SingularityU Brasil Summit — Dia 2

David Roberts — Foto: Openspace

Se o primeiro dia do SingularityU Brasil Summit foi de sonhar e imaginar, o segundo, e último, mostrou como essas ideias estão sendo colocadas no papel e os obstáculos para que elas possam ser utilizadas.

Os humanos são péssimos com mudanças

“Houve uma época em que os discos de vinil eram importantes, eu tinha vários. Depois lançaram os CDs, e eu comecei uma nova coleção. Aí veio uma empresa californiana que criou um novo formato para a música, que permitia criar playlists e ter milhares de canções em seu computador. E eu comprei minha coleção de música uma vez mais.” Quem conta essa história poderia ser eu, ou você, porque certamente já passamos por isso. Mas foi Larry Keeley, estrategista que trabalha há mais de três décadas para desenvolver métodos de inovação mais efetivos. E continua: “Agora tenho certeza que estão trabalhando em um novo formato que vai me fazer comprar tudo de novo. Não sei o que vai ser, se vão me dar passes para o backstage da Beyonce ou se vou ver as letras das músicas no ar enquanto as escuto. Mas estou convencido que sua estratégia é me fazer comprar todas as 33 mil músicas que eu já comprei uma vez. Mas eu não vou fazer isso. Porque tenho streaming. Posso escolher uma playlist para um jantar ou para me concentrar no trabalho, porque existem milhares de pessoas dizendo pra essa plataforma o que funciona nessas ocasiões.”

Mas por que, depois de completar sua coleção três vezes, ele acha que vai continuar preferindo o streaming que o próximo formato de escutar música? “Bem, o problema é os humanos são péssimos com mudanças”. Porém, além disso, as grandes inovações, segundo ele, seguem sempre o mesmo padrão:

· a nova tecnologia precisa parecer mágica,
· a experiência tem que ser incrível,
· e o preço que pagamos por ela deve parecer justo.

Em sua palestra, que abriu o segundo dia do SingularityU Brasil Summit, Keeley resumiu partes de seu livro Ten Types of Innovation, que você pode ver aqui, e também deu muitas dicas valiosas. “Os ecossistemas são o que importam no mundo moderno. A inovação, hoje, não é criar algo novo e sim juntar várias coisas que já existem e funcionam bem juntas.”

“O olhar que não está amarrado aos paradigmas é o grande impulsionador do processo de inovação”

As ferramentas para isso já estão aí e abertas para qualquer um. Mas sempre que falamos em inovação, pensamos em adolescentes ou gente muito jovem no geral, não? Bem, a palestra seguinte, do empreendedor Plínio Targa, mostra que não é bem assim.

Foi a ideia de um senhor de 80 anos que o levou a criar a Braincare . Tudo bem que esse senhor é o Sérgio Mascarenhas, que já trabalhou com dois prêmios Nobel e fundou a Universidade Federal de São Carlos, mas ainda assim… A empresa é responsável por desenvolver um sensor que conseguiu revelar, pela primeira vez, de maneira não invasiva, o perfil do comportamento da pressão intracraniana durante um ciclo cardíaco. Isso pode não dizer nada para você, mas basta saber que, até então, a única maneira de fazer isso era perfurando o cérebro. A nova tecnologia permite fazer o procedimento de maneira não invasiva, acessiva, fácil e simples. “O olhar que não está amarrado aos paradigmas é o grande impulsionador do processo de inovação”, cravou Targa.

Estamos robotizando as crianças e humanizando os robôs

Finalizando esse bloco, a brasileira Tonia Casarin falou sobre educação, e a mensagem foi basicamente a mesma da Vivienne Ming ontem: estamos robotizando as crianças, preparando-as para testes, e ao mesmo tempo tentamos humanizar robôs, gastando tempo e dinheiro em ambos os processos.

Tonia, que é mestre em Educação pela Universidade de Columbia, em Nova York, centrou seus estudos na teoria de que o que sentimos impacta a forma como pensamos. Portanto, as emoções estão relacionadas com as nossas decisões.

Para entendermos melhor, ela usou o exemplo das crianças que, por volta dos três anos, expressam sua raiva mordendo. Segundo ela, isso acontece porque elas ainda não têm o repertório, o vocabulário, para expressá-la de outra maneira. E para ajudar a resolver esse problema, escreveu o livro Tenho um Monstro na Barriga, que ajuda a nomear as sensações e, com isso, aumenta o bem-estar, o sucesso e a felicidade. Não à toa, exatamente o que todos os pais desejam a seus filhos.

Tecnologia aplicada na geração de impactos positivos

A sexta sessão do SingularityU Brasil Summit trouxe um panorama de como a tecnologia exponencial já está sendo usada para impactar de maneira positiva diferentes áreas do cotidiano.

O antropólogo brasileiro Francisco Araújo, que trabalhou anos na ONG Viva Rio, abriu o bloco explicando os conceitos de escassez social e defasagem cultural. A escassez social, segundo ele, não se refere à indisponibilidade de recursos, mas à distribuição de habilidades: “É um problema de software social, não de hardware.”

Ele explica que o ritmo da inovação hoje faz com que em pouco tempo absorvemos conhecimentos que nossos antepassados levavam anos ou séculos para adquirir. “E mesmo assim algumas civilizações não acompanharam essas novas tecnologias e desapareceram”, diz.

Se antes os ciclos de inovação duravam entre 40 e 60 anos, hoje tudo acontece ao mesmo tempo. Porém, ainda tem sempre alguém que fica para trás. Por isso o termo “defasagem cultural”.

As abordagens tradicionais para lidar com esse desafio já não funcionam, segundo ele. “A linguagem que evolui mais rápido são os algoritmos, pela capacidade de atrair nossa atenção e nosso dinheiro. Mas quando pensamos na área social, não pensamos em utilizar essa linguagem para resolver os problemas. É preciso digitalizar o impacto. É preciso pensar do ponto de vistas dos sistemas”, concluiu.

Na sequência, o engenheiro e biólogo Raymond McCauley mostrou o que podemos esperar da área da biologia digital para os próximos anos. A velocidade das mudanças, aqui, é ainda mais impressionante.

Quando sequenciaram o genoma humano pela primeira vez, em 2001, o custo foi de 3 bilhões de dólares. Hoje, qualquer pessoa pode enviar amostras de seu DNA para uma empresa e descobrir, por apenas alguns dólares, de onde vieram os seus antepassados ou se o bebê de sua mulher é realmente seu filho. Mas a importância disso obviamente não para aí. Ao explorar seus genes você pode detectar doenças que ainda não apresentam nenhum sintoma. “Em 10 anos isso pode potencialmente acabar com o câncer”, diz McCauley. “Você faz um exame de sangue, analisa seu DNA e, se tiver câncer, você faz alguma coisa a respeito!”

O próximo passo, depois de aprender a ler o genoma, é reescreve-lo, “reprogramar a vida”. Hoje já existem centenas de estudos na área da biologia industrial, ou biologia sintética, para criar alimentos e biocombustíveis. Os chamados “organismos geneticamente modificados 3.0”. Segundo ele, o Brasil é um dos países que mais investe nessas novas tecnologias: já está no segundo lugar entre os que mais cultivam OGMs (principalmente cana de açúcar e soja) e é o que mais cresce nessa área.

“Mas o mais interessante pra mim é a agricultura celular: como conseguir bacon sem matar nenhum porco.”, reconhece o cientista. Além da discussão gastronômica — e, principalmente, ética — que levanta essa questão, ela pode responder também por outro problema: a crise de produção de proteína. “Estamos produzindo mais carne, mas não é suficiente, porque conforme os países ficam mais ricos, as pessoas querem comer mais esse tipo de comida. O consumo de carne na China já é o dobro dos EUA, e o Brasil vem logo atrás”, afirma.

Porém, sempre que se fala de tecnologias disruptivas que podem trazer tantos benefícios, é preciso pensar também como ela pode ser usada com objetivos menos humanitários. O que fazer quando se tem acesso à tecnologia potencialmente mais perigosa que a raça humana já criou? “Coloque na mão de uma criança de 5 anos, ensine a ela o mais rápido possível como trabalhar o DNA”, responde ele. “O que estamos tentando fazer é começar uma revolução. Uma revolução científica pacífica. Minha visão é que quando algo de ruim acontecer no futuro, eu quero que existam cem mil pessoas capazes de consertar isso, e quero que sejam nossos filhos.”

Brasil, o país do futuro na geração de energia e alimentos

O primeiro evento da Singularity University no Brasil apresentou diversos exemplos da presença de brasileiros em projetos que estão gerando grande impacto em todo o mundo. Mas nenhuma sessão do SingularityU Brasil Summit mostrou de forma tão clara que podemos, sim, ser o país do futuro como a que juntou Ramez Naam, Mariana Vasconcelos e Fábio Teixeira.

“A revolução energética está aqui e o Brasil está pronto para tomar a dianteira”, afirmou o cientista da computação, futurólogo e autor premiado Ramez Naam, abrindo o sétimo painel do evento. Segundo ele, o preço da energia eólica e solar vem caindo de maneira notável nos últimos anos: “O custo dos painéis solares diminuiu 250 vezes em 40 anos, e a energia eólica é hoje 15 vezes mais barata que há 26 anos”.

E o que isso significa para um país que depende basicamente de hidrelétricas? “O Brasil é um país que tem sol o ano todo, e os ventos aqui também são ótimos”, garante Naam. “Construir uma hidrelétrica é três vezes mais caro que um parque eólico, e traz consequências devastadoras para o meio-ambiente e as populações que vivem nessas áreas”.

A indústria automobilística tem interesse direto nessas novas tecnologias. Nos próximos anos veremos cada vez menos carros e caminhões dependentes dos combustíveis tradicionais, que serão substituídos por veículos movidos a energia elétrica. “Isso afeta diretamente o Brasil, exportador de petróleo e de carros”, assegurou o cientista, que terminou sua participação jogando uma pergunta para a plateia, composta por muitos executivos da área e membros do governo: “Como isso afeta a Petrobras? E a indústria do etanol?”

Considerada umas das cem pessoas mais influentes no agronegócio brasileiro, Mariana Vasconcelos abriu sua palestra afirmando que até 2030 cerca de um terço de todos os alimentos do mundo serão produzidos no Brasil. Além disso, para atender a demanda da população, será preciso aumentar a produção em 70% até 2050. E a tecnologia é quem deve ser responsável por isso.

“Os grandes desafios hoje são as mudanças climáticas, que afetam a produção, e os novos consumidores, que querem saber de onde vem a comida que estão comendo, se a produção é sustentável”, afirmou Mariana.

A solução, segunda ela, é ter uma visão sistêmica do negócio. “O segredo são os dados. Hoje o produtor tem informações em tempo real sobre o ambiente (solo e clima, entre outros) e a operação (máquinas e custos, por exemplo). A partir disso é possível criar modelos para antecipar manifestações de pragas, dizer ao produtor a quantidade de água a usar, prever o clima e desenvolver genéticas melhores que se adaptem ao ambiente.”

O uso da tecnologia para resolver os desafios na produção de água, comida e energia também é o campo de estudos do brasileiro Fábio Teixeira, primeiro indivíduo no mundo a conquistar uma bolsa integral para cursar o prestigiado programa da Singularity University, situada no campus da NASA, na Califórnia.

Em alguns meses, seu projeto, HyperCube, será levado à estação espacial internacional para mapear uma quantidade imensa de dados na Terra (100TB, ou 90 mil filmes em alta definição do Netflix, a cada 90 segundos!) que vão servir para criar modelos para prever e descobrir padrões para o agronegócio, e com isso oferecer subsídios para produzir nas próximas décadas mais comida do que produzimos nos último 10 mil anos. Pragmático, Fábio afirma “o futuro não é algo para se prever, é algo para se influenciar.”

Você prefere ser rico ou feliz?

A maratona de palestras disruptivas do SingularityU Brasil Summit, que foram aumentando exponencialmente a sensação de que o mundo vai ser um lugar cada vez mais incrível, terminou com uma palestra de duas horas de David Roberts, considerado um dos melhores especialistas do mundo em inovação disruptiva e tecnologias de avanço exponencial.

E para alguém com essas credenciais, não causa surpresa que, no dia de sua apresentação, ele tenha acordado cedo e resolvido mudar tudo, trazendo um conteúdo exclusivo para a plateia brasileira. Em “10 Leapfrogs for Brazil” (algo como “10 maneiras do Brasil dar um salto”), ele passou por diversos dos conceitos apresentados durante os dois dias de evento, aplicando-os à realidade brasileira.

Durante cerca de duas horas, Roberts mostrou caminhos possíveis e animadores para resolver os grandes e conhecidos problemas do país. A começar pelo governo. “Quando acontecem coisas ruins, somos o tipo de espécie que transforma isso. Então eu acredito que os desafios que temos com nossos governos, que afetam nossos negócios e vidas pessoais, podem nos dar esperança”, declarou.

Na sequência, mostrou uma série de tabelas comparando o PIB brasileiro com o de outros países, em que aparecemos entre a sétima e a nona posição (“Vocês estão muito bem!”). Depois, chegou ao PIB per capita, e aí o Brasil cai para o 65o. lugar. Porém, segundo ele, essas não são as melhores métricas para se analisar um país. “A felicidade pode ser uma boa medida. Ao olhar através dos anos, o brasileiro se mostra cada vez mais feliz. Você prefere ser rico ou feliz?”, perguntou.

Daí partiu para a receita que considera ideal para o país: focar nas novas tecnologias, e chegar a elas antes dos outros. “Quando eu era pequeno havia muito investimento em infraestrutura nos EUA para levar telefones para todas as casas. E a América do Sul em geral estava muito atrás. Mas quando vieram os telefones celulares, isso não importava mais, porque a nova tecnologia wireless não precisava de fios. Então isso é o leapfrog.”

E como dar esse salto? Aqui estão algumas das ideias de David Roberts para diversas áreas:

· Transporte: “O custo de construir e manter a malha rodoviária é muito alto. Com o país ficando mais rico, as pessoas querem ter carros. E isso gera trânsito, que leva à perda de tempo e dinheiro. Hoje já temos os carros voadores: são os drones! Eles são mais baratos e econômicos que um carro, e não necessitam estradas. Além disso, com a realidade virtual, nem vamos querer ir a lugar nenhum.”

· Dinheiro: “Imagine se o Brasil se juntasse com outros países da América do Sul e criasse uma moeda comum? Lidar com dinheiro é complicado: é difícil de produzir, transportar e guardar. E essas são algumas das razões para usar as criptomoedas. O Brasil pode tomar a dianteira nisso, leapfrog tudo que tem a ver com dinheiro. Seu país é o que tem mais probabilidade de conseguir isso, porque com 200 milhões de habitantes, com certeza seria a moeda mais aceita no mundo.”

· Trabalho, fronteiras e imigração: “Vocês estão cercados por outros países que não são líderes. Sem essa rede, como na Europa, o crescimento é muito mais lento. Como resolver o problema? Com tecnologia. A ideia de que a automação pode roubar o emprego das pessoas é o maior mito em relação à ela. Países com menos automação têm maiores taxas de desemprego. E a tecnologia permite que trabalhemos em qualquer parte do mundo sem sair de nossa casa.”

· Educação: “Estamos ensinando as pessoas da mesma maneira há 100 anos. Temos que começar a estudar as coisas que fazem com que tenhamos uma vida melhor. Harvard tem um curso de como ser feliz, por exemplo.”

· Medicina: “E se construímos vírus do bem? Que cure sua miopia, por exemplo. Quase todas as 30 mil doenças conhecidas poderiam ser curadas assim.”

E para terminar, como leapfrog você mesmo? “Muita gente quer fazer alguma mudança em sua vida, mas diz que não tem coragem. Sabe o que fazer? Cultive a compaixão por um grupo de pessoas — sua família, sua comunidade, seu país — e a coragem vem de graça. Todas as pessoas que mudaram o mundo fizeram isso, sem precisar de dinheiro nem poder. Elas cultivaram seu caráter.”

Fonte: Bradesco Medium

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

w

Connecting to %s