Retrato de Márcio Utsch, presidente da Alpargatas

Retrato de Márcio Utsch, presidente da Alpargatas – Jardiel Carvalho/Folhapress

Márcio Utsch diz que Previdência é reforma inevitável e espera um presidente atento a saneamento, tecnologia e educação

Ao escolher em quem vai votar para a Presidência do Brasil neste ano, Márcio Utsch, o presidente da Alpargatas, não está preocupado se o candidato prometeu reformar a Previdência.

Para ele, a escolha deve estar pautada em projetos de longo prazo, como educação, saneamento e infraestrutura.

“Eu não votaria no candidato que vai fazer ou não vai fazer reforma da Previdência. Qualquer um vai ter de lidar com esse problema”, diz.

A indefinição em torno do cenário eleitoral que suspendeu os investimentos é um problema que não vai passar após a eleição, diz Utsch.

A dúvida vai apenas se modificar. “Seja lá quem for o candidato, para reduzir essa outra inércia que será gerada a partir da eleição, deverá vir a público e declarar com clareza o que vai fazer.”

Esse clima de indefinição afeta a Bolsa. Ele também afeta consumo ou não faz diferença?

Se você tem a dúvida sobre quem vai ganhar, você vai deixar de comprar um chinelo? Não, porque chinelo é barato. Essa aposta não é radical.

Mas, se for para comprar uma casa, é diferente porque a dúvida paralisa as apostas mais radicais.

Esse alto risco então explica um pouco o fato de as empresas terem paralisado investimento?

Se forem apostas radicais, explica. Investir é fazer uma aposta. Um fator muito importante para a gente é o preço do petróleo e o preço de câmbio. Na Alpargatas nós consumimos muito insumos oriundos do petróleo.

Frio no hemisfério Norte com mais uso de calefação, a questão entre Irã e EUA são pressões que elevam o preço. E tem o câmbio, que está na faixa de R$ 4. Isso traz dúvida, mas eu não posso parar de produzir. Não sei se o câmbio vai ser R$ 6 ou R$ 3,50. O câmbio tem variação grande de acordo com as políticas econômicas e com quem vai ser eleito.

E dá para aumentar preço nesse cenário?

E eu pergunto se dá para ter prejuízo. Se não se pode aumentar preço, o que é uma possibilidade, se pode mexer no mix de produtos, no sistema de produção ou fazer alguma coisa, porque a produção não pode parar.

O sr. já estão pensando nessas alternativas?

Claro. Temos uma área com gente só fazendo isso o tempo todo. Tem produto que consome menos borracha. Temos uma turma preparada para desenhar e colocar produtos em evolução.

O sr. está há 21 anos na Alpargatas e como presidente há 15, pegou vários governos e acionistas. Comparando o período atual com outros de indefinição, há peculiaridades?

A população vai se conscientizando do ponto de vista político e isso leva a outra consciência social mais importante. As coisas são evolutivas.

Na época do apagão, tivemos de desligar a luz. Todo o mundo aprendeu a economizar água na crise da seca. A crise pela qual estamos passando é política, econômica, mas também é ética.

Retrato de Márcio Utsch, presidente da Alpargatas – Jardiel Carvalho/Folhapress

Mas as pesquisas eleitorais mostram dois candidatos liderando, seriam eles o resultado de uma evolução da consciência da população sobre ética?

Eu entendo o voto útil. Pode ser que as pessoas queiram um candidato que diga que vai quebrar tudo e começar de novo. E há as pessoas que, por outro lado, têm suas memórias afetivas.

Hoje alguém comenta sobre ditadura, dívida externa, inflação? Não, porque já acabou. Eu não votaria em quem vai fazer ou não vai fazer reforma da Previdência. Qualquer um vai ter de lidar com esse problema.

Então eu levaria três coisas em consideração.

A primeira é educação, e leva 20 anos para formar uma pessoa, não apenas para se alfabetizar, mas para ter profissão e visão clara do mundo.

A segunda seria um programa de saneamento e acesso à internet, o que é de longo prazo, e a terceira, um programa de infraestrutura.

O sr. está em busca de um estadista? Temos um estadista hoje?

Se temos uma estadista, eu ainda não achei ou não me contaram.

O sr. mencionou a questão ética. A Alpargatas teve a Camargo como sócia e depois da Lava Jato foi para a J&F, que também teve crise ética e foi novamente vendida. Isso impactou as marcas? Como conseguir se desvencilhar da situação dos acionistas antigos?

Quem passou por isso não foi a Alpargatas. A Camargo Corrêa tinha aproximadamente 44% do capital da Alpargatas, não era dona. Vendeu para a J&F, e esta, por sua vez, vendeu.

Essas empresas tiveram problemas e ainda têm. Não tenho contato, portanto não sei em que estágio estão de solução. A Alpargatas não tem nenhum problema com nada disso.

Nós temos em torno de 5.500 acionistas. A companhia é uma sociedade anônima, tem políticas e formas de trabalhar. A empresa tem governança própria.

Hoje, nós somos a empresa mais antiga com capital aberto em Bolsa no Brasil.

Essas empresas foram criadas bem depois da Alpargatas. Os lojistas, atacadistas e pessoas que compram nas lojas entenderam isso.

Ainda na política. Essa insegurança toda tem data para acabar após o segundo turno seja quem for o presidente?

Esse problema não passa. Ele se modifica.

Não haverá mais a dúvida sobre quem será a pessoa eleita, mas passa outra dúvida: o que essa pessoa vai fazer? Vai cumprir todas aquelas promessas? Resolver segurança, financeiro?

Dá para resolver tudo? Muito pouco provável.

O que vem primeiro? Aumentar imposto, reduzir dívida? Reduzir o tamanho do estado ou não?

Seja lá quem for o candidato, para reduzir essa outra inércia que será gerada a partir da eleição, ele deverá vir a público e declarar com clareza ou mandar um documento dizendo: “Terminou a eleição e está aqui o que eu vou fazer”.

O que o sr. achou da capa da revista The Economist sobre Jair Bolsonaro?

Achei muito pequeno o artigo para o tamanho da capa. Se você olha a capa, pensa que dentro tem um negócio bombástico. Mas a reportagem é pequena e tem um bando de coisa errada.

A impressão que eu tenho é que a pessoa que escreveu torce para alguma coisa, ela não é isenta. Tenho a sensação de que, se a pessoa se basear naquilo que leu lá, vai pensar que o negócio está pior do que está. Não acho que seja exatamente como está colocado. É minha hipótese de interpretação.

O protesto dos caminhoneiros pegou vocês de surpresa?

Totalmente. Nossa frota é terceirizada, mas foi um caos. Tivemos de parar todas as fábricas. Chegou a um ponto que não tinha entrada de matéria-prima para produção e não tinha saída de produto acabado para liberar o depósito.

Não tinha como levar os funcionários para trabalhar. Não tinha como transportar diariamente a comida do refeitório. São quatro fábricas principais e seis que a gente chama de satélite. Ficamos com fábrica parada 11 dias.

A paralisação teve um rescaldo porque vieram a tabela do frete e o subsídio do diesel. O setor agrário grita muito contra a tabela do frete. E o seu setor?

Também acho um absurdo. Acho que o caminhoneiro tem de ter uma remuneração decente, mas não tem espaço mais para tabela.

O que mudou com a reforma trabalhista?

Foi fantástico. A relação do emprego é muito melhor. Neste ano, depois da greve dos caminhoneiros, nós contratamos mil pessoas. A aposta não é mais radical.

Contratamos na CLT tradicional, mas hoje ela é muito mais arejada.

Eu teria feito isso antes? Com certeza não. Faria um pouco de hora extra. O índice de reclamação trabalhista era muito alto. Agora o sujeito tem de pagar uma parte disso. Tem uma responsabilidade.

Márcio Utsch, 59

Graduado em administração de empresas e bacharel em direito, com MBA em gestão de negócios; foi superintendente de compras e de operações da Mesbla, diretor comercial e logística de distribuição da Gradiente e empresário do setor de calçados e utilidades domésticas; ingressou na Alpargatas em 1997, que preside desde 2003.

Fontes: JOANA CUNHA e Alexa Salomão, Folha de S.Paulo, 7.out.2018 às 2h00

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