“Fang”, em inglês, é o nome dado a dentes caninos pronunciados, principalmente em cachorros e lobos. Por extensão, costuma remeter à imagem clássica do vampiro de presas afiadas.

A palavra tornou-se comum em Wall Street nos últimos tempos, mas com conotação bem diferente. É a sigla com que investidores e analistas identificam um grupo seleto de companhias americanas de internet, todas com ações negociadas em bolsa: Facebook, Amazon, Netflix e Alphabet, esta última a empresa-mãe do Google.

A sigla foi criada em 2013 por Jim Cramer – ex-gerente de fundos de hedge e apresentador do canal de TV CNBC – para se referir a um grupo de ações de tecnologia de rápido crescimento.

Mais tarde, passou a incluir a Apple, com a adição de um “A”ao acrônimo. A formação também ganhou variações. No índice Nyse Fang+, por exemplo, figuram dez companhias, que vão desde a fabricante americana de carros elétricos Tesla até os grupos chineses Baidu e Alibaba, respectivamente de buscas na internet e comércio eletrônico.

Como observam alguns críticos, pode-se argumentar que o grupo das “Faang” tornou-se eclético demais para indicar, de fato, tendências concretas ou direções seguras, mas o apelo crescente dessas companhias é inegável.

Um investimento de US$ 1 mil na oferta pública inicial de ações da Amazon, em 1997 , renderia US$ 1,4 milhão, aos preços de hoje. O cálculo foi feito pelo “The Wall Street Journal”, logo depois de a Amazon atingir US$ 1 trilhão em valor de mercado, no início do mês. Na oferta pública, em 1997 , o valor da companhia não chegava a US$ 500 milhões.

Segundo a americana Rubicoin, cujos aplicativos ajudam os usuários a investir, até adolescentes ganhariam um bom dinheiro com as “Faangs” se investissem suas economias nessas ações.

A simulação da Rubicoin levou em conta um estudante que, em 2014, começasse a investir metade do que ganha com trabalhos temporários de verão. Isso considerando uma jornada de 13 semanas, com 25 horas de trabalho por semana e pagamento de US$ 10 por hora.

A conclusão é que hoje, ao fim de quatro anos, o investimento, de US$ 6,5 mil, renderia o equivalente a US$ 15,9 mil, considerando os preços dos papéis em 28 de maio. O mesmo valor aplicado exclusivamente à compra de ações da Netflix renderia ainda mais – US$ 22,6 mil.

A exuberância das empresas de tecnologia – e das “Faangs”, em particular – tem sido tamanha que as ações das companhias do grupo, incluída a Apple, contribuíram com mais de 80% do retorno do índice S&P 500, um dos mais representativos do mercado acionário americano, entre 1º de janeiro e 29 de junho deste ano. Isso significa que das 500 ações que compõem o índice, cinco foram responsáveis por 83,2% do retorno, deixando às demais 495 uma fatia de 16,8%, de acordo com a empresa de investimento Arnerich Massena.

Nos últimos meses, a concentração em torno das “Faangs” semeou o receio de que o mercado de ações pudesse enfrentar uma nova bolha pontocom, como a que explodiu no início dos anos 2000, mas o risco parece baixo. Os fenômenos são diferentes entre si, justificam analistas. Na bolha pontocom, muitas companhias novatas se aglomeravam em torno dos mesmos segmentos, com modelos de negócio frequentemente vagos e quase nenhuma perspectiva de chegar ao lucro em curto prazo.

Já as “Faangs” formam um grupo bem pequeno de empresas, que atuam sob modelos bem definidos e com escala global. Além disso, muitas áreas de crescimento essenciais para essas empresas ainda estão longe do esgotamento, como mídia social, inteligência artificial, Big Data e computação em nuvem.

O problema das “Faangs”não são a concorrência ou o risco de uma eventual bolha – são elas mesmas. Cada uma a seu modo, essas empresas mudaram a maneira como as pessoas navegam na web, fazem compras, se relacionam umas com as outras e se divertem. A valorização de suas ações reflete esse sucesso.

A Apple, um dos membros do clube, tornou-se a primeira companhia do mundo a superar US$ 1 trilhão em valor de mercado no dia 2 de agosto. Um mês depois, a Amazon repetiu a marca histórica.

A preocupação é até quando as “Faangs” serão capazes de sustentar seu ritmo de crescimento acelerado à medida que os negócios amadurecem e elas passam a enfrentar pressões mais condizentes com a influência que acumularam ao longo do tempo. Nenhuma empresa consegue crescer a taxas explosivas indefinidamente, e as “Faangs”não são exceção.

Um lembrete doloroso da validade dessa regra veio em meados de julho, quando a Netflix anunciou que falhara em alcançar a projeção de aumento do número de assinantes. No segundo trimestre, a companhia conquistou 5,15 milhões de clientes no mundo – 1 milhão a menos que os 6,2 milhões projetados em abril.

No dia seguinte à divulgação dos resultados, as ações da empresa chegaram a cair 14% na Nasdaq, a bolsa eletrônica americana, fechando com queda de 5%. Das 500 ações que compõem o S&P 500, as “Faang” foram responsáveis por 83,2% do retorno, deixando às demais 495 fatia de 16,8% Dias depois, um sinal ainda mais grave veio do Facebook.

A maior rede social do mundo não só divulgou que a receita trimestral ficara abaixo do previsto, como alertou que esperava um declínio do crescimento durante o resto do ano.

O desempenho, explicou a empresa, fora afetado pelo aumento das despesas, que cresceram 50% no trimestre, para US$ 7 ,4 bilhões, devido às ações da companhia para aumentar a segurança dos dados dos clientes e combater o fenômeno das notícias falsas. As ações da companhia despencaram. Em um só dia, US$ 100 bilhões em valor de mercado evaporou, o maior declínio diário na história do mercado acionário americano.

Para os analistas, é difícil prever o que ocorrerá com as “Faangs”. Alguns consideram que o grupo terá pela frente uma concorrência à altura com a expansão das “BATs”,

o bloco formado pelas chinesas Baidu, Alibaba e Tencent. As “BATs” têm, de partida, a vantagem de dominar o vasto mercado chinês, mas ainda há diferenças a considerar, inclusive os recursos financeiros disponíveis.

Enquanto, em média, as “BATs” têm US$ 32 bilhões líquidos em caixa, as “Faangs” têm US$ 139 bilhões, de acordo com nota recente do consultor Nicholas Colas, da Datatrek, empresa americana de serviços financeiros. Os valores, segundo Colas, se baseiam em dados de 2017 , com a conversão do yuan para dólar na proporção de 6,5 para 1. Para muitos analistas, o caminho mais provável é que as ações das “Faangs” se descolem umas das outras, dependendo da resposta que cada empresa der a seus próprios desafios e de como Wall Street vai interpretar essas atitudes.

Em artigo recente, a revista britânica “The Economist”propôs que as “Faangs”poderiam ser subdivididas em dois blocos menores. No primeiro, mais voltado a produtos e serviços de consumo, ficariam Facebook, Twitter e Netflix – as “Fatwins”.

Essas companhias estão longe da estagnação, afirma a publicação, mas suas áreas caminham firmemente para a maturidade, com um certo cansaço entre usuários e mais regulamentação por parte dos governos.

No outro bloco ficariam as “Magas”, orientadas a negócios entre empresas, como infraestrutura para internet das coisas e equipamentos. A lista seria composta por Microsoft, Amazon, Google e Apple.

“No exterior, há uma grande discussão sobre o papel de empresas que mudaram a vida das pessoas e a maneira como mercados operam”, diz Marcelo Tripoli, vice-presidente da área digital da consultoria McKinsey.

“O que se discute é como equilibrar o crescimento dos negócios com a responsabilidade que as empresas assumiram”. Nas próximas páginas, o Valor publica reportagem sobre as principais ameaças para as “Fangs” – sem o “A”duplo da Apple – e de como essas empresas estão lidando com os desafios para continuar a crescer.

Fonte: João Luiz Rosa, Valor Econômico, 21/9/2018

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