Simão Davi Silber: “O voto não foi de protesto, mas de mudança: todos querem uma mudança muito radical”

Simão Davi Silber, professor sênior da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (FEA-USP), está otimista. Para ele, a eleição de Jair Bolsonaro (PSL) marcou o fim de um ciclo de forte intervencionismo do Estado, que se repete desde a redemocratização.

Agora, segundo ele, o esperado é responsabilidade fiscal, reformas, meritocracia, mais mercado e menos intervenção do governo. “O voto não foi de protesto, mas de mudança: todos querem uma mudança muito radical”, afirma ele, que não enxerga ameaça à democracia ou às instituições por causa do sistema de pesos e contrapesos do poder brasileiro.

Para o professor, há um cordão umbilical que liga o problema fiscal ao crescimento. Assim, além da arrumação nas contas por meio de reformas, será necessário estimular a economia sobretudo com investimentos em infraestrutura e exportações.

Algumas promessas de campanha, porém, como zerar o déficit fiscal até o fim do próximo ano, não têm a menor chance de ocorrer. Leia, a seguir, a entrevista:

Valor: Mais do que em outras eleições, as propostas econômicas dos candidatos foram pouquíssimo debatidas neste ano. Os brasileiros deram um cheque em branco ao presidente eleito?

Simão Silber: Não vejo como um cheque em branco, mas como um voto pela esperança de mudança. O cidadão brasileiro ficou muito marcado pelo que aconteceu nos 13 anos de governo do PT. Numa primeira etapa, muito bem. Mais recentemente, de uma maneira muito trágica.

Valor: Foi essa esperança que fez o brasileiro dar o benefício da dúvida a Bolsonaro?

Silber: Sem dúvida alguma. As estatísticas mostraram que 73% dos eleitores não votaram em seu candidato preferido, mas, sim, contra um candidato que não queriam em hipótese alguma. O voto não foi de protesto, mas de mudança: todos querem uma mudança muito radical. Desde a redemocratização, tivemos 30 anos de governos nos quais houve um protagonismo muito grande do Estado. Desde o fim do primeiro mandato de Lula e nos de Dilma, também houve o abandono da responsabilidade fiscal. A crise de 2008 contribuiu para essa exacerbação: já que o mercado não funciona, o Estado entra, com um protagonismo exagerado, que terminou como todos sabemos. Essa mistura do estatismo e irresponsabilidade levou a população e o eleitorado brasileiro a tentar alguma coisa diametralmente diferente, com mais iniciativa privada e menos Estado. É uma mudança radical. Tenho boas expectativas, mas não tenho certeza se politicamente será factível.

Valor: A realização de debates durante o segundo turno teria ajudado no entendimento das propostas econômicas do novo governo?

Silber: Não. Os encontros que aconteceram foram pautados muito pelo lado pessoal e pouco pelo programático. Um dizia para o outro: “Você é nazista”, o outro respondia: “Você é comunista”. “Você é contra gay”, “Você é a favor de gay”… É uma agenda absolutamente vazia do ponto de vista econômico. Agora é abaixar a poeira porque acabou o jogo. Não vai ter terceiro tempo.

Valor: A promessa de campanha de zerar o déficit público em um ano tem alguma chance de realmente acontecer?

Silber: Nenhuma. Mas algumas coisas vão ajudar. Como uma recuperação da economia de maneira um pouco mais sólida, que trará melhora na arrecadação. Alguma coisa de privatizações e concessões também entrará no caixa. Não vai ser US$ 1 bilhão, nem US$ 1 trilhão, no entanto, algo que ajudará. O déficit primário, porém, não vai ser zerado em 2019. Não há sequer condições físicas para isso.

Valor: Ajuda, mas não resolve?

Silber: O que entra na agenda, e não vai ser da noite para o dia porque o problema também não aconteceu da noite para o dia, é um controle maior sobre benesses que o governo pode dar, em relação à desoneração tributária. Depois da denúncia feita pelo [dono da JBS] Joesley Batista, o [presidente Michel] Temer [PMDB], para não sofrer um processo de impeachment, teve de fazer uma série de acordos, perdeu muita força política e foi aprovada uma pauta bomba, que abrigou desde o Refis escandaloso até o aumento de salário do setor público. Tudo isso vai ter de ser administrado e tem muita casca de banana aí.

Valor: Recentemente, o então candidato Bolsonaro recebeu uma comitiva do agronegócio e desistiu de juntar os Ministérios da Agricultura com o do Meio Ambiente. Também, após a visita de industriais, desistiu de fundir o Ministério da Indústria com o da Fazenda. Foram só promessas de campanha?

Silber: Talvez, até por ser neófito na área, quando ele perceber que há necessidades irreconciliáveis e que no setor público é muito complicado fazer uma mudança tão radical, voltará atrás. Se insistir nessa direção, estará indo a um caminho inadequado. O problema do Brasil não é número de ministérios. A China tem 500 ministérios, é sólida e cresce sem parar. Do ponto de vista econômico, o grande desafio é sinalizar que o governo brasileiro está procurando dar uma trajetória para as contas públicas com algum tipo de consistência para os próximos três ou quatro anos. Ou seja, que a gente não vai para o calote, nem voltar para uma inflação alta. É preciso sinalizar essa direção de maneira rápida porque pode ter uma mudança significativa no cenário externo. Se a gente estiver pendurado na brocha, ou seja, não tiver definido um programa de solução para o problema fiscal, vamos ser atropelados.

Valor: A agenda prioritária na economia deve ser a da reforma da
Previdência?

Silber: A reforma da Previdência faz parte do conjunto de medidas que indicam, no futuro, o que queremos para as contas. Outra coisa fundamental é levar adiante um programa ambicioso de infraestrutura. Não temos rodovias adequadas, não temos ferrovias, não temos hidrovias, temos poucos portos e estamos muito mal em geração de energia. Um programa ambicioso de concessões faz duas coisas: dá dinheiro para o governo e deslancha o crescimento, sobretudo porque envolve construção civil. Por outro lado, qualquer câmbio mais adequado e algum acordo com vizinhos, com a Europa ou com quem quer que seja também alavancará as exportações. Não consigo separar uma coisa da outra: tem um cordão umbilical ligando a parte fiscal com o crescimento. Por aí, a arrecadação dispara, a taxa de desemprego e subemprego, que criam um problema social dramático, diminui. Portanto, teremos de assobiar e chupar cana ao mesmo tempo.

Valor: O presidente saberá agir com relação às medidas impopulares que precisará adotar?
Silber: Houve uma mudança totalmente inesperada nessas eleições, que foi a renovação da Câmara, em mais de 50%. Não estou dizendo que ele vai conseguir ser bem-sucedido, mas isso cria um novo cenário de negociações. Todo o problema brasileiro é fiscal: não é monetário, não é cambial, não é de balanço de pagamentos. O problema fiscal se resolve no Congresso aqui e no resto do planeta Terra. Não tem saída. O Executivo não faz nada sem o Congresso na parte fiscal e vai ter de ter uma grande negociação estratégica, dizendo o que a gente quer desse país. Queremos um país letárgico, que cresce 1%, 1,5% ao ano e, se der tudo certo, de 2% a 2,5%, ou vamos almejar mais alto? Tem de ter uma estratégia. O problema do Brasil é que a gente não tem plano de voo: quando não se sabe aonde quer chegar, qualquer lugar serve.

Valor: Qual é o recado das urnas?

Silber: A população deu um aval dizendo que quer melhorar sua vida. Quer olhar para seu filho e dizer que ele não precisa ir para o Canadá, para Portugal, para os Estados Unidos, porque tem futuro aqui. Para isso precisa ter oportunidades, criadas com investimento, crescimento, emprego, tecnologia. Tem de ter uma estratégia, e não é batendo cabeça para chegar a algum lugar. É com ajuste e dinamismo, ajuste, crescimento e reformas.

Valor: Essa premissa de construir um país melhor foi tomada mesmo com a eventual ameaça de risco à democracia?

Silber: Minha opinião, como amador, já que não sou analista político, é que, se teve um risco à democracia, foi com o PT, que triturou até ao máximo, por exemplo, o Judiciário. Foram até a ONU reclamar do Judiciário brasileiro por perseguição política. Se teve uma ameaça à democracia, ela está superada. Não vejo o Bolsonaro como essa ameaça porque o Judiciário está livre e o Legislativo ganhou força.

Valor: Áreas como educação e terceiro setor estão muito receosas com relação ao governo Bolsonaro. Esse medo é justificado?

Silber: Sim, mas nós temos muito “check and balance” [pesos e contrapesos, num sistema no qual o poder controla o próprio poder]. Um dos sonhos do PT, por exemplo, era fazer o controle social sobre a mídia, coisa que jamais conseguiu. Temos pesos e contrapesos que vão evitar “ismos” porque nada extremado é adequado. Pode ser que eu esteja extremamente otimista, mas a minha sensação é que estamos começando uma fase nova, que pode ser muito adequada ao Brasil do ponto de vista econômico. Se esse avanço vingar, a agenda de costumes [que pautou a campanha] perde relevância. Só ganha relevância se a maionese desandar. Aí, sai de baixo porque vai ser ruim.

Valor: Faz sentido a proposta de independência do Banco Central?
Silber: É uma proposta importante, já que o Brasil perdeu não só a credibilidade, como também o grau de investimento. O governo Temer tem um lado inadequado, o do arranjo político, mas teve a faceta oportuna de ter trazido uma equipe econômica, inclusive no Banco Central, extremamente competente. A duras penas, eles conseguiram descobrir onde estavam escondidas as maracutaias do Tesouro Nacional. Daria credibilidade ao governo entrante manter essa equipe técnica de primeiríssima qualidade. Ficar com o Ilan [Goldfajn] na presidência do Banco Central, passar essa lei de independência do BC e, daqui dois anos, trocar a diretoria ou a presidência. Do ponto de vista econômico, o que se consertou neste ano e meio foi muita coisa. Hoje se sabe o tamanho do buraco cavado pela contabilidade criativa, números fajutados e tragédia montada. O Bolsonaro não recebe uma herança maldita do ponto de vista econômico. Talvez seja muito forte dizer que isso acabou, mas saiu do radar gastar adoidado e dar dinheiro para os amigos. Espera-se agora responsabilidade fiscal, reformas, meritocracia, mais mercado e menos intervenção do governo. Não vai ter mais um BNDES dando dinheiro para os amigos, nem festa na Petrobras. Só isso é uma enorme vantagem.

Valor: O presidente Michel Temer já veio a público dizer que, caso Jair Bolsonaro queira, ele tentará aprovar a reforma da Previdência antes da posse. Faz sentido?
Silber: Seria interessante fazer já, porque a proposta é muito boa. Vamos ver muita coisa até a posse. É preciso ver se aquilo que Bolsonaro defendeu na campanha, responsabilidade fiscal e a implantação de um modelo de governo mais liberal ou pró-mercado, se consolida até o começo de janeiro. Se não vierem sinais consistentes, o risco Brasil e o câmbio disparam. Vale prestar atenção ainda na negociação para a presidência da Câmara e do Senado, que sinalizam muito se o Executivo se acertou com o Legislativo. Se tiver esse acerto, é meio caminho andado para ajustes e reformas.

Valor: Bolsonaro nunca foi pró-mercado, ao contrário do economista Paulo Guedes, que deu o aval a seu programa. O presidente vai respeitar seu provável ministro da Fazenda?
Silber: Acredito que sim, porque sua proposta é compatível com que o país tem de fazer. Algumas coisas que Bolsonaro já sinalizou – não privatizar a Petrobras, o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal -, não vejo como grande problema. Mas tem muita coisa para fazer, com menos Estado, mais mercado e mais responsabilidade. O discurso alternativo, defendendo que não havia necessidade de reforma da Previdência e que o governo está aí para gastar, não interessa de onde vem o dinheiro, não dá. O Brasil está quase quebrado. Tem de mudar. Estou otimista. Espero não me frustrar.

Fonte: Cristiane Barbieri, Valor Econômico, 1/11/2018 

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