Não é de hoje que o brasileiro compartilha uma sensação generalizada de atraso, mas o sentimento de estagnação é amplificado em momentos de crise econômica como a enfrentada pelo país nos últimos anos.

Nessas horas, o pessimismo se torna o sentimento predominante, e a sensação geral é de perda de bem-estar.

A um dia do resultado da disputa presidencial mais inflamada dos últimos tempos, marcada pela disseminação de notícias falsas, especialistas do GVcemif (Centro de Estudos em Microfinanças e Inclusão Financeira da FGV) e do Instituto Plano CDE nos lembram como dados são essenciais para que não se perca o senso de realidade.

Em “O Brasil Mudou Mais do que Você Pensa”, os organizadores Lauro Gonzalez, Maurício de Almeida Prado e Mariel Deak reúnem uma série de artigos para apresentar avanços estruturais pelos quais passaram as classes CDE em 20 anos (1995-2015).

Esse foi o período selecionado por agregar maior disponibilidade de dados comparáveis, como os da Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios), do IBGE.

A crise, dizem os organizadores, embora traga desalento e provoque efeitos conjunturais negativos, não alterou o fato de que novos patamares foram alcançados para essa população e nem que o maior acesso a crédito torna essas famílias mais resilientes à própria crise.

O livro é dividido em quatro grandes temas: educação, habitação, renda e posse de bens, inclusão financeira e digitalização. A cada capítulo, os autores usam dados quantitativos e entrevistas de campo para abordar o que mudou, por que, os efeitos dessas mudanças nas vidas das famílias e os desafios para o futuro.

Em 2015, as classes CDE concentravam 59% da população brasileira. O livro considera como da classe C pessoas com renda per capita de meio a um salário mínimo; DE têm renda abaixo de meio mínimo.

Segundo os autores, a mudança mais estrutural nas classes CDE nas últimas décadas se deu na educação.

Enquanto nas classes AB o ensino para crianças de 6 a 14 anos já estava praticamente universalizado –quando o percentual de pessoas em determinada faixa etária que frequentam a escola é igual ou superior a 97%– em 1995, cerca de 3 milhões de crianças CDE estavam fora da sala de aula.

Atualmente, quase todas elas têm acesso ao ensino fundamental. Também estão permanecendo e progredindo mais nos estudos. Há hoje mais jovens dessas faixas acessando e concluindo o ensino médio e mais oportunidades de formação técnica ou superior.

São conquistas de acesso, permanência e conclusão ainda muito básicas, mas precondições para que o Brasil atinja patamares educacionais similares aos de outros países.

O livro destaca que boa parte das conquistas não é restrita a governos específicos, mas fruto de políticas encadeadas no tempo.

A discreta queda no déficit habitacional relativo, por exemplo, de 10,4% do total de domicílios em 2007 para 9,3% em 2015, é o resultado da estabilização inflacionária na segunda metade dos anos 1990, somada à expansão do crédito em 2000 e ao lançamento do programa Minha Casa Minha Vida, “a primeira iniciativa em larga escala a ser bem-sucedida em termos de alcance da população de baixa renda”, escrevem os autores.

Logo na introdução, os organizadores admitem que o livro tem um enfoque positivo, mas isso não os exime de apontar que há um longo caminho a ser percorrido em busca de melhores condições para as classes mais baixas.

A realidade ainda muito dura aparece com clareza nos relatos colhidos com famílias das classes CDE. Sueli, 47, por exemplo, comemora a máquina de lavar usada comprada de sua irmã, que lhe liberou mais tempo para investir nos doces e salgados que vende no bairro. Capital de giro no banco, no entanto, ela ainda não consegue.

Aliás, é no tema da inclusão financeira que o livro demonstra progressos mais tímidos. Apesar de a posse de conta-corrente ter avançado entre os mais pobres, os autores apontam que apenas 7% entre os CDE que têm conta bancária a usam mais de uma vez por mês. É um lembrete de que bancarização não é sinônimo de inclusão.

Nesse sentido, o livro destaca que a concentração de serviços financeiros é um obstáculo, cabendo às autoridades regulatórias estimular um ambiente de concorrência e inovação mais saudável.

O BRASIL MUDOU MAIS DO QUE VOCÊ PENSA

  • Autores: Lauro Gonzalez, Maurício de Almeida Prado e Mariel Deak (org.)
  • Editora: FGV Editora

Fonte: Anaïs Fernandes, Folha de S.Paulo, 27.out.2018 às 2h00

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