Os bastidores de entrevistas do ‘Financial Times’ com os poderosos do mundo

O chefe da sucursal russa do FT, Henry Foy (esq), o editor Lionel Barber e o presidente russo, Vladimir Putin, em entrevista em 2019 — Foto: Mikhail Klimentyev/Tass via Zuma Press
O chefe da sucursal russa do FT, Henry Foy (esq), o editor Lionel Barber e o presidente russo, Vladimir Putin, em entrevista em 2019 — Foto: Mikhail Klimentyev/Tass via Zuma Press

Março de 2009. Barack Obama, recém-empossado presidente dos Estados Unidos, concorda em dar uma entrevista exclusiva para o “Financial Times”. Um dos jornalistas que vai ao encontro dele é Lionel Barber, editor-chefe do jornal, que confessa, tempos depois, que estava “talvez um pouco fascinado” pela ideia de se encontrar com o homem que fez história por ter sido o primeiro afro-americano presidente dos EUA.

O grupo se prepara minuciosamente para a conversa com Obama – e se prende ao roteiro planejado de tal forma que o próprio Barber se dá conta, antes mesmo do término da entrevista, de que terão, sim, um amplo material, suficiente para uma página impressa do “Financial Times”, mas sem grande impacto, sem um furo. Uma bela oportunidade perdida.

O relato faz parte do livro “The Powerful and the Damned: Private Diaries in Turbulent Times” (Os Poderosos e os Malditos: Um Diário Particular em Tempos Turbulentos, em tradução livre) – US$ 36,90 no Kindle, sem edição brasileira -, em que Barber, de 65 anos, reconta os principais momentos da sua passagem de 14 anos como editor-chefe do FT.

Durante esse período à frente do “Financial Times”, terminado no início de 2020, ele manteve uma espécie de diário, registrando os encontros mais importantes e as mudanças relevantes que adotou no jornal, mas no livro acrescentou comentários escritos depois que deixou a chefia do jornal. Hoje, ele mantém um podcast numa rádio de Londres.

O relato da entrevista com Barack Obama é emblemático do livro, da personalidade de Barber e do papel ocupado pelo “Financial Times” na imprensa mundial. A apresentação do livro impressiona pela lista de personalidades que Barber entrevistou enquanto esteve à frente do que é considerado o melhor jornal de economia e negócios do mundo.

Todos de uma hipotética lista das maiores celebridades globais estão lá – ou quase todos. Em muitos casos Barber deixa evidente um certo deslumbramento por estar se encontrando com essas pessoas. E um certo deslumbramento com ele mesmo, que o levou a perder oportunidades de fazer perguntas realmente percucientes, como no caso do Obama.

Não há dúvidas de que Barber soube conduzir de forma eficiente a redação do “Financial Times” em tempos difíceis para a imprensa, especialmente a escrita – ainda mais porque o controle acionário da empresa que publica o jornal trocou de mãos durante sua gestão, com a compra pelo grupo japonês Nikkei.

Apesar dessas circunstâncias, ou talvez pressionado por elas, o FT mudou seu modelo de negócios e conseguiu aumentar a circulação e obter lucros. Em abril deste ano, anunciou que sua base de assinantes atingira 1 milhão, batendo uma meta um ano antes do previsto. No ano passado, a receita do FT Group alcançou 408 milhões de libras (quase R$ 3 bilhões), com um lucro de 28 milhões de libras.

No livro, Barber detalha o que o impulsionou a levar o “Financial Times” para o mundo digital e como escolheu os jornalistas que o ajudaram a chefiar a redação. Ele também relata a pressão vinda de entrevistados e anunciantes para que o jornal não publicasse histórias que os deixavam em má posição ou pelo menos amenizasse os relatos.

Muito interessante para jornalistas é acompanhar o relacionamento de Barber com os políticos de maior destaque do Reino Unido na última década e meia. Ele entrevistou e conversou “off the record” (com o compromisso de não revelar a fonte ou mesmo de não escrever nada) com todos os primeiros-ministros do período e os principais ministros.

Recentemente, porém, a boa imagem de Barber foi afetada negativamente pela divulgação de que ele recebeu um pacote de benefícios do FT, na sua saída, de quase 2 milhões de libras – o que coincidiu com o anúncio da demissão de 64 jornalistas.

Fonte: Célia de Gouvêa Franco, Valor, 15/01/2021.

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