Sombras de pessoas em frente a um balão colorido, durante festival no México

Sombras de pessoas em frente a um balão, durante festival no México – Mario Armas/AP

WASHINGTON – Testes de personalidade são muito populares, mas, se você perguntar a psicólogos, eles dirão que os resultados são pouco melhores que um horóscopo.

No entanto, um novo estudo, baseado em grandes conjuntos de dados sobre personalidade de 1,5 milhão de pessoas, persuadiu um dos mais severos críticos dos testes de personalidade a concluir que talvez existam tipos de personalidade distintos, afinal.

Em relatório publicado na segunda-feira (17) pela revista Nature Human Behavior, pesquisadores da Universidade Northwestern, no Illinois, nos EUA, identificaram quatro tipos de personalidade: reservada, exemplar, média e autocentrada.

A nova abordagem nada tem em comum com testes de personalidade amplamente usados, como o Myers-Briggs, que divide as pessoas em grupos recorrendo a acrônimos como INTJ (que em inglês representa introversão-intuição-raciocínio-juízo) ou ESFP (ou seja, extroversão-sensibilidade-sentimento-percepção).

“Os estudiosos de psicologia social em geral se opõem a avaliações de personalidade do tipo Myers-Briggs”, diz Alexander Swan, psicólogo no Eureka College, do Illinois, que critica esse tipo de testes de personalidade.

O Meyer-Briggs, desenvolvido na década de 1940, se baseia nas ideias do psicanalista suíço Carl Jung, de que as pessoas podem ser agrupadas em arquétipos. (Os arquétipos em questão não são constatações empíricas, mas sim a avaliação de Jung sobre motivos literários e observações dele sobre as pessoas que conhecia.)

Os testes Myers-Briggs classificam cada participante com um entre 16 arquétipos, mas as questões são mal redigidas, diz Swan. E diversos estudos demonstram que os tipos de personalidade definidos pelo teste são inconsistentes e não têm capacidade de prever sucesso profissional ou outras características.

As pessoas tentam enquadrar umas às outras em repositórios categóricos há milhares de anos. “Essas ideias remontam aos gregos antigos, como Hipócrates e caras assim”, diz Martin Gerlach, pesquisador de pós-doutorado que estuda sistemas complexos na Universidade Northwestern.

Gerlach e seus colegas Luís Nunes Amaral e Beatrice Farb estão tentando conduzir essas velhas ideias ao reino do big data. Optaram por uma abordagem relativamente nova —em lugar de aderir às teorias jungianas, decidiram analisar quatro grandes conjuntos de dados.

Também solicitaram o apoio de William Revelle, psicólogo da Universidade Northwestern que sempre expressou grande ceticismo sobre a ideia de tipos de personalidade. Inicialmente, ele se opunha ao estudo conduzido pelo grupo. “Serei muito direto”, diz. “Minha primeira reação foi a de que isso era bobagem.”

Os psicólogos sociais disputam a existência de tipos de personalidade. Traços de personalidade são outro assunto e “podem ser medidos de maneira coerente ao longo das eras e em todas as culturas”, diz Amaral, codiretor do Instituto de Sistemas Complexos da Northwestern.

Os cinco traços estabelecidos, conhecidos como cinco grandes, são: abertura, conscienciosidade, extroversão, afabilidade e neurose.

Swan concorda que os cinco grandes são um modelo bem feito. Questionários longos, tipicamente com cem perguntas ou mais, identificam se as pessoas apresentam presença forte ou fraca desses traços.

Uma das perguntas típicas pode pedir para que a pessoa diga o quanto concorda com uma declaração do tipo “vejo-me como alguém cheio de energia” ou “tendo a guardar rancores”.

Os resultados conferem um valor a cada um dos cinco traços, indicando, por exemplo, que a pessoa tem afabilidade elevada ou baixa neurose. O grande problema com os cinco grandes é que sua base é a autoavaliação das pessoas. Temos como saber de fato se somos pessoas cheias de energia?

Mas os defensores desse indicador apontam para sua coerência. As autoavaliações das pessoas frequentemente coincidem com avaliações alheias sobre os participantes.

Considerando que cada pessoa que passa por um teste sobre os cinco grandes traços recebe um resultado numérico para cada um deles, os autores do estudo tiveram de trabalhar em um espaço pentadimensional para buscar padrões. “Já ouvi falar de pessoas capazes de visualizar cinco dimensões em suas cabeças”, diz Amaral. “Eu certamente não sou uma delas.”

Por isso os cientistas recorreram a um sofisticado algoritmo de aprendizado de máquina para identificar aglomerações de traços ou, na descrição de Revelle, “calombos na massa”, nessa população pentadimensional. Amaral diz que os resultados que obteve em sua primeira tentativa estavam completamente errados.

Imagine uma melancia ao lado de algumas uvas. Se a única ferramenta de que você dispõe serve para fazer bolas de melancia, ela poderia ser usada para apanhar as uvas, mas ao atacar a melancia seriam formadas pequenas esferas que não existiam antes.

O primeiro modelo dos autores para seu estudo se assemelhava a um talher para fazer bolas de melancia. Eles escavaram o espaço pentadimensional em forma de uma dúzia de tipos de personalidade artificiais.

Revelle rejeitou o modelo imediatamente. “Não acredito nesses tipos de personalidade. De jeito algum”, foi o que ele disse aos pesquisadores, recorda Amaral. Eles decidiram averiguar seu modelo, e descobriram que o psicólogo estava certo.

Os cientistas terminaram desenvolvendo um modelo mais robusto, que permite identificar tipos menos frequentes (como “exemplar” e “autocentrado”) e mantém inalterado o tipo que apresentava mais correlações (“médio”) inalterado. Revelle pediu que eles aplicassem seu novo método a dois conjuntos adicionais de dados sobre personalidade. E os pesquisadores identificaram quatro tipos de personalidade com base nesses dados, uma vez mais.

Isso terminou por convencer Revelle —os quatro tipos de personalidade apareciam da maneira antecipada, em todos os conjuntos de dados submetidos a estudo. No total, a pesquisa representa os traços de personalidade de 1,5 milhão de pessoas, nos Estados Unidos e Inglaterra.

O novo estudo “apresenta um caso muito forte em favor de tipos de personalidade definidos de acordo com configurações dos cinco grandes traços de personalidade”, diz John Johnston, psicólogo na Universidade Estadual da Pensilvânia.

Johnston recolheu dados sobre traços de personalidade de mais de 500 mil pessoas. Ele forneceu os dados reunidos aos autores do estudo, mas não participou da pesquisa de outras maneiras.

“O que o atual estudo tem de único é sua escolha do domínio dos cinco grandes traços como ponto de partida”, diz Johnston, “em lugar de recorrer a alguns tipos existentes apenas na teoria e nascidos da imaginação do teorizador”.

Amaral e seus colegas só deram nomes às aglomerações de traços depois de as terem localizado.

As personalidades exemplares apresentam placares altos de todos os traços exceto neurose. Esse tipo tende a aparecer com frequência maior à medida que as pessoas envelhecem. “Não são pessoas maldosas, nem rudes. São gentis e polidas, e tratam os outros com respeito”, diz Amaral.

O tipo reservado não é aberto e tampouco é especialmente extrovertido, mas é afável e consciencioso.

As pessoas que têm resultado elevado no traço extroversão mas inferior à média em afabilidade, conscienciosidade e abertura são autocentradas. Amaral definiu o tipo “de modo não técnico”, dizendo que algumas pessoas são “insuportáveis”. Os homens adolescentes têm probabilidade maior de serem autocentrados, mas a proporção decresce com a idade.

“Os moleques de 18 anos vão crescer”, diz Revele. “Exceto que algumas pessoas não crescem e se tornam importantes estadistas.”

Johnson diz que não estava surpreso quanto às conexões entre tipo de personalidade, idade e gênero. “A personalidade muda muito devagar ao longo do tempo, na direção de mais maturidade, mais afabilidade, conscienciosidade e estabilidade emocional.”

Swan não está convencido quanto à utilidade dessas categorias.

“Definir uma dessas aglomerações como ‘média’ é fraco”, ele diz, acrescentando que é difícil compreender em que ajudaria descrever alguém dessa maneira. Rotular uma das categorias como autocentrada, no entanto, é um crédito para os autores do estudo.

“Isso não é algo que você encontre no teste Myers-Briggs”, diz Swan, porque os resultados do teste “são sempre positivos e gentis”.

Revelle se declarou confiante em que os tipos identificados existem, mas não sabe exatamente o que extrair da observação. “O teste Myers-Briggs se saiu bem porque as pessoas gostam de dizer que ‘sou isso’ ou ‘sou aquilo'”, acrescentou Revelle. “E isso é um grande engano.”

Ele usa o mapa dos Estados Unidos como metáfora. Muita gente vive em Nova York, Los Angeles, Chicago e Houston, as quatro cidades mais populosas do país. E ocasionalmente é útil que uma pessoa se identifique como nova-iorquina.

Mas se você se concentrar apenas nessas áreas metropolitanas, vai desconsiderar a maior parte do país. E, além disso, a cidade mais perto de onde você vive é apenas um descritor, mesmo no contexto geográfico. “Você prefere dizer que a pessoa vive no norte ou no sul, ou que ela vive em Nova York ou Chicago?”

O mesmo se aplica à identidade de alguém. “Qual é a utilidade real disso?”, ele questiona. “Não creio que tenhamos tratado desse assunto.”

Ainda não, pelo menos. Revelle está recolhendo dados sobre traços de personalidade no SAPA-Project.org (você pode fazer o teste aqui).

Gerlich quer investigar se as pessoas definidas como exemplares encontram mais sucesso em seu trabalho.

Fonte: Ben Guarino, WASHINGTON POST. Tradução de Paulo Migliacci. Publicado na Folha de S.Paulo, 18.set.2018 às 20h00

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