No fim de julho, um grupo de manifestantes ligados ao Movimento Brasil Livre (MBL) foi para a frente da sede do Facebook, no bairro do Itaim Bibi, zona sul de São Paulo, protestar contra o que disseram considerar um ato de censura por parte da empresa.

A movimentação foi gravada e transmitida ao vivo. O irônico é o canal que os  manifestantes usaram para divulgar os protestos – o próprio Facebook.

O episódio mostra um dos dilemas vividos pela companhia. Com 2,3 bilhões de pessoas no mundo acessando suas páginas todos os meses, o Facebook tornou-se um meio de expressão impossível de ignorar – mesmo que seja para falar mal da própria rede social.

Essa influência crescente vem despertando a atenção das autoridades em vários países, que têm cobrado ações mais firmes do Facebook em uma série de frentes vitais, como a proteção dos dados dos usuários e o combate ao fenômeno das notícias falsas.

O ponto de inflexão para o Facebook veio com o escândalo da Cambridge Analytica, extensamente noticiado desde sua eclosão, em março deste ano. A consultoria política, que trabalhou para a campanha de Donald Trump à Presidência dos Estados Unidos, teve acesso indevido a dados de 87 milhões de perfis do Facebook, incluindo os de 443 mil brasileiros.

O caso obrigou a maior rede social do mundo a mudar suas políticas de dados e levou Mark Zuckerberg – cofundador, diretor-presidente e face pública da companhia – a comparecer diante do Congresso americano para dar satisfações.

Embora a comoção tenha ficado para trás, o episódio continua a provocar consequências para o Facebook. No início do mês, o Pew Research Center, um respeitado instituto de pesquisas de Washington, revelou que 54% dos usuários americanos do Facebook com 18 anos ou mais disseram ter ajustado suas configurações na rede social nos últimos 12 meses.

Quatro em dez usuários (42%) afirmaram ter interrompido o uso por várias semanas e um quarto do público (26%) disse ter apagado a rede de seus celulares. Ao todo, 74% dos americanos adotaram uma dessas ações no último ano.

O desgaste desses episódios modificou a cultura interna do Facebook, diz uma pessoa que acompanha a empresa. Com uma reputação extremamente positiva, a companhia nunca teve de se preocupar, anteriormente, em fazer um trabalho específico para gestão de suas marcas, que inclui outras propriedades muito populares na internet, como o WhatsApp e o Instagram. Isso mudou. “Eles estão mais humildes”, comenta outra pessoa.

As notícias falsas são uma questão central. Acusações de que autoridades russas usaram contas falsas no Facebook para favorecer a campanha de Trump fizeram com que a companhia ampliasse significativamente os gastos para evitar mais problemas desse tipo, incluindo a contratação de profissionais para combater o uso de robôs e a aliança
com agências de checagem de notícias.

No Brasil, informou o Facebook ao Valor, há parcerias com três delas – Lupa, Agência France Presse e Aos Fatos. Inicialmente, o Facebook começou a “carimbar”as postagens que traziam notícias falsas nos Estados Unidos, mas logo percebeu que isso aumentava o número de compartilhamentos. Agora, o usuário recebe um aviso do tipo “pop up”, que salta na tela, advertindo sobre o conteúdo e perguntando se, mesmo assim, a pessoa quer passá-lo adiante.

A avaliação interna tem sido positiva. Em média, o trabalho de checagem reduziu em 80% a distribuição de notícias falsas, informou o Facebook.

O algoritmo também passou a “degradar”as postagens com notícias falsas, restringindo automaticamente seu alcance. Além disso, a empresa está proibindo que esse conteúdo seja remunerado, numa tentativa de asfixiar os meios de financiar grupos organizados que querem se aproveitar da sua plataforma digital.

Outro ponto a que a companhia tem dado atenção especial é deixar mais claras suas políticas de uso para tornar a rede mais confiável. No Brasil, já retirou do ar páginas com notícias falsas que infrigiam regras de spam – o envio não solicitado de mensagens. No episódio do MBL, perfis autênticos de líderes do movimento foram retirados do ar porque a empresa identificou que eles gerenciavam outros perfis, alguns falsos, afirma uma pessoa com conhecimento do caso.

No comunicado emitido à época, o Facebook informou que desativara 196 páginas e 87 perfis por participarem de uma “rede coordenada que […] escondia das pessoas a natureza e a origem de seu conteúdo com o propósito de gerar divisão e espalhar desinformação”, sem citar nomes. A lista foi divulgada posteriormente, a pedido da Justiça.

Mais recentemente, em outra medida, a empresa começou a permitir que qualquer usuário veja o histórico de mudança de nomes de um perfil. É uma tentativa de dificultar que páginas criadas para um fim específico e que já atraíram muitos seguidores – o fã-clube de uma dupla sertaneja ou o perfil de uma companhia, por exemplo – ganhem finalidades muito diferentes das originais, como o apoio a um candidato ou a um partido político.

O Facebook também luta para dissipar a nuvem de desconfiança em outras áreas.

Críticos da companhia dizem que sua posição é dúbia em relação à produção jornalística profissional. Zuckerberg tem repetido que a imprensa livre é fundamental para a democracia, mas, em janeiro, anunciou uma mudança no algoritmo da rede para priorizar as postagens de amigos e familiares em detrimento das de companhias e marcas, inclusive empresas jornalísticas que usam a plataforma para publicar notícias. A ambiguidade provocou tensão.

A mudança no algoritmo não provocou uma redução acentuada no consumo de notícias, de acordo com o Facebook. A média global caiu de 5% para 4% entre tudo o que o usuário vê na rede social. A companhia informou que estuda modelos para remunerar vídeos de companhias jornalísticas e adotou critérios para medir a confiança do usuário nos veículos de informação, privilegiando os mais bem colocados.

Fonte: João Luiz Rosa, Valor Econômico, 21/9/2018

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