Como serão as cidades no pós-pandemia

No longo prazo, uma das apostas é metrópoles contarem com calçadas mais largas e vias para  bicicletas e patinetesFOTO: DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO

A pandemia da covid-19 paralisou o mundo e continua matando milhares de pessoas, infectadas por um micro-organismo para o qual não se tem remédio nem antídoto. Ameaças de tal natureza, em inúmeros momentos da história, moldaram grandes mudanças na sociedade e também no contorno das cidades. E desta vez não deve ser diferente. É essa reflexão que  cientistas sociais e urbanistas estão fazendo agora.

Entre os principais aspectos estão a necessidade de discutir uma revisão do planejamento urbano, com novas formas de trabalho, lazer e circulação. Além de mudanças no modelo de transporte e melhores condições de moradia e mais infraestrutura sanitária.

Surgem ainda a preocupação com as favelas, a comunicação em redes digitais, políticas de proteção da intimidade, justiça social diante das desigualdades econômicas e até os conceitos de tamanho e cidades policêntricas. Tudo está em xeque pela violência da infecção.

Consultor da ONU e do Banco Mundial, o canadense Robert Muggah é um dos que acreditam que a atual pandemia não será exceção e também provocará transformações. “No século 13, a peste bubônica levou a maiores proibições a espaços urbanos apertados e esquálidos. Os surtos de malária e cólera no século 19 acarretaram mudanças nos sistemas de ventilação e esgoto”, conta o especialista, que também é diretor do Instituto Igarapé. “No século 20, pandemias de febre tifoide, poliomielite e gripe nos obrigaram a repensar tudo, desde as regras de zoneamento e manejo de resíduos até o design de espaços públicos.”

PHILIP YANG – URBANISTA, EMPRESÁRIO E DIRETOR DO INSTITUTO URBEM

‘A simples universalização da rede de saneamento básico já seria uma grande conquista civilizatória para nós, brasileiros’, diz Yang, ESTADÃO

Para o empresário e urbanista Philip Yang, fazer um prognóstico dessas mudanças ainda é prematuro. “Estamos entre o ‘tudo mudará’ e o ‘nada mudará’. Epidemias piores do que esta foram esquecidas poucos anos depois do grande trauma”, justifica Yang, também diretor do Instituto Urbem.

O especialista diz que as cidades que já estão saindo do confinamento vêm adotando ferramentas low tech de urbanismo, como a delimitação do espaço público com fita sinalizadora e cones. “Num plano mais macro, imaginaria que a reocupação de ruas e espaços públicos devesse ser realizada em outras proporções”, explica. “No curto prazo, haverá demanda por estacionamento. Mas no longo, com os carros autônomos, os estacionamentos de rua deverão ceder espaço para calçadas mais largas e vias para bicicletas, patinetes e afins.”

Acompanhe especial de O Estado de S.Paulo, em reportagens e entrevistas, detalhes dessa discussão e o que já vem sendo feito.

O senso comum pode até achar contraditório. Para urbanistas como Philip Yang, do Instituto Urbem, no entanto, a densidade populacional não é necessariamente um problema para as cidades, quando se tem a infraestrutura necessária. Já o espraiamento urbano pode causar danos. Entre eles, os ambientais. Confira, abaixo, trechos da entrevista:

● O trabalho dos urbanistas nos últimos anos foi no sentido de  aumentar a densidade populacional nas cidades. Com a pandemia, o que acontece daqui para frente?  

É cedo para antecipar tendências, mas sigo bastante otimista com relação às vantagens e às tendências seculares de adensamento. Veja o exemplo de Hong Kong. É a cidade que registra os maiores índices de densidade construtiva e habitacional no mundo e a que foi mais atingida pela Sars em 2003. Apesar do trauma, a cidade seguiu aprofundando o seu processo de adensamento após aquela epidemia. Gosto também de lembrar: hoje, estamos vendo que aglomerar pode ser perigoso, mas necessitamos ter em mente que desaglomerar também nos traz consequências ambientalmente devastadoras. Com o espraiamento urbano, entramos em colisão com reservas florestais, fronteiras agrícolas, reservatórios de água e sistemas hídricos complexos, o que constitui uma tendência perigosa do ponto de vista do equilíbrio ambiental.

● O senhor acha que haverá uma transformação nas diretrizes sanitárias, com mudanças na infraestrutura de coleta de lixo nas ruas e nas residências, por exemplo?  

O exemplo de Hong Kong, que já citei, indica o que pode acontecer agora, mas em escala maior. Lá, depois da Sars, houve mudança substantiva de normas construtivas, urbanísticas e sanitárias. É de se imaginar que alterações nos layouts dos espaços de trabalho devam ocorrer aqui também. A radicalidade dessas mudanças depende dos desdobramentos da doença, que ainda não conseguimos prever. Quanto à infraestrutura, vou me limitar a dizer que a simples universalização da rede de saneamento básico já seria uma grande conquista civilizatória para nós, brasileiros. A cólera em Londres no século 19 levou a uma modernização do sistema de águas e esgotos. Mesma coisa em Lisboa. Hoje, há diversas inovações que estão disponíveis no âmbito das redes de saneamento, todas desejáveis. Temos de resolver o básico antes de mais nada, que é atender com água, esgoto e coleta de lixo a metade da população do País que não ainda dispõe desses serviços. Essa é uma das grandes vergonhas brasileiras.

● O senhor imagina que, com o isolamento, as comunicações digitais podem mudar a forma como as pessoas interagem? E como o senhor vê questões como a proteção da privacidade digital? É possível, ainda, estabelecermos uma educação a distância qualificada?

Todas essas tendências das comunicações que você menciona – no trabalho, na educação e no convívio social – deverão seguir na mesma direção, apenas serão bastante catalisadas pelo episódio da pandemia. Algo que se revela com muita clareza hoje é o chamado hiato digital, a distância de possibilidades entre os que podem e os que não podem estar conectados, para estudar, trabalhar e se divertir. Há que se buscar todas as formas para eliminar ou ao menos mitigar essa outra manifestação da desigualdade. Quanto ao Big Data, penso que o acesso a dados é ferramenta fundamental de gestão de territórios, governos e sociedades. Como toda ferramenta, ela pode ser usada para o bem ou para o mal. Temos de tratar de direcionar a Big Data, a Internet das Coisas e a Inteligência Artificial para propósitos, produtos e causas socialmente aceitáveis, geradores de bem-estar coletivo. E com garantias de proteção da privacidade, num contexto de mais segurança digital.

Fonte – Texto: Giovanna Wolf / Pablo Pereira / Fotos: Daniel Teixeira, O Estado de S.Paulo, 14 de junho de 2020 | 05h00.

EXPEDIENTE

Reportagem Giovanna Wolf, Iolanda Paz e Pablo Pereira / Editora de Conteúdos Premium Ana Carolina Sacoman / Editora de Inovação Carla Miranda / Editor executivo multimídia Fabio Sales / Editora de infografia multimídia Regina Elisabeth Silva / Editores assistentes multimídia Adriano Araujo, Carlos Marin, Glauco Lara e William Marioto / Fotos Daniel Teixeira / Designers multimídia Bruno Ponceano, Danilo Freire e Lucas Almeida / Coordenador de Produção Multimídia Everton Oliveira / Edição de Vídeos Bruno Nogueirão e Iolanda Paz

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