Mercado editorial cresce, mas quem lê os livros?

Eduardo Giannetti acredita que muitos compram livros, mas apenas leem resenhas, um ou outro capítulo, folheiam a orelha e o prefácio — Foto: Claudio Belli/Valor
Eduardo Giannetti acredita que muitos compram livros, mas apenas leem resenhas, um ou outro capítulo, folheiam a orelha e o prefácio — Foto: Claudio Belli/Valor

A venda de livros em muitos países no ano passado não foi o desastre que ocorreu com outros produtos e serviços na área cultural e contradisse o cenário desenhado nos primeiros meses após a decisão de governos de restringir a movimentação de pessoas por causa da pandemia.

Esperava-se uma redução nas compras de livros, mas em muitos países houve até aumentos bastante expressivos nas vendas. Dados divulgados recentemente mostram, por exemplo, que nos Estados Unidos houve um crescimento de 8,2% nas vendas de livros impressos. Europa, Alemanha e França registraram pequenas reduções da ordem de 2%, enquanto na Itália as vendas se mantiveram no mesmo nível do ano anterior. Já no Japão, o aumento foi de 5%, com um gasto de US$ 15,6 bilhões na compra de livros nos formatos impresso e digital.

No Brasil, o painel do varejo compilado pela Nielsen para o Sindicato Nacional dos Editores de Livros constatou vendas de 41,9 milhões de livros, uma expansão de 0,87% nas vendas feitas pelas livrarias, sem incluir as compras feitas via e-commerce. E a tendência se acelerou no fim do ano: em dezembro, o aumento das vendas em relação ao mesmo mês de 2019 foi de 7,6%. Já as compras on-line aumentaram 44% em relação a 2019, segundo a Neotrust/Compre&Confie, especializada em e-commerce, somando 14,2 milhões de unidades.

Os dados mais recentes sobre a venda de livros digitais são de 2019, segundo pesquisa da Nielsen para o sindicato dos editores e para a Câmara Brasileira do Livro. Há dois anos, no total, foram vendidas 4,7 milhões de unidades, sendo 96% e-books e 4% audiolivros. Sobre o faturamento de unidades vendidas, 99% foram e-books. Ou seja, com base nesses dados, o mercado de e-books corresponderia a pouco mais de 10%, mas as vendas desse formato cresceram bem mais do que a dos impressos, segundo editoras.

Para editores e especialistas no mercado livreiro, esse crescimento nas vendas foi provocado pelo isolamento social que perdurou em muitos meses de 2020 para boa parte da população mundial, embora em alguns países a tendência do aumento do interesse pela compra de livros já estivesse sendo registrada em anos anteriores. Pesquisa com 29 associações nacionais de editores de livros europeus mostra, por exemplo, vendas maiores de livros a cada ano desde 2017.

Mas há dúvidas, nestes tempos em que livros se tornaram o pano de fundo favorito para as reuniões via Zoom, se as pessoas estão mesmo lendo os volumes que compram a mais e se os leem integralmente, uma questão difícil de ser medida de forma precisa.

Escritores comentam que a sensação é de que nem sempre isso ocorre, especialmente com livros considerados de leitura mais desafiadora ou que tratam de assuntos técnicos.

Eduardo Giannetti, que já escreveu livros de várias áreas do conhecimento – o mais recente, “O Anel de Giges: Uma Fantasia Ética” (Companhia das Letras), de filosofia -, resume em poucas frases sua impressão. “Só existe uma pessoa mais solitária do que quem escreve livros de filosofia. É quem escreve livro de poesia.” Ele conta que passa frequentemente por experiências constrangedoras em conversas com pessoas que comentam uma de suas obras – um jornalista, um leitor e mesmo o encarregado de escrever uma resenha sobre ela. A pessoa finge que leu o livro, e ele, Giannetti, finge que não percebe isso.

Economista de formação, Giannetti relembra que, anos atrás, foi convidado para um debate sobre “O Valor do Amanhã”, livro lançado por ele em 2005. Poucos minutos depois de iniciada a conversa, ficou claro que nenhum dos outros convidados, entre eles o agora ministro Paulo Guedes, tinha lido o livro. Tanto que o bate-papo acabou rapidamente se voltando para a conjuntura econômica do Brasil da época.

Muitos, acredita ele, compram livros, mas apenas leem resenhas, um ou outro capítulo, folheiam a orelha e o prefácio – e consideram isso suficiente. Não são todos, claro. Frequentemente ele é também surpreendido por comentários e perguntas que mostram que a pessoa leu atentamente o livro em questão.

Para ele, o consolo é olhar para a ínfima repercussão inicial de obras que se revelaram fundamentais. Lançada em 1881, a primeira edição de “Aurora: Reflexões sobre os Preconceitos Morais”, do filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900), vendeu apenas 90 exemplares.

Mauro Palermo, diretor da Globo Livros, concorda que existem aqueles que compram livros e acabam sem os ler e diz que pesquisas com leitores muitas vezes são enganosas porque os entrevistados citam autores que não leram ou os clássicos apenas porque não se lembram de outros títulos. Mas lembra que suas participações nas Bienais do Livro no Rio e em São Paulo mostram que, para as pessoas com menor poder aquisitivo, a experiência da compra do livro é muito diferente. Quem tem pouco dinheiro para gastar com livro compra para ler – ou para o filho ou o neto ler.

Palermo testemunhou cenas em que adolescentes ou mães acompanhadas de filhos hesitavam entre a compra de um livro ou outro porque sabiam que não tinham dinheiro para comprar os dois exemplares. Para ele, não há dúvidas de que a obra comprada foi lida, até porque muitas pessoas de baixa renda consideram que a leitura é um passaporte para ascensão social.

Para Marcos da Veiga Pereira, presidente do Sindicato Nacional dos Editores de Livros (Snel), não há dúvidas de que o isolamento levou à maior procura por livros, tendência que se mantém ou mesmo se acelera neste início de ano. Para ele, seria muito complicado comprovar se de fato as pessoas leem os livros até o fim. Mas ele se anima com o maior interesse dos leitores por livros.

“Ninguém esperava, no início da pandemia, que houvesse um aumento nas vendas no ano.” Graças ao isolamento, muitas pessoas tiveram mais tempo para ler e, assim, diminuir a pilha de livros à espera exatamente de tempo do leitor. Ele não acredita, porém, que esteja havendo um crescimento na base de leitores no país, mas sim o aumento do consumo de livros per capita.

Luciano Moura, diretor de negócios da empresa de consultoria analítica Unisoma, de Campinas, pode ser considerado um exemplo desse movimento identificado por Pereira. Ele comprou mais livros nos últimos meses – detalhista, conta que guarda a relação dos livros que leu a cada ano desde os 40 anos (está com 46 agora) com o objetivo de montar uma lista dos melhores para repassar ao filho, de 10 anos.

Entre 2015 e 2019, ele leu em média 11 livros por ano; no ano passado, foram 17. Embora a jornada de trabalho dele tenha aumentado em função do home office, intercalado ainda por tarefas domésticas ou para ajudar o filho com os deveres da escola, ele encontrou mais tempo para ler. “Não vamos mais a restaurantes, bares, cinema etc. Esse tempo, de alguma forma, também permite intensificar a leitura.”

Tanto Pereira quanto Palermo comentam que a compra de livros pela internet ajudou em muito a compensar as restrições à venda pelas livrarias por causa das regras adotadas por governos estaduais e municipais no combate ao coronavírus, acentuando dificuldades financeiras enfrentadas por algumas redes de varejo, notadamente Cultura e Saraiva.

Hélio Mattar, fundador do Instituto Akatu, de valorização do consumo consciente, tornou-se compulsoriamente comprador via lojas on-line, mas sente falta de ir às livrarias e folhear livros, embora a enorme oferta de novos e antigos títulos o deixasse ansioso algumas vezes. Ele prefere sempre ler em papel até pelo prazer sensorial e fez um esforço consciente no ano passado para reduzir a pilha de livros comprados e ainda não lidos integralmente.

O aumento nas vendas foi acompanhado de mudanças importantes na escolha dos livros pelos leitores. Com a adoção das aulas virtuais pelo conjunto das escolas e universidades país afora, houve uma redução expressiva nas vendas de obras infantis, juvenis e educacionais (que continuam representando a maior fatia do mercado livreiro), da ordem de 6,5%, enquanto aumentava o interesse por ficção.

Além disso, houve uma expansão nas compras de clássicos e de livros que retratam distopias. No caso da Globo, por exemplo, um dos dois campeões de vendas em 2020 foi “Admirável Mundo Novo”, livro do inglês Aldous Huxley (1894-1963) originalmente publicado em 1932, que pode ser encaixado nas duas categorias, um clássico sobre distopia.

O outro best-seller da editora, segundo Palermo, foi “Escravidão – Volume 1” (2019), de Laurentino Gomes, marcando outra tendência, a de busca de maior entendimento por muitos dos problemas dramáticos do Brasil, como o racismo.

Marcos Pereira, que é sócio da Editora Sextante, aponta outro fenômeno – a influência das séries de “streaming” que fazem sucesso e puxam a venda de livros nas quais foram baseadas e vice-versa. O caso mais recente é o da série “Bridgerton”, uma das mais assistidas na Netflix e baseada nos romances escritos pela americana Julia Quinn. Lançados no Brasil pela Editora Arqueiro, vários dos seus livros entraram recentemente na lista dos best-sellers, como “O Duque e Eu” e “O Visconde que Me Amava”. Já foram vendidos mais de 100 mil exemplares da coleção.

A tendência de aumento nas vendas, de qualquer forma, se manteve neste início de ano, talvez acompanhando as medidas de isolamento social. O informe da Nielsen para o sindicato dos editores de livros indica um aumento de 19,3% em volume e 14,1% em valores nas vendas em janeiro, se comparado com os dados de 2020. Foram vendidos 4,27 milhões de exemplares, com um faturamento para o varejo de R$ 206 milhões.

Fonte: Célia de Gouvêa Franco — Valor, de São Paulo, 05/03/2021, 05h0. Atualizado 2021-03-05T11:14:15.767Z

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