Robôs e outras pragas pioram isolamento, por Maria Inês Dolci

Receber ligações não solicitadas, em meio a mais uma tarde de quarentena, com oferta de planos funerários, é dose para mamute. E de muito mau gosto, tendo em vista que há mais de um mês enfrentamos a triste escalada da Covid-19, com milhares de mortes em todo o país. Robôs, ao que parecem, não ligam para o isolamento social, e estão entre suas pragas.

Também gostam de divulgar, em péssimo português, inverdades políticas. Infestam e contagiam as redes sociais —um ex-ministro da Justiça que o diga. Para eles, não basta nos infernizar por meio da voz, motivo pelo qual muitas pessoas, mas muitas mesmo, desistiram de ter telefone fixo. Além disso, nos chateiam na Internet.

É claro que eles não se contentam em nos fazer pensar na finitude da existência. Também há os que propagandeiam consultas avulsas, concorrentes dos planos de saúde. Como nunca fui adiante, ou seja, não liguei para as empresas anunciadas, não sei se atendem em domicílio ou por telemedicina. Nem se os profissionais nos esperam com equipamentos de proteção individual (EPIs), como luvas e máscaras.

Não sou impressionável, mas, confesso, outro dia me senti mal com um email marketing. Era quase uma advertência de que deveria contratar determinado plano de saúde antes da próxima pandemia. Sei que nunca mais tiraremos este tipo de ameaça do radar. Mas, como não sabemos nem quando superaremos a atual, tal ‘futuro’ nos assusta.

Tento, às vezes —porque tem sobrado um tempinho, nas últimas semanas, entre quatro paredes— imaginar como ficarão as relações de consumo depois de tanto tempo isolados em casa. Será que deixaremos de usar máscaras? Vi em um telejornal, outro dia, como seria um bar adaptado a estes tempos. Entre as pessoas, vidros para evitar a transmissão de vírus.

Apostas em isolamentos mais frequentes são os novos restaurantes criados somente para atendimento delivery.

E os hábitos depois da quarentena? Levaremos, provavelmente, álcool em gel no bolso à balada, ao cinema, ao teatro e aos botecos. Que ficarão, digamos, bem mais alcoólicos, se me permitem o trocadilho.

E iremos muitas vezes ao toalete para lavar as mãos, uma boa prática reafirmada nestes tempos de coronavírus.

Ou nos esqueceremos de tudo, propositadamente ou não, e agiremos como se nada tivesse acontecido? Mas não, não acredito nesta hipótese. Talvez nos acostumemos até a cumprimentar amigos e conhecidos encostando os pés.

E, certamente, quem gosta muito de futebol, como eu e minha família, ficará muito feliz quando houver, novamente, partidas ao vivo. Hoje, os campeonatos estão acertadamente suspensos, para proteger a saúde e a vida de jogadores, dirigentes, árbitros, torcedores, policiais, médicos etc. E de todos os que têm contato com eles.

Bem, quando houver o tal jogo, vamos torcer muito, ainda que não haja grandes jogadas. Mas, finalmente, será um jogo novo em folha. Talvez comemoremos os gols a distância, sem abraços. E, por algum tempo, distantes dos estádios.

Fonte/autora: Maria Inês Dolci. Advogada especialista em direitos do consumidor, foi coordenadora da Proteste (Associação Brasileira de Defesa do Consumidor). Publicado na Folha de S.Paulo, 29/4/2020.

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