Uma praga de ignorância deliberada, por Paul Krugman

Paul Krugman
Paul Krugman

No começo do século 20, o sul dos Estados Unidos sofreu uma séria epidemia de pelagra, uma doença grave que causava dermatite, diarreia, demência e morte. No começo, a natureza da pelagra era desconhecida, mas em 1915 o médico Joseph Goldberger, um imigrante húngaro que trabalhava para o governo federal, demonstrou conclusivamente que ela era causada por deficiências de nutrição associadas à pobreza, e especialmente a uma dieta cuja base era o milho.

No entanto, muitos políticos e cidadãos do sul se recusaram por décadas a aceitar esse diagnóstico, declarando ou que a epidemia era uma ficção criada pelo norte para insultar o sul ou que a teoria sobre a nutrição representava um ataque à cultura sulista. E as mortes causadas pela pelagra continuaram a subir.

A situação parece familiar?

Sabemos há meses o que é necessário para conter a Covid-19. É preciso um período de lockdown rigoroso para reduzir a incidência da doença. Só depois disso a economia pode ser reaberta –embora ainda respeitando o distanciamento social quando necessário–, e mesmo assim é necessário adotar um regime de exame, rastreamento e isolamento generalizado de indivíduos potencialmente infectados, a fim de manter o vírus sob controle.

A maioria dos países avançados seguiu esse caminho. Alguns poucos, como a Nova Zelândia e a Coreia do Sul, derrotaram ou praticamente derrotaram o coronavírus. A União Europeia, comparável em população e diversidade aos Estados Unidos, continua a registrar casos novos de Covid-19, mas em ritmo muito mais lento do que durante o verdadeiro pico da pandemia, no final de março e começo de abril.

Mas os Estados Unidos são excepcionais, de uma maneira muito ruim. Nosso ritmo de casos novos jamais chegou a declinar muito, porque a queda do ritmo de contágio na região de Nova York foi compensada por um número estável ou em alta de contágios no sul e no oeste. Agora, o número de casos está em alta em nível nacional, e disparando em estados como o Arizona, Texas e Flórida.

E não, as infecções reportadas não estão subindo apenas porque mais pessoas estão sendo examinadas; ao contrário do que afirma Donald Trump, não podemos resolver o problema simplesmente diminuindo o número de exames. Outros indicadores, como a porcentagem de exames que identificam pessoas contaminadas e o nível de hospitalizações, demonstram que a alta na Covid-19 é real.

É verdade que o número de mortes no país como um todo ainda está caindo, apesar de estar em alta em alguns estados. Isso reflete alguma combinação entre o lapso de tempo que existe entre contágio e morte, precauções melhores quanto aos idosos, que são mais vulneráveis, e avanço nos tratamentos, à medida que os médicos aprendem mais sobre a doença.

Mas ainda estamos perdendo 600 americanos a cada dia –ou seja, o equivalente ao número de vítimas do 11 de setembro seis vezes a cada mês. E muitas das pessoas que sofrem da Covid-19 e não morrem terminam debilitadas pela doença, em alguns casos permanentemente.

Por que estamos nos saindo tão mal? Boa parte da resposta é que muitos governos estaduais se apressaram a voltar ao ritmo normal de trabalho mesmo que apenas alguns poucos deles atendessem aos critérios federais mesmo que para a fase inicial da reabertura. Os epidemiologistas alertaram que uma reabertura prematura levaria a uma nova onda de infecções –e eles estavam certos.

Além disso, nos Estados Unidos –e só nos Estados Unidos– as precauções básicas de saúde se tornaram parte da guerra cultural. O sinal mais evidente disso é que não usar máscara, e assim colocar outras pessoas em risco desnecessariamente, se tornou um símbolo político: Trump deu a entender que muitas pessoas usam máscaras apenas para expressar desaprovação a dele, e muitos americanos decidiram que o requisito de usar máscaras em espaços fechados é um ataque à sua liberdade.

Como resultado, o distanciamento social se tornou uma questão partidária: as pessoas que se declaram republicanas o fazem menos do que as pessoas que se declaram democratas. Todos vimos o resultado disso em Tulsa, onde um grande público (ainda que inferior ao esperado) se reuniu em um espaço fechado feito sob medida para a difusão do coronavírus.

E o próximo comício de Trump acontecerá no Arizona, onde a Covid-19 está explodindo mas o governador republicano não só se recusa a tornar obrigatório o uso de máscaras mas até alguns dias atrás proibia os governos municipais de impor regras próprias.

A moral da história é que a resposta singularmente inadequada dos Estados Unidos ao coronavírus não resulta apenas da má liderança no topo –ainda que dezenas de milhares de vidas teriam podido ser salvas se tivéssemos um presidente capaz de lidar com problemas, em lugar de simplesmente torcer para que desapareçam.

Também estamos nos saindo mal porque, como demonstra o exemplo da pelagra, há uma tendência duradoura de hostilidade à ciência e aos especialistas, na cultura americana –a mesma tendência que nos torna singularmente incapazes de aceitar a realidade da evolução ou admitir a mudança no clima.

Não somos uma nação de ignorantes; muitos americanos, provavelmente a maioria deles, estão dispostos a ouvir os especialistas e a agir responsavelmente. Mas existe uma facção beligerante em nossa sociedade que se recusa a admitir fatos inconvenientes ou desconfortáveis, preferindo acreditar que os especialistas estão de alguma forma conspirando contra eles.

Trump não só foi incapaz de enfrentar o desafio de política gerado pela Covid-19 como, por suas palavras e ações –e especialmente sua recusa de usar máscara– encorajou e deu força à tendência antirracional nos Estados Unidos.

E essa rejeição ao conhecimento especializado, à ciência e à responsabilidade está nos matando.

Fonte/autor: Paul Krugman, Prêmio Nobel de Economia, colunista do jornal The New York Times. Tradução de Paulo Migliacci. Publicado na Folha de S.Paulo, 23.jun.2020 às 12h00.

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