Paranapiacaba: vila operária em tempo de escravidão

Paranapiacaba: vila operária em tempo de escravidão

Livro descreve a estrutura urbana e o modo de vida no povoamento surgido em função da São Paulo Railway, ferrovia administrada pelos ingleses que escoava o café paulista para o Porto de Santos (foto: Wikimedia Commons)

Construída para moradia dos funcionários da ferrovia São Paulo Railway, que ligava a região cafeicultora de Jundiaí ao porto de Santos, principal ponto de escoamento do produto, a Vila de Paranapiacaba foi, talvez, o primeiro núcleo de povoamento operário do Brasil. Encravada na Serra do Mar, a menos de 50 quilômetros da capital paulista, chegou a abrigar 5 mil trabalhadores assalariados no tempo de construção da ferrovia e um número menor no período posterior. A linha férrea foi inaugurada em 1867.

O livro A arqueologia da São Paulo Oitocentista: Paranapiacaba, da arqueóloga Cláudia Regina Plens, professora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), descreve a estrutura da vila e a vida cotidiana de seus habitantes, bem como o papel da rede ferroviária que lhe deu origem na expansão do sistema capitalista no Brasil.

Escrito a partir de dados levantados em uma pesquisa de campo apoiada pela FAPESP, o livro também contou com o suporte da Fundação para publicação.

Plens, que tem concentrado seu esforço de pesquisa no campo da arqueologia brasileira [para mais informações acesse http://agencia.fapesp.br/23383/], recorreu neste livro às ideias do filósofo francês Michel Foucault (1926 – 1984) para explicar como os ingleses, à testa da construção da ferrovia, implantaram em Paranapiacaba um modelo ordenado e sistemático de sociedade, em consonância com o paradigma higienista do século XIX.

“No meio da vila e no alto de um morro, ficava a casa do engenheiro-chefe, que chamamos de ‘Castelinho’ atualmente. De lá, ele podia ver tudo o que se passava e vigiar os trabalhadores. Era o sistema panóptico, descrito por Foucault em seu célebre livro Surveiller et Punir: naissance de la prison [Vigiar e Punir: nascimento da prisão], de 1975. Havia regras estritas não apenas em relação ao trabalho, mas também em relação ao lazer. Os operários podiam transitar pelas ruas apenas até determinada hora. E até o clube da vila, chamado de Lírio da Serra, ficava em um plano inferior, sob as vistas do engenheiro-chefe”, disse Plens à Agência FAPESP.

Esse ordenamento racional e rígido tinha por objetivo extrair dos operários a máxima produtividade e manter a vila e a ferrovia funcionando com a regularidade dos ponteiros de um relógio. Inserida em uma sociedade ainda escravista, Paranapiacaba foi um enclave capitalista modelo, construído e administrado pelos ingleses. “A vila era toda pré-fabricada. As casas e outras edificações vieram da Inglaterra e foram montadas aqui. Consideradas patrimônio histórico, essas construções estão atualmente tombadas pelo Condephaat [Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico]”, informou a pesquisadora.

Assim como as ruas, que na área da Vila Nova de Paranapiacaba eram todas alinhadas formando ângulos retos, também a estratificação social obedecia a um rigoroso ordenamento. Na base da pirâmide, ficavam os operários de diferentes origens – principalmente espanhóis e italianos. Um degrau acima, os comerciantes portugueses. No alto, os engenheiros e médicos ingleses. E, acima de todos, o engenheiro-chefe. “Interessados na extinção do sistema escravista no Brasil, os ingleses ajudavam escravos fugitivos a escapar para o Quilombo de Jabaquara, localizado em Santos. Mas não empregavam negros na ferrovia ou nos serviços da vila. A população atual de Paranapiacaba não descende desses primeiros habitantes”, afirmou Plens.

Paranapiacaba estava dividida em três setores: a Vila Velha, de arruamento irregular, onde moravam os primeiros trabalhadores, os solteiros em casas de cômodos, os casados em casas privativas; a Vila Nova, de ruas quadriculadas, habitada pelos ingleses e engenheiros e médicos; e o setor comercial, situado do outro lado do morro, ocupado pelos portugueses. As casas eram propriedade da São Paulo Railway e, atualmente, pertencem à Prefeitura de Santo André. Um dos objetivos iniciais da pesquisadora foi estabelecer, a partir dos vestígios arqueológicos, os padrões de consumo nessas três áreas.

Escavando os quintais das casas de Paranapiacaba, Plens descobriu que estes eram recobertos por uma camada de piche. Tal procedimento, sem paralelos nas cidades brasileiras da época, era adotado pelos ingleses para manter o saneamento da vila. “Os rejeitos, em outras cidades lançados nos quintais ou nas ruas, eram recolhidos semanalmente em Paranapiacaba e depositados em lixões”, revelou a pesquisadora.

Na lixeira do antigo Hotel dos Engenheiros, que não existe mais, e na casa do engenheiro-chefe, Plens encontrou fragmentos de vidro e de porcelana – variados no caso do hotel e bastante padronizados na casa do engenheiro-chefe. “A inexistência de porcelana na casa dos trabalhadores indica que seu padrão de consumo era provavelmente bem mais baixo, com o uso de cerâmicas rústicas, cujos eventuais vestígios não resistiram à ação do tempo, ou de materiais mais resistentes, como o ferro esmaltado [ágata], que esses habitantes devem ter levado consigo quanto deixaram o local”, conjecturou Plens.

Em Paranapiacaba, os assalariados desfrutaram de benefícios que não receberiam em outros lugares, como atendimento hospitalar e escola para os filhos. Mas, ao mesmo tempo, ficaram confinados ao lugar, com sua mobilidade tolhida. Isso atendia à lógica do capitalismo no tempo em que era do interesse da empresa fixar o trabalhador – o que já não corresponde à situação atual.

A palavra “paranapiacaba” significa, em tupi, “lugar de onde se vê o mar”. E, de fato, nos raros dias em que o céu está livre de neblina, é possível, do alto do morro, enxergar o litoral de Cubatão. “Mas, embora existam trilhas indígenas na região, até onde se sabe não havia nela nenhum povoamento pré-histórico. A vila nasceu em função da construção da ferrovia, inteiramente financiada pelo Barão, mais tarde Visconde, de Mauá, Irineu Evangelista de Sousa (1813 – 1889), que emprestou dinheiro para os ingleses e jamais foi ressarcido”, sublinhou a pesquisadora.

Empreendedor e abolicionista, considerado o primeiro grande capitalista brasileiro, Mauá possuía, na época da inauguração da ferrovia, um ativo estimado em 115 mil contos de réis, enquanto o orçamento do Império, no mesmo ano, contabilizava 97 mil contos de réis. Com suas iniciativas empresariais minadas pela política conservadora e logrado no empreendimento da São Paulo Railway, foi à falência, sendo obrigado a vender a maioria de suas empresas a capitalistas estrangeiros e a dispor de seus bens pessoais para liquidar as dívidas.

A arqueologia da São Paulo Oitocentista: Paranapiacaba
Autora: Cláudia Regina Plens
Editora: Annablume
Ano: 2016
Páginas: 138
Preço: R$ 51,83
Para mais informações clique aqui

Fonte: José Tadeu Arantes | Agência FAPESP,  20 de abril de 2017

Inteligência Competitiva Tecnológica: Estudo analisa regulação de medicamentos genéricos no Brasil

Estudo analisa regulação de medicamentos genéricos no Brasil

Trabalho de pesquisadores do Insper e da London School of Economics avalia fatores como equivalência, prescrição e substituição na produção de genéricos (foto: Wikimedia Commons)

Menos de 20 anos depois de o Brasil começar a produzir versões com os mesmos princípios ativos, nas mesmas doses e formas farmacêuticas de medicamentos de referência que tivessem a patente expirada, mais de um quarto das vendas farmacêuticas são de genéricos.

Em artigo publicado no Pan American Journal of Public Health, Elize Fonseca, pesquisadora do Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper), e Ken Shadlen, da London School of Economics, fazem um estudo de caso sobre a regulação de medicamentos genéricos no Brasil e comparam abordagens nacionais para a promoção e regulação dos remédios. O estudo teve apoio da FAPESP por meio do Programa Jovens Pesquisadores em Centros Emergentes.

“É comum pensar que a regulação de genéricos no Brasil é algo estabelecido, mas se trata ainda de uma área com pouco estudo. Queremos entender como e por que o Brasil optou pela regulação vigente. É importante compreender isso, uma vez que é a regulação que dita as regras de um mercado com vários atores – como governo, consumidores, farmacêuticas –, podendo ampliar ou restringir o acesso aos medicamentos”, disse Fonseca à Agência FAPESP.

O estudo destaca que diversos fatores e interesses, tanto dos setores públicos como dos privados, influenciaram o desenho e a implementação da regulação de medicamentos genéricos no Brasil.

O trabalho enfocou quatro temas centrais da regulação de genéricos, que envolvem equivalência, embalagem, prescrição e substituição. Foram estabelecidas perguntas-chave que permitissem analisar a regulação de genéricos: como foi provada a equivalência entre o genérico e o medicamento de referência; os genéricos podem ter nome de marca na embalagem; médicos podem prescrever o medicamento usando o nome do genérico ou um nome de marca; farmacêuticos podem substituir genéricos por produtos inovadores.

Os resultados da análise tiveram como base dados coletados entre 2007 e 2015 de documentos do governo brasileiro – como memorandos da política de regulação de genéricos e discursos oficiais –, além de mais de 400 reportagens de jornais e artigos científicos.

Os dados foram complementados por 60 entrevistas com reguladores e funcionários do governo que participaram da elaboração e implementação das políticas de medicamentos genéricos do Brasil.

Segundo Fonseca, o exemplo brasileiro é fundamental para compreender a regulação de genéricos. O país é o maior mercado da América Latina no setor e, embora tenha testemunhado altos níveis de penetração desses medicamentos no mercado farmacêutico, o processo foi acompanhado por uma série de conflitos entre governo, farmacêuticas e consumidores. “No fim, vemos que a regulação é uma questão técnica e também política”, disse.

Segundo observaram os pesquisadores, “a Lei de Medicamentos Genéricos de 1999 foi uma oportunidade para promover a utilização do nome genérico (também chamado de Denominação Comum Brasileira) como regra de prescrição e aumentar os requisitos farmacológicos para registrar genéricos”.

Na prática, de acordo com a regulação referente às embalagens dos medicamentos – que incluem a tarja amarela e o uso do G em destaque para indicar que o medicamento é genérico –, foi impulsionado o nome genérico dos medicamentos no lugar de nomes de marca (registrada).

Outro ponto analisado foi a regulação sobre a prescrição. No Sistema Único de Saúde (SUS), os profissionais devem prescrever os medicamentos pela denominação genérica. Já nos serviços privados de saúde, a prescrição fica a critério do médico responsável, podendo ser realizada sob nome genérico ou de marca.

O estudo cita uma pesquisa realizada em 2006 em oito cidades brasileiras, que avaliou a opinião de 55 profissionais de saúde. Os resultados mostraram que 44% dos profissionais achavam que os medicamentos genéricos não eram tão confiáveis como os originais e que, mesmo entre os que confiavam nos genéricos, 17% não os prescreviam.

Bioequivalência

O processo de discussão sobre medicamentos genéricos no Brasil teve início na década de 1970. Porém apenas na década de 1990 que foi publicada a Lei 9.787, de 10/02/1999, que criava condições para a implantação de medicamentos genéricos, em consonância com normas adotadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e em países da Europa, dos Estados Unidos e do Canadá.

No ano 2000, iniciou-se a concessão dos primeiros registros de medicamentos genéricos. Na época também foram tomadas ações para implementar a produção desse tipo de medicamento, inclusive com incentivo à importação.

“Antes da aprovação da lei de genéricos, as indústrias farmacêuticas locais podiam copiar os medicamentos de referência sem apresentar nenhum teste de equivalência terapêutica. A exigência de bioequivalência [quando fica comprovado que as duas drogas, medicamento genérico e o de referência, são iguais] tirou do mercado vários produtores que não conseguiram se adaptar às exigências da nova regulação”, disse Fonseca.

A pesquisadora ressalta que é importante observar que quando se restringe o número de concorrentes, em um cenário extremo, o preço pode subir, limitando o acesso da população aos medicamentos. “Nesse setor, a concorrência é fundamental para reduzir o preço dos medicamentos”, disse.

Os pesquisadores ressaltam que, em comparação com outros países latino-americanos, as exigências brasileiras são muito rigorosas. Eles apontam um estudo realizado pela Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), que concluiu que nenhuma outra autoridade reguladora nacional da América Latina solicitou bioequivalência para tantos fármacos. Dos 86 fármacos analisados nos países latino-americanos pelo estudo, 51 necessitaram de demonstração de bioequivalência no Brasil.

No início dos anos 2000, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) criou diversos instrumentos de apoio aos fabricantes de genéricos para estimular o registro desses produtos no país. Entre eles o fast-track, que dava prioridade na aprovação do registro de medicamento genérico.

A Anvisa também prestou apoio contínuo às empresas locais, ao supervisionar as mudanças em seus departamentos reguladores. Com isso, o Brasil ganhou expertise em realizar testes de bioequivalência, que anteriormente tinham que ser realizados fora do país. Atualmente, quase todos os testes de equivalência terapêutica (87,6%) são realizados no Brasil.

“O consenso entre os representantes do setor farmacêutico a respeito da regulação de medicamentos genéricos era visto inicialmente como uma ameaça à sua sobrevivência, porém revelou-se que a regulação foi instrumental na melhoria das fábricas e nos processos de produção de medicamentos”, escreveram os autores.

Regulação em outros países

Fonseca e Shadlen pretendem usar a metodologia desenvolvida para fazer uma comparação da regulação entre diferentes países da América Latina. O objetivo é estudar caso a caso sobre como funciona a regulação de genéricos no Chile, Colômbia, Argentina e México e entender as relações comerciais na região.

“Existem diversas negociações e tentativas de harmonizar, ou seja, padronizar, a regulação de genéricos nos países da América Latina. É um tema bastante controverso, se devemos harmonizar ou não. Hoje, cada país tem um tipo de regulação diferente, o que acaba criando uma barreira comercial. Respondendo às quatro perguntas-chave, podemos ter um maior entendimento sobre a regulação de cada país”, disse Fonseca.

A Organização Mundial da Saúde sugere uma regra, mas, por questão de soberania, cabe às agências regulatórias de cada país escolher a regra que querem adotar.

O artigo Promoting and regulating generic medicines: Brazil in comparative perspective, de Elize Massard da Fonseca e Kenneth Shadlen, pode ser lido aqui

Fonte: Maria Fernanda Ziegler  |  Agência FAPESP,  19 de abril de 2017

Inteligência Competitiva Tecnológica: Cientistas treinam neurônios para estudar funcionamento da memória

Cientistas treinam neurônios para estudar funcionamento da memória

Estudo feito in vitro por pesquisadora brasileira da George Mason University foi apresentado na Unicamp durante o 4th BRAINN Congress (GMU)

Seriam neurônios cultivados in vitro capazes de aprender? Resultados de experimentos conduzidos na George Mason University (GMU), nos Estados Unidos, sugerem que sim.

A responsável pelo “treinamento” neuronal é a brasileira Nathalia Peixoto, professora no Departamento de Engenharia Elétrica e de Computação da GMU e ex-bolsista da FAPESP. O objetivo da pesquisa é avançar na compreensão do funcionamento do cérebro – particularmente dos mecanismos relacionados à memória – em condições normais e também no contexto de doenças como Alzheimer e epilepsia.

O tema foi abordado por Peixoto no final de março, durante o 4th BRAINN Congress – evento organizado na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) pelo Instituto Brasileiro de Neurociência e Neurotecnologia (BRAINN), um Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPID) apoiado pela FAPESP.

“Compreender a dinâmica do cérebro in vivo em estados normais e patológicos é um dos grandes desafios atuais da ciência. Mas a complexidade do funcionamento cerebral pode tornar inviável a solução desse problema. Por esse motivo, temos buscado desenvolver modelos experimentais e computacionais que permitam esse estudo em um cenário mais simples e controlado”, explicou a cientista.

No laboratório de Peixoto, neurônios do córtex frontal e da medula espinhal extraídos de embriões de camundongos são colocados para crescer em uma placa de vidro contendo uma matriz de microeletrodos. Esses dispositivos têm a função de registrar os sinais elétricos emitidos pelas células nervosas (os impulsos nervosos ou potenciais de ação) e também de estimulá-las eletricamente quando necessário.

As células são mantidas em uma incubadora a 37º C e alta umidade até que – passadas aproximadamente três semanas – começam a se organizar na forma de redes neuronais, trocando informações por meio de sinapses químicas e elétricas. Alguns dias depois, o treinamento com estimulação elétrica tem início.

“Nesse estágio, temos o chamado brain in a dish ou cérebro no prato”, brincou Peixoto. “Inicialmente, as células são estimuladas com um campo elétrico de baixa frequência para que o padrão de resposta seja registrado. Em seguida, aplicamos um sinal de treinamento de alta frequência e observamos uma resposta muito mais intensa por parte dos neurônios. Quando retornamos ao padrão anterior de estimulação [de baixa frequência], percebemos que as células apresentam sensibilidade aumentada. É como se mantivessem a memória do sinal de treinamento.”

Testes estão sendo feitos para investigar até que ponto os neurônios em cultura conseguem reconhecer padrões de estimulação elétrica. Um deles consiste em ativar os microeletrodos seguindo uma sequência predeterminada, de modo a formar uma letra. O objetivo é descobrir se, ao variar a letra, a resposta dos neurônios também varia seguindo um determinado padrão – algo semelhante a uma conversa.

Em outro experimento, o grupo de Peixoto acrescentou à cultura de neurônios agregados da proteína beta-amiloide – a mesma substância encontrada no cérebro de portadores de Alzheimer – e observou que isso prejudicou a atividade elétrica das células.

“Em apenas um dia, os neurônios pararam de gerar potenciais de ação, o que impediu a realização dos testes de memória. Avaliamos então quais os tipos de beta-amiloide que mais afetam as culturas e, em geral, são os tipos que os pacientes com a doença apresentam e que formam placas”, disse Peixoto.

O grupo pretende agora testar alternativas potencialmente capazes de recuperar a atividade elétrica dos neurônios.

“Dados da literatura científica indicam que uma substância presente na cúrcuma é muito boa para atrasar o desenvolvimento das placas beta-amiloides. Existe a hipótese de que talvez seja possível resgatar a atividade normal do cérebro se ele estiver protegido contra a formação de placas. Pretendemos fazer esse teste e, então, provar que a capacidade de memória se mantém intacta”, disse a pesquisadora.

Segundo ela, seu objetivo como engenheira – formada pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo – é tentar “consertar o que está quebrado” e, por esse motivo, busca estabelecer in vitro modelos de doenças que afetam o cérebro para tentar reverter as condições patológicas por meio da aplicação de campos elétricos ou magnéticos.

“Já sabemos que, no caso do Parkinson, é possível controlar sintomas como os tremores por meio da terapia de estimulação cerebral profunda. Embora a gente não saiba ao certo o porquê. Queremos estudar melhor os efeitos da estimulação elétrica de neurônios e usar essa metodologia para medir, no cérebro, substâncias químicas como dopamina, ácido ascórbico e ácido úrico”, disse.

Outra linha de pesquisa coordenada pela brasileira na GMU tem como objetivo desenvolver novos tipos de eletrodos para serem usados em equipamentos de estimulação cerebral profunda (DBS, de Deep Brain Stimulation). Além de Parkinson, essa terapia vem sendo estudada na recuperação de pessoas que sofreram acidente vascular cerebral (AVC) e no tratamento de depressão, dor crônica e transtorno obsessivo-compulsivo.

“Tradicionalmente, a estimulação profunda do cérebro é feita com eletrodos feitos de platina e irídio. Nós estamos testando, in vitro, nanotubos de carbono e também um polímero condutor conhecido como PEDOT [poli(3,4-etileno dioxitiofeno)]. Nosso objetivo é diminuir a resistência dos eletrodos e, assim, tornar a estimulação menos agressiva para as células e aumentar o tempo de bateria do equipamento”, contou.

Construindo pontes

Em entrevista à Agência FAPESP, Peixoto contou que sua participação no evento promovido pelo BRAINN despertou um grande interesse em colaborar com o grupo sediado na Unicamp.

Segundo o coordenador do CEPID, Fernando Cendes, este é justamente um dos objetivos do congresso, que vem sendo realizado na Unicamp nos últimos quatro anos.

“O evento inicialmente começou como um workshop, cuja proposta era tornar os projetos realizados no âmbito do BRAINN conhecidos por toda a comunidade do consórcio, que é muito grande. Também incluímos pesquisadores convidados com o intuito de mostrar os avanços que vêm sendo feitos em áreas de pesquisa abrangidas pelo CEPID e de abrir pontes de comunicação com pesquisadores de outros países, fomentando a colaboração”, avaliou Cendes.

Outro palestrante convidado desta última edição do evento – que tem sido um colaborador frequente do BRAINN – foi Richard Frayne, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de Calgary, no Canadá. Seu grupo tem usado técnicas de ressonância magnética nuclear para analisar mudanças morfológicas e funcionais em pequenos vasos do cérebro e, assim, compreender mecanismos relacionados ao envelhecimento saudável e à demência.

“Com exercícios e dieta vemos que essas mudanças funcionais nos pequenos vasos do cérebro se desaceleram. Não podemos parar o processo, infelizmente, mas há muitas coisas que podem ser feitas para atrasar a demência e promover um envelhecimento mais digno. Do ponto de vista vascular, tudo que é ruim para o coração – cigarro, álcool, sedentarismo e dieta ocidental – também é um fator de risco para a saúde cerebral”, afirmou Frayne.

Fonte: Karina Toledo, de Campinas  |  Agência FAPESP,  06 de abril de 2017

Inteligência Competitiva Empresas: Posicionamento do Bradesco muda para refletir Brasil atual

S11 ARQUIVO 12/04/2017 ECONOMIA Campanha de reposicionamento do Bradesco, feita pela agência Publicis Crédito: Bradesco/Publicis

O Bradesco está fazendo a maior mudança em sua comunicação dos últimos anos. No início deste ano, a instituição financeira abriu uma concorrência para mudar de agência de publicidade – saiu a WMcCann, que tinha a conta desde 2012, e entraram Publicis (atendimento institucional) e Leo Burnett Tailor Made (produtos). Agora, o segundo maior banco privado do País se prepara para lançar um novo posicionamento, calcado na noção de que o brasileiro quer seguir adiante após uma crise aguda, mas com responsabilidade.

É assim que o Bradesco dará adeus à assinatura “Tudo de BRA”, que pautou a marca durante a ativação do patrocínio à Olimpíada de 2016, e estreará uma campanha com o mote “Pra Frente”. O tom, mais sóbrio, propõe uma reflexão em relação aos objetivos de vida, contando histórias de brasileiros que estão buscando alcançar suas metas.

O primeiro filme dessa nova fase, criado pela Publicis, estreou ontem no intervalo do Fantástico, da TV Globo. A ideia é que, na sequência, as propostas de produtos trabalhem o mesmo conceito.

S11 ARQUIVO 12/04/2017 ECONOMIA Campanha de reposicionamento do Bradesco, feita pela agência Publicis Crédito: Bradesco/Publicis

O Bradesco é um dos maiores anunciantes do Brasil – em 2016, de acordo com a Kantar Ibope Media, foi o quarto banco que mais gastou em publicidade, atrás de Caixa, Banco do Brasil e Itaú. Os gastos somaram R$ 925 milhões, ainda segundo a Kantar Ibope, mas os dados não levam em conta os descontos concedidos pelos veículos de comunicação, que não raramente giram em torno de 80% do valor de tabela, segundo fontes de mercado.

Pé no chão. De acordo com Márcio Parizotto, diretor de marketing do Bradesco, o banco acredita que o brasileiro tem condições de superar o mau momento atual – depois de dois anos de recessão que elevaram o desemprego a 13,5% –, mas decidiu evitar o discurso vazio de otimismo. “Acho que o brasileiro vai ver esse novo período de ascendência de forma mais responsável, consciente e madura”, diz o executivo. “A campanha é uma voz de comando do próprio brasileiro, que se vê hoje sem outra opção senão seguir adiant”.

Na avaliação do Bradesco e da Publicis, o novo discurso tem sintonia com o posicionamento do banco. “Nossa avaliação, ao fazer o planejamento, foi que o Bradesco passou por todo tipo de situação no Brasil em 74 anos, das maiores crises aos principais momentos de expansão”, ressalta Hugo Rodrigues, presidente da Publicis. O executivo do Bradesco lembra que a compra do HSBC foi fechada durante o turbulento ano de 2015. Foi a maior aquisição feita pelo banco em sua história, ao custo de R$ 16 bilhões. A instituição nacional bateu concorrentes como Itaú e Santander na disputa pelo ativo.

Outra característica histórica do banco que também reflete a posição “Pra Frente”, na avaliação do presidente da Publicis, é o fato de ter a tradição de criar talentos dentro de casa – a maior parte de seus principais executivos, incluindo o presidente Luiz Carlos Trabuco, que tem 40 anos de casa, fez a maior parte da carreira na instituição. Seria mais um indício de que a instituição valoriza o trabalho construído aos poucos, em vez de grandes saltos de expansão.

Trajetórias. Além do filme que dará o pontapé inicial na campanha, o Bradesco também usará histórias de vida de brasileiros em vídeos que serão exibidos online. Serão relatos sobre pessoas que estão se arriscando para realizar projetos de vida. “A ideia é mostrar um brasileiro que toca seus projetos, mas de uma forma mais pragmática.”

Fonte: Fernando Scheller,  O Estado de S.Paulo, 17 Abril 2017 | 05h00

8 erros comuns que dão dor de cabeça para o empreendedor

O Brasil ocupa uma das últimas posições na categoria “abrir uma nova empresa” do relatório “Doing Business 2017” (“fazendo negócios”), do Banco Mundial. O país aparece na 175ª posição de uma lista com 190 nações. Além da burocracia, o sistema jurídico também é um complicador.

“Os maiores erros acontecem nas áreas tributária, societária, trabalhista, de governança empresarial e propriedade intelectual”, afirma o advogado Fabio Kujawski.

Se pessoas físicas podem recorrer à Defensoria Pública, não há serviço jurídico gratuito para empresas. A OAB veta a prática e também preços abaixo dos de mercado, regulados por tabela renovada anualmente.

Uma ação trabalhista, por exemplo, não sai por menos de R$ 3.097, ou 20% do valor da causa. Para uma minuta de contrato, será cobrado R$ 1.271 ou 2% de seu valor. Já para um tira-dúvidas verbal, em horário comercial, o preço fica em R$ 309,73.

Mas há alguns litígios que podem ser solucionados sem advogado, por meio do JEC (Juizado Especial Cível), antigo Tribunal de Pequenas Causas. É o caso de uma ação de cobrança. O limite legal é de até 20 salários mínimos, ou R$ 18.740.

Para empreendedores que têm pouca verba para assessoria jurídica, o Sebrae-SP oferece consultoria gratuita, mediante agendamento.

“Não podemos advogar pela empresa, mas tiramos dúvidas recorrentes sobre direito trabalhista, por exemplo”, afirma o consultor Marcos Kremer. O agendamento pode ser feito por telefone (0800-570-0800).

A Folha conversou com advogados para ajudar o empreendedor a estruturar e manter seu negócio evitando problemas com a lei. Veja abaixo o que eles sugerem.

1

O PROBLEMA
A empresa foi aberta com um plano de negócios estruturado, mas sem estudos prévios sobre incidência de impostos regionais nos Estados em que os produtos ou serviços serão oferecidos.

COMO EVITAR
É preciso determinar o regime de recolhimento de impostos, como o Simples Nacional, e estudar a alíquota de tributos regionais (ICMS e ISS) antes de começar a atuar no mercado. Não adianta investigar possibilidades apenas na hora em que a conta aparece.

2

O PROBLEMA
O empreendedor se empolga com uma nova ideia de negócio e a compartilha com potenciais investidores. Mais adiante, descobre que sua proposta foi usada por um deles, que viabilizou a empresa.

COMO EVITAR
Parece excesso de zelo, mas não é: elabore um contrato de confidencialidade antes de abrir sua ideia para outro empresário. Mencione de quais formas a informação pode ser usada e, em caso de violação do combinado, é possível até pleitear uma indenização na Justiça.

3

O PROBLEMA
É comum haver impasses entre os sócios da empresa, mas o drama é ainda maior quando são apenas duas pessoas no comando: qualquer decisão de um dos parceiros precisará ser unânime.

COMO EVITAR
O contrato societário da empresa pode prever cláusulas de mediação. Um exemplo é estipular uma terceira parte, não vinculada a nenhum dos dois proprietários, para ajudar a solucionar os conflitos de forma isenta, por meio de negociação.

4

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O PROBLEMA
O empresário contrata um designer para criar a marca, mas não a registra no INPI (Instituto Nacional da Propriedade Intelectual). Depois, descobre que o nome já está registrado e é processado.

COMO EVITAR
Vale contratar um advogado para consultar o INPI. Também vale fazer o registro: custa de R$ 140 a R$ 530.

5

O PROBLEMA
Na hora de prestar serviços em cidades vizinhas, o empreendedor pode ser obrigado a pagar o ISS (Imposto sobre Serviços) municipal duas vezes: na cidade onde a empresa está sediada e na do cliente.

COMO EVITAR
Quase sempre o imposto deve ser pago no município-sede da empresa. Ao redigir o contrato de prestação e emitir a nota fiscal, especifique bem a natureza do serviço e onde será pago o imposto, usando a mesma categorização que consta na legislação fiscal.

6

O PROBLEMA
Uma empresa que presta serviços de bufê não especifica no contrato detalhes como horário de início, bebidas servidas e número de garçons. O cliente discorda do que foi oferecido e entra na Justiça para reaver o dinheiro.

COMO EVITAR
O contrato deve especificar, passo a passo, todos os aspectos do serviço, incluindo materiais fornecidos e pessoal destacado. Do contrário, é a palavra da empresa contra a do cliente.

7

O PROBLEMA
O funcionário começa a alegar problemas de saúde constantes, usando atestados médicos, em geral às sextas, segundas ou em “pontes” de feriados.

COMO EVITAR
A empresa deve monitorar os atestados e identificar se os diagnósticos têm natureza semelhante. A tabela CID-10, disponível online, lista doenças e códigos usados nos documentos.

8

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O PROBLEMA
O dono de uma micro ou pequena empresa confia nos seus funcionários e acha que não precisa fazer controle de ponto, além de dar adiantamentos salariais sem recibos.

Depois descobre que foi alvo de uma ação trabalhista e fica refém de provas testemunhais em seu favor.

COMO EVITAR
A pequena deve ter os mesmos cuidados que uma grande empresa: criar sistemas de gestão, evitar pagamentos fora dos dias combinados e negociar por escrito as férias.

Fontes: Advogados Caroline Marchi e Elton Minasse (Machado Meyer Advogados), Fabio Kujawski (Mattos Filho, Veiga Filho, Marrey Jr e Quiroga Advogados), Marcos de Miranda Martinelli (Rocha e Barcellos Advogados), Mihoko Kimura (Tozzini Freire Advogados) e Thiago Medaglia (Felsberg Advogados)

Fonte: ANNA RANGEL, Folha de S.Paulo, SÃO PAULO, 17/04/2017, 02h00

Inteligência Competitiva Empresas: Faculdades privadas decidem incluir habilidades socioemocionais nas aulas

O candidato é informado que precisará interagir com um ator que representará seu colega de apartamento e lhe dirá que usa drogas. Sua missão é dar apoio ao “amigo” e conversar sobre possíveis caminhos nessa situação difícil.

Pode parecer um teste para uma vaga de dramaturgia, mas é parte da segunda fase do vestibular de medicina do hospital Albert Einstein, curso iniciado em 2016.

O objetivo da instituição, nesse exemplo, é avaliar características como empatia e capacidade de argumentação dos 256 vestibulandos que chegam nessa etapa, disputando 50 vagas.

Essa preocupação em formar profissionais com capacidades que vão além de domínios técnicos e cognitivos, normalmente associados à inteligência, tem levado algumas instituições privadas de ensino superior a incorporar as chamadas habilidades socioemocionais em seus vestibulares e currículos.

Essa tendência surgiu na esteira de pesquisas que mostram o impacto positivo de características como persistência e extroversão para indicadores de sucesso, como salários e saúde, e de uma demanda cada vez maior de profissionais com essas habilidades pelo mercado de trabalho.

No caso do Albert Einstein, traços de personalidade –como flexibilidade, persistência e habilidade para trabalhar em grupo– são analisados em um total de oito exercícios, como simulações e entrevistas, cada um com seis minutos de duração.

NOVAS COMPETÊNCIAS
Faculdades privadas passam a ‘ensinar’ habilidades socioemocionais

O que são
São traços da personalidade, como persistência e capacidade de se relacionar com os outros; essas competências se diferenciam do conceito de inteligência, que inclui a capacidade de leitura, de fazer contas e de identificar padrões

Como são?classificadas
A literatura acadêmica trata de inúmeras habilidades. Uma classificação muito usada é a “big five” (cinco grandes), que engloba meticulosidade, abertura a experiências, extroversão, amabilidade e estabilidade emocional

O que o mercado de trabalho tem buscado

  • 10% – Competências técnicas específicas, como:
    Formação acadêmica específica, linguagem de programação e conhecimento de uma língua
  • 90% – Habilidades socioemocionais; se destacam:
    Disposição para o aprendizado contínuo, conhecimento de novas tendências da tecnologia, relacionamento interpessoal,
    foco em resultados, responsabilidade e comprometimento

Fonte: análise da Kroton Educacional, com base em anúncios de vagas para universitários no site Canal Conecta

Embora não existam respostas certas ou erradas nesses testes, ao contrário do que ocorre nas provas de conhecimentos específicos da primeira fase, o desempenho dos alunos é julgado por um time de avaliadores e representa 25% de sua nota final.

O resultado tem sido tão relevante que metade dos candidatos que passam para a segunda fase entre os 50 primeiros colocados acabam caindo para fora dessa lista.

“É um vestibular muito concorrido, todos os que passam para a segunda [fase] são inteligentes”, diz Alexandre Holthausen, diretor da graduação em Medicina do Einstein, antes de perguntar: “Mas quem nunca conheceu alguém brilhante na parte cognitiva que, por falta de estabilidade emocional, se perdeu no meio do caminho?”

Carolina da Costa, vice-presidente de graduação do Insper, diz que “ser inteligente mas incapaz de se relacionar com os outros é algo que não tem possibilidade de dar certo na vida real”.

A instituição também avalia as habilidades socioemocionais na segunda fase do vestibular de engenharia, curso criado há três anos. O teste tem o formato de debates em que um grupo de alunos vai se revezando no papel de moderador de temas polêmicos.

“Tendo conhecimento desse formato, o candidato pode tentar se preparar, claro, mas é difícil manter a consistência nas cinco rodadas de debate”, diz Costa. “Os que vão bem são os que sabem ouvir, construir bons argumentos e ser flexíveis.”

O Einstein e o Insper também estruturaram o currículo de suas graduações de medicina e engenharia para estimular e avaliar o desenvolvimento das habilidades socioemocionais. “Não adianta se restringir ao vestibular”, diz Holthausen, do Einstein.

A Kroton Educacional é outra que incorporou recentemente o estímulo ao desenvolvimento de determinados traços de personalidade em suas graduações. “Resolvemos investir pesado nessa área”, diz Mario Ghio, vice-presidente acadêmico da instituição.

Uma das causas foi a elevada taxa de evasão que, segundo ele, faz metade dos alunos abandonar seus cursos, principalmente no início.

“Eles falam em falta de dinheiro ou dificuldade para acompanhar as disciplinas, mas começamos a perceber que o principal problema era falta de resiliência.”

No início de 2016, a instituição criou uma série de disciplinas para ajudar a nivelar alunos com patamares de conhecimentos diferentes e, no segundo semestre, lançou um programa para desenvolvimento de projetos de vida, em que os calouros traçam metas com a tutoria de veteranos.

“Tem ajudado muito eles ouvirem colegas mais experientes contarem que passaram pelos mesmos desafios que eles. É muito mais legítimo do que ouvir conselhos dos professores”, diz o vice-presidente acadêmico da Kroton.

DISPUTA POR VAGA

Nove em cada dez atributos exigidos por empregadores em vagas para profissionais iniciantes estão mais próximos de características da personalidade do que de habilidades técnicas.

“Quando notamos isso, foi uma surpresa. Imaginávamos que o principal seriam competências técnicas”, diz Mario Ghio, vice-presidente acadêmico da Kroton Educacional.

A instituição fez essa análise com base nos anúncios de vagas no portal que mantém para conectar empregadores e universitários que estão se formando. Uma das competências mais buscadas é “disposição para o aprendizado contínuo”.

Especialistas em educação e mercado de trabalho têm enfatizado a importância do que chamam da capacidade de “aprender a aprender” em meio ao avanço tecnológico que faz manuais perderem importância, à medida que o conhecimento é atualizado muito rapidamente.

Outras características buscadas por empregadores, na amostra analisada pela Kroton, são a capacidade de se relacionar e trabalhar em grupo, o foco em resultados e o comprometimento.

MAIS HABILIDADES

A descoberta da instituição reforça conclusões de pesquisas acadêmicas recentes. Um estudo feito pelo economista David Deming, da Universidade Harvard, mostra, por exemplo, que entre 1980 e 2012, nos Estados Unidos, a proporção de empregos que demandavam “habilidades sociais” em relação ao total de vagas cresceu dez pontos percentuais.

No mesmo período, posições intensivas em “habilidades matemáticas” (como informática e engenharia) encolheram três pontos.

Em suas conclusões, Deming ressalta que os atributos sociais têm se tornado mais importantes porque “computadores ainda são muito pobres na simulação de interações humanas”.

Segundo Carolina da Costa, vice-presidente de graduação do Insper, uma das preocupações da instituição na formatação do currículo dos seus três cursos de engenharia (computação, mecânica e mecatrônica) era que os alunos compreendessem a utilidade social da carreira.

“O engenheiro precisa se colocar no lugar do outro para entender as necessidades do público que vai atender.”

Para desenvolver empatia, uma das missões dos alunos do curso, logo no primeiro semestre, é desenvolver brinquedos de inspiração ecológica que são levados a escolas, onde são testados e avaliados pelas próprias crianças.

Foi esse tipo de abordagem que atraiu a estudante Milena Malulli, 17.

“Eu senti essa proximidade com a realidade logo nos debates de atualidades na segunda fase do vestibular e gostei muito porque nos faz pensar sobre nosso papel na sociedade”, diz ela, que está no primeiro semestre de engenharia mecatrônica.

Fonte: ÉRICA FRAGA, Folha de S.Paulo, SÃO PAULO, 17/04/2017, 02h00

“Na empresa familiar, o papel do CEO tem muito de diplomata”

Fabian Santos Magalhães. Foto: Nilton Fukuda/Estadão

O primeiro emprego do atual CEO da Multicoisas, Fabian Santos Magalhães, foi justamente na empresa. Ele tinha apenas 14 anos de idade, em 1985, quando foi convidado por Lindolfo Martin, para trabalhar na loja que ele havia fundado em Campo Grande (MS) um ano antes.

Na ocasião, Magalhães chamou a atenção do comerciante pelo seu interesse em computadores e foi chamado para ajudar no desenvolvimento de sistemas de automação do comércio. No final de 1986, deixou a empresa para estudar engenharia no Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA).

Seguiram, então, caminhos diferentes. Lindolfo fez do pequeno comércio uma franquia de varejo que hoje tem 203 unidades por todo o País e que trabalha para faturar R$ 500 milhões neste ano – o que representará um crescimento de 15% sobre 2016. Magalhães, por sua vez, formou-se, trabalhou na então Telesp, em seguida ficou na consultoria Booz Allen, de 1994 a 2002.

Lá ganhou experiência em reestruturação de negócios. De 2003 a 2008, trabalhou na editora Abril, onde participou, ele conta, da recuperação da empresa – um trabalho pelo qual tem um carinho especial. A experiência seguinte foi em outra organização familiar, o Grupo Adeste, onde permanecer até o fim de 2015. Em setembro de 2016, voltou à Multicoisas, novamente a convite do fundador. Agora, com a missão de profissionalizar a companhia familiar e impulsionar seu crescimento. A seguir, trechos da conversa.

Consultoria
Em consultoria estratégica você passa por várias áreas de uma empresa. Por meio da consultoria, trabalhei em indústria pesada, telecomunicações, em varejo. Fiquei na Booz Allen do final de 1994 ao início de 2002. Nesse meio tempo, fiquei nos EUA de 1997 a 2000 como consultor e fazendo MBA. A atuação em consultoria me deu uma boa visão de negócios.

Negócios familiares
Eu acabei trabalhando muito com transformação de empresas familiares. Fiz as contas e deu quase 17 anos atuando de alguma maneira com transformação, sucessão, governança.

Controladores
Eu considero que a situação mais difícil quando você é CEO em uma empresa familiar é a questão do relacionamento com a família controladora. Sempre exigiu muito cuidado. Nas diferenças que eu tive, o jeito de atuar foi tentar garantir ao máximo, e explorar muito antes de tomar qualquer decisão, o comprometimento da família com a mudança (na gestão). Se não houver um alinhamento de objetivos, se não tiver uma química muito grande com a família, qualquer iniciativa é fadada ao fracasso.

Diplomata
Muitas vezes, o papel do CEO nessas situações de empresa familiar é de diplomata. Exige uma diplomacia no sentido de uma negociação contínua para viabilizar a transformação da empresa. Vai se discutindo posições e evoluindo gradativamente. É um trabalho diário.

Paciência e resiliência
Esse lado negociador é extremamente importante. E negociação implica em ter paciência e resiliência para discutir um mesmo assunto várias vezes, tentando levar a transformação adiante, sempre tendo claro onde se quer chegar, mesmo que eventualmente existam alguns desvios no caminho. Então, também é importante ter as ferramentas para desenvolver a visão estratégica clara de onde se quer chegar, porque isso ajuda a criar uma causa comum com os controladores da empresa.

Influência
Em empresas familiares ou com capital muito concentrado, as equipes são mais fortemente influenciadas por esses grupos controladores, seja um acionista majoritário ou uma família. Então, para formar sua equipe, além das questões técnicas e objetivas de quem são as melhores pessoas, entra uma outra questão, que é como compor o time em função dessas alianças para negociações, há que existe uma influência direta dos controladores na decisão. Como você lida com isso quando há desde executivos ligados à família, ou pessoas que historicamente estão na empresa, às vezes até familiares? É preciso manter bem claro onde você quer chegar para eventualmente não haver mudança que inviabilize o processo de transformação.

Multicoisas e ‘minoritários’
Na verdade, os franqueados são como acionistas minoritários. Então, a gestão desse relacionamento com os franqueados, mantê-los engajados com os objetivos da empresa, a gestão de conflitos de interesse, tudo isso é uma situação mais nova para mim. Penso que a questão negocial está sendo ainda mais exigida.

Desafio
A primeira grande questão da Multicoisas é a questão de sucessão e profissionalização. Ela se desenvolveu como uma empresa familiar e ao mesmo tempo em que ela é muito bem estruturada nas questões envolvendo a franquia, seu negócio principal, ao mesmo tempo existe um mundo de melhoria nos aspectos de processos internos. Essa é a primeira questão, de ganho de eficiência etc. A outra questão é a retomada do crescimento, procurar aumentar a velocidade de crescimento em um ambiente generalizado de pessimismo no mercado, apesar de sinais de recuperação que começam a aparecer.

Horizonte
Quando você olha situação do País, o varejo caindo 6%, 6,5% no ano passado, então o desafio para todas as empresas do varejo é muito grande, especialmente no Brasil. Além disso, o varejo mundial passa por um desafio: é um momento de transformação. Ou seja, qual vai ser o espaço da loja física em cinco, dez anos? Como vão se comportar as novas gerações, que provavelmente nunca usaram uma linha telefônica fixa e daqui a cinco/dez anos vão ser a maior parte de nossos consumidores? Então, a Multicoisas tem de revisar sua visão estratégica e ver como vai se posicionar daqui a cinco, dez anos. Ou seja, onde queremos chegar? Isso ainda está em discussão, mas as possibilidades são inúmeras.

Online
Com certeza, essa estratégia passa pelo online, mas não acreditamos que a solução seja simplesmente replicar o modelo de negócios no online. O que estamos trabalhando é como integrar a nossa atuação online à nossa atuação nas lojas. E daí criar uma experiência para nosso consumidor que seja diferenciada. Acreditamos que o nosso diferencial seja a proximidade, o apoio de uma venda assistida, dando suporte ao cliente. Enfim, um ambiente acolhedor e o grande desafio está como utilizar o digital, para reforçar essa experiência.

Fonte: O Estado de S.Paulo, 10 Abril 2017 | 07h47