Retração de 6,5% do PIB em 2020 será puxada por serviços e recuperação deve ser lenta

Silvia Matos
Silvia Matos, pesquisadora do Ibre/FGV. Foto: Fabio Motta/ Estadão

RIO – Ainda que abril tenha sido o fundo do poço da atividade econômica, em meio à pandemia de covid-19, o Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil deverá encolher em 6,5% em 2020, nas projeções do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV). A queda recorde na atividade deverá ser puxada pelo setor de serviços, e uma retração duradoura no consumo das famílias dificultará uma recuperação rápida. 

O Brasil pode ter uma retomada ainda mais lenta, por causa de incertezas provocadas pela política e pelo desequilíbrio das contas públicas, disseram pesquisadores do Ibre/FGV, que participaram nesta quinta-feira, 18, de um seminário online organizado em conjunto com o Estadão.

“Haverá uma queda muito expressiva em serviços. Historicamente, nunca vimos queda de serviços com essa magnitude”, afirmou a coordenadora do Boletim Macro do Ibre/FGV, Silvia Matos.

Segundo a pesquisadora, as projeções do Ibre/FGV apontam para quedas de 10% no comércio e de 14% no segmento de “outros serviços” em 2020 – e essas atividades respondem por 50% da mão de obra empregada no País. Por isso, o impacto sobre o consumo das famílias tende a ser “perene”, o que sugere que a recessão vai durar mais tempo.

Silvia disse que, num primeiro momento, o freio no consumo poderá ser amenizado pelas medidas lançadas pelo governo federal para mitigar a crise, como o auxílio emergencial de R$ 600 para trabalhadores informais e a antecipação de outros benefícios, como o 13º das aposentadorias.

Com os auxílios, a queda na “massa de rendimentos”, ou seja, todo o dinheiro disponível nas mãos das famílias, para poupar ou consumir, poderá ser pequena no segundo trimestre. Só que o alívio poderá ser temporário, levando a tombos nessa “massa de rendimentos” no terceiro e no quarto trimestres, o que levará a novas retrações no consumo.

Ela reconheceu que, no segundo semestre, haverá muita pressão política para a ampliação dos auxílios emergenciais. O próprio ministro da Economia, Paulo Guedes, já sinalização com a prorrogação. O problema, diz, é que o “cobertor é curto” no Orçamento. O rombo nas contas do governo dificultará a postergação dos benefícios emergenciais por muito tempo, e, se isso for feito, “vamos ter crise fiscal”.

Os desequilíbrios fiscais são um risco adicional para a economia brasileira, na comparação com outros países que enfrentam a mesma crise da covid-19. Nas projeções da Instituição Fiscal Independente (IFI) do Senado, o resultado primário – que desconsidera do balanço entre receitas e despesas os gastos com juros da dívida – de 2020 será um déficit de quase 13% do PIB. O rombo poderá chegar a R$ 912,4 bilhões este ano, segundo a IFI

Por causa dos riscos associados a esse desequilíbrio, o chefe do Centro de Política Monetária do Ibre/FGV, José Júlio Senna, acha que o Banco Central (BC) errou ao anunciar, na noite de quarta-feira, 17, mais um corte na taxa básica de juros (Selic, que passou de 3,0% ao ano para 2,25% ao ano, menor nível da história). Na visão do especialista, que foi diretor do BC, a economia brasileira tem risco mais elevado, principalmente por causa do desequilíbrio fiscal, o que deveria estar refletido em taxa básica de juros maior.

“Não podemos caminhar para (juro) zero, como os (países) desenvolvidos”, afirmou Senna, também durante o seminário online.

Para o pesquisador do Ibre/FGV, levar a Selic abaixo de 3,0% poderá levar a altas ainda maiores na cotação do dólar, sem um benefício claro em termos de impulso da atividade econômica.

Segundo Silvia, o quadro fica mais difícil porque, “além da pandemia, com efeitos no mercado de trabalho e na atividade econômica, temos uma crise política”.

Também palestrante do seminário online, o coordenador de Economia Aplicada do Ibre/FGV, Armando Castelar, lembrou que o elevado nível de incertezas, tanto em relação à política quanto ao desequilíbrio das contas públicas, contribui para dificultar uma recuperação mais rápida da economia. Por isso, há mais chances de a recuperação ser “lenta” e “irregular”. “É muita incerteza e incerteza não costuma ajudar”, disse Castelar.

Fonte: Vinicius Neder, O Estado de S.Paulo, 18 de junho de 2020 | 14h06.

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