Vivemos em um pequeno planeta do sistema solar que faz parte da Via Láctea. Estima-se que esta galáxia foi formada há 13 bilhões de anos e contém pelo menos 100 bilhões de estrelas, número esse que pode chegar a 400 bilhões. Essa galáxia, e o sistema solar e nosso planeta, se deslocam a uma velocidade de 871.781 km/hora. Para onde? Ninguém tem uma resposta adequada. Uma previsão foi feita por cientistas da NASA de uma colisão de nossa galáxia com a Andrômeda – a vizinha mais próxima da Via Láctea – daqui a aproximadamente 4 bilhões de anos. É uma escala de tempo imensa. Assim diante dessa complexidade, vamos humildemente refletir em uma escala de tempo mais razoável, e vamos remeter a pergunta, para onde irá o Brasil nas próximas décadas.

Em 1967 Glauber Rocha em seu filme “Terra em Transe” revelou-se um premonitório do Brasil do presente. A ficção prefigurou a realidade. A escandalosa injustiça social continua e aumenta. Os políticos de todos os partidos se acusam entre si. Na sua retórica dizem que falam em nome de seus eleitores mas na realidade os ignoram. Tanto no filme de Glauber como no Brasil atual, os cidadãos são bombardeados por pesadelos cotidianos, sem esperanças de saídas virtuosas protagonizadas por políticos que utilizam uma retórica falsa. A crise social, econômica, moral e ética tem sido alimentada e construída pela grande mídia.

Geniberto Paiva Campos, descreve com propriedade o que acontece: “Para a exata compreensão do que acontece com o Brasil a partir da primeira década deste século, torna-se essencial refletir e assumir que o país foi, mais uma vez, objeto de manipulação político ideológica. Método infalível, aplicado nos mais diversos contextos. Para atender os mais diferentes objetivos. Às vezes sem qualquer sutileza, comandado por uma mídia tosca e soberana”. E completa: “E assim, o país caminha em marcha acelerada ao encontro do seu novo destino, atravessando a chamada Ponte para o Futuro, que deságua nas delícias civilizatórias do século 19. Época em que o trabalhador não tinha direitos, era em sua maioria negro escravo, e conhecia o seu lugar”.

É a hora de mudarmos o modelo econômico que não tenha como objetivos os ganhos econômico-financeiros. Precisamos aprender a fazer planejamento a longo prazo e escolher as prioridades. O desenvolvimento deve priorizar os objetivos sociais e culturais, principalmente o comportamento social e de costumes. O desmonte das Universidades Públicas e do sistema de Ciência e Tecnologia em curso, deve ser revertido e ao contrário deve ser estimulado, com mais investimentos, pois é o caminho para interromper um modelo de exportação predatória de nossos recursos naturais, substituindo-o por exportações de inovações tecnológicas, produtos da ciência e inteligência brasileira. O brasileiro trabalha muito mas produz pouco, devido à baixa qualidade da educação.

A educação de qualidade para todos as crianças e jovens brasileiros parece ser o melhor investimento para construirmos um futuro virtuoso para o Brasil. Não basta termos as crianças e jovens nas escolas. Elas devem ser prazerosas, lúdicas, fisicamente agradáveis e povoadas de educadores entusiasmados e socialmente reconhecidos – com salários e carreiras dignas – e com métodos de aprendizagem do século 21. Nesse ambiente escolar o educando não será somente bem preparado para ingressar no mundo do trabalho, com aceleradas transformações agora e certamente no futuro. Deverá também incorporar valores e virtudes para um relacionamento virtuoso com os seus semelhantes e com a natureza. Deverá exercitar se pensamento crítico e ser estimulado na sua criatividade. Esse será o melhor caminho para conquistarmos uma verdadeira democracia, lembrando a origem da palavra grega demokratia que é composta por demas – que significa povo – e kratos – que significa poder.

É pertinente aqui lembrar o pensamento de Anísio Teixeira: “Só existirá democracia no Brasil no dia em que se montar no país a máquina que prepara as democracias. Essa máquina é a da escola pública”. Vamos nos inspirar no Mestre Anísio e construir um sistema público de educação de qualidade – da primeira infância à pós-graduação – para todas as crianças e jovens brasileiros/as. A educação e a cultura devem encabeçar as prioridades de um planejamento estratégico que possam concretizar os sonhos de milhões de brasileiros de viverem um País melhor e justo.

Fonte/autor:* Isaac Roitman, professor emérito da UnB, para a revista Prática Forense* Membro da Academia Brasileira de Ciências e membro do Movimento 2022 O Brasil que queremos. Publicado no site da Academia Brasileira de Ciências.

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