Com caixa reforçado, grupos de saúde planejam mais aquisições

Em 2021, o setor de saúde deve ter mais um ano aquecido com a entrada de novos recursos no caixa de grandes grupos. A Rede D’Or tem R$ 8 bilhões para expansão, a Dasa pode realizar uma nova oferta de ações (re-IPO) de pelo menos R$ 4 bilhões e a Athena, empresa de saúde do Pátria, também está planejando uma oferta inicial de ações para captar cerca de R$ 3 bilhões. Essas duas últimas transações devem ocorrer ao longo dos próximos seis meses, segundo fontes.

No ano passado, as companhias de saúde investiram entre R$ 8 bilhões e R$ 10 bilhões em aquisições e movimentaram cerca de R$ 16,5 bilhões em ofertas de ações e emissões de debêntures. A maior transação foi, sem dúvida, o IPO da Rede D’Or que levantou R$ 11,4 bilhões, em dezembro. A maior rede de hospitais do país, presidida por Paulo Moll, teve uma demanda de cerca de R$ 40 bilhões, numa demonstração do interesse dos investidores por ativos de saúde.

Os múltiplos das negociações chamaram atenção. A operadora verticalizada Clinipam, do Paraná, foi vendida por 26 vezes o lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda) à Intermédica. Segundo fontes, na transação de venda do Hospital Leforte para a Dasa essa relação chegou a 30 vezes.2 de 2

O mercado de hospitais, laboratórios e clínicas movimentou, nos nove primeiros meses do ano passado, R$ 120 bilhões. Considerando as operadoras de planos de saúde, a receita sobe para R$ 169 bilhões e o resultado líquido somou quase R$ 16 bilhões. Este valor representa um aumento de 73%, devido à menor realização de procedimentos médicos no período por conta do isolamento social, provocada pela pandemia do novo coronavírus.

Além das aquisições para aumento de participação de mercado, o ciclo de investimento neste ano deve ter empresas tradicionais em suas áreas entrando em novos negócios e praças. “Estamos vendo grupos de saúde reagindo ao crescimento das empresas verticalizadas”, disse Marco Facciolli, diretor de fusões e aquisições do Santander.

Entre as empresas que estão seguindo essa linha estão a Rede D’Or que firmou parcerias com Bradesco e SulAmérica para oferecer uma modalidade de seguro saúde com uma rede mais restrita com hospitais da D’Or. As duas duas maiores redes de medicina diagnóstica também estão apostando na diversificação do negócio.

A Dasa criou uma holding para integrar a rede de hospitais Ímpar e a empresa de gestão de saúde GSC – negócios que pertencem à família Bueno, mas que atuavam de forma separada. A transação mais recente foi a compra do Hospital Leforte, em São Paulo, por R$ 1,7 bilhão, e a meta é continuar promovendo outras aquisições que possam criar uma plataforma com serviços variados de saúde. Um hospital no ABC Paulista pode ser anunciado em breve, segundo fontes.

O Fleury comprou no fim do ano uma clínica de infusão de medicamentos e um centro de oftalmologia. “Essa diversificação também é uma reação ao crescimento das operadoras verticalizadas que têm seus próprios laboratórios. Mas não acredito que seja o fim dessas empresas, há muita demanda para laboratórios independentes”, disse Maurício Cepeda, analista do Credit Suisse.

Na visão de Marco Gonçalves, sócio da XP e responsável pela área de fusões e aquisições do banco de investimento, haverá uma forte movimentação de empresas entrando em novas praças dominadas, até então, por determinados grupos devido a uma maior regulação. “O Cade vem sendo rigoroso com operadoras. Já vimos algumas transações sendo barradas o que vai abrir oportunidades para outros players”, disse o executivo, conhecido no mercado como Marcão.

A Superintendência Geral do Cade recomendou rejeitar a compra da Plamed, de Sergipe, pela Hapvida, maior grupo de saúde no Nordeste. A Athena que vem aproveitando essa oportunidade e cresce com aquisições no Norte e Nordeste do país, também já sofreu sanções da autarquia antitruste. A compra da operadora São Bernardo, que atua no Espírito Santo, foi aprovada com restrições.

A praça mais cobiçada atualmente é Minas Gerais, segundo Estado mais populoso do país. O grande interesse está em Belo Horizonte, cidade dominada pela Unimed-BH que tem 1,2 milhão de usuários.

No ano passado, Hapvida e NotreDame Intermédica assinaram cheques vultosos para entrar no mercado mineiro. Cada um delas investiu R$ 1,6 bilhão para compra de operadoras e hospitais em Minas.

A Hapvida fechou a compra da Promed, grupo que conta com planos de saúde e hospitais, por R$ 1,5 bilhão e da operadora Premium Saúde, por R$ 150 milhões. Já a paulistana NotreDame Intermédica pagou R$ 1 bilhão pela Medisanitas e outros três ativos mineiros. “A movimentação dos players nas novas regiões me lembra o jogo War [cujo objetivo final é conquistar a maior quantidade de territórios]”, disse Daniel Grecca, sócio da área de saúde da consultoria KPMG.

Especialistas do setor são unânimes em afirmar que ainda há muitas oportunidades em saúde porque o setor ainda é bastante fragmentado. Há cerca de 700 operadoras de planos de saúde e 6,5 mil hospitais distribuidos no país. “Esse movimentação de consolidação ainda vai levar alguns anos. Há muitos hospitais com menos de 50 leitos, que não são rentáveis.

Os hospitais pequenos acabam sendo alvos das operadoras verticalizadas e os maiores interessam às redes de hospitais”, disse o sócio da KPMG. Segundo a consultoria, no acumulado dos nove primeiros meses de 2020, foram fechadas 39 transações envolvendo hospitais, clínicas e laboratórios. Os números não consideram as transações envolvendo operadoras de planos de saúde. Hapvida, Intermédica e SulAmérica, juntas, anunciaram 16 aquisições que somam R$ 4,5 bilhões em 2020. O diretor do Santander lembra ainda que a Rede D’Or pode vir fazer novas ofertas de ações num movimento semelhante ao realizado pela Intermédica.

Fonte: Beth Koike, Valor, 05/01/2021.

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