Inteligência Competitiva: China deixar de ser mercado de mão de obra barata

Fábrica de Huajian é observada por ativistas depois que os funcionários se queixaram de jornadas de trabalho de 14 horas. (Gilles Sabrié para The New York Times)

DONGGUAN, China — Os operários da fábrica chinesa que produz calçados para Ivanka Trump e outros estilistas reúnem-se todas as manhãs, às 7h40, para cantar. Às vezes, eles exaltam a solidariedade dos trabalhadores. Em geral, alardeiam os laços entre China e África, tema do hino corporativo de sua empregadora.

E não por acaso.

Como muitos trabalhadores aqui se queixam de turnos de trabalho excessivamente longos e procuram um salário maior, a empregadora decidiu mandar seus empregos para a Etiópia.

A Huajian International atualmente enfrenta a fiscalização de ativistas quanto ao tratamento que dispensa aos operários. Recentemente, as autoridades chinesas prenderam um ativista que se infiltrou nesta fábrica para um grupo defensor dos direitos dos trabalhadores; dois outros que trabalhavam em Huajian estão desaparecidos.

Os ativistas estão de olho nas fábricas da Huajian porque as condições de trabalho na China estão mudando, e as indústrias procuram explorar os empregados, uma vez que a mão de obra está ficando cada vez mais cara.

Donald J. Trump, o pai de Ivanka, fez campanha para a presidência dos Estados Unidos prometendo trazer de volta empregos de empresas norte-americanas no exterior. Mas as profundas mudanças econômicas e demográficas implicam que a mão de obra barata não proporciona grandes lucros na China. Enquanto Trump acusa a China de roubar empregos, estes começaram a partir para outros países.

A fábrica de Huajian, que também produz calçados para outras marcas norte-americanas, foi por muitas décadas uma grande beneficiária da transferência de empregos dos Estados Unidos para o exterior. Marcas globais mudaram em massa para a China a fim de utilizar sua mão de obra barata e disposta a trabalhar.

Hoje, os operários chineses já não são tão baratos nem tão dispostos. O número de jovens que vão para as Universidades e querem empregos em escritórios aumentou. A força de trabalho de colarinho azul está envelhecendo. Por outro lado, a jornada de trabalho muito longa em uma fábrica já não atrai estes operários de mais idade, mesmo com a promessa do pagamento das horas extras.

Fora do enorme complexo industrial da Huajian, numerosos trabalhadores entrevistados pelo The New York Times queixaram-se da jornada de trabalho de 14 horas. Embora muitos dissessem estar satisfeitos com o pagamento das horas extras, eles acharam o expediente excessivamente longo, principalmente porque muitas vezes inclui três horas de intervalos para almoço e jantar, que não são pagas.

O China Labor Watch, grupo que investiga as fábricas, constatou que os empregados trabalhavam um número de horas semanais muito maior do que a lei trabalhista chinesa permite. Tais violações são comuns nas fábricas do país.

Um porta-voz da Huajian, Wei Xuegang, afirmou que a companhia desconhece a atuação dos ativistas. À pergunta sobre as acusações feitas pelo China Labor Watch, ele disse que a companhia institui as horas extras nos períodos de maior demanda, mas que paga os operários de acordo com a lei. Zhang Huarong, presidente da companhia, disse que a Huajian obedece às leis sobre horas extras.

A marca Ivanka Trump não quis fazer comentários.

Em muitos aspectos, a economia da China está amadurecendo. O número de jovens que completam 18 anos anualmente e não se matriculam numa faculdade — grupo que poderia pleitear um emprego numa fábrica — despencou de 18,5 milhões, em 2000, para 10,5 milhões, em 2015, conforme mostram dados oficiais.

Além disso, os custos estão subindo à medida que o governo eleva os salários mínimos e os benefícios na tentativa de impedir que a economia chinesa se baseie na mão de obra barata. Os salários em Dongguan aumentaram nove vezes desde o final dos anos 1990, segundo Zhang.

A fábrica de Huajian chegou a ter 26 mil funcionários na China, em 2006. Hoje, este número caiu para algo entre sete mil e oito mil, por causa da automação e de sua transferência para a Etiópia, acrescentou.

Huajian produzia anualmente de 100 mil a 200 mil pares de calçados para Ivanka Trump, uma fração dos oito milhões de pares de calçados que ela produz anualmente. A fábrica de Dongguan produz os saltos e uma segunda fábrica, as outras partes dos calçados completando-os. A Marc Fisher Footwear, que licencia a marca Ivanka Trump, informou que está avaliando as acusações.

A Huajian está construindo um complexo de fábricas, escritórios e um hotel nos arredores de Addis Abeba. As fábricas de Zhang nesse país já têm cinco mil operários.

Alguns funcionários da Huajian disseram que não estão preocupados com o fato de os empregos estarem migrando para a Etiópia, considerando a demanda nesta área. Entretanto, se deixarem seus empregos, muitos trabalhadores mais velhos serão discriminados por causa da idade, considerando que outras fábricas preferem empregados com menos de 35 anos. A fabricação de calçados não é um trabalho tão estressante e apresenta poucos riscos físicos, o que a torna mais atraente para os trabalhadores mais velhos.

“Eu não poderia me acostumar a esta longa jornada de trabalho, no começo”, comentou um operário, “mas realmente não tenho outra escolha”.

Fonte: KEITH BRADSHER, New York Times International, Estadão, Junho 16, 2017 

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