Robson Capasso, professor associado da Universidade de Stanford (Foto: Divugação)
ROBSON CAPASSO, PROFESSOR ASSOCIADO DA UNIVERSIDADE DE STANFORD (FOTO: DIVUGAÇÃO)

Envelhecimento da população, aumento no número de casos de diabetes, “epidemia” de depressão e uma população altamente dependente do sistema público. Esse é o retrato do futuro da saúde no Brasil, segundo Robson Capasso, professor associado do departamento de Otorrinolaringologia de Stanford e empresário de tecnologia. Capasso participou do Brazil at Silicon Valley, encontro promovido por estudantes e ex-alunos brasileiros de Stanford no Vale do Silício, onde mediou um debate sobre o futuro das healthtechs.

O especialista conversou com Época NEGÓCIOS sobre os insights gerados no evento e a importância das startups de saúde no Brasil. Para o professor, o exaurido modelo brasileiro não vai aguentar muitos anos — se é que aguenta hoje. “Do jeito que está, não vai dar”, afirma. No seu entendimento, passou da hora de empresários, universidades e poder público trabalharem em conjunto com a tecnologia para atender melhor a população.

Capasso tem experiência na área. Além de professor associado, ele é sócio e conselheiro de algumas healthtechs norte-americanas, como a Arterys, plataforma que usa inteligência artificial para a produção de imagens no setor de radiologia. No Brasil, entretanto, o cenário é diferente dos Estados Unidos. Segundo o especialista, o ecossistema de inovação ainda é incipiente por aqui.

Isso se dá em decorrência da estrutura do mercado brasileiro de saúde. Para essa realidade mudar, em sua opinião, seria preciso dar maior celeridade ao poder público. Entidades como a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) são as responsáveis pela regulação do uso de novas tecnologias na saúde do país. As aprovações poderiam ser bem mais velozes, na visão de Capasso.

Outro lado em questão é o das sociedades médicas, que também deveriam buscar inovação e tecnologia no seu dia a dia. Também entra na conta o interesse dos empreendedores no setor. Para o professor, as healthtechs brasileiras ainda estão focadas demais em soluções simples, como prontuários eletrônicos e consultórios médicos mais acessíveis. “A formação de um ecossistema transparente entre governos, associações e universidades precisa começar a ser feita”, diz.

Passo para trás

Para essa realidade mudar, é preciso analisar com frieza a estrutura brasileira e deixar de investir em ideias que não são necessariamente úteis para a população, defende o professor. É o que Capasso chama de inovação baseada na necessidade. “Não se pode desenvolver a tecnologia para depois pensar em como aplicá-la.” É preciso assertividade.

O que só acontecerá se as healthtechs brasileiras se derem conta da importância do corpo médico no time de empreendedores e da oportunidade tremenda que é ter uma quantidade massiva de clientes embaixo do Sistema Único de Saúde (SUS), diz o professor. “Quando você tem dado de qualidade em larga escala, fica muito fácil”, afirma.

Por isso, ele defende que empreendedores, estudantes e representantes dos setores de saúde trabalhem para adicionar tecnologia ao SUS. Uma saída, na sua visão, seria dividir os esforços pelo número de doentes. “Por que não criar um contrato para cuidar exclusivamente da vertical dos pacientes com diabetes?”.

Tal movimento seria providencial para a obtenção de dados de qualidade. “Com informação razoável de milhões de pessoas, você tem uma riqueza enorme para padronizar e criar soluções com inteligência artificial e machine learning. Imagine isso no SUS”.

Ética

Ao mesmo tempo, Capasso sabe a importância de se ter cuidado com esse tema. Para o professor, há desafios éticos a trabalhar dentro das healthtechs. Questões como privacidade devem ser prioridade para os empreendedores. Além disso, indagações mais reflexivas, como contar ou não a um paciente sobre sua predisposição a doenças, devem entrar no radar das startups. “Você quer saber se o seu código genético é predisposto a ter Alzheimer? É preciso criar sistemas seguros que respeitem tais decisões.”

Fonte: Época Negócios, 17/04/2019 – 06H01 – POR RENNAN A. JULIO

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