Produção de veículos cresce 4,2% em janeiro, mas ainda sofre efeitos da pandemia – Folha de S.Paulo

Com 199,7 mil unidades produzidas, a fabricação de veículos no Brasil teve alta de 4,2% em janeiro na comparação com o mesmo mês de 2020. O dado divulgado nesta quinta-feira (4) pela Anfavea (associação das montadoras) contabiliza carros de passeio, comerciais leves, ônibus e caminhões.

Os resultados mostram mais os efeitos da pandemia da Covid-19 sobre a indústria do que propriamente a sua recuperação: o desarranjo da cadeia automotiva modificou períodos de férias coletivas e gerou distorções. É o caso da queda de 4,6% na produção na comparação com dezembro.

“Não gosto de olhar apenas para um mês isolado e achar que será um reflexo do ano. O jogo começou agora, ainda é o primeiro pedaço do primeiro tempo e queremos sentir um pouco mais como 2021 vai se desenrolar”, diz Luiz Carlos Moraes, presidente da Anfavea.

O executivo afirma que fatores como o andamento da campanha de vacinação irão definir o ano da indústria, que se inicia com o mesmo problema de 2020: dificuldades pontuais no fornecimento de componentes.

Com o avanço da pandemia no Brasil e em países que são fornecedores da indústria automotiva nacional, ainda há falta de peças para abastecer algumas linhas de montagem, o que deve levar à oscilação na produção no primeiro semestre.

Moraes diz que foram registradas faltas pontuais de alguns tipos de aço e de pneus.

A falta de componentes gera atrasos na entrega de carros novos, o que influi nos dados de venda. Os emplacamentos de modelos novos caíram 11,53% na comparação entre os meses de janeiro de 2020 e de 2021. Em relação a dezembro, houve retração de 29,85%.

Foram comercializadas 171.153 no último mês, número que inclui carros de passeio, comerciais leves, ônibus e caminhões.

O estoque segue baixo, com carros suficientes para atender a 18 dias de vendas. Para Moraes, esse é um cenário que deve se consolidar, já que está ocorrendo um novo planejamento da cadeia automotiva global, processo acelerado pela pandemia.

O fechamento das fábricas da Ford, anunciado no dia 11 de janeiro, ainda não se reflete nos dados sobre emprego. Houve alta de 2,1% no número de trabalhadores entre dezembro e janeiro, com 2.200 contratações.

Muitos desses funcionários têm contratos temporários, estabelecidos principalmente nas linhas de produção de veículos pesados.

A produção de ônibus e caminhões em janeiro registrou alta de 19,4% na comparação com o mesmo mês de 2020, mas houve queda de 18,4% em relação a dezembro.

“Enfrentamos uma série de dificuldades desde o início da pandemia com vários materiais diferentes em falta, mas o agronegócio continua pujante”, diz Gustavo Bonini, que é um dos vice-presidentes da Anfavea.

O executivo afirma que o setor varejista também tem colaborado para o bom momento dos veículos pesados, e que já vê sinais de estabilidade nas vendas.

Uma das preocupações do setor é o impacto das seguidas altas nos preços dos veículos leves e pesados. O presidente da Anfavea considera que houve três ondas de reajustes: a alta do dólar, o aumento no custo dos insumos e a mudança nas alíquotas de ICMS (Imposto Sobre a Circulação de Mercadorias e Serviços) no estado de São Paulo.

Apesar dos aumentos, as montadoras se queixam da perda de rentabilidade e procuram se defender de críticas sobre os benefícios tributários recebidos no Brasil.

Moraes afirma que o setor automotivo recolheu R$ 268 bilhões em impostos entre os anos de 2011 e de 2017. No mesmo período, a desoneração do setor foi de R$ 24 bilhões.

Segundo o presidente da Anfavea, grande parte dos benefícios tributários recebidos foram destinados à área de pesquisa e desenvolvimento, com geração de empregos de melhor remuneração e formação de mão de obra qualificada.

Moraes afirma que o desequilíbrio fiscal penaliza a indústria da transformação. Segundo cálculos apresentados por ele, a carga tributária que incide sobre um automóvel produzido no Brasil chega a 44% de seu valor.

Na Europa, os tributos somados atingem aproximadamente 20%. Nos Japão e nos EUA, os impostos equivalem a 13% e 7% do valor do bem, respectivamente.

Fonte: Folha de S.Paulo, Eduardo Sodré, 4/2/2021.

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