Custo dos insumos acelera e fabricantes fazem repasses

As indústrias de bens de consumo são unânimes em apontar a aceleração dos custos dos insumos como o maior desafio neste início de ano. Os preços das matérias-primas e embalagens já haviam subido de 30% e 40% em 2020.

“Se alguém falar que não tem algum problema com insumos é mentira”, diz Alexandre Wiggers, diretor-presidente da Condor, fabricante de escovas e vassouras, cujos negócios se beneficiaram da maior demanda por itens de limpeza – o faturamento cresceu 30% em 2020, para R$ 543 milhões. Ele diz que os problemas de ruptura já estão se normalizando, mas os custos ainda desafiam as contas. “Normalmente, quando a inflação é muito alta em um ano, no seguinte há uma redução. Não houve. Já vemos 60% de aumento em alguns insumos neste ano.”

O relato se assemelha ao que Paulo Engler, diretor-executivo da Abipla, associação da indústria de higiene e limpeza, tem ouvido dos associados. “Falta tivemos no último trimestre, a questão agora é preço.”

A Associação Brasileira da Indústria de Alimentos (Abia) diz que o setor enfrenta crescente pressão nos custos de aquisição de embalagens plásticas, devido à reduzida oferta de resinas plásticas (PP-polipropileno, PE – polietileno, entre outras) no mercado interno. “É importante considerar que esse cenário, que já é grave, é intensificado pela desvalorização da taxa de câmbio, que em 12 meses acumula alta de mais de 30%. Matérias-primas e embalagens respondem por 65% dos custos de produção dos alimentos industrializados”, diz a associação em nota.

A preocupação da indústria é que esse problema poderá comprometer o planejamento de suprimentos das embalagens utilizadas pelo setor e a produção de alimentos. Bruno Trevizaneli, diretor agrícola da Predilecta Alimentos, diz que houve impacto no começo da pandemia por fechamento ou redução parcial de fábricas de fornecedores, o que atrasou entregas. “Neste ano sentimos fortes reajustes em vidro, lata e embalagens plásticas. Nos últimos meses, o aumento ficou em torno de 30% a 35%. Agora, além de pagar caro, estamos observando uma possível ruptura de insumos com a falta de matéria-prima para nossos fornecedores”, diz, citando os problemas na cadeia produtiva de plásticos.

Diante do aumentos dos custos e de potenciais indisponibilidades, as empresas começam a fazer reajustes nos preços ao consumidor. A mineira Globalbev, dona dos energéticos Extra Power e Flying Horse, viu as vendas oscilarem em 2020, ganhando tração no fim do ano. Em 2021, as metas iniciais foram atingidas, mas o presidente, Bernardo Fernandes, diz que já é possível sentir um recuo nos pedidos do varejo ao mesmo tempo em que lida com os custos.

“Nos últimos seis meses estamos sofrendo uma pressão de custos absurda, especialmente em embalagens, como latas e plásticos, e em algumas matérias-primas, como açúcar. Não há interesse em encarecer, mas se fechar os olhos vira um problema financeiro pra empresa”, explica Fernandes. Apesar do cenário, a empresa prevê um faturamento 47% maior neste ano do que em 2020, a R$ 320 milhões.

Para a gigante de biscoitos e massas secas M. Dias Branco, o maior desafio tem sido mesmo os custos. “A gente não teve situação de indisponibilidade de insumos e embalagens. Talvez pelo nosso porte. Mas vimos situações no mercado e isso se refletiu, no nosso caso, em maiores custos e estamos monitorando”, diz em Fabio Cefaly, diretor de novos negócios e relações com investidores.

A dona das marcas Vitarella, Adria e Piraquê também sente pressão pela forte valorização do dólar, que eleva os preços de insumos como farinha e óleo de palma. Em 2020, a empresa registrou R$ 680 milhões de impacto negativo em função do câmbio. Por isso, o vice-presidente de investimentos e de controladoria, Gustavo Theodozio, explica que o ano começou com um novo reajuste em todo o portfólio, de 10%. “Não tem como as companhias não continuarem com movimento de precificação para recompor margem.”

No segmento de bebidas, é principalmente a falta de vidros que assusta. A presidente-executiva da Associação Brasileira de Bebidas (Abrabe), Cristiane Foja, destaca que o problema foi agravado pela interrupção da produção de garrafas no começo da pandemia, mas também tem razões não transitórias: o parque fabril de vidros no Brasil já não é suficiente para responder à demanda, que já crescia e acelerou em 2020, com um mix diferente de produtos sendo consumidos.

“Importar 100% não dá, por causa do valor do dólar e de uma taxa de 10% na importação do vidro. Das 37 associadas, 33 relataram impactos”, conta. O presidente da União Brasileira de Vitivinicultura (Uvibra), Deunir Argenta, estima que o problema pode se agravar se o consumo for aquecido como em 2020. “Nos preocupa bastante já que faltou vidro em janeiro e fevereiro, que são meses de baixa.” Já o Sindicato Nacional da Indústria da Cerveja (Sindicerv) diz que a falta de garrafas é pontual e que tem trabalhado para a normalização.

Fonte: Valor, Raquel Brandão, 09/04/2021.

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