A rede social que pode salvar o capitalismo, por Nizan Guanaes

Nizan Guanaes

Sempre me considerei um capitalista convicto, um liberal na economia. Mas sou um capitalista em crise. Ele está datado, ultrapassado pelo próprio capitalismo.

Acreditamos no Estado pequeno, que a atividade econômica deve ser guiada pelo dinamismo dos mercados, que as empresas podem fazer melhor do que o governo. Só que, quando o bicho pega, aí é o Estado que tem que prover, financiar, botar trilhões na economia. Isso é uma contradição, e a vida está cheia delas.

O capitalismo, com todas as suas falhas, é o sistema que construiu as nações mais prósperas e menos injustas do mundo, as sociedades mais livres. Mas é visível que ele precisa de um reset. O bom é que ele pode fazer isso. Plataforma aberta, a economia de mercado sempre mostrou grande capacidade de se transformar e evoluir.

O Grande Reset, aliás, foi o tema do Fórum Econômico Mundial de Davos (mais capitalista, impossível). Sim, o Fórum de Davos defende a transição do “capitalismo de shareholder”, focado nos acionistas e nos resultados de curto prazo das empresas, para o “capitalismo de stakeholder”, o capitalismo que busca beneficiar, em prazo longo, todas as partes envolvidas na atividade empresarial: de investidores a funcionários, de clientes a fornecedores, da comunidade ao planeta.

No mundo e no Brasil, empresários, CEOs e investidores se unem em torno dessa pauta também. E eles não são socialistas. Mas estão sentindo que chegou o momento de mudar o capitalismo para seguirmos avançando. Quando algumas dezenas de famílias têm o mesmo dinheiro que o resto da humanidade, algo está errado. Como diz Caetano: alguma coisa está fora da ordem.

Eu não tenho repertório para desenhar a solução, mas a pandemia, a desigualdade, as mudanças climáticas, as redes sociais pestilentas são sintomas daquilo que a economista italiana Mariana Mazzucato (admirada pelo “socialista” Bill Gates) está dizendo que precisa mudar. Mazzucato acha que a crise surgida da pandemia pode ser a alavanca dessa mudança, capaz de abrir caminho para um Estado mais eficiente, mas mais forte, que possa ser condutor de políticas de crescimento inclusivas e sustentáveis, uma força empreendedora. Sou brasileiro e vejo com tristeza como o Estado tende a ser custoso e ineficaz. Mas o que seria de nós sem o SUS?

Mazzucato está dizendo que eu não tenho conhecimento para articular. Eu não sou um pensador. Eu sou um sentidor. Como aquele pessoal que não entende inglês, mas sente e entende a música que está ouvindo. Se você me perguntar para onde devemos ir, eu não sei. Mas sei para onde não devemos ir. O capitalismo pleno não é possível sem a democracia. Que o diga o Barão de Mauá. E um cara como o Marcel Herman Telles é um grande homem público por ter gerado tanta riqueza, empregos e transformação com os conglomerados que criou e com os talentos que fez florescer.

As startups contestam o status quo como as passeatas de 1968, mas trazem como efeito colateral de sua revolução 4.0 a desigualdade, a destruição em massa de empregos, o surgimento de um Quarto Mundo pior que o Terceiro Mundo: não é o subdesenvolvimento, é o não desenvolvimento e a irrelevância.

Aí meu coração escuta Martin Wolf, o principal analista do muito capitalista “Financial Times”: nada substitui a ação de um Estado em forma.

O mundo não é um mercado. Temos que mudar o capitalismo. Ele achava que estava voando. Não: ele tinha se jogado do alto da torre, e a única maneira de salvá-lo é a rede social do Estado em forma.

Fonte/autor: Nizan Guanaes, Folha de S.Paulo, 8.mar.2021 às 23h15.

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