Aceleração digital faz crescer busca por cientistas de dados

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Pesquisa inédita da consultoria de recrutamento de executivos ZRG Brasil com 63 empresas, obtida com exclusividade pelo Valor, indica que faltam cientistas de dados no mercado. Pressionadas pelo avanço da transformação digital nos negócios, as companhias não conseguem preencher as vagas disponíveis. Foram ouvidas grandes redes de varejo, bancos, operadoras de telecom e consultorias de gestão, entre janeiro e março.

Quarenta e um por cento dos especialistas não estão abertos para novos projetos, pois fizeram um movimento profissional recente, há menos de um ano, ou receberam bônus de retenção do empregador, explica Bruno Lino, sócio e diretor responsável pelas verticais de consumo e varejo da ZRG. A tendência é de escalada na demanda, avisa.

Somente no Itaú Unibanco, o número de cientistas de da dos passou de um, em 2017, para mais de 250, em 2021. Apenas no primeiro trimestre do ano foram admitidos 18 currículos e há 24 seleções em andamento, segundo a diretora de recursos humanos Valéria Marretto. “Como a ciência de dados é um campo recente, o volume de profissionais formados é relativamente baixo e deixa a busca por especialistas mais aquecida”, diz.

O cientista ou profissional de estratégia de dados ganhou notoriedade nos últimos anos com a disseminação de novas tecnologias de armazenamento e de gestão de grande volume de informações (big data). No dia a dia, precisa combinar conhecimentos matemáticos e de análise para entregar modelos de predição de comportamento de consumo, estratégias de relacionamento com clientes ou de desenvolvimento de vendas. Além disso, segundo a ZRG, para ocupar uma cadeira de liderança nesse nicho, é necessário um amplo entendimento do negócio da empresa, experiência na gestão de pessoas e de projetos.

Lino destaca que, como a ciência de dados é um ramo novo no mercado de trabalho, a maioria das empresas não possui um departamento de estratégia de dados estruturado e há poucos profissionais experientes que construíram carreira no setor – o que deixa a disputa por talentos mais acirrada. “Executivos mais seniores tiveram de migrar de outras áreas”, diz.

É o caso de Vitor Matsuda Azeka, superintendente de ciência de dados do Itaú Unibanco, 40 anos, há 17 no grupo. “Antes de exercer o papel de cientista de dados, trabalhava com políticas de crédito para o segmento de varejo do banco”, diz o executivo, que entrou na instituição como trainee e está no novo departamento desde 2017.

Azeka iniciou sua trajetória no segmento de cobrança e lembra que desenhar modelos inteligentes para dinamizar processos já era parte do seu perfil de trabalho. “Com o tempo, apliquei a inteligência de dados para tornar as políticas de crédito mais precisas e, conforme aprendia técnicas mais avançadas de modelagem, passei a utilizá-las para solucionar as ‘dores’ dos clientes”, detalha.

Graduado em engenharia de produção e com mestrado em economia, o executivo diz que a profissão exige especialização contínua. Ele pesquisa o tema por conta própria, por meio de plataformas on-line, e o banco oferece oito horas semanais de estudos para a equipe. “Temos uma agenda de monitoria e consultoria, em que separamos parte do expediente para tirar dúvidas e partilhar aprendizados”, explica.

O executivo se reporta ao diretor de tecnologia e CDO (Chief Data Officer), e é responsável pela gestão e formação de mais de 60 times, que atuam junto às áreas de negócios, desenvolvem soluções e capacitam novos técnicos. Recentemente, trabalhou com um algoritmo capaz de analisar imagens de câmeras em agências, para detectar a quantidade de pessoas no local. “Dentro do contexto da pandemia, a aplicação nos ajuda a identificar princípios de aglomeração e encontrar maneiras de superar o problema”, diz.

O home office de Pedro Holanda, 30 anos, head de data science da empresa de inteligência artificial Rocketmat, com clientes como Ambev e Hospital Albert Einstein, também está movimentado. O especialista finaliza um novo projeto, desenvolvido em três semanas, para dinamizar a contratação de profissionais de saúde com a ajuda da análise de dados. “O maior desafio foi encontrar um paralelo entre os contratados antes da pandemia e durante esse período”, diz.

Doutorando em ciências da computação, Holanda foi contratado pela Rocketmat em 2019, por indicação. Antes, atuava como arquiteto de soluções em uma startup do setor automotivo, propondo soluções como o rastreamento inteligente de veículos. “Sempre tive contato com pesquisas em machine learning [aprendizado de máquina], o que me motivou a buscar o cargo de cientista de dados.”

O especialista confirma a disputa ombro a ombro por currículos no setor. Somente no ano passado, recebeu mais de dez propostas para mudar de emprego. “As empresas descobriram os benefícios da ciência de dados”, explica. “Os registros gerados nas operações oferecem informações que a companhia não é capaz de notar sozinha. Com análise e modelos de aprendizado de máquina, é possível gerar novos cenários de negócios que dificilmente seriam percebidos sem essas técnicas.”

Paulo Repa, 56, cientista de dados da multinacional brasileira de tecnologia Stefanini há quase três anos, diz que a quantidade de convites de trabalho subiu de três para cinco por semana em 2021, vindos do Brasil e de contratantes internacionais. “Há demanda em áreas ligadas a marketing digital, estudos de perfil de consumidores e em assistentes digitais”, afirma o engenheiro de software que também ministra cursos sobre o tema em escolas técnicas estaduais de São Paulo (ETECs).

Entre os projetos mais recentes que Repa participou estão uma solução interna de predição do turnover de funcionários, baseada em indicadores como o risco de saída voluntária e os atritos no trabalho; e um sistema de inteligência artificial feito sob encomenda que mapeia redes sociais para atuar de forma preventiva no combate às organizações criminosas.

No C6 Bank desde dezembro de 2019, o matemático Bruno Pauka Gouveia, 35, gerente de data science, liderava um time de ciência de dados em um grande grupo brasileiro antes de aceitar o chamado do banco digital, fundado em agosto daquele ano. Com mestrado em estatística, ele trabalha agora no desenho de soluções para as áreas de crédito, cobrança e prevenção à fraude. Em 2020, foi abordado mais de 40 vezes por outras companhias.

Para aceitar e continuar na posição que ocupa, ele diz que pesam fatores como a oportunidade de trabalhar com uma infraestrutura tecnológica de ponta; o desafio inerente à função e o “fit” cultural do grupo, de viés inovador. A atividade, explica, exige um diálogo permanente com os “heads” de todos os setores da empresa. “Eles são os ‘donos’ dos problemas que vamos solucionar e ainda ajudam a validar as nossas descobertas.”

Fonte: Jacilio Saraiva — Para o Valor, de São Paulo, 29/04/2021.

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