Para o ‘pai’ do ESG, mundo estará disposto a pagar muito para ter acesso a recursos da Amazônia

Revolução verde pode ampliar desigualdades entre países ricos e pobres, a menos que sejam criadas instituições de controle das consequências políticas e sociais, diz John Elkington — Foto: Ana Paula Paiva/Valor
Revolução verde pode ampliar desigualdades entre países ricos e pobres, a menos que sejam criadas instituições de controle das consequências políticas e sociais, diz John Elkington — Foto: Ana Paula Paiva/Valor

O matemático florentino Luca Pacioli, um renascentista que colaborou com Michelangelo, é considerado o pai da contabilidade moderna. Foi o primeiro a descrever o método das partidas dobradas, com ativos de um lado e passivo de outro, sistema utilizado por comerciantes venezianos. Cinco séculos mais tarde, em 1994, surgiu um novo conceito de contabilidade: o tripé da sustentabilidade (“triple bottom line”, no original em inglês), proposto pelo inglês John Elkington. Para ele, o balanço não deveria apenas tratar do resultado financeiro, mas listar também os impactos sociais e ambientais.

Elkington, hoje com 71 anos, é o pai do ESG, o conceito de práticas ambientais, sociais e de governança corporativa que têm ganhado relevância entre empresas e investidores. Já escreveu mais de 20 livros e vendeu milhões de cópias. Foi consultor de algumas das maiores empresas do mundo e ajudou a desenvolver o Índice Dow Jones de Sustentabilidade.

Elkington foi um dos palestrantes do Expert ESG 2021, organizado pela XP, ocorrido nesta semana. Antes de participar do evento, o consultor deu uma entrevista ao Valor, por videochamada. A seguir, os principais trechos da entrevista.

Valor: O senhor diz que chegou o momento de as empresas exercerem papel político e agirem como ativistas. O que isso significa em termos práticos?

John Elkington: Mesmo nos países com bons governos, os políticos quase sempre estão atrasados quando há grandes transformações sistêmicas. Na questão da sustentabilidade, os líderes empresariais precisam ocupar mais espaço. Não imagino que todos os CEOs serão ativistas da sustentabilidade, mas deixou de ser uma causa de algumas poucas empresas. Vemos agora mais pessoas envolvidas nas empresas e colaborando entre si. O governo continua a ser muito importante, é absolutamente essencial. Apenas o governo é capaz de reorganizar os mercados para que todas as empresas da cadeia produtiva sejam envolvidas nesse processo.

Valor: Em 1994, o senhor apresentou o tripé da sustentabilidade. Foi uma ideia muito influente em todo o mundo. Mas 25 anos mais tarde, em um artigo na “Harvard Business Review”, afirmou que havia chegado a hora de fazer um recall do conceito. Por quê?

Elkington: O tripé teve de fato um impacto positivo e passou a ser usado como referência em relatórios de sustentabilidade, no Índice Dow Jones de Sustentabilidade. Mas havia chegado a hora de fazer ajustes. Não podemos pensar em três diferentes dimensões sem integrá-las apropriadamente. A ferramenta havia funcionado bem até certo ponto, mas havia chegado a um limite. A maior parte das aplicações do tripé traziam ganhos incrementais. Ficou evidente que era um avanço insuficiente, precisamos de uma transformação sistêmica. A questão é: como criar sistemas de mercado que possam oferecer resultados nas três dimensões ao mesmo tempo? Não diria que o tripé da sustentabilidade seja obsoleto, mas precisa ser empregado sob uma nova perspectiva. Precisamos de ganhos exponenciais.“Bolsonaro é o pior que se pode esperar da política e de um governo. Renega a ciência. Age contra o maior ativo do país, que é a sua natureza.”

Valor: Em 1970, o economista americano Milton Friedman publicou no “New York Times” o seu famoso artigo intitulado “The Social Responsibility of Business Is to Increase Its Profits” [A responsabilidade social das empresas é aumentar seus lucros]. Ele estava equivocado?

Elkington: Friedman publicou o artigo em 1970. Quase 25 anos depois, em 1994, eu apresentei a ideia do tripé da sustentabilidade. Não tinha Friedman em mente quando pensei no tripé. Anos depois, acabei lendo bastante do trabalho de Friedman. Ele era um homem brilhante. Evidentemente, se você deseja ter uma empresa bem-sucedida, ela precisa ser lucrativa. O lucro deve ser uma parte significativa de seu propósito. Friedman dizia que as empresas precisam seguir as leis e as regras vigentes. O problema é a interpretação que alguns fazem do pensamento dele. Se estamos em uma economia de mercado, é natural que procuremos o lucro. Mas esse credo foi um pouco longe demais. O pensamento de Friedman foi pertinente naquele contexto, havia muitas empresas controladas pelo governo. Mas agora as pessoas estão vendo os limites e as fraquezas de apenas ter o lucro como objetivo. Fizeram uma interpretação rasteira daquilo que Friedman dizia. De qualquer maneira, vejo esse paradigma perder força. Ele havia se tornado muito nocivo.

Valor: O senhor afirmou que a década até 2015 seria a mais positiva para a agenda da sustentabilidade. Isso está ocorrendo de fato?

Elkington: Houve algumas ondas de avanços desde os anos 1970. Não é por acaso que Larry Fink, da BlackRock, fala sobre o tema hoje. É o resultado das ondas de pressão ao longo dos anos. Mas, se olharmos para o passado, é muito fácil ver essas ondas serem revertidas, porque não é uma agenda fácil de ser aceita pelo governo, pelas empresas, pelas pessoas. Em toda a minha experiência, essa é a primeira vez que vejo de fato a onda ganhando força e tornando-se dominante. Veja o que ocorreu na Califórnia, no Pantanal. O planeta está em colapso. É uma preocupação que chegou ao mercado. Um exemplo são as empresas de seguro, estão preocupadas evidentemente, porque os investidores podem acordar para essa questão. Uma nova geração de líderes empresariais está atenta para essas questões. Sabem que, se não agirem, não estarão apenas colocando em risco os seus lucros, mas o futuro de suas empresas.

Valor: Há uma demanda enorme por investimentos classificados como ESG. Mas não é simples saber ao certo se uma empresa ou uma aplicação financeira cumpre os requisitos, até porque não há indicadores consolidados e amplamente aceitos. Como enfrentar essa questão?

Elkington: Não é uma questão fácil de ser resolvida. Colaborei no desenvolvimento do Índice Dow Jones de Sustentabilidade. Trabalhei com eles por nove anos, fazendo parte do conselho ou prestando consultoria. A Volkswagen era considerada a líder entre as empresas do setor automobilístico nesse índice. Duas semanas depois de eu ter encerrado meu trabalho lá, estourou o escândalo do dieselgate [a empresa usou técnicas fraudulenta para obter bons resultados em testes de emissões]. Mesmo fazendo uma boa análise das empresas, sempre haverá problemas, porque é muito difícil saber o que se passa no âmago de uma companhia. Nem todos os fundos ESG que estão sendo criados têm a competência e a experiência necessárias para realizar as análises adequadamente. Muitos apenas fazem portfólios replicando o que outros já fizeram. Haverá agitação no mercado. Podem surgir investidores ativistas contra alguns desses fundos. Mas é encorajador que o mercado financeiro esteja acordando para essas questões.

Valor: Os países ricos, particularmente na Europa, estão fazendo investimentos maciços na recuperação econômica, com foco na descarbonização. Agora também deveremos ver algo semelhante nos EUA. Mas as nações mais pobres não estão dispostas ou não possuem os recursos necessários para embarcar na revolução verde. Essa disparidade poderá ampliar as desigualdades na economia global?

Elkington: Esse processo poderá sim aumentar as desigualdades, a menos que tomemos a decisão de criar instituições que controlem as consequências políticas e sociais. Precisamos de instituições que olhem para as gerações futuras, não pensem apenas nos interesses de curto prazo. Mas, até o momento, temos transferido para as gerações futuras uma grande dívida financeira e sobretudo ambiental. Essa é maior desigualdade de todas. Se olharmos para a história, grandes transformações, como Bretton Woods e o Plano Marshall, ocorreram depois de calamidades como a depressão e a guerra. Não precisamos passar por tudo isso novamente. Espero que a pandemia da covid-19 seja um alerta.

Valor: E como o Brasil se encaixa nesse mundo em transformação?

Elkington: Bolsonaro é o pior que se pode esperar da política e de um governo. Renega a ciência. Renega a realidade. Age contra o maior ativo do país, que é a sua natureza. Se eu estivesse no comando de um país como o Brasil, eu estaria olhando para o que o país pode ser em 2050. O mundo estará disposto a pagar muito para ter acesso aos recursos da Amazônia, até mesmo para que as árvores não sejam derrubadas. Vemos o nascimento de novos setores industriais e novos negócios dos quais o Brasil poderá se beneficiar. O Brasil precisa de um salto tecnológico para se encaixar nesse novo mundo. Não é algo simples de ser feito. Mas não é impossível. É impossível quando o país tem um governo como Bolsonaro.

Fonte: Giuliano Guandalini — Valor, de São Paulo, 05/03/2021 05h01. Atualizado 2021-03-05T08:01:49.504Z

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