Unilever, mais britânica e menos holandesa

Nils Andersen, presidente do conselho da Unilever: estrutura ultrapassada — Foto: Simon Dawson/Bloomberg
Nils Andersen, presidente do conselho da Unilever: estrutura ultrapassada — Foto: Simon Dawson/Bloomberg.

A Unilever abandonará sua estrutura corporativa anglo-holandesa dupla em favor de uma única empresa sediada em Londres, revertendo tentativas feitas há dois anos para unificar seus negócios na Holanda.

A fabricante da pasta Marmite, do sabonete Dove e do sorvete Ben & Jerry’s disse que vai integrar sua entidade legal holandesa em sua divisão do Reino Unido. O movimento vai encerrar o legado de formação da Unilever, criada com a fusão entre uma empresa holandesa de margarinas e a fabricante britânica de sabonetes Lever Brothers, há mais de 90 anos

O grupo de produtos de consumo, um dos maiores do Reino Unido em valor de mercado, disse que a mudança tornará mais fáceis e rápidas aquisições ou vendas de ativos baseadas em ações, incluindo um possível desmembramento de sua divisão de chás.

Alienações do passado, como a venda da divisão de pastas da Unilever, tornaram-se difíceis pela necessidade de desemaranhar estruturas internas complexas
resultantes do duplo domicílio do grupo.

Queremos acelerar o ritmo da mudança de portfólio e a unificação da estrutura legal da nossa controladora nos dará maior flexibilidade para aquisições e cisões à base de ações. Isso é muito importante no momento porque esperamos um ambiente de negócios cada vez mais dinâmico depois da pandemia da covid-19”, disse Nils Andersen, presidente do conselho de administração da Unilever. “A estrutura da companhia está ultrapassada… Não passamos por uma frustração em 2018 para, agora, adiar as coisas por mais alguns anos.”

Dois anos atrás, a tentativa de fundir as operações britânicas na entidade legal holandesa, incentivada pelo ex-diretor-presidente Paul Polman, foi abandonada em razão da oposição dos acionistas. Também pesou o fato de que a companhia teria de sair do índice de ações FTSE 100 por abandonar sua listagem na Bolsa de Valores de Londres.

Os acionistas terão de aprovar o novo plano para eliminar a estrutura dupla, classificado pelo governo britânico como “um voto de confiança”. Será necessário o consentimento de metade dos acionistas da entidade holandesa e de 75% daqueles que possuem ações no Reino Unido.
A proposta aumenta a possibilidade de que o braço de alimentos da Unilever seja desmembrado da atual divisão de beleza, cuidados pessoais e alimentos. A companhia disse que o governo holandês vem tentando obter uma garantia de que qualquer cisão futura da divisão de alimentos e refeições resulte em uma empresa com sede na Holanda e listada no país.

A Unilever disse que ficaria feliz em dar essa garantia, mas afirmou “não ter planos”
de desmembrar a divisão no momento.

A companhia disse que espera manter a listagem de suas ações tanto no índice FTSE 100 como no AEX holandês e que permanecerá listada nas bolsas de Londres, Amsterdã e Nova York. Segundo a empresa, as operações no Reino Unido e na Holanda não mudarão.

Alan Jope, diretor-presidente da Unilever, disse que a companhia não discutiu a medida com os acionistas antes de anunciá-la, ontem. Os analistas receberam bem o plano, depois do fraco desempenho recente da Unilever, que divulgou vendas estagnadas no primeiro trimestre, após a pandemia prejudicar suas divisões de serviços e sorvetes.

As ações da entidade holandesa subiram 1,2% para € 47,74 no fim da tarde de ontem, enquanto as ações no Reino Unido subiram 0,7% para 43,47 libras. A mudança tornará mais fácil para a Unilever aumentar seu capital, caso necessário. Martin Deboo, analista do banco de investimento Jefferies, disse que o acordo de € 6,8 bilhões firmado em 2017 para a venda dos negócios de pastas da Unilever para a KKR exigiu dezenas de operações internas de separação, uma vez que algumas das subsidiárias eram tecnicamente controladas pela entidade britânica e outras pela entidade holandesa.

Isso ajudou a convencer a administração de que a simplificação era necessária,
disse o analista. “A questão imediata é se os acionistas holandeses terão as mesmas objeções à proposta que a demonstrada pelos acionistas britânicos em 2018, algo que a manutenção da listagem na bolsa holandesa poderá amenizar.”

Deboo acrescentou que o movimento “é mais que apenas uma mudança legal…Sugere, para mim, que eles falam sério quando mencionam o desenvolvimento do portfólio. Há muito defendemos uma cisão dos negócios para a liberação de algum valor – é animador ver que eles estão pensando de maneira criativa e radical a esse respeito”.

Após a fusão, os acionistas da atual entidade holandesa controlarão cerca de 55% da nova companhia, com aqueles que possuem ações britânicas respondendo por cerca de 45%.
Alok Sharma, secretário de Estado para Negócios, Energia e Estratégia Industrial do
Reino Unido, disse estar “contente” em ver as propostas da Unilever para se tornar uma companhia totalmente incorporada no Reino Unido, classificando-as de “um claro voto de confiança no Reino Unido”.

O governo holandês conclamou a Unilever a buscar a listagem única na Holanda após o Brexit. O país tentou atrair o grupo derrubando um imposto sobre dividendos pagos por grandes corporações, mas a isenção fiscal foi abandonada depois de uma forte reação da opinião pública em 2018.

Eric Wiebes, ministro dos Assuntos Econômicos da Holanda, disse que a Unilever informou o governo holandês sobre suas intenções na metade de maio. Wiebes disse “lamentar” a decisão e afirmou que o governo estava mantendo “diálogos intensos” para salvar as operações holandesas da Unilever.

Numa carta enviada ao Parlamento, Wiebes escreveu que a decisão não resultará na perda de empregos na Holanda. O governo holandês vai criar um grupo consultivo para discutir meios de fortalecer a presença da Unilever no país, segundo ele.

David Hayes, analista do banco Société Générale, disse que o anúncio realimentará pedidos por uma fusão em grande escala com concorrentes como Reckitt Benckiser ou Colgate-Palmolive. A maior divisão da Unilever é a de produtos de beleza e cuidados pessoais, que respondeu por € 21,9 bilhões da receita de 2019, seguida pela divisão de alimentos, com € 19,3 bilhões e a de cuidados domésticos, com € 10,8 bilhões.

Fontes: Judith Evans, Jim Pickard e Mehreen Khan — Financial Times, de Londres e Bruxelas
12/06/2020, 05h01 · Publicado no Valor Econômico.

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