Método desenvolvido por pesquisadora da Universidade da Virgínia amplia e desmistifica a prática empreendedora. Para Saras Sarasvathy é possível ensinar qualquer um a ser um grande empreendedor

Originária de uma família de classe média baixa na Índia, Saras Sarasvathy, hoje professora da Darden Graduate School of Business da Universidade da Virgínia, nos Estados Unidos, abriu com mais ou menos sucesso suas próprias empresas.
Mas foi ao se interessar pela atividade do ensino que criou algo novo: um método ao qual chamou de effectuation [realização, em tradução livre] para entender a forma como os empreendedores pensam e tomam decisões.
As conclusões da pesquisadora derrubam alguns mitos. Segundo Saras, os empreendedores realmente pensam diferente das demais pessoas, mas eles não são natos: é possível aprender a ter um espírito empreendedor.

Na entrevista concedida à revista Ensino Superior durante sua vinda ao Brasil para participar da Rodada de Educação Empreendedora Brasil (REE Brasil), em Águas de São Pedro (SP), Saras explicou o que é o effectuation e como o modelo pode ser aplicado no ensino superior, tanto para desenvolver as próprias instituições de ensino, como para ensinar os alunos a serem empreendedores.

No site http://www.effectuation.org/ é possível encontrar as experiências de quem já aplica a teoria em sala de aula de diversos países, além de material para uso de instrutores. Professores têm acesso livre.

Ensino Superior – A senhora criou um mecanismo para tentar mensurar o comportamento empreendedor. No que consiste esse modelo, chamado de effectuation?
Saras SarasvathyO effectuation descreve a forma como os empreendedores mais experientes pensam, raciocinam, tomam decisões e se comportam. Chamamos effectuation pela relação de causa e efeito. Quando avaliamos a forma como os empreendedores especialistas tomam suas decisões e comparamos o método deles com o de gerentes em geral identificamos frequentemente que a lógica é quase ao contrário. Ou seja, um administrador de uma grande empresa normalmente parte do efeito que quer gerar e depois busca a forma de alcançá-lo. Os empreendedores fazem o contrário: eles partem do que dispõem, das suas próprias identidades, do que sabem e de quem conhecem para, a partir daí, se perguntarem que tipo de efeito pode ser criado. Dessa forma eles acabam criando inovação, porque não começam a partir de uma meta pré-estabelecida.
ES: Como esse raciocínio empreendedor pode ser aplicado nas instituições de ensino superior e no aprendizado dos alunos?
A tentação em muitos cursos de empreende­dorismo é falar para os alunos: ‘tal setor é   de suma importância, então é melhor vocês aprenderem a abrir uma empresa nesse segmento’, ao invés de perguntar qual a bagagem desses alunos e o que está disponível no seu ambiente local para, a partir desses dados, promover e encorajar a abertura de empresas locais com vantagens competitivas singulares. Um dos pontos que eu saliento é que, mesmo nos países mais pobres, temos mais recursos do que acreditamos. Outro mito comum é pensar ser preciso ter dinheiro antes de fazer algo. Os empreendedores especialistas pensam que podem começar qualquer coisa a partir de quem você é, do que você sabe e de quem você conhece para gerar algo mais interessante, que tenha valor para outras pessoas. Isso faz a sua empresa crescer. Acredito que isso também pode ser feito na educação.
E S: A senhora pode citar um exemplo?
A ideia é não pensar apenas em termos de dinheiro ou instalações físicas, mas pensar os seres humanos como o próprio recurso. Dentro da universidade, o aluno poderia ser visto como um recurso que pode ajudá-la a se desenvolver. Eles são os melhores recursos que a universidade dispõe. O modelo de effectuation indica que os recursos estão disponíveis em toda parte, a questão é enxergar de forma diferente. Não é preciso ficar preso ao ponto de vista dualista de corpo docente e corpo discente. Fazendo o exercício de escapar dessa visão convencional é possível identificar mais pontos como recursos e formas inovadoras de desenvolver seus cursos.
E S: É possível determinar as principais características de uma atividade empreendedora?
Uma das coisas que eu descobri por meio de pesquisas é que isso não existe. Qualquer um pode ser empreendedor. Uma das analogias que eu gosto é pensar o que o otimista e o pessimista fariam em termos de invenção. O otimista inventaria um avião, e o pessimista um navio de batalha. Todos podem aprender a ser empreendedores se assim o desejarem, mas o tipo de empreendedor que você vai ser vai depender de quem você é, de quem conhece e com quem trabalha. Então, não há uma característica específica. Mas se fosse escolher uma eu diria que, se você realmente detesta trabalhar com outras pessoas, aí é melhor não tentar ser empreendedor. Fora isso, qualquer tipo de ser humano pode ser um empreendedor.
ES: Por outro lado, o empreendedorismo ainda é visto como uma característica da atividade de negócios. Como levar esse modelo para outras áreas?
Da mesma forma como o pensamento científico não pertence apenas ao ramo da tecnologia, o método do empreendedorismo pode ser aplicado a vários programas humanos e não apenas àqueles relacionados a questões empresariais. O empreendedorismo é um assunto muito interessante porque utiliza a administração como uma tecnologia, como um instrumento para resolver uma variedade de problemas. Vários de meus alunos utilizaram o effectuation para construir alguma mudança social, por exemplo.
ES: Mas como ensinar essa forma de pensar na escola ou na universidade?
Quando frequentamos a escola, aprendemos sobre ciência e uma forma de se raciocinar a respeito de alguma coisa. Talvez nós nunca nos tornemos cientistas, mas sabemos o que significa pensar de forma científica. Mais de 200 anos depois de as pessoas começarem a entender o método científico e a ensiná-lo foi possível toda a evolução tecnológica do século 20. Como Alfred North Whitehead falou no século 19, quando a intenção era a invenção propriamente dita, “todo mundo pode aprender a ser um inventor, um cientista”. Nós estamos num momento semelhante hoje com relação ao empreendedorismo, porque o empreendedorismo também é um método que produz um efeito e pode ser ensinado para todos. Eu acredito que, no fim das contas, as pessoas vão utilizar isso de forma interessante, porque nem todos vão querer abrir uma empresa. Algumas pessoas simplesmente vão utilizar esse método para resolver problemas sociais, outros vão trabalhar para outra empresa e outras pessoas simplesmente vão servir aos empreendedores.
Então vamos acabar construindo um mundo mais empreendedor, da mesma forma como nós tivemos esse mundo científico e tecnológico. Muito do que fazemos hoje na universidade é tentar construir uma compreensão mais ampla, em que todos podem aprender a se tornar empreendedores.
E S: Qual o papel do professor no desenvolvimento do método empreendedor? Ele também precisa de treinamento?
Sem dúvida. Porque, mais uma vez, inicialmente quando as pessoas começaram a entender como a ciência funcionava era preciso observar o trabalho dos engenheiros, artesãos etc. É a mesma coisa que estamos fazendo aqui, observando empreendedores, tirando lições, aprendendo sobre essa lógica. O ensino em empreendedorismo exige treinamento, instrução e entendimento. Mas é um pouco diferente do que simplesmente a prática, pois para ser um bom professor você tem de aprender mais, além de ser capaz de fazer.
Fonte: Luciene Leszczynski, Revista Ensino Superior, para ler mais, clique aqui.