Aumenta a procura por especialistas em experiência do usuário

Mulher De Jaqueta Vermelha E Boné De Malha Branca Em Frente Ao Sorvete
Laura James/Pexels

A carreira na área de experiência do usuário (UX, na sigla em inglês) está em alta. Empresas de diversos setores tentam se diferenciar não mais somente por produtos ou serviços, mas pela experiência oferecida ao consumidor em sua jornada por aplicativos e plataformas digitais. O movimento foi acelerado durante a pandemia, o que levou a uma maior corrida por profissionais da área, tanto designers como cargos de liderança, como coordenadores, gerentes e chefes de design e produto.

Entre 2019 e 2020, a consultoria de recrutamento Robert Half observou aumento de 50% nas vagas de UX, principalmente para cargos de níveis pleno e sênior. Segundo Caio Arnaes, diretor de recrutamento da Robert Half, a demanda vem crescendo nos últimos anos. Assim como em tecnologia, é difícil encontrar pessoas qualificadas. “É um mercado em desenvolvimento, e os profissionais começam a se especializar. Esse reconhecimento do setor ajuda a alavancar as posições.”

Na plataforma de recrutamento digital Connekt foram registradas cerca de cem vagas de UX em 2020, com mais de 7 mil candidaturas. No LinkedIn, existem hoje mais de 1,8 mil oportunidades publicadas com a palavra-chave UX, incluindo vagas em empresas de tecnologia, bancos, varejistas e startups.

Pesquisa recente da Gama Academy, escola que capacita profissionais para o mercado digital, indica que a maior concentração de oportunidades em UX está em grandes capitais, como São Paulo, Curitiba, Belo Horizonte e Florianópolis. O levantamento, feito com 55 empresas em todo o país, mostra o salário inicial de R$ 3.170 para UX de nível júnior, e de R$ 5.156 para pleno.

Desde 2019 a farmacêutica Novartis investe em uma área de UX no Brasil e que hoje fica dentro da diretoria de digital. “Desde a criação da área, já sentimos uma demanda quatro vezes maior por especialistas”, diz Julio Koellreutter, gerente sênior de UX. A área tem duas missões: conquistar um relacionamento em canais digitais com médicos e pacientes e ser replicador do conceito de inovação internamente, em várias áreas de negócios da empresa. No grupo AR&CO, dono da marca Reserva, o profissional UX tem o papel de fazer a conexão entre os ambientes on-line e off-line, dentro da estratégia de digitalização das lojas da marca, diz Ana Claudia Rizzeto, diretora de fontes humanas do grupo. A empresa contratou uma UX designer para o desenvolvimento da marca Reserva.INK, plataforma que ajuda empreendedores a começar uma carreira na moda. Em janeiro, a empresa fez duas contratações na área, sendo uma posição sênior.

Já o Grupo O Boticário começou o ano com mais de 25 posições abertas para UX e pretende encerrar com aproximadamente 60 profissionais na equipe. Eles atuam como pesquisadores, estrategistas, product designers e gestores. O foco de trabalho desses profissionais é melhorar a experiência da marca com consumidores, revendedores, franqueadores e distribuidores. “A equipe de UX tem gestão centralizada para garantir uma visão única do cliente, boas práticas e reuso de ferramentas. Ela opera ao lado de product managers e desenvolvedores, embasando a construção do produto por meio de entrevistas, testes com grupos focais, elaboração de personas e prototipação de hipóteses. Propõem e desenvolvemos fluxos e as interfaces utilizadas pelos usuários”, diz Renato Pedigoni, CDO do Grupo Boticário.

O cientista social Guilherme Seabra, 34 anos, começou a carreira na área de UX há dez anos como designer no Itaú Unibanco, onde também foi gerente de produtos digitais e head de desenvolvimento de produtos. O interesse por tecnologia e a curiosidade em entender o que está por trás das decisões humanas fizeram com que ele optasse pela trajetória profissional em UX.

Em 2019, Seabra assumiu como chefe de produto e design da corretora de investimentos Easynvest, com a missão de liderar uma equipe de 20 pessoas, incluindo designers e desenvolvedores. Para este ano, ele estima a abertura de dezenas de vagas em design, pesquisa e gestão de produtos. A procura é por pessoas curiosas, flexíveis, interessadas em entender as dores dos clientes e que saibam fazer perguntas. “Buscamos pessoas capazes de entender que temos pensamentos plurais”, diz.

Colega de Seabra no Itaú, Igor Cabral, 34, tem uma trajetória diferente. Formou-se em comunicação visual e iniciou a carreira como estagiário de design do banco, chegando ao cargo de designer sênior, onde ficou por quase sete anos. Passou pela escola Echos, especializada em design thinking, e depois migrou para a empresa de gestão Conta Azul, onde foi especialista em UX design e coordenador de product design, cargo que ocupou até abril de 2020. Em junho, foi contratado para a posição de coordenador de design de produto da Easynvest.

Para ele, uma das habilidades mais importantes do profissional de UX é a adaptabilidade. “Às vezes, precisa mudar de contexto de uma semana para outra. Isso por conta da prioridade dada pela empresa para determinado produto.” Saber se comunicar é outro requisito, diz Cabral, porque a pessoa interage com clientes, usuários e outros públicos. Segundo ele, a capacidade de análise e leitura de dados também ajuda o profissional a se destacar.

“O papel do UX designer é ser um facilitador entre três vertentes: desenvolvimento, negócio e pessoas”, diz Giullia Gomes, 20 anos, designer de produtos da startup alemã Delivery Hero. Segundo ela, vontade de aprender, empatia e comunicação são essenciais. É importante tratar a própria carreira como se fosse um projeto de design. “Desde 2017 dou palestras sobre diversidade e UX. É importante investir em conexões, entrar nas comunidade e participar dos eventos.”

Contratada há sete meses, Giullia acaba de chegar à Alemanha para trabalhar na startup de delivery de comida. Antes, atuou por dois anos como designer de produtos da consultoria global de software ThoughtWorks e exerceu a mesma posição na Movile, dona do iFood e PlayKids. Formada em comunicação visual, fez cursos de design UX/UI (sigla em inglês para interface do usuário) na Gama Academy e de web interfaces no Instituto de Matemática e Estatística da Universidade de São Paulo (IME/USP). Agora, vai iniciar um curso sobre design de experiências em educação.

Com um time de UX formado por 50 pessoas, o Mercado Livre contratou 20 profissionais no ano passado e deve continuar recrutando para a área em 2021, principalmente para posições de analista, conta Carolina Recioli Filgueiras, gerente sênior de aquisição de talentos, diversidade e inclusão do Mercado Livre Brasil. Antes centralizada na Argentina, sede da companhia, a área de experiência do usuário vem se desenvolvendo no Brasil, pela própria evolução da empresa no país, diz.

A equipe de UX fica dentro da estrutura de tecnologia, conectada à área de produtos, e trabalha em colaboração com vários times. Daí a necessidade de perfis variados, como designers, profissionais de conteúdo e pessoas especializadas em pesquisa. “O que há em comum entre os profissionais é curiosidade, empatia, vontade de criar e melhorar as ferramentas e produtos para que sejam mais simples e fáceis de navegar”, explica. Além de sites de vagas de emprego, a empresa aposta em indicações dos próprios funcionários para encontrar talentos. Também mantém parceria com escolas especializadas no mercado digital.

Com 80 funcionários, a Track, startup mineira que monitora indicações de satisfação de clientes, está expandindo seu time de produto – hoje com quatro pessoas, a área deve chegar a dez empregados este ano. Uma das posições em aberto é para Chief Product Officer (CPO). Para Tomás Duarte, cofundador e CEO, que já atendeu mais de 1.500 marcas desde que foi fundada, em 2012, a área de UX exige profissionais com foco, que saibam agir como interlocutores entre áreas e clientes e consigam desenvolver novos recursos alinhados à estratégia do negócio. “Isso significa entender de economia comportamental, que estuda a tomada de decisões das pessoas. Criatividade é outra habilidade fundamental.” 

Fonte: Valor, Danylo Martins, 04/02/2021, (Colaborou Barbara Bigarelli)

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