar força em 2019”, diz Sanches.

Na análise de Heidel, da Accenture, a estreia do Sistema de Pagamentos Instantâneo do Banco Central (SPI, ou, como o apelidou o governo, PIX), prevista para 2020, pode ser um ponto disruptivo na evolução dos superapps no mercado brasileiro. “A documentação do SPI prevê a interoperabilidade, que é essencial para o ganho de escala; o usuário poderá transferir dinheiro da sua conta do Mercado Livre para a da Americanas”, exemplifica. Neste cenário, vencerá a empresa que fidelizar sua base de clientes. “Sabemos que temos mercado para os superapps, mas ainda não sabemos para onde vai o cliente; aí está o desafio: conquistar a preferência do consumidor”, diz.

Vocação de app faz-tudo

Um estudo do Itaú BBA divulgado em agosto de 2019 identificou quais são as empresas e áreas que mais têm chance de criar um superapp no Brasil:

Facebook, WhatsApp (mensagens)

Mercado Pago, Ame (carteiras digitais)

Uber, 99, Grow (mobilidade)

iFood, Rappi (entregas)

Mercado Livre, Amazon, Magazine Luiza (e-commerce)

Banco Inter (setor financeiro)

Qual é a diferença de um app comum, as suítes de app e os superapps

APP COMUM

Aplicativo dedicado a uma única função

Exemplos: Twitter, Skype, Spotify

SUÍTE DE APPS

Coleção de apps com funções relacionadas, geralmente integrados e da mesma empresa

Exemplos: Word, Excel, GSuite, Adobe Creative Suite, Microsoft 365

SUPERAPP

Um aplicativo com múltiplas funções, geralmente facilitado por um sistema de pagamento da mesma empresa

Exemplos: Rappi, superapp do Banco Inter

SUPERAPP COM MINIPROGRAMAS

Um aplicativo que permite a terceiros desenvolver “subaplicativos” leves que possam rodar dentro do superapp

Exemplos: WeChat, Alipay, Meituan

Fonte: Katia Arima, noomis, 22/4