Escrever artigo científico? Leia As Boas Práticas da Publicação Científica

Bem-vindo ao Manual ANPAD de Boas Práticas da Publicação Científica. Este documento é uma iniciativa da Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação e Pesquisa em Administração e visa a ajudar os periódicos brasileiros a alcançar elevado desempenho e a ampliar o seu impacto como fonte de pesquisa referencial nas áreas de Administração e Contabilidade.

As Boas Práticas representam um conjunto de critérios e orientações a respeito da publicação científica e dos papéis dos principais atores envolvidos no processo, tanto sob o ponto de vista ético quanto do operacional.

A adoção destas Boas Práticas na gestão de periódicos científicos, com certeza, contribuirá fortemente para a consolidação das duas áreas como campos de conhecimento científico.
Conforme mencionado no início deste documento, autores têm suas respectivas carreiras afetadas pela publicação de artigos em periódicos, o que os leva, frequentemente, à perspectiva de que eles sejam o centro do processo. A isto se adiciona o fato de que muitos pesquisadores iniciantes veem a editoria científica como uma caixa preta.
A seguir, são listados alguns pontos relevantes, inspirados em Moizer (2009), Konrad (2008), Ryan (2008) e COPE (2010), que podem ser úteis para os autores terem mais sucesso em suas iniciativas de publicação de manuscritos.
• Observar atentamente a política editorial e uma amostragem de artigos recentemente publicados para selecionar o periódico para o qual irá enviar seu manuscrito. Uma sintonia nesses aspectos aumenta consideravelmente a probabilidade de aceitação para o processo editorial, enquanto sua falta pode levar à rejeição já na revisão de admissão (desk review).
• Somente submeter manuscritos que estejam gramaticalmente revisados e estritamente de acordo com as normas para formatação, citações e referências estabelecidas nas instruções aos autores do periódico. Não atender a esses pontos implica uma rejeição na revisão de admissão.
• Apresentar claramente as ideias, incluindo a utilização adequada de ilustrações e referências. Os trabalhos devem seguir o formato do periódico e, em geral, são compostos das seguintes partes: (i) introdução, que estabelece a finalidade da pesquisa (qual o tema do artigo, problematização, e qual o seu objetivo) e trata de sua relevância; (ii) referencial teórico; (iii) metodologia ou métodos e técnicas; (iv) resultados e discussão; (v) conclusões e recomendações; e (vi) referências cuidadosamente revisadas conforme o padrão do periódico.
• Brown (2005) mostra a importância de divulgar, apresentar e discutir manuscritos em workshops, prática que aumenta a probabilidade de aceitação por periódicos especializados. Outra recomendação é solicitar a colegas críticos que leiam e comentem o manuscrito antes de submetê-lo. Contribuições efetivamente relevantes podem ser reconhecidas mediante inserção, no texto, de um agradecimento nominal a quem as tenha feito, procedimento que se aplica também a pareceres de revisores especialmente construtivos, que tenham ensejado melhorias significativas no trabalho.
• É uma infração ética grave submeter um mesmo manuscrito a mais de um periódico ou enviá-lo a um novo periódico sem retirá-lo formalmente de algum outro em que o texto esteja sendo avaliado.
• Submeter artigos que tenham uma sobreposição considerável será somente cabível caso os textos se destinem a públicos diferentes (por exemplo, profissional e acadêmico), mas será inaceitável (comportamento ético inadequado) se as audiências forem as mesmas. Ainda nesta linha, somente se admite gerar vários manuscritos a partir de um mesmo conjunto de dados se: (i) não for possível esgotar as informações contidas nos dados em um único artigo integrador, que seja claro e significativo; e (ii) os vários artigos tenham finalidades distintas (Fine; Kurdek, 1994).
• É abusivo e inaceitável, sob ponto de vista ético, efetuar a submissão de um manuscrito com limitações conhecidas pelos autores, que poderiam perfeitamente ser por eles corrigidas, na expectativa de que seja aceito apesar dessas limitações ou com o propósito de transferir a editores e revisores a função de melhorá-lo (talvez “eles” não detectem tudo, e terei de trabalhar menos ou vou deixar alguns pontos inadequados para os revisores apontarem, talvez “eles”, assim, não percebam os erros mais sérios). Igualmente grave é beneficiar-se das recomendações de um bom parecer de um periódico, efetuar os aperfeiçoamentos solicitados e aí enviar o manuscrito para outro, que julgar mais qualificado.
• Referenciar devidamente a eventual réplica de métodos de outros pesquisadores e todas as afirmativas que não estiverem amparadas pela pesquisa descrita no artigo. No entanto, respeita sempre que o que deve ser referenciado são ideias e argumentos, e não frases descontextualizadas, dos autores citados. Considerar, também, que um artigo deve ter uma contribuição de quem o escreve, e não pode, portanto, apresentar referências em número comparável ao de parágrafos.
• Constitui grave infração ética citar trabalhos de pertinência discutível, visando a ampliar o respectivo impacto. Por outro lado, é igualmente conduta ética inadequada deixar de fazê-lo por antipatia ou preconceito de qualquer ordem.
• É preciso saber que todos os autores referenciados são candidatos a avaliadores de seu manuscrito.
• Lembrar-se de que o ingresso no processo de revisão não implica aceitação para publicação.
• É preciso, também, manter-se consciente de que um manuscrito sempre pode ser aperfeiçoado pelo olhar externo. É bastante comum, ao tomar conhecimento de um comentário ou recomendação de parecer, ser difícil para o autor entender por que o avaliador assinalou ou comentou uma determinada passagem ou construção. Para ele, autor, tudo está perfeito: por conhecer muito bem a pesquisa, sua mente cobre as lacunas e elimina as imperfeições do texto. A recomendação então é nunca descartar levianamente uma ponderação do avaliador: ele pode até não ter apanhado exatamente o espírito da coisa naquele ponto, mas sentiu algo estranho ali. Uma revisão é quase certamente necessária (Trzesniak, 2004b).
• Aprender, portanto, a absorver os comentários derivados do processo de revisão e esforçar-se ao máximo para entender e incorporar o maior número possível deles.
Porém, se após todo o empenho alguns comentários se mostraram justificadamente inadequados, não incorporá-los: preparar uma nota educada ao revisor, explicando suas razões para não atender à solicitação. Em geral, uma mensagem deve sempre ser enviada ao periódico, explicando como cada ponto levantado pelos revisores foi utilizado para melhorar o manuscrito.
• Aprender a aceitar a rejeição e analisar as razões desta. Considerar a possibilidade de um novo documento ser criado a partir do rejeitado ou se uma versão revista do documento poderia ser publicada em outro periódico. Não é uma boa ideia simplesmente enviar o mesmo manuscrito para outra revista. Entre outras coisas, pode ocorrer de o mesmo revisor ser solicitado a avaliar seu manuscrito.
• Manter-se motivado. Motivação e crença em seu próprio trabalho são elementos importantes para determinar a aceitação de seus manuscritos.
• Trabalhar em rede com outros pesquisadores, pois o processo de colaboração, além de favorecer a motivação e a produtividade, oferece a multiplicidade de visões, identificando e contornando limitações e aperfeiçoando ideias e argumentos. Porém, para não incorrer em falta ética, somente inclua como coautores aqueles que tenham contribuído efetiva e significativamente para a pesquisa (Sherrell; Cabelo; Griffin, 1989).
O agradecimento formal, no texto, é uma alternativa saudável (Boa Prática) para envolvimentos relevantes, porém de menor monta, na elaboração do manuscrito.
• Estar sempre envolvido com mais de um manuscrito, pois em geral há um lapso de tempo entre a submissão e a publicação em periódicos.
• Evitar a submissão de mais de dois artigos por ano a uma mesma publicação.
• Ficar na expectativa de ser acionado como revisor pelo periódico que tenha publicado o seu manuscrito, principalmente se este tiver sido bem avaliado. Os editores sempre consideram que autores dos artigos que publicam são revisores em potencial, especialmente se os julgam perspicazes e capazes de responder num prazo curto. No caso de atuar como revisor, fazê-lo com dedicação, presteza e máxima seriedade científica. Contribuir para a melhoria do manuscrito como se fosse seu, ambicionando que, após a publicação, os autores e as autoras possam orgulhar-se dele com justiça, e que ele tenha um impacto significativo na área do conhecimento.
Referências
Botsford, G. (1993). Remembering Mr. Shawn. The New Yorker (dec. 28, 1992/jan. 4, 1993), p. 139.
Brown, L. D. (2005). The importance of circulating and presenting manuscripts: Evidence from the accounting literature. The Accounting Review. 80(1), p.55–83.
COPE. (2010). Committee on Publication Ethics. Disponível em http://publicationethics.org/. Acessado em 02 de setembro de 2010.
DeNisi, A. (2008). Managing the editorial review process: It’s the people that matter. In Baruch, Y.; Konrand, A.M.; Aguinis, H.; Starbuck, W.H. (ed). Opening the black box of editorship. New York: Palgrave.
Feldman, D. C. (2008). Building and maintaining a strong editorial board and cadre of ad hoc reviewers. In Baruch, Y.; Konrand, A.M.; Aguinis, H.; Starbuck, W.H. (ed). Opening the black box of editorship. New York: Palgrave.
Fine, M. A.; Kurdek, L. A. (1994). Publishing multiple journal articles from a single data set: Issues and recommendations. Journal of Family Psychology. 8(4), p.371–379.
Frey, B. S. (2003). Publishing as prostitution? – Choosing between one’s own ideas and academic success. Public Choice, 116(1–2), p.205–223.
Harrison, D. (2002). Obligations and obfuscations in the review process. Academy of Management Journal. 45(6), p. 1079–1084.
Kacmar, K.M. (2008). Setting up an effective manuscript-review process. In Baruch, Y.;

Konrand, A.M.; Aguinis, H.; Starbuck, W.H. (ed). Opening the black box of editorship. New York: Palgrave.
Konrad, A.M. (2008). Knowledge creation and the journal editor’s role. In Baruch, Y.;

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Lo Bianco, A. C., Hutz, C. S., Bueno, J. L., Feitosa, M. A. G., Guedes, M. C., Yamamoto, O.
H., Menandro, P. R. M., & Koller, S. H. (2002). Manual 2001: instruções para o preenchimento da ficha de avaliação de periódicos científicos em Psicologia elaborada pela ANPEPP-CAPES (Versão 2002). Recuperado em 10 de outubro de 2010, de http://www.anpepp.org.br/manual2002.FINAL.doc
Moizer, P. (2009). Publishing in accounting journals: a fair game? Accounting, Organizations and Society. 34 (2), p. 285–304.
Ryan, A.M. (2008). How may I help you? Editing as service. In Baruch, Y.; Konrand, A.M.; Aguinis, H.; Starbuck, W.H. (ed). Opening the black box of editorship. New York: Palgrave.

Sherrell, D.L.; Hair, J.F., Jr.; Griffin, M. (1989). Marketing academicians’ perceptions of ethical research and publishing behavior. Academy of
Marketing Science Journal. 17(4), p.315–324.
Tobochnik, J. (2008). The art of doing. American Journal of Physics, 76(8), p. 701.
Trzesniak, P. (2001). Cargos e funções associados à publicação científica: uma proposta de nomenclatura. In: X Curso de Editoração Científica (notas). Petrópolis, RJ: Associação Brasileira de Editores Científicos.
Trzesniak, P. (2004a). A designação/substituição de editores científicos de publicações periódicas: um modelo para discussão. Informativo da Sociedade Entomológica do
Brasil, 29(2). Recuperado em 19 de outubro de 2010, de http://www.seb.org.br/informativo/pdf/Info29-2.pdf
Trzesniak, P. (2004b): Qualidade e produtividade nos programas de pós-graduação: a disciplina seminários de dissertação. Revista Brasileira de Pós-Graduação 1, 111–125. Disponível em: http://www2.capes.gov.br/rbpg/images/stories/downloads/RBPG/Vol.1_1_jul2004_/111_125_qualidade_e_produtividade_nos_programas.pdf
Trzesniak, P. (2006). As dimensões da qualidade dos periódicos científicos e sua presença em um instrumento da área da educação. Revista Brasileira de Educação. 11(32), maio/ago, p. 346–377.
Trzesniak, P. (2009). A estrutura editorial de um periódico científico, in: Sabadini, A. A. Z. P.; Sampaio, M. I. C.; Koller, S. H.: Publicar em Psicologia: um enfoque para a revista científica. São Paulo/SP: Associação Brasileira de Editores Científicos de Psicologia e Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (ISBN 978-85-86736-33-9). Disponível em: http://www.publicarempsicologia.blogspot.com/ (download gratuito).

Fonte: ANPAD, leia documento completo, ao clicar aqui.

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As Fábricas de Artigos na República dos Eruditos

Editorial: As Fábricas de Artigos na República dos Eruditos


Prof. Mário César Barreto Moraes, Dr.

Recentemente, um artigo submetido a um periódico “científico” brasileiro me fez lembrar o misto de acidez e indignação de Sokal e Bricmont (2001, p.144), em relação a seriedade acadêmica de tais publicações, às quais se faz necessário em seus artigos “enfiar o maior número de confusões no menor número de palavras” a fim de se obter os louros.

A crítica dos “blind reviewers”, que refutava a aceitação do artigo para fins de publicação, reportava-se a uma inexistência de sustentação na argumentação, desrespeitando o autor citado na fundamentação teórica. Tudo seria digerível, caso um dos autores do aludido artigo não fosse o próprio mencionado pelos avaliadores, o mesmo que escrevera inúmeros livros em língua inglesa, com aceitação acadêmica internacional em Ciências Sociais Aplicadas e, que naquele momento submetia a um periódico brasileiro um artigo em co-autoria, sendo criticado por falta de coerência com o original.

O artigo submetido era resultado de uma pesquisa internacional realizada, objeto de revisão e discussão na origem, que possibilitou o pós doutoramento de um de seus autores.

Não obstante a incompreensão e decepção decorrentes da rejeição, os autores decidiram por submeter o mesmo artigo a um periódico científico internacional, de língua inglesa, o qual não apenas foi acatado como objeto de apreciação elogiosa pelos avaliadores.

O fato parece ilustrar um quadro surreal, onde se percebe o deslocamento do efetivo sentido de resultado de pesquisa para um neologismo qualquer, decorrente da customização do conhecimento segundo padrões definidos por uma coalizão dominante. Reforça-se uma produção que se convencionou chamar de científica, que para ser aceita necessita observar uma padronização de conteúdo que é regulado, atendendo a pressupostos invariavelmente associados a interesses específicos. Como consequência, as centrais reprodutoras desse conhecimento, eletizadas pela alcunha de academia, focam e são avaliadas por uma produtividade também customizada, em que se preserva as tendências estabelecidas por alguns “referenciais” obrigatórios.

Assim, os efetivos resultados de pesquisadores, mesmo internacionais, carecem da anuência prévia e do compartilhamento com a customização vigente, caso contrário serão rejeitados. Já os artigos, que não se submetem a este acordo tácito, reforçado periodicamente nos encontros setoriais, tornam-se párias do sistema, sendo como tais rotulados ou pejorativamente tratados. Deste modo, reforça-se uma elite e ratifica-se o nascimento das castas na academia.

Paradoxalmente, refuta-se o que se prega nas salas de aula, contrariando a máxima de “que o homem precisa é somente de uma vontade independente, custe ela o que custar e não importa aonde possa conduzir” (DOSTOIÉVSKI, 2009, p.36).

A academia, transformada em uma verdadeira fábrica de artigos “científicos” acaba anuindo com Schopenhauer (2006, p. 28):

… na república dos eruditos, cada um procura promover a si próprio para conquistar

algum reconhecimento, e a única coisa com que todos estão de acordo é em não deixar

que desponte uma cabeça realmente eminente, quando ela tende a se destacar, pois tal

coisa representa perigo para todos ao mesmo tempo.

Pior que a customização na fábrica, é a transformação desta numa reprodutora de iguais no pensar, em que paulatinamente se consolida a academia atual. Esta sim, uma mudança que preocupa, mas que sem grandes alardes, consciente ou inconscientemente se reforça e é aceita por cada um de seus membros, resultando na moderna academia. Triste é o fim de tal academia ou, da sociedade que a sustenta.

Referências

DOSTOIÉVSKY, Arthur. Notas do subsolo. Porto Alegre: L&PM, 2009.

SCHOPENHAUER, Arthur. A arte de escrever. Porto Alegre: L&PM, 2006.

SOKAL, Alan e BRICMONT, Jean. Imposturas intelectuais. Rio de Janeiro: Record, 2001.
*Editorial Newsletter da Associação de Mantenedoras Particulares de Educação Superior de Santa Catarina – AMPESC, 031 – AGOSTO, SETEMBRO e OUTUBRO/2010, para ler mais, clique aqui.