INTRODUÇÃO

O romance Vidas Secas, do escritor Graciliano Ramos (1892-1953), acaba de completar 80 anos de publicação. Ao longo das décadas, a obra, fundamental da literatura brasileira, tornou-se universal – e continua atual. O interior que sofre mergulhado na seca, a falta de oportunidades em um País desigual, as injustiças sociais que se perpetuam e o sonho de imigrar em busca de uma vida melhor se mantêm – não apenas no Brasil, mas também em muitas partes do mundo. À procura de outras vidas secas, o Estado se lançou no desafio de percorrer 450 quilômetros do interior do Nordeste, entre os Estados de Alagoas e Pernambuco.

O sertão sem nomes de Graciliano é onde se mora sob taipa e, facão a tiracolo, o vaqueiro pisa em ossada de boi. Os sertanejos dormem em jirau, enganam-se nas contas do patrão, sonham em ter cama de vara. Para comer, aproveitam na panela o papagaio que já morreu de fome.

Agora, o sertão é de Pelé e Branca, agricultores, resistentes da seca. De Dayse, dona da lan house, que anuncia passagem para viajar para fora, mas se vê obrigada a permanecer. De sertanejos que foram embora, de outros que voltaram. Ou de Thamires, estudante, que não vê a hora de se mandar para São Paulo.

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Propriedade onde morou Graciliano Ramos em sua infância na zona rural de Buíque, cidade do interior de Pernambuco Foto: Daniel Teixeira/Estadão
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Urubu à beira da Rodovia Graciliano Ramos (AL-210) no município de Quebrangulo, interior de Alagoas, onde nasceu o escritor Foto: Daniel Teixeira/Estadão

Diga-se: o percurso não é só de seca. Faixas de terra cobriram-se de verde. Às margens de rodovias asfaltadas, casas formam um mar de cisternas e antenas parabólicas, boa parte delas equipada com Wi-Fi. Nas cidades, ainda muito católicas, existem cafeterias gourmet e academias de jiu jitsu. Com agricultura e pecuária protagonistas da economia, no entanto, a região segue refém das chuvas.

Nos primeiros cinco capítulos, o leitor descobrirá personagens que traduzem o quão atual é a obra de Graciliano. A vida na roça, a violência, os programas sociais do governo, a baixa escolarização da população, a gravidez precoce e a questão da terra misturam-se à seca, à falta de oportunidades, às injustiças sociais e ao sonho de imigrar. As histórias também contam como a memória de Graciliano é (ou não) preservada, nos municípios onde ele nasceu, passou a infância, viveu e trabalhou, tanto pela população como pelos governos locais.

Para comentar o legado de Vidas Secas para a literatura, o Estado entrevistou intelectuais, pesquisadores e familiares do escritor, entre eles, Ricardo Ramos Filho, neto de Graciliano. “Se vivo, seria uma voz que continuaria gritando, ressaltando e colocando em foco as mazelas da vida brasileira, que são muitas e vêm se acentuando”, diz Ramos Filho.

Na sequência, o diretor de fotografia do filme Vidas Secas (1963), Luiz Carlos Barreto, fala sobre o impacto da obra, que ecoou em Cannes na época e revolucionou o cinema nacional. Na entrevista, Barreto também compartilha lembranças das filmagens na região. Acompanha o capítulo uma análise de Luiz Zanin Oricchio.

Fonte: Estadão

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