Tecnologia: meio ou fim? Por, Gustavo Fosse

Objetivo da tecnologia é facilitar a vida das pessoas, resolvendo problemas que antes pareciam impossíveis; estamos fazendo isso de forma correta? - iStock
Objetivo da tecnologia é facilitar a vida das pessoas, resolvendo problemas que antes pareciam impossíveis; estamos fazendo isso de forma correta?

Muito fala-se da importância de a sociedade evoluir para um novo patamar de mais prosperidade, paz e bem-estar social para todos. Nesse mundo dinâmico e cheio de desafios, a tecnologia emerge como um meio eficiente para atingirmos esse novo paradigma.

O objetivo da tecnologia é facilitar a vida das pessoas, resolvendo problemas que antes pareciam impossíveis -pelo menos na teoria, esse seria o objetivo. Mas será que é por esse caminho que estamos seguindo?

Isaac Asimov, um dos grandes da ficção científica, previa que um dia iríamos nos perder. Chegaríamos a um ponto em que, de tanto pensar no nosso bem, seríamos tão dependentes da tecnologia que ela mesma se voltaria contra nós para nos salvar de nós mesmos (!) Será que isso pode acontecer?

DESEJO, NECESSIDADE E VONTADE

Em marketing existe uma longa discussão sobre a definição da necessidade. Ela existe realmente ou pode ser criada a partir do desejo que nos é imposto pelo próprio marketing, muitas vezes inconscientemente? Por exemplo, o seu celular pode ser o melhor que existe, você compra porque ele, aparentemente, supre as suas necessidades. Mas, quando é lançado um modelo novo, você percebe que o aparelho que você tem não é tão eficaz assim. Novas funcionalidades, antes não tão importantes, agora são vistas como totalmente necessárias. A questão é: suas necessidades realmente mudaram ou os novos avanços da tecnologia criaram novas necessidades?

Se podemos nos perder na nossa crescente e insaciável “necessidade”, por outro lado, talvez não enxerguemos o que precisamos, pois, desconhecendo o que poderíamos ter, acabamos por nos contentar com o que há. Ford dizia que se perguntássemos aos consumidores o que eles precisavam, eles pediriam cavalos mais rápidos. Então, do que realmente precisamos? 

Não há uma resposta única e correta. Ainda que estendamos essa discussão, envolvendo psicologia, filosofia, religião e todas as áreas do saber, não chegaremos a um consenso. Mas não é exatamente isso que quero discutir hoje.

TUDO MUDA O TEMPO TODO NO MUNDO

Na verdade, entender que não sabemos ao certo como as coisas funcionam é o ponto que realmente importa aqui. Porque são as mudanças e as incertezas que tornam essencial a evolução e a existência de inovação. As instituições vão mudar e o novo vai chegar.

E é por isso que não podemos planejar nossas ações baseados apenas na verdade que criamos, porque verdades mudam constantemente no nosso mundo dinâmico. Isso não significa que devemos desacreditar de tudo, até porque nossas verdades vão, sim, funcionar muito bem por algum tempo, como funcionaram para Ford. Ele ofereceu carros pretos porque era isso que os consumidores precisavam e com isso ele revolucionou os meios de transportes, porque naquele momento essa verdade era o suficiente, mas as coisas mudaram. 

Nós sentimos na pele como as coisas podem mudar de forma inesperada diante da pandemia pela que estamos passando. Todos tiveram que se adaptar drasticamente e, nesse momento, a tecnologia tem sido um grande apoio para que os negócios não parem. E mais ainda: a tecnologia pode nos ajudar a impedir o avanço do coronavírus e salvar vidas. A tecnologia não é nosso problema, ela é essencial. A forma como ela impacta a nossa vida, a importância e o uso que damos a ela, porém, podem ser um problema.

A questão é: você sabe mesmo do que você precisa? Na sua relação com a tecnologia, você é um agente passivo ou ativo? 

Se nos concentrarmos no que é essencial para nós agora, sem levar em conta o futuro, os desafios e as mudanças, podemos nos perder no caminho, no longo prazo. Podemos até estar acostumados a seguir por um certo caminho nas encruzilhadas, mas só porque isso sempre funcionou não significa que vai funcionar agora. 

“Ninguém pode entrar duas vezes no mesmo rio, pois quando nele se entra novamente, não se encontram as mesmas águas, e o próprio ser já se modificou”, disse o filósofo Heráclito de Éfeso.

Assim, mesmo que a situação pareça a mesma, o caminho pode estar mascarado por obstáculos desconhecidos, e a mesma decisão pode levar a um resultado totalmente diferente. E é nesse ponto que a tecnologia pode desvirtuar sua missão.

A tecnologia sai do nosso controle, quando ela deixa de ser um meio para atingir um objetivo, algo que podemos controlar, para se tornar o nosso objetivo final.

Um exemplo de quanto a tecnologia pode realmente mudar nossos desejos e nossas necessidades, tornando-nos apenas espectadores da nossa própria vida, pode ser visto no episódio “Queda Livre”, da série “Black Mirror”.

Ele apresenta um mundo cheio de verdades criadas a partir de como cada pessoa quer ser vista. A protagonista Lacie vê seu mundo perfeito, forjado nas redes sociais, desmoronar por um simples deslize. Mas será que aquele mundo que a tecnologia proporcionou era mesmo o que ela precisava? Ou será que ela se perdeu no caminho entre necessidades e desejos, entre o que ela achava que precisava e o que ela não precisava?

Vemos que a tecnologia permeia o mundo de Lacie de diversas formas para facilitar o seu dia a dia. Mas até que ponto a tecnologia está realmente melhorando a vida dela? Até que ponto aquele mundo era realmente necessário para ela antes de tudo?

É fato que as empresas precisam evoluir, pois vivemos em um mundo cada vez mais digital. Nós temos negócios formados em plataformas digitais, com uma interconexão de coisas, pessoas e empresas, situação antes impossível de ocorrer. E é claro que cada empresa tem seu lugar nessa realidade, e atender os desejos do consumidor é, sim, essencial. Para isso, as empresas precisam se transformar para acompanhar as mudanças. Mas o quanto elas precisam mudar? E baseado em quê? 

Um fator importante a levar em conta na hora de realizar essa transformação é pensar na sustentabilidade de todo o ecossistema do qual a empresa faz parte.

E quando falo que a empresa precisa pensar no bem do mundo e das pessoas, é porque somente pensando no melhor para toda a sociedade é que a empresa vai seguir forte e perene. Se o mundo não existir amanhã, se o mundo se perder no caminho, somos nós e nossas empresas que vão deixar de existir.

Levando tudo isto em consideração, o caminho que você precisa seguir, todo o ecossistema e riscos, baseado no que você faz e acredita hoje, por quanto tempo suas verdades vão funcionar? O quanto você pode se adaptar? Em qual realidade sua empresa vai se encaixar no futuro?

Pensar nisso vai ajudar você a avaliar até que ponto a tecnologia precisa estar incluída no seu negócio e em quais tecnologias você precisa concentrar seu esforço.

Por exemplo, se o seu negócio se transformar em uma plataforma 100% digital, quais serão suas perdas e riscos? Talvez, neste momento, essa seja a necessidade dos seus clientes. Mas pense no mundo perfeito de Lacie, totalmente dependente da tecnologia. A partir disso, o que pode fazer seu negócio desmoronar? Qual pode ser o seu backup se as coisas mudarem de repente? 

O nosso maior erro nem sempre é depender totalmente da tecnologia, mas deixar que ela seja nossa única solução para tudo. Às vezes, na empolgação do momento, restringimo-nos ao que queremos ver e entramos no que em psicologia chama-se de viés de confirmação. Com isso, perdemos o controle e cruzamos a linha tênue que separa a tecnologia controlável da tecnologia controladora.

Para que as empresas continuem a crescer e a se manter neste mundo tão complexo, cheio de dúvidas e incertezas, precisamos ter outras opções, novas visões. Devemos construir e desconstruir nossas verdades o todo tempo, atender e até estimular novos desejos nos nossos clientes, porque é assim que o mundo vai girar, porque é assim que nossa relevância e significado para os clientes vão ser mantidos. 

Temos de fazer isso de maneira responsável e sustentável, a partir de uma visão sistêmica, considerando as consequências no curto e no longo prazo. Dessa forma, estaremos caminhando para uma realidade mais segura e menos sujeita a erros fatais, tirando proveito do melhor da tecnologia sem perder o controle do nosso negócio, da nossa vida e do nosso mundo.

Fonte: Gustavo Fosse, diretor de Tecnologia do Banco do Brasil. Publicado em 28/4/2020, noomis CIAB FEBRABAN.

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