‘A quarentena seria ainda pior sem telas’, diz Nir Eyal

Para Eyal, filme ‘O Dilema das Redes’ busca atingir as pessoas pelo medo, em vez de ajudá-las a saber agir
Para Eyal, filme ‘O Dilema das Redes’ busca atingir as pessoas pelo medo, em vez de ajudá-las a saber agir

Nos últimos anos, um tema em frequente discussão no mundo da tecnologia era o chamado “tempo de tela” – uma medida para indicar quantas horas passamos à frente de PCs, smartphones e outras placas luminosas. Durante o isolamento social, essa métrica explodiu em uso: de repente, a vida toda parecia ser vivida a partir de uma tela. Houve quem achasse que isso fosse um sinal ruim. Não é o caso do israelense Nir Eyal: para o engenheiro, a “quarentena teria sido ainda pior sem as telas”. 

Especialista em engenharia comportamental, Eyal se tornou referência no Vale do Silício ao longo da última década para quem desejasse criar um aplicativo que atraísse os usuários como Coca-Cola no deserto. Parte da receita está em ‘Hooked’, livro que ele lançou no final de 2013 – segundo a obra, tudo que é preciso para ter um app viciante é um gatilho, uma ação, uma recompensa variável e um estímulo para que se passe mais tempo ali dentro. Segundo o engenheiro, não é um modelo necessariamente ruim. “É algo que pode incentivar hábitos bons, como ler notícias ou ajudar crianças a estudar. A questão é como ele é utilizado”, afirma. 

Após participar (pela internet) do evento MAMA São Paulo, que reuniu especialistas em marketing sob o comando da empresa AppsFlyer, Eyal falou com o Estadão a partir de sua casa, em Singapura. Para ele, não existe vício em tecnologia – mas, para muita gente, é mais fácil acreditar que não temos poder para mudar isso. “Se você não consegue sentar na mesa de jantar sem pegar o celular, dica: não é culpa do seu celular. É um desejo para escapar do desconforto.”, diz. Ao jornal, ele também falou sobre regulação nas redes sociais, democracia e o documentário O Dilema das Redes, hit na Netflix nos últimos meses. “O filme tenta manipular as pessoas pelo medo”, afirma. A seguir, os principais trechos da entrevista.  

Na quarentena, muita gente está preocupada com a quantidade de tempo que passou à frente de uma tela. Como o sr. viveu e vê esses últimos meses? 

Tempo de tela não é uma coisa ruim. Se a pandemia nos ensinou algo, é que tempo de tela não é um problema. E ainda bem que elas existem: já pensou se passássemos por algo assim nos anos 1990? A quarentena seria ainda pior sem telas. Graças a elas, conseguimos nos conectar uns com os outros. De modo geral, acredito que as pessoas vão dizer que preferem viver com telas do que sem. Vejo a tecnologia como uma bênção: graças a ela, as pessoas puderam falar com amigos, família, até mesmo se consultar com psicólogos. Minha filha está tendo aulas pela internet – e talvez ela esteja tendo uma educação melhor agora, com acesso a professores no mundo todo. O que faz este momento ser difícil são as repercussões na economia e na saúde, mas não me preocupo com a tecnologia. 

Outra preocupação comum com as telas diz respeito às crianças. O sr. diz que usar bem a tecnologia é uma questão de hábito. Mas como ensinar isso aos filhos?

Se há uma habilidade que precisamos ensinar às crianças, é como elas controlam sua atenção. Isso vai determinar se elas controlam sua vida ou outras pessoas é que a controlam. Mas acredito que só o tempo de tela é uma métrica ruim. O que importa é o que se faz na tela. Se minha filha está conversando com os avós no Zoom, é ótimo. Se ela está criando um jogo ou um vídeo, também. Mas se ela está só consumindo conteúdo, talvez não seja. O que importa é o comportamento (e o que deveria estar sendo feito naquele momento), não o tempo em si. 

Apple e Google lançaram apps que mostram o tempo que passamos no celular. O que o sr. acha deles? 

É um bom começo. São a amostra de como as empresas de tecnologia não viciam: se elas querem te viciar, por que criariam algo para reduzir seu impacto? É como os cintos de segurança: eles apareceram nos carros muitos anos antes de serem obrigatórios por lei. Por que? Por que isso torna os carros mais seguros. 

Seu primeiro livro, Hooked, é descrito como um manual para qualquer empresa que queira fisgar seus usuários. Como o sr. vê o impacto do livro na indústria? 

O livro era para empreendedores, designers, talvez até mesmo investidores buscando criar hábitos saudáveis. Muitas pessoas dizem que eu ajudei o Facebook. Mas a verdade é que escrevi o livro quando a empresa já estava no ar há tempos. O que fiz foi roubar seus segredos para que todos nós entendamos como ela funciona. O efeito do livro é positivo. Empresas como a Cahoot, que ajudam crianças a se engajar em aulas, usam esse sistema. Eu trabalhei com o New York Times usando esse método para ajudar as pessoas a se engajar com o jornalismo local. É possível usar a metodologia para hábitos saudáveis. A tecnologia é boa, mas precisamos usá-la de forma responsável para que ela não tome o controle das nossas vidas. 

O que o sr. considera um bom hábito de uso de tecnologia? 

Meu segundo livro, Indistraível, é sobre distração. É importante entender a raiz da palavra. O oposto de distração, ao menos em inglês, é tração. É qualquer ação que te leva para algum lugar, para a intenção, para perto de seus valores. Distração é o oposto disso. Dito isso, tudo pode ser tração ou distração. Não digo que passar horas no Facebook ou no videogame é ruim. Tudo o que você faz com seu tempo é válido, desde que tenha a intenção de estar ali. Jogar videogame não é moralmente inferior do que ver futebol na TV. 

Há muita gente considerando o impacto que as redes sociais causam não na vida de um indivíduo, mas de toda uma democracia. O sr. acha que isso é um problema? É possível consertá-lo? 

Há uma bolha nas redes sociais, é fato. Mas é importante ser racional. Acredito que as empresas têm feito seu papel. Banir anúncios políticos, buscar evitar o discurso de ódio, isso é importante. E outra coisa: se as pessoas não estiverem nas redes sociais, elas vão parar em outros lugares, em fóruns como o 4chan e 8chan, que não são monitorados. Prefiro que as discussões aconteçam em plataformas que podem ser monitoradas e que podem tirar conteúdo ofensivo do ar. E eu duvido que o MeToo e o BlackLivesMatter, que são movimentos positivos para a sociedade, aconteceriam sem as redes sociais. É uma forma de progresso. A tecnologia é cheia de nuances – e uma pessoa educada pode entender as nuances que existem ali.

É um ponto de vista bastante liberal, ao menos na ideia do controle por parte do indivíduo. Mas isso vale para todos os países? E onde há problemas de educação? Aqui no Brasil, muita gente confunde a internet com o Facebook – achando que só o que há na rede social é toda a rede mundial de computadores… 

Existe um ditado: quando você inventa o navio, também inventa o naufrágio. Toda tecnologia traz consequências. Sempre há danos em tecnologias novas. Mas nem por isso paramos de navegar. Nós adotamos novas tecnologias e as adaptamos para se tornarem seguras. Já vemos isso com o Facebook: os jovens não usam mais o Facebook, eles mudaram para plataformas que não tem tanta desinformação, notícias falsas e discussões políticas. São seus pais e avós que estão no Facebook. O que acho importante é que não podemos esperar o governo fazer algo. Temos o controle para agir. Podemos planejar nosso tempo e, por exemplo, desligar as notificações. A tecnologia não está sequestrando seu cérebro. Você não precisa ser educado para desligar suas notificações. Se você não consegue sentar na mesa de jantar sem pegar o celular, dica: não é culpa do seu celular. É um desejo para escapar do desconforto. As pessoas disseram isso do rádio, da TV, até mesmo de romances de folhetim. É o mesmo problema. 

Estamos vivendo uma grande discussão sobre o monopólio das gigantes de tecnologia nos EUA. São empresas enormes – e que parecem grande demais para falhar. Como o sr. vê o atual processo de antitruste nos EUA? 

Pode sim haver uma regulação importante aqui. Há monopólio e interferência política por parte das empresas sim. Mas vamos lá: um produto nunca será regulado para se tornar menos engajável. Ninguém pode dizer à Netflix para parar de fazer programas bons ou pedir para a Apple de fazer bons celulares. 

Não é como pedir menos açúcar na Coca ou menos tabaco no cigarro? 

Ok, mas as pessoas não deixam de consumir Coca por causa de uma lei. Depois de um tempo elas entendem que água com açúcar talvez não seja bom. A solução não é banir a Coca-Cola. Talvez seja a Coca-Zero, sabe. 

Ainda no clima das redes sociais, qual sua opinião sobre o documentário O Dilema das Redes? Muita gente está deixando o celular de lado por causa do filme… 

Preciso deixar claro que fui entrevistado para o filme, mas decidiram não me incluir. Meu problema como o filme é que a solução apresentada por ele para os problemas é deixar que os políticos resolvam. É uma conclusão errada. A conclusão certa é: se você não gosta das redes sociais, pare de usá-las. Tristan Harris, que aparece no filme, diz que nossos cérebros estão sendo sequestrados. Desculpa: sequestro é o que aconteceu com aviões no 11 de Setembro. Você não precisa esperar pelo governo: pode mesmo baixar uma extensão para seu navegador que evita anúncios para se distrair, pode desbloquear as notificações ou apagar os aplicativos. Zuckerberg não vai te impedir de fazer isso. É o erro que o filme comete: ele faz parecer que não há nada que se possa fazer contra as redes sociais. É um dos filmes mais manipuladores que eu já vi, porque ele tenta te manipular pelo medo. E vamos lá: a Netflix, que exibe o filme, também usa algoritmos para atrair a atenção. É uma manipulação psicológica – e uma hipocrisia. 

O sr. tem uma visão otimista da tecnologia. Para que mundo ela nos levará daqui a uma década? 

Estaremos em um bom lugar. Se você perguntar para um cidadão comum, as pessoas vão dizer que as coisas estão piorando, mas não é verdade. Há cada vez mais informação, as mulheres estão conquistando cada vez mais igualdade…. A tecnologia é uma forma de melhorar a vida. Precisamos manter a fé na capacidade humana de se adaptar e inovar. É bom sermos céticos, mas não podemos ser cínicos e não ver como as coisas melhoraram. Não há nada errado em faturar com anúncios – isso é feito há séculos. Mas o problema é fazer isso com sensacionalismo e medo. 

Fonte: Bruno Capelas – O Estado de S. Paulo, 1/11/2020.

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