As Fábricas de Artigos na República dos Eruditos

Editorial: As Fábricas de Artigos na República dos Eruditos


Prof. Mário César Barreto Moraes, Dr.

Recentemente, um artigo submetido a um periódico “científico” brasileiro me fez lembrar o misto de acidez e indignação de Sokal e Bricmont (2001, p.144), em relação a seriedade acadêmica de tais publicações, às quais se faz necessário em seus artigos “enfiar o maior número de confusões no menor número de palavras” a fim de se obter os louros.

A crítica dos “blind reviewers”, que refutava a aceitação do artigo para fins de publicação, reportava-se a uma inexistência de sustentação na argumentação, desrespeitando o autor citado na fundamentação teórica. Tudo seria digerível, caso um dos autores do aludido artigo não fosse o próprio mencionado pelos avaliadores, o mesmo que escrevera inúmeros livros em língua inglesa, com aceitação acadêmica internacional em Ciências Sociais Aplicadas e, que naquele momento submetia a um periódico brasileiro um artigo em co-autoria, sendo criticado por falta de coerência com o original.

O artigo submetido era resultado de uma pesquisa internacional realizada, objeto de revisão e discussão na origem, que possibilitou o pós doutoramento de um de seus autores.

Não obstante a incompreensão e decepção decorrentes da rejeição, os autores decidiram por submeter o mesmo artigo a um periódico científico internacional, de língua inglesa, o qual não apenas foi acatado como objeto de apreciação elogiosa pelos avaliadores.

O fato parece ilustrar um quadro surreal, onde se percebe o deslocamento do efetivo sentido de resultado de pesquisa para um neologismo qualquer, decorrente da customização do conhecimento segundo padrões definidos por uma coalizão dominante. Reforça-se uma produção que se convencionou chamar de científica, que para ser aceita necessita observar uma padronização de conteúdo que é regulado, atendendo a pressupostos invariavelmente associados a interesses específicos. Como consequência, as centrais reprodutoras desse conhecimento, eletizadas pela alcunha de academia, focam e são avaliadas por uma produtividade também customizada, em que se preserva as tendências estabelecidas por alguns “referenciais” obrigatórios.

Assim, os efetivos resultados de pesquisadores, mesmo internacionais, carecem da anuência prévia e do compartilhamento com a customização vigente, caso contrário serão rejeitados. Já os artigos, que não se submetem a este acordo tácito, reforçado periodicamente nos encontros setoriais, tornam-se párias do sistema, sendo como tais rotulados ou pejorativamente tratados. Deste modo, reforça-se uma elite e ratifica-se o nascimento das castas na academia.

Paradoxalmente, refuta-se o que se prega nas salas de aula, contrariando a máxima de “que o homem precisa é somente de uma vontade independente, custe ela o que custar e não importa aonde possa conduzir” (DOSTOIÉVSKI, 2009, p.36).

A academia, transformada em uma verdadeira fábrica de artigos “científicos” acaba anuindo com Schopenhauer (2006, p. 28):

… na república dos eruditos, cada um procura promover a si próprio para conquistar

algum reconhecimento, e a única coisa com que todos estão de acordo é em não deixar

que desponte uma cabeça realmente eminente, quando ela tende a se destacar, pois tal

coisa representa perigo para todos ao mesmo tempo.

Pior que a customização na fábrica, é a transformação desta numa reprodutora de iguais no pensar, em que paulatinamente se consolida a academia atual. Esta sim, uma mudança que preocupa, mas que sem grandes alardes, consciente ou inconscientemente se reforça e é aceita por cada um de seus membros, resultando na moderna academia. Triste é o fim de tal academia ou, da sociedade que a sustenta.

Referências

DOSTOIÉVSKY, Arthur. Notas do subsolo. Porto Alegre: L&PM, 2009.

SCHOPENHAUER, Arthur. A arte de escrever. Porto Alegre: L&PM, 2006.

SOKAL, Alan e BRICMONT, Jean. Imposturas intelectuais. Rio de Janeiro: Record, 2001.
*Editorial Newsletter da Associação de Mantenedoras Particulares de Educação Superior de Santa Catarina – AMPESC, 031 – AGOSTO, SETEMBRO e OUTUBRO/2010, para ler mais, clique aqui.