SingularityU Brasil Summit — Dia 1

Divya Chander — Foto: Openspace

Todos os dias quando acordamos temos a chance de mudar o mundo. Foi talvez com esse pensamento que 1800 CEOs e executivos de grandes empresas, além de líderes, governantes e empreendedores, madrugaram nesta segunda-feira para o primeiro dia do São Paulo SingularityU Brasil Summit, uma parceria entre a HSM e a Singularity University que tem como objetivo inspirar líderes mundiais a resolver os grandes problemas globais.

Líderes exponenciais e cidades empoderadas: soluções para o planeta

“Estamos vivendo o momento mais extraordinário da história do mundo”

E o encontro começou com um vídeo de boas-vindas do empolgado fundador da Singularity University, Peter Diamandis, vestindo a camisa amarela da seleção brasileira e fazendo referência ao descobrimento do Brasil, comemorado ontem. Para ele, “esse é o momento do Brasil redescobrir sua força e seu poder para transformar o mundo — seu potencial é maior do que a maioria dos outros países”.

O clima positivo deu o tom da fala do empresário. Para Diamandis, “estamos vivendo o momento mais extraordinário da história do mundo”. O problema, segundo ele, é que prestamos dez vezes mais atenção nas notícias negativas que nas positivas. E os números apresentados realmente são alentadores: nos últimos 100 anos triplicamos a renda global e dobramos a expectativa de vida. Nos últimos 200 anos a pobreza extrema caiu de 95% para 10%. A taxa de mortalidade infantil cresceu, a expectativa de vida aumentou. E avisou: “se você está preocupado com a superpopulação, não fique — existem mentes brilhantes pensando nisso”.

Para conduzir as mudanças, são necessários líderes exponenciais

Thomas Kriese, também da Singularity University, foi o próximo a subir ao palco, e com previsões tão otimistas quanto: com seu trabalho pretende impactar um bilhão de pessoas com tecnologias exponenciais. Seu argumento é que pensamos sempre num futuro próximo, mas temos que pensar mais adiante. A tecnologia trabalha assim: os computadores dobram sua capacidade todo o tempo, mesmo com as guerras ou crises econômicas. E cada vez que um paradigma pareceu ultrapassado, surge outro para tomar seu lugar. O melhor exemplo são nossos celulares, que hoje são 120 milhões de vezes mais rápidos que os computadores da missão Apollo (a que levou o homem à lua!) nos anos 60.

E para conduzir essas mudanças, afirmou Kriese, são necessários líderes exponenciais, pessoas que tenham quatro qualidades: ser inovador (aplicar os novos conhecimentos tanto no trabalho quanto na vida pessoall), ser um tecnologista (não fique só olhando a tecnologia acontecer, use-a!), um futurista (pense no que esperar no futuro e aja de acordo com isso) e um humanitário (use todas essas ferramentas para criar coisas boas).

“São as cidades e seus líderes que vão resolver os maiores problemas mundiais”

Mas depois de duas palestras tão pra cima, o especialista em segurança e desenvolvimento Robert Muggah trouxe um cenário um pouco mais alarmante. “As cidades são a chave para nossa sobrevivência. Se fazemos as coisas direito, podemos resistir aos próximos 100 anos. Mas se fizermos tudo errado, estamos condenados”.

Para ele um grande desafio é deixarmos de ver o mundo como conjuntos de estados nacionais e valorizar mais as cidades. “Diplomatas cuidam dos grandes temas mundiais. Mas a globalização e a tecnologia não permitem que cuidemos dos maiores problemas mundiais, como a mudança climática.”

Com mapas retirados do aplicativo Earth Time, Muggah trouxe dados assustadores sobre desmatamento, incêndios e crescimento urbano. A probabilidade de cidades como Porto Alegre, Florianópolis, Rio de Janeiro, Recife e Fortaleza serem engolidas pelo aumento das marés, por exemplo, e como além da migração isso também terá resultados catastróficos em termos de infraestrutura para todo o país.

Segundo ele, porém, há soluções. Basicamente, o fortalecimento do poder das cidades. São Paulo, se fosse um país, teria a 27a. maior economia do mundo — mais que a Tailândia, o Irã e a Nigéria. Mas, para mudar o panorama atual, precisa ganhar mais poder e autonomia para tomar decisão. “São as cidades e seus líderes que vão resolver os maiores problemas mundiais”.

Nós vamos para Marte. E o que a arte tem a ver com isso?

Uma astronauta da NASA, uma artista plástica e um especialista em energia da ONU entram em um bar e… não, não é piada, mas também esse encontro não foi em um bar. A segunda sessão do primeiro dia do SingularityU Brasil Summit trouxe ao palco histórias de vida completamente diferentes, mas com um denominador comum: a curiosidade.

“Nós vamos para Marte em 2025: marquem em seus calendários”

Foi a curiosidade que levou a médica Yvonne Cagle a entrar na NASA e, hoje, ser cientista-chefe de um programa da agência espacial americana que estuda a melhor maneira de manter em bom estado a saúde dos astronautas em longas missões espaciais.

“Nós vamos para Marte em 2025: marquem em seus calendários”, afirma ela. Mas antes disso, o plano é fazer duas viagens à Lua, para testar veículos, sistemas de comunicações, sistemas robóticos e, principalmente, os sistemas humanos. “Podíamos levar robôs para isso, mas precisamos levar os humanos, porque nós somos os exploradores. Temos que saber como o corpo muda exposto às condições tão diferentes. Já vimos diferenças no DNA de quem vai ao espaço. Nosso corpo muda quase totalmente . Todos os órgãos mudam.”

É fascinante ver a astronauta falando, principalmente porque, de tudo o que imaginamos que pode existir no espaço, a coisa que mais a intriga é justamente o corpo humano. “Ossos e músculos são o mais impressionante para mim”, diz Yvonne. “Em 8 minutos e 30 segundos você já está fora do planeta e flutuando. Mas você já está perdendo a corrida espacial”. Segundo a médica, os ossos logo começam a perder minerais, e a melhor solução encontrada até hoje é fortalecer os músculos, que os sustentam. “Depois de 83 dias, você começa a perder 10% da massa muscular. Temos que pensar nisso para passar de visitantes a colonizadores em Marte.”

Ao explicar as técnicas que estão testando para diminuir o tempo de cura de lesões, a astronauta explica seu maior desafio: “A coisa mais surpreendente é o poder que descobrimos ao perseguir o impossível. Saber que seu corpo tem esse poder impossível de se reconstruir. Se o seu corpo pode fazer isso, nós podemos fazer isso. Para refutar o impossível.”

“Todos nós somos criativos em potencial, nascemos com esse dom”

Sair dos padrões conhecidos e impostos para testar novas formas de pensar também fazem parte da trajetória da artista plástica Joana César. Ao ter seu diário roubado pelo irmão aos 12 anos, inventou um código escrito para que ninguém nunca pudesse entender o que ela queria dizer.

Anos depois, passou a pintar, mas o que mais a atraía era esconder seu trabalho com folhas de papel. Trancada no quarto, criou um mundo impenetrável. Até que começou a observar uma briga pelo “espaço publicitário” de um poste de luz no Rio de Janeiro.

Mãe Valéria e Pai Claudio de Ogum colavam cartazes oferecendo seus serviços um sobre o outro, disputando um território que provavelmente mal era percebido por quem queriam atingir. Mas foi o que levou Joana a se soltar, a ter a coragem de mostrar seu trabalho para o mundo.

E daí a virar pichadora. “Minha família imaginava que eu tivesse perdida: antes eu não sabia o que fazer, depois virei delinquente!” Hoje se considera artista plástica, e tira uma lição de sua trajetória: “o exercício da criatividade nas áreas que, em tese, não estão autorizadas a isso — todos nós somos criativos em potencial, nascemos com esse dom.”

Buscando soluções para reduzir as emissões de CO2 e outros desafios sustentáveis para o planeta

A criatividade também é o ponto principal do trabalho de Alex Paris, especialista em Energia das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (UNFCCC). Da criança curiosa que explicava para os pais aos três anos características de insetos e plantas do jardim de casa, hoje busca soluções para reduzir as emissões de CO2 e outros desafios sustentáveis para o planeta.

Entre as propostas mais promissoras, apresenta o uso do blockchain fora do conceito de criptomoedas. No ano passado foi jurado de um hackaton que tinha como objetivo propor usos alternativos da tecnologia para mudanças climáticas. A equipe vencedora criou um banco de dados de propriedades de títulos de terras de preservação florestal em áreas isoladas, monitoradas por satélites.

O sistema preveria por meio de machine learning as áreas que mais precisavam de proteção, e financiavam esses custos por crowdfunding.

A curiosidade é o que leva o ser humano a querer explorar outros planetas, outras formas de arte e outras formas de responder às mudanças ambientais. E com tantas dúvidas que isso suscita, a astronauta Yvonne Cagle nos deixa com algo para pensar: “Há pelo menos duas coisas que ainda estamos no controle: o que escolhemos acreditar e o que ainda sonhamos”.

Futurismo, música visual e Black Mirror

Música + tecnologia

Bater o olho em uma coisa e chegar a um pensamento que não tem nada a ver com ela. Quantas vezes passou com você? E o que você fez em relação a isso? O músico Jarbas Agnelli transforma em música. Em sua apresentação na terceira sessão do primeiro dia do SingularityU Brasil Summit, ele mostrou alguns trabalhos que encantaram o público, muito por sua sensibilidade, mas, principalmente, pelo uso da tecnologia pra viabilizá-los.

Aquela foto clássica, de dezenas de pássaros sentados em cabos de energia, sabe? Quando Jarbas viu uma dessas, com exatamente 5 cabos, sua mente a transformou em uma pauta, o conjunto de 5 linhas horizontais onde são escritas as notas em uma partitura musical. E cada pássaro virou uma nota. E as notas viraram uma música, que virou um vídeo, que ganhou um prêmio. “Birds on the Wires”, vencedor do festival YouTube Play Guggenheim, foi escolhido entre 23 mil vídeos de 91 países, e pode ser visto aqui.

Depois disso, ele foi convidado por outro vencedor do prêmio, o australiano Keith Loitit, para juntos construírem com a técnica tilt shift o projeto “The City of Samba”, uma animação de 168 mil fotografias do Rio de Janeiro. A trilha sonora também foi feita por uma orquestra, mas o desafio aqui foi pegar notas que normalmente eram tocadas por instrumentos de escola de samba e reproduzi-las com os clássicos. O resultado está neste vídeo.

Conectando seu cérebro às máquinas

Da música passamos para a robótica aplicada à saúde. A médica e neurocientista Divya Chander fez uma apresentação “muito Black Mirror”, mostrando como a ciência está usando o cérebro para conectar os humanos às máquinas. Foram dezenas de exemplos que revelam que a realidade já está muito próxima do que nós, meros mortais, vemos somente como ficção científica.

Usar a ressonância magnética para mapear o cérebro e reconstruir imagens de filmes que os pacientes estavam assistindo. Um grupo japonês usa essa técnica para tentar reconstruir sonhos. Ou detectar mentiras (a pessoa pode mentir na sua cara, mas o cérebro dela diz a verdade).

Implantes elétricos conectados ao cérebro de atletas e músicos com doenças neurológicas que eliminam sintomas como tremores. Ou um ultrassom que pode causar estímulos e fazer uma minhoca mudar seu caminho ao escutar um sinal. Isso pode trazer a cura para doenças como Alzheimer, por exemplo.

Eletrodos que funcionam como um tradutor de mentes: aparelhos que leem pensamentos e mandam a informação para um equipamento externo. Usar o cérebro para controlar coisas externas ao corpo pode permitir que pessoas com tetraplegia possam escrever um e-mail ou tomar um copo de água.

A Dra. Chander também falou sobre um movimento para aumentar os sentidos humanos: há quem use um aparelho que transforma as cores em sinais sonoros, ou sensores magnéticos conectados ao cérebro para saber onde fica o norte — uma bússola humana.

Mas, como bem aprendemos em Black Mirror, a tecnologia que pode ser usada para o bem, também pode ser usada para o mal. Exércitos do mundo todo pesquisam exoesqueletos para transformar uma pessoa comum num super soldado. Empresas que tentam trazer de volta à vida cérebros congelados. “Você deixaria que hackeassem seus sonhos?”, questiona.

Ressignificando a inovação

E quem terminou esse bloco de palestras, batizado de Conectando os Pontos, justamente por pegar informações tão diferentes e tentar tirar algum sentido, foi o brasileiro Tiago Mattos, futurólogo. Em uma apresentação rápida, deu dicas para quem quer empreender no Brasil: a principal coisa, segundo ele, é ressignificar a inovação e criatividade. Basicamente, transformar o jeitinho em algo sério, que não seja visto como uma solução alternativa. Ou fazer mais por menos.

O pragmatismo e porque precisamos dele

“Viva uma vida que pode fazer a diferença para outras pessoas”

O último bloco do primeiro dia da SingularityU Brasil Summit foi completamente pé no chão. “A tecnologia não é o problema nem a solução, é apenas uma ferramenta”, sentenciou a neurocientista, tecnóloga e empresária Vivienne Ming.

Ela relatou uma experiência pessoal em que precisou lidar com a medicina, e como isso pode ser frustrante, especialmente quando você é uma cientista tão renomada (ela foi uma das 10 escolhidas do Women to Watch in Tech de 2013 pela revista Inc. ).

Há seis anos, descobriu que o filho tinha diabete tipo 1. Ela e a esposa, também cientista, quiseram entender o que acontecia com ele, e por isso passaram a anotar tudo o que ele fazia, o que comia, e como isso afetava seu humor. Juntaram centenas de informações e mandaram para o médico, que nunca deu um retorno.

Para tentar facilitar, imprimiram todos os dados e o entregaram em mãos. Os médicos disseram que estavam perdendo seu tempo. “Eles me deram uma folha de papel com 15 números. Eu juntei centenas de dados, mas eles só queriam 15. Eu construo modelos do cérebro, quer dizer que a diabetes é mais complexa que isso?”

Não se deixando abalar, ela seguiu com o trabalho. E criou um modelo que conseguia prever com uma hora de antecedência quando o filho teria uma crise. “Mas porque fui eu que passei por isso, e não outra pessoa, milhares de outros pacientes podem ter uma vida melhor.”

Ajudar os outros é sua razão de ser, garante ela. “Viva uma vida que pode fazer a diferença para outras pessoas. Pense em todas as crianças que poderiam inventar a cura para uma doença que seu filho poderia ter, se apenas elas tivessem a chance.”

Ela se refere a crianças pobres ou refugiadas, que não têm acesso à educação formal considerada ideal. Mas nem com isso ela concorda. “Hoje tudo que aprendemos é mensurável. É mais fácil para classificar os estudantes.

Mas as coisas que deveríamos aprender para nos tornarmos pessoas melhores são aprendizagem auto-regulada, habilidades sociais, cognição em geral, criatividade e quociente emocional. O que eu quero dizer é que se continuarmos criando as crianças pra tirar boas notas na prova e entrar na faculdade certa, teremos um futuro horrível.”

Do banal à inovação

O mestre em Saúde Pública na área de Epidemiologia e doutor em Engenharia Biomédica, Oswaldo Cruz, encerrou o primeiro dia de evento com exemplos de machine learning aplicada à saúde e tecnologia sociais aplicadas a políticas públicas. Seu nome não é coincidência, ele é descendente do sanitarista conhecido por mudar a saúde pública no Brasil no início do século XX, quando coordenou as campanhas de erradicação da febre amarela e da varíola.

Infelizmente, essas doenças não foram completamente eliminadas, mas o trabalho da família segue com esse objetivo, com tecnologia de ponta. É o caso do sistema InfoDengue, que nasceu da necessidade da Secretaria de Saúde do Rio de Janeiro de aprimorar seu sistema de prevenção não só da dengue, mas de outras doenças causadas pelo mosquito Aedes aegypti, como a zica e a chikungunya.

Antes, o paciente preenchia uma ficha manualmente, que passava para uma área para ser digitalizada. Esses dados levavam 15 dias até chegar à secretaria. “Era uma informação do passado”, contou o biólogo.

A solução foi criar um sistema de detecção precoce de surtos a partir dos dados coletados nos hospitais e também do monitoramento de redes sociais para menções às doenças. Tudo isso é então colocado num modelo e transformado em um código de alerta.

E esses foram só alguns exemplos. Para quem tem visão de futuro, coisas consideradas banais, como usar smartphones, computadores e buscar notícias nas redes sociais podem virar inovação, identificar alterações de padrões, e permitir a prevenção e o controle de doenças.

Fonte: Bradesco Medium 

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