Livro de campeão de xadrez avalia inteligência artificial

Garry Kasparov joga contra o computador Deep Blue, da IBM, na Filadélfia, em fevereiro de 1996 (Foto: George Widman – 13.fev.1996/AP Photo)

Nos anos vindouros, cada vez mais pessoas vão perder noites de sono, preocupadas quanto ao que vai acontecer quando as máquinas tornarem suas especialidades obsoletas. Qual será a consequência disso para o seu trabalho, sua autoestima e seu senso de humanidade?

Poucas pessoas experimentaram o processo de maneira tão pública e dolorosa quanto Garry Kasparov, um dos melhores jogadores de xadrez da História, que carregou a “bandeira da humanidade” em confrontos clássicos contra as máquinas de xadrez. Em 1997, o Deep Blue, um programa de computador criado pela IBM, impôs a Kasparov uma derrota por margem mínima, mas ainda assim psicologicamente devastadora, diante dos olhos do planeta. Foi a primeira vez que um computador venceu um torneio de xadrez contra o campeão mundial reinante do jogo que por séculos foi visto como referencial da inteligência humana.

A emoção bruta daquela disputa em Nova York irrompe das páginas da absorvente história de Kasparov, que ele conta na íntegra pela primeira em “Deep Thinking”, seu novo livro. É quase como se Kasparov estivesse descrevendo sua morte, ao escrever sobre a derrota. Durante a série, Kasparov parece ter passado por pelo menos quatro das fases do ciclo Kübler-Ross do luto, avançando rapidamente da negação para a raiva, a negociação e a depressão. O livro, escrito quase 20 anos depois do confronto, reflete o entendimento final de Kasparov quanto ao quinto estágio do luto: a aceitação. O que o texto tem de mais notável, e reconfortante, é que, longe de expressar raiva contra as máquinas, Kasparov admira a capacidade dos computadores e se empolga com as possibilidades de futura colaboração.

Quem quer que tenha enfrentado Kasparov no tabuleiro sabe o quanto ele era brutal e dominante como enxadrista, em seu apogeu. Isso é algo que posso atestar pessoalmente, por tê-lo enfrentado, em companhia de cerca de 20 outros jogadores, em uma simultânea realizada em Moscou. Não foi surpresa que eu tenha terminado em segundo. Mas o que mais recordo é o senso de poder e ameaça que Kasparov irradiava ao caminhar pela sala, despachando oponentes. Ele parecia um jardineiro mecânico em estado maníaco, podando impiedosamente uma roseira.

Das mais de 2,4 mil partidas sérias que disputou depois dos 12 anos de idade, Kasparov perdeu apenas 170. Em seu reinado de 15 anos como campeão mundial, entre 1985 e 2000, ele dominou o xadrez como raros outros jogadores conseguiram. É claro que o Deep Blue não se sentia minimamente intimidado pela personalidade beligerante ou pelo histórico espantoso de Kasparov. De fato, quanto mais vitórias o enxadrista registrava, mais dados estava fornecendo para que o computador o derrotasse. Tendo sofrido uma derrota prévia para Kasparov, a equipe da IBM estava determinada a provar a superioridade de sua tecnologia e buscou todas as vantagens possíveis sobre o oponente.

Kasparov já tinha escrito alguns bons livros sobre xadrez, analisando as melhores partidas de campeões mundiais anteriores na série “My Great Predecessors” (2003-2006), e também discutiu estratégia real, em “How Life Imitates Chess” (2007). Mas há trechos de seu mais recente livro, coescrito em companhia de Mig Greengard, que parecem acima de tudo um thriller psicológico.

Kasparov começou bem a série contra o Deep Blue, vencendo a primeira partida com facilidade. Mas no segundo jogo, um lance surpreendente do Deep Blue pegou Kasparov de surpresa e ele cometeu “o pior erro de sua carreira” ao abandonar, quando poderia ter forçado um empate. Incapaz de processar a derrota, Kasparov acusou a equipe da IBM de trapacear, afirmação pela qual pede desculpas no livro.

Em seguida vieram três desgastantes empates, nos quais Kasparov se afastou de seu estilo habitual de jogo e recorreu a uma estratégia desenvolvida especialmente para combater o computador. No xadrez, o vencedor muitas vezes é aquele que comete o penúltimo erro. O Deep Blue provou ser um adversário irritantemente preciso e impiedoso, anulando o gênio ofensivo de Kasparov e solapando sua força mental. Na partida final, o Deep Blue recorreu a um sacrifício devastador de um cavalo, e Kasparov abandonou em uma hora.

Ainda que Kasparov elogie as realizações da equipe do computador, acusa a IBM de usar algumas táticas sorrateiras. A recusa da equipe de fornecer os históricos dos jogos anteriores do Deep Blue, a reprogramação da máquina depois de ela ter travado no meio de um jogo, e a contratação de um segurança que falava russo, supostamente para escutar clandestinamente as conversas do enxadrista – tudo isso irritou o volátil campeão russo.

Na entrevista coletiva ao final da série, Kasparov, arrasado, prometeu que destroçaria o Deep Blue em uma revanche. Mas a IBM, depois de desfrutar de um ótimo resultado em termos de relações públicas e de uma alta de US$ 11,4 bilhões em sua capitalização de mercado, decidiu encerrar a experiência e desmontar o Deep Blue. “Foi como ir à Lua e voltar para casa sem olhar ao redor”, escreveu um comentarista de xadrez.

Os adeptos do xadrez certamente se deixarão absorver pela história de Kasparov, mas o livro merece quadro muito maior de leitores. Os capítulos finais contêm uma das mais melhores explicações sobre os benefícios que a humanidade pode obter ao trabalhar com suas criações computadorizadas. A despeito de sua inferioridade diante das máquinas, os seres humanos continuam a jogar xadrez por prazer. Além disso, os programas eletrônicos de xadrez ajudaram a acelerar o desenvolvimento de muitos enxadristas jovens e oferecem novas percepções sobre o jogo.

Kasparov descreve sua sensação de que uma inteligência desumana emanava do Deep Blue, mas estabelece uma distinção útil entre diferentes formas de inteligência. “O Deep Blue era inteligente da mesma forma que um despertador programável é inteligente”, ele escreve. “Não que perder para um despertador de US$ 10 milhões faça com que eu me sinta melhor”.

Desde que se aposentou do xadrez, Kasparov dedicou muito tempo a dialogar com cientistas da computação e especialistas em inteligência artificial. Ele acredita firmemente no chamado paradoxo de Moravec, segundo o qual os computadores fazem bem o que os humanos fazem mal, e vice-versa, o que sugere uma complementaridade útil.

Kasparov argumenta que os seres humanos são muitas vezes falíveis, e descobrem padrões em acontecimentos aleatórios e correlações onde elas não existem. Os computadores podem nos ajudar para que sejamos mais objetivos e ampliemos nossa inteligência. O progresso tecnológico jamais poderá ser detido, mesmo que devesse ser administrado melhor, ele afirma. Lamentar a perda de empregos causada pelo avanço da tecnologia é pouco melhor que reclamar dos antibióticos por reduzirem o número de empregos para os coveiros.

Da mesma forma que no treinamento para o xadrez, autodisciplina na educação e franqueza brutal sobre nossas fraquezas podem nos ajudar em nossa preparação para o mundo que virá. Mas o ingrediente indispensável para o sucesso será a criação dos processos que usaremos para administrar os computadores, e só seres humanos são capazes disso. Para explicar o processo, o enxadrista criou uma fórmula chamada “Lei de Kasparov”: Ser humano fraco + máquina + processo melhor é uma fórmula superior a ser humano forte + máquina + processo inferior.

“Continuo otimista, mesmo que só por não ver grande vantagem nas alternativas”, ele escreve.

Deep Thinking
AUTOR Garry Kasparov
EDITORA John Murray
Quanto R$ 49,60 (livro digital; 305 págs.)

Fonte: JOHN THORNILL, “FINANCIAL TIMES”, 10/06/2017 02h00. Tradução de PAULO MIGLIACCI, Folha de S.Paulo.

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